Sobre o meu romance “As Três Viagens de David Haize”

setembro 1, 2015

Prefácio
As Três Faces de Roldan-Roldan

O romance As Três Viagens de David Haize é a síntese da obra de Roldan-Roldan. Compõe-se de três partes que se desenvolvem numa narrativa intercalada. Temos A Viagem Física, A Viagem no Tempo e A Viagem Metafísica (que no nosso entender seria mais existencial), viagens cujos capítulos vão se alternando sem ter uma relação direta entre eles, embora haja referências que liguem as três partes. Nesses três planos de narração nos deparamos com as três principais faces estilísticas do autor.
Na Viagem Física, temos o escritor David Haize numa viagem de ônibus em direção à casa do seu primeiro amor, a mulher que ele amou na juventude. David Haize, agora sexagenário, não perdoa nada nem ninguém em sua visão crítica, ácida e cínica do ser humano e de seu entorno. É um anarquista, ferrenho inimigo do neoliberalismo, obviamente libertário e humanista, que nos revela uma galeria de personagens que formam um painel social, político e cultural demolidor. É a face existencialista, hedonista e blasée do autor. Esta viagem, em primeira pessoa – como, aliás, as outras duas – é narrada sem pontuação, apenas com barras separando as frases e se apresenta como um monólogo, ou melhor, fluxo de consciência, que usa e abusa de termos chulos como modo agressivo de contestação.
Na Viagem no Tempo, encontramos David Haize viajando de diligência às vésperas da Revolução Francesa de 1789. Em clima onírico (os capítulos podem ser interpretados como uma sucessão de sonhos), temos o Roldan-Roldan surrealista, fantástico, delirante, onde o absurdo de Kafka se dilui na magia de Hermann Hesse, com uma ironia (como no capítulo de A Escritora Famosa) que parece desmistificar a própria trama – ironia que não se pode desvencilhar do tom lúdico característico do escritor. Há igualmente passagens em que o feérico seduz o leitor, como nos capítulos A Chuva e O Trem de Brinquedo. Resumindo, A Viagem no Tempo tem muitos pontos em comum com romances como Litterata ou O Doce Sorriso do Macho Satisfeito, Boa Viagem Sheherazade ou A Balada dos Malditos e Rapsódia Para um Viajante Solitário. A narrativa desta parte do livro é propositalmente ‘clássica’, por assim dizer, até no aspecto gráfico, aludindo aos romances do século XIX.
E, finalmente, na Viagem Metafísica, encontramos David Haize num trem de alta velocidade atravessando uma imensa planície coberta de neve. Esta viagem em prosa poética (ou verso livre?) é a mais melancólica e desencantada das três. Transpira uma atmosfera de finitude, de esgotamento afetivo, que beiram o pessimismo. Há, no entanto, nesse trem que simboliza a eterna busca, nesse trem sem origem nem destino – alusão clara à trajetória da existência – um mistério nas entrelinhas (como o guerreiro maasai do Kilimanjaro) que pode representar o enigma da própria vida e quiçá a tênue esperança de algo superior (simbolizado pela África primitiva?) que não é nomeado. Talvez essa parte seja a mais sugestiva e instigante do romance, parte que, sem dúvida, se insere coerentemente na indagação existencial presente na obra do autor dos poemas de O Pó da Ausência. Por outro lado, esta terceira parte comporta vários níveis de leitura. Se à primeira vista prevalece a incógnita da vida, sob a metáfora do trem sem origem nem destino, podemos interpretar esta viagem como a derradeira, a da neve, a do inverno que encerra um ciclo, ou seja, a viagem da morte. Neste sentido há muitas alusões à partida definitiva. Assim, lemos: “viajo mais uma vez finitude”; “neste trem em direção ao Silêncio”; “aproximo-me da morte”; “talvez tenha viajado pela existência” (e agora o poeta estaria prestes a viajar pela morte?); “os mortos sussurram pelas frestas do silencio” e toda a estrofe C. Essas citações não corroboram algo explícito, apenas sugerem algo inerente ao desencanto final do viajante. Curiosamente, as três partes ficam em aberto, ou seja, não se encerram, deixando ao leitor a incumbência de lhes dar um destino, ou, em outras palavras, um fecho.
Em suma, em As Três Viagens de David Haize Roldan-Roldan nos oferece não só a súmula da riqueza e originalidade de sua extensa obra, com o seu espírito libertário e lírico, com a sua paixão e o seu ceticismo, com o seu humanismo transbordante e com a sua recusa categórica de se submeter a modernismos e futilidades de mercado, ou seja, ele nos expõe a inquietante essência de seu pensamento.

Pierre-Auguste Lanord
Jornalista e escritor

Observação:  o romance “As Três Viagens de David Haize” está disponível para download na Amazon e-books.

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Uma resposta to “Sobre o meu romance “As Três Viagens de David Haize””

  1. J. Campos Says:

    Parabéns, Rodan-Roldan.


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