O Direito de Ser Diferente

julho 2, 2015

O Direito de Ser Diferente

Todo princípio religioso, ideológico, social ou cultural que viole os direitos humanos deve ser perseguido e condenado pela Lei. Isso parece óbvio, mas não é o que ainda ocorre na grande maioria dos países do mundo, principalmente naqueles em que a religião ou a ideologia coíbem a liberdade do indivíduo.
Durante milênios o diferente foi discriminado, perseguido, condenado, assassinado. Os massacres de diferentes são incontáveis ao longo da história da humanidade. Essa situação deplorável começou a melhorar na segunda metade do século XX, mas a conscientização global dos direitos humanos ainda deixa muito a desejar.
Folhando a História, constatamos a intolerância com o diferente que, via de regra, com o passar do tempo, acaba trazendo alterações, de um modo ou de outro, na sociedade. O faraó Aquenáton (reinou de 1351 a 1334 ou de 1352 a 1336 a.C.) tentou modernizar, por assim dizer, a religião do Antigo Egito e torná-la monoteísta. Acabou, ao que tudo indica, assassinado pelos sacerdotes que não queriam mudanças nas crenças oficiais, e seus seguidores foram perseguidos. Cristo se rebelou contra a classe dominante, conivente com o invasor romano, e foi crucificado e seus discípulos foram perseguidos durante séculos. Giordano Bruno (1548-1600) foi queimado vivo por heresia, porque questionava os conceitos científicos da época, defendendo o heliocentrismo. Ou seja, porque pensava diferentemente da ignorância oficial da Igreja. Na França, os protestantes foram chacinados pelos católicos por ordem do rei Charles IX, instigado por sua mãe, a rainha Catherine de Médecis, na noite de são Bartolomeu (24 de agosto de 1572). Assim como, no mesmo país, foram massacrados os cátaros no século XIII – não se sabe exatamente quantos cátaros foram assassinados, de acordo com as diferentes fontes, entre 7mil e 40 mil. Duzentos foram condenados à fogueira por heresia. Entre 600 mil e um milhão e 800 mil armênios foram massacrados pelos turcos a partir de 1915, porque eram minoria cristã em país islâmico. Os espanhóis, os portugueses e os ingleses cometeram um dos maiores genocídios (que o leitor me desculpe se hoje se dá outra conotação ao termo genocídio) da História massacrando os índios do Continente Americano. Isso sem contar que os brancos europeus (com a cumplicidade dos brancos árabes que caçavam os negros para vendê-los aos europeus) escravizaram de 10 a 12 milhões de africanos. Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas exterminaram sistematicamente seis milhões de judeus – só porque eram judeus. Temos aqui apenas alguns exemplos da intolerância e dos genocídios cometidos por maiorias contra minorias, ou seja, contra os diferentes.
Mas o que é ser diferente? Ter um aspecto físico diferente dos outros? Não seguir o rebanho manipulado pelo poder? Ousar guiar-se pela voz da consciência mesmo remando contra a correnteza? Desprezar as convenções e ter a coragem de ser si mesmo? Ter a ousadia de colocar a Liberdade – bem supremo do Homem – acima de tudo? Optar pela Razão em detrimento da superstição? O termo é muito abrangente e sujeito a equívocos, falsas interpretações e apropriação indevida de um determinado sentido. Até já entrado o século XX, os brancos europeus consideravam que os negros colonizados na África não tinham alma, como se os negros fossem uma espécie entre o animal e o ser humano. Os colonizadores – leia-se os invasores – brancos norte-americanos consideravam que “índio bom era índio morto”. Os judeus eram sempre responsabilizados pelos males que assolavam o país onde viviam. Os ciganos eram sempre acusados de roubo e de sequestro de crianças. E assim por diante. Poderíamos escrever um livro citando todas as minorias – pessoas diferentes – perseguidas durante séculos.
As coisas foram mudando, lentamente, para melhor, não há dúvida. Mas, por exemplo, ainda hoje em dia um ateu ou um agnóstico são vistos como representantes do Mal na Terra, ou, para os mais atrasados, como a encarnação do Diabo. Como se um ateu ou um agnóstico não fossem capazes de serem pessoas honestas e dignas. Como se um ateu ou um agnóstico não fossem capazes de ter ética, moral, retidão de caráter e amor pelo próximo e pela sagrada natureza. Como se um ateu ou um agnóstico não fossem capazes de alcançar uma elevada espiritualidade laica. É de pasmar que ainda existam pessoas tão burras, alienadas e fanáticas – ou simplesmente ignorantes – que pensem que um ateu ou um agnóstico são a personificação de Satanás. Enfim, o suprassumo do medievalismo, do obscurantismo, ou seja, da imbecilidade. Mas a perversidade vem daqueles “pastores de rebanhos”, um lixo social, que incentivam e reforçam essa crença. O mesmo acontece em relação ao comunista ou anarquista. Com a agravante de que aí não se trata de preconceito do povão, mas da inefável classe média que deveria