Como Tornar o Brasileiro Mais Ignorante

setembro 3, 2014

Como Tornar o Brasileiro Mais Ignorante
O populismo não pode ser tachado exatamente de reacionário. Mas pode ser, de certa forma, fascista. Adular o povo pode ser uma forma fascista de atingir o poder. E todo poder é suspeito. A língua portuguesa não é difícil. É muito mais fácil do que o francês ou o romeno, para citar apenas dois idiomas neolatinos. Conectemos os fios.
Um tal de Ernani Pimentel propõe a simplificação ortográfica da língua portuguesa. Simplificação ou “burrificação”? E empreende uma campanha com esse objetivo. O senador Cyro Miranda (que por sinal se opõe a extinção do 14° salário para senadores – que ética!) e a senadora Ana Amélia Lemos – que ao que tudo indica não prima pela inteligência – apóiam esse projeto que, se comparado com o que realmente importa no País, é a quintessência da cretinice. De acordo com Pimentel, simplificar a ortografia é promover a inclusão social. Santa burrice ou burrice perversa (lembremos de que La Rochefoucauld disse, com conhecimento de causa, que um imbecil não tem estofo para ser uma boa pessoa)? Brilhante idéia. A do Pimentel e do Miranda. Suprassumo da imbecilidade. Será que Pimentel e seus seguidores ou inspiradores (e aí estou incluindo linguistas respeitados) não se dão conta de que é justamente o oposto da inclusão social? O que esses caras querem? Promover-se? O pobre asno – ou mal intencionado – Pimentel não ama nem o Brasil nem a língua portuguesa. É mais do que óbvio que esse não é o caminho para a inclusão social. É com a prioridade absoluta da educação que se promove a inclusão social. Todo mundo sabe disso. Por que esse pobre “iluminado” não olha para Cuba que tem o menor índice de analfabetismo das Américas sem ter avacalhado a língua espanhola?
Nivelar por baixo culturalmente – já que língua é cultura – é reacionário, feudal, retrograda, perverso. Algo que não só não merece respeito, mas deve ser combatido. É querer com uma mudança estúpida e tendenciosa que tudo permaneça inalterado. Todo aquele que quer nivelar por baixo é um fascista em potencial que, no fundo, se alinha e faz o jogo de quem detém o poder. Curiosamente, essas ilustres pessoas se dizem de esquerda. Nivelando por baixo eles são coniventes com o famigerado neoliberalismo que, em seu pragmatismo totalitário, considera que a cultura não dá dinheiro, portanto é totalmente descartável. Esses populistas têm de esquerda o que eu tenho de marciano e promovem a ignorância com o intuito de mantê-la no estágio secular em que se encontra. O verdadeiro papel do revolucionário é elevar o nível cultural do povo é igualá-lo ao das elites. O resto é pura demagogia de picaretas, aproveitados, imediatistas típicos do sistema vigente ou simplesmente de obtusos. Em outras palavras, esses “moderninhos”, intelectualmente limitados, mediocridades em busca de projeção, querem que o povo continue ignorante e não tenha acesso à cultura – mesmo porque é pela língua que se chega à cultura. Por que não se preocupam com mudanças na educação, como tornar obrigatório o ensino da ética, da sociologia, da filosofia e da sexualidade às crianças a partir dos sete anos? Por que não promovem campanhas e manifestações contra o absurdo dos privilégios abusivos dos parlamentares? Por que não paralisam o País contra a imunidade dos políticos, contra o abuso de poder dos políticos, contra a impunidade dos políticos, contra o totalitarismo dos bancos e das grandes corporações, contra a ditadura do capital? Façam algo mais inteligente. Começando por destruir o que tem de ser destruído, não a língua. São os vícios políticos e sociais, que se arrastam desde a colonização, que devem ser destruídos. Mas deixem a língua em paz. Pois ela evolui naturalmente com o passar do tempo. Senão ainda estaríamos falando latim. Há coisas mais relevantes e urgentes a serem resolvidas no País. De propostas-lixo, o Brasil está cheio. Haja santa paciência para aguentar tanta estupidez.
23-08-2-14
R.Roldan-Roldan é escritor
http://www.davidhaize.wordpress.com
Publicado pelo jornal “Correio Popular” de Campinas/SP em 2 de setembro de 2014

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10 Respostas to “Como Tornar o Brasileiro Mais Ignorante”


  1. Adular é uma forma fascista de conseguir tudo. O fascismo é o ego no comando

  2. Roldan Says:

    Parabéns! Alguém tem que se opor contra essa barbárie! Já não bastasse a reforma anterior… Na China 94% da população é alfabetizada e o mandarim é muito mais difícil do que o português. Ninguém precisou alterar nada do idioma para conseguir esse feito.

  3. davidhaize Says:

    Mariel e Rafael, muito obrigado pelos comentários. Abraço


  4. Is there an English translation, David?

  5. lunazzi Says:

    Devo discordar frontalmente, lamento. “Respeitem o povo” é meu comentário: As línguas evoluem. É bom discutir a simplificação da escrita em português, não é bom rejeitar sem argumentos e ainda insultar. Não somente a relação de sons com letras, como a eliminação de letras inúteis como os “h” iniciais, os “u” depois do “q” e do “g”. Afinal, houve recentemente uma reforma ortográfica. Se assim não fosse, o livro de Santos Dumont “O Que Eu Vi, O Que Nós Veremos”, de 1918, deveria ser ainda republicado com a ortografia original. Não vejo como argumento a tradição. Pesquisem o que os jóvens e o povo pode querer.

    • davidhaize Says:

      Lamento, Lunazzi, mas nivelar por baixo é argumento de pura demagogia. O que precisavmos é uma revolução na educação. Tirar o h, o u ou o ç é algo absolutamente irrevelante perante os problemas que importam realmente. Povo culto, instruído não é manipulado pela classe dominante. Em outras palavras, o povo deve ascender ao mesmo nível cultural das elites.

    • J. Campos Says:

      Sim, as línguas evoluem. Entretanto, se você acompanha as matérias e debates a respeito da proposta do Pimentel verá que não passa mesmo de nivelamento por baixo.
      Ao invés de investir em educação de qualidade, muda-se a língua, trata-se os alunos como burros. Depois da ortografia o que vão simplificar?
      Os argumentos existem, é só pesquisar o que vem sendo dito e escrito a respeito.
      Não se deve negar a evolução da língua, assim como não se deve apelar a artificialismos populistas.
      Lutemos por uma escola de qualidade.
      Parabéns, Roldan, por sua coragem e indignação.

  6. María Inés Ríos Says:

    ¡Muy bien dicho!


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