Addio, Ettore Scola

janeiro 25, 2016

Addio, Ettore Scola

Quando um grande artista que admiramos morre, sentimo-nos tristes como si tivéssemos perdido um amigo. Um amigo com o qual nos identificamos, com o qual temos muito em comum. É o caso de Ettore Scola, que faleceu dia 19 de janeiro em Roma, aos 84 anos. E certamente não há cinéfilo que não lamente sua morte. Com ele desaparece o último dos grandes cineastas italianos das décadas de 1960 e 70. Scola tem um lugar privilegiado não só no cinema italiano, mas na cinematografia mundial, ao lado de Visconti, Antonioni, Fellini, Zurlini, Montaldo, Pontecorvo e outros (para citar só seus conterrâneos) que iluminaram a sétima arte. Nessas duas décadas, nenhum outro cinema resplandecia no mundo como o italiano.
Grande cineasta humanista. Grandes filmes. Inesquecíveis. Não só porque nos faziam pensar, sem serem áridos, mas porque nos emocionavam, sem serem edulcorados. Não há em sua filmografia uma única obra que o desprestigie. Eu mencionaria quatro grandes filmes que me envolveram, intelectual e emocionalmente e que me marcaram.
“Nós Que Nos Amávamos Tanto (C´eravamo tanto amati)”, de 1974, que, para um “soixante-huitard” como eu, é um prato cheio, e que retrata a trajetória de três amigos que lutaram na resistência contra o nazismo e o fascismo e que sonharam em transformar o mundo para torná-lo mais humano, mas que foram transformados por ele, por esse mundo que virava uma página da História. O desencanto com a vida privada e com a política. Comédia amarga e melancólica que muitos críticos consideram o melhor trabalho do diretor.
“Casanova e a Revolução (La nuit de Varennes)”, de 1982, belíssima exposição, com acentos viscontianos (a desagregação que o tempo traz), de um mundo que ruiu com a Revolução Francesa de 1789. Nessa esplêndida obra, os personagens – alguns históricos, como Giacomo Casanova, o escritor Restif de La Bretonne e o revolucionário Tom Paine e outros fictícios – viajam numa diligência, o que nos reporta ao clássico No Tempo das Diligências, de John Ford. Mas fora o meio de transporte, um filme não tem nada a ver com o outro. E, diga-se de passagem, o filme de Scola não deixa nada a desejar se comparado com o de Ford. Pessoalmente, prefiro a diligência francesa à do western.
“O Baile (Le bal)”, de 1983. Um assombro. Um verdadeiro “tour de force”. O exemplo de como com num único cenário um diretor pode ser extremamente criativo e seduzir o espectador. Num salão de baile desfilam, pelas músicas tocadas e dançadas, mais de seis décadas da história da França. Dos anos 1920 aos 80. E assim, através das músicas, temos a Segunda Guerra Mundial, a ocupação nazista, a Resistência, a libertação, a chegada dos norte-americanos. Filme mundo. Sim, tudo sem uma palavra. Apenas as músicas e as danças que vão mudando conforme passa o tempo. Os mesmos intérpretes. Mudam apenas as roupas, os penteados e a maquiagem. Uma obra-prima.
“A Viagem do Capitão Tornado (Il viaggio di capitan Fracassa)”, de 1990, baseado no romance de Théophile Gautier. No século XVIII, uma trupe de teatro ambulante, surpreendida por uma tempestade, se refugia no castelo de um nobre arruinado. Encantador. Feérico. Puro lirismo digno do melhor Fellini.
Citei apenas os meus favoritos. Merecedores de destaque, temos, entre outros, “Um Dia Muito Especial” (1977), profundamente humano, e “Feios, Sujos e Malvados” (1976) que, de certo modo, dialoga com “Viridiana”, de Buñuel, além de “A Família” (1987), “O Jantar” (1998), e “Splendor” (1989), cuja trama se assemelha à de “Cinema Paradiso”, de Tornatore.
Adeus, querido grande maestro. Addio, Ettore Scola. Grazzie mille. Sim, obrigado pelas muitas horas de prazer inteligente que você nos proporcionou. Sem você, o cinema mundial encolheu.
23-01-2016
R.Roldan-Roldan é escritor
http://www.davidhaize.wordpress.com

Anúncios

Source: Sexo, Deus, Liberdade, Ética, Amor e Outros Tópicos

Sexo, Deus, Liberdade, Ética, Amor e Outros Tópicos
(Máximas)