ver menos cocô televisivo e ler um pouco mais de História para eliminar as fezes que tem no cérebro. Mas se a situação do negro e do judeu melhorou, não é o caso do cigano – veja-se a expulsão da União Europeia, há uns anos, dos imigrantes ciganos oriundos da Europa Oriental. Quanto ao homossexual, embora haja havido progresso em relação aos seus direitos, ele continua sendo discriminado e a boçalidade do preconceito ainda impera na grande maioria, com adesão de políticos – verdadeiros lixos que contribuem generosamente para o atraso da sociedade – como o escroto Jair Bolsonaro. Esses políticos e pastores neopentecostais como o cretino do Marco Feliciano (ou deve ser qualificado de f.d.p.?) e o imbecil do Silas Malafaia (ou deve ser qualificado de f.d.p?), altamente reacionários, atrofiadores da cultura e castradores do intelecto e propagadores de ideias nazistas, deveriam responder perante a Justiça por disseminar e instigar entre os cidadãos o ódio contra as minorias. Toda essa escoria de pessoas preconceituosas ainda não sabe que a criança já nasce heterossexual ou homossexual. Aliás, esses excrementos públicos, políticos ou pastores, deveriam voltar à escola para aprender algumas coisas básicas e não ostentar tamanha ignorância. Mas, obviamente, eles querem se promover, de modo bastante torpe e vulgar, a verdade seja dita. A menos que sejam, como já foi dito mais de uma vez, homossexuais enrustidos, como, segundo alguns historiadores, Hitler. De qualquer modo, o conservadorismo dessas pessoas estúpidas só contribui, com seus preceitos e conceitos nazistas, para o atraso social do País. Aliás, induzir, em nome de Deus (esses salafrários nem sabem o que é Deus – o que é Deus? O Inominável? O Indizível? O Inconcebível? O Incomensurável?) o povo à ignorância é um crime que deveria ser punido pela Lei. E induzir o povo à alienação fanática é, entre outras coisas, como a repressão sexual e o cerceamento da liberdade, proibir aos fieis a televisão, o cinema e certas leituras. Que direito tem um mequetrefe com cérebro de galinha de proibir que um cidadão leia Bakunin, Marx, Freud, Darwin, Sartre ou Sade? Que direito tem um débil mental de manipular a boa fé de pessoas simples, insuflando superstições e promovendo o raquitismo cultural e intelectual para facilitar essa manipulação e a entrada de lucros estratosféricos com a mercantilização de Cristo? Que tipo de indivíduos são esses charlatães que comercializam a religião? O bom Deus dever estar revoltado com tamanha avacalhação da essência do cristianismo. Céus, quanta impostura! E quanto cinismo! Dá nojo.
Em suma, o diferente (de cor, etnia, religião ou sexualidade) ainda tem um longo caminho a percorrer em sua luta pela igualdade. E é mais do que justificado que ele tenha uma atitude agressiva (como os negros norte-americanos) perante a agressividade daqueles que os discriminam e hostilizam. Mesmo porque a maioria é sempre suspeita – assim como tudo o que é oficial é suspeito e, por extensão, todo poder é suspeito. Em outras palavras, se o diferente é agredido com um tapa, ele deve revidar com dois tapas. Se ele recebe dois tapas, deve reagir com quatro. Só assim ele será respeitado – a História demonstra que o poder só entende essa linguagem. Uma vez o diferente respeitado, pode se pensar em diálogo, já que são a tolerância e a aceitação do próximo que trazem a paz. E que não venha uma determinada classe social hipócrita, egoísta e alienada, que só pensa em seu conforto, pouco se importando com os excluídos, me dizer que estou pregando a violência. Apenas afirmo que a melhor defesa, em certos casos, é o ataque. E para encerrar, reitero que o direito de ser diferente está acima de qualquer preceito religioso, ideológico, social ou cultural.
21/06/2015
R.Roldan-Roldan é escritor
http://www.davidhaize.wordpress.com

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6 Respostas to “O Direito de Ser Diferente”


  1. Concordo com você, Roldan. Tomara que você esteja bem e Nicolas também. Saudades mil! Rachel.


  2. Roldan!
    Meu amigo! Lindo texto! Parabéns!

  3. J. Campos Says:

    Parabéns, Roldan! Seu texto é excelente.


  4. Parece mentira no haber aprendido de los terribles hechos acaecidos en el pasado y seguir en estos días viendo lo que está pasando en el mundo: la matanza de Charleston, por un supremacista blanco; la expansión de Estado Islámico en Iraq y Siria, torturando y asesinando a aquellos que no siguen su ley; la persecución de los musulmanes rohingya en Birmania; los diversos atentados islamistas en Francia, Túnez, Yemen, Pakistán, y en otros tantos lugares; y numerosos hechos más contra todo aquel que es diferente, que piensa diferente. Y están pasando en este mismo momento, siglo XXI, año 2015.

    Enhorabuena por este excelente texto. Un afectuoso saludo desde Granada, España.


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