A “Puta” e a “Santa”

outubro 1, 2015

A “Puta” e a “Santa”

O conceito de puta é muito relativo. Assim como o de santa – por isso coloquei os dois substantivos do título entre aspas. Há putas santas. E há santas putas. Sim, tudo é relativo. Como o conceito da moral judaico-cristã-islâmica que varia com a bolsa. Há umas décadas se dizia que mulher proletária que dava era puta enquanto mulher burguesa que dava era mulher emancipada.
Pois agora estou com a minha adorável (adorável porque é autêntica e deliciosamente cínica) puta e a minha respeitável (respeitável porque é humilde e sincera) santa na Amazon e-book no livro E-mails – Confissões Íntimas de Uma Socialite. Para dizer a verdade, não se trata realmente de uma puta e de uma santa. Mas apenas de duas mulheres. Mas, como a sociedade em que vivemos é, além de hipócrita, burra e bastarda e se alimenta como boa cretina de rótulos, para facilitar o marketing decidi assim chamar as duas protagonistas deste romance epistolar (sim, leitor, ainda existe o gênero romance epistolar, você nunca leu um?) – só que em vez de cartas, temos e-mails como indica o título, sinal dos tempos. Sinal dos tempos quando o livro foi escrito, porque hoje em dia se usa mais a futilidade massacrante do Facebook.
Duas amigas, que na juventude disputaram o mesmo homem, se encontram eletronicamente depois de muitos anos e reatam, já cinquentonas, a velha amizade interrompida pela rivalidade. O novo contato se dá em circunstâncias dramáticas, após elas terem se defrontado com a morte, cada uma de modo diferente.
Anna K. é inteligente, fina, elegante, culta. Bela e sensual. Impulsiva, passional, extrovertida e cínica. E, livre, totalmente emancipada, devora machos de todas as etnias, nacionalidades, classes sociais e idades, anotando em seu diário o formato, tamanho e cor dos múltiplos membros genitais masculinos que já teve oportunidade de apreciar em suas viagens. Casada com um homem rico, nada esconde do marido, que tem uma amante. Ela, porém, não quer um amante, quer muitos homens sem se prender a nenhum deles. Ninfomaníaca? Não exatamente. Mas sua vida é um turbilhão. Até que um dia…
Dahlia, classe media, inteligente, discreta, sutil, sensível e racional, vive reclusa, sem nenhuma companhia masculina, com a libido anestesiada por um longo drama familiar. Para sobreviver, ela se vira para a espiritualidade, sem ser propriamente uma pessoa religiosa. Mas é justamente a sua racionalidade que a empurra para algo que lhe torne a existência mais sofrível, para algo superior que alivie o pesado fardo que o destino lhe designou.
À medida que se desenvolve a correspondência entre ambas, percebemos que a personalidade de cada uma vai se modificando, vai sendo lentamente alterada, influenciada reciprocamente, a ponto de as duas questionarem o próprio modo de viver. Sempre sofremos alguma influência das pessoas que amamos. Quis neste livro desenvolver, em linguagem coloquial (mas não avacalhada), a metáfora do eterno embate entre o corpo e a mente, entre a matéria e o espírito. E isso sem discurso nem proselitismo. Sem tomar partido. Com um certo distanciamento – na medida em que isso é possível num escritor visceral como eu.
Pretendia editar o romance (já publicado em papel) sob um pseudônimo feminino, não porque me parecesse mais adequado por se tratar de um livro de mulheres, mas, talvez, para dar mais veracidade a uma história em que os personagens masculinos têm apenas um papel de coadjuvantes. E, claro, pelo fato de se tratar de uma história na qual o autor não é o narrador. Mas um amigo, que leu o original, me disse que se percebia claramente que era um homem que tinha escrito a obra. Decidi, então, publicar o livro sob meu nome de autor. Quem fizer o download na Amazon e-book poderá julgar se é perceptível o toque do homem no romance. Pessoalmente, eu não acredito que haja uma literatura masculina e outra feminina. Existe apenas literatura.
Por outro lado, quis prestar uma homenagem a um dos mais belos livros da literatura universal, As Mil e Uma Noites, onde Sheherazade conta histórias ao sultão Shariar para, assim, postergar a morte à qual o soberano a condenara. Exatamente como faz Anna K. relatando suas aventuras eróticas a Dahlia para conjurar a morte.
22-09-2015

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4 Respostas to “A “Puta” e a “Santa””

  1. J.Campos Says:

    Parabéns, Roldan! Gostei muito do texto e, principalmente, do livro “E-mails – Confissões Íntimas de Uma Socialite”.


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