Amor O tardio é sempre mais intenso
Amor O lúdico abraça o lúbrico
Amor Tudo lhe é permitido
Amor É generosidade antes de tudo
Amor Não faz concessões
Amor Além das convenções
Amor Sem extremos se torna insípido

Cultura (de massa) Vulgarização global
Cultura (de massa) Causa náuseas
Cultura (de massa) Lixo reciclável
Cultura (de massa) Não acrescenta nada
Cultural (de massa) Imbeciliza o ser

Consumo Fascismo em doses homeopáticas
Consumo Fascismo edulcorado para cretinos
Consumo Estimula o lucro logo a violência
Consumo Entorpecimento social
Consumo Para os pobres de espírito

Deus “Deus vomita os mornos”
Deus O Absoluto dispensa a religião
Deus Dispensa intermediários
Deus Quem O tem não necessita de religião
Deus O seu contato requer inteligência
Deus Ama o Silêncio e despreza a histeria
Deus Magnanimidade é uma das condições

Espiritualidade Está acima dos credos
Espiritualidade Exige despojamento
Espiritualidade Não vem de fora
Espiritualidade Pode caminhar com o hedonismo
Espiritualidade Desprender-se

Ética Não faz concessões
Ética Desconhece a leniência
Ética É sim ou não
Ética Prefere a morte à mácula
Ética Sem ela a alma se torna bastarda

Ganância Traço dos seres intelectualmente inferiores
Ganância Traço dos que não tem estofo para elevar-se
Ganância Pobreza interior
Ganância Avidez de puta
Ganância Cobiça de marafona

Liberdade Cresce conforme a vida diminui.
Liberdade Espanta os frouxos e os covardes
Liberdade Só aquele que é superior a atinge
Liberdade Prioridade absoluta
Liberdade Tudo lhe é subordinado
Liberdade Exige valentia de seus adeptos
Liberdade Plenitude da ousadia

Pureza Desconhece as convenções
Pureza Desconhece as concessões
Pureza Desconhece os dogmas
Pureza Desconhece o lucro
Pureza Desconhece o conceito de Bem e de Mal

Raízes Faca de dois gumes
Raízes Bebê-las sem embriagar-se
Raízes Referências que não devem cegar
Raízes Saudáveis quando não entopem a mente
Raízes Sem elas a memória morre

Razão Característica do ser superior
Razão Próxima do divino
Razão Seu despojamento é sua elevação
Razão Arma fundamental contra o fanatismo
Razão Sinal de inteligência

Religião Morbidez
Religião Exala odor de morte
Religião Ninho de superstições
Religião Atenta contra a inteligência
Religião Aliada da estagnação
Religião Meretriz do poder
Religião Comercialização de Deus

Revolução Esta para o social como o banho para o corpo
Revolução Faxina política e social permanente
Revolução Água viva não se corrompe
Revolução “Si jeunesse savait si vieillesse pouvait”
Revolução Movimento logo vida

Ser Transbordar
Ser Abrangência
Ser Multiplicidade
Ser Vastidão
Ser O Uno enlaça o Todo
Sexo Sagrado
Sexo A abstinência sexual é uma aberração
Sexo Retarda a velhice
Sexo Mantém a saúde
Sexo Rejuvenesce
Sexo Torna o ser mais generoso
Sexo Amaldiçoado seja aquele que o reprime

Solidão A perda do sagrado
Solidão A queda do divino
Solidão O deslocamento entre imbecis
Solidão O exílio entre picaretas
Solidão A sabedoria
Solidão A inteligência
Solidão A elegância interior

Utopia Basta sonhar e abrir mão do conforto
Utopia Sonho ousadia e coragem
Utopia Menospreza os pobres de espírito
Utopia Matiz da esperança
Utopia Orgasmo do universal

Violência O neoliberalismo
Violência A cobiça
Violência A desigualdade social
Violência A indústria bélica
Violência A Miséria

Vulgaridade Ostentar
Vulgaridade Exibir-se
Vulgaridade O apego aos bens materiais
Vulgaridade O apego às aparências
Vulgaridade Seguir o rebanho
Vulgaridade A imitação
Vulgaridade Não ousar ser si próprio
Apêndice
O fulgor: Luchino Visconti
O gozo: Omar Khayyam
A instigação: Hieronymus Bosch
O olhar: Greta Garbo
A ousadia: Arthur Rimbaud
O pensamento: Friedrich Nietzsche
O sublime: Ludwig van Beethoven

7 de janeiro de 2016