O Diário dos Escritores Entrevista R.Roldan-Roldan

março 28, 2016

O Diário dos Escritores entrevista R.Roldan-Roldan

  

R.Roldan-Roldan, cidadão brasileiro, nascido na Espanha, criado no Marrocos, formação francesa. Romancista, contista, dramaturgo, poeta, pensador e articulista (seus artigos publicados num jornal estão editados no blog http://www.davidhaize.wordpress.com). Autor de 31 livros publicados fisicamente.

Diário – Quando começou a escrever?

Roldan – Comecei a escrever aos sete anos de idade. Compulsivamente.

Diário – Como encara a situação das editoras em relação aos livros digitais, acredita que todas se renderão e fecharão as portas por não poderem acompanhar as edições por conta própria?

Roldan – Sempre haverá leitores de livros de papel, mas a tendência e o futuro são os livros digitais.

Diário – Tem obra(s) publicada(s)? Cite-a(s).

Roldan – 31 livros publicados em papel. A obra inclui romances, contos, teatro e poesia. Poderia mencionar os romances Litterata ou O Doce Sorriso do Macho Satisfeito, Boa Viagem Sheherazade ou A Balada dos Malditos e Rapsódia Para um Viajante Solitário. No teatro, O Ato – Foder É Vermelho e As Papoulas de Constantinopla. Nos contos Juiz, Casado, com Filhos, Procura Homem Para Sexo Casual e Ao Sul do Desejo. Na poesia, Inidentidade (escrito em quatro línguas: português, inglês, espanhol e francês) e A Dor da Identidade, Khayyam, Tânger. E no epistolar, Cartas a um Filho em Coma. Estes livros estão agora disponíveis para download na Amazon.

Diário – Como encara a situação do escritor no Brasil?     

Roldan – Num país que não lê, se comparado com outros, a situação do escritor no Brasil só pode ser ruim.

Diário – O que acha que deveria mudar nos planos da cultura no Brasil?

Roldan – Pouco ou nada pode se esperar de um país que não prioriza a cultura, mesmo porque, no conceito do neoliberalismo e seu pragmatismo, a cultura não dá lucro, portanto é algo que não interessa ao sistema vigente.

Diário – Qual foi o livro nacional que mais marcou sua vida?

Roldan – Há vários livros nacionais que me marcaram. Poderia citar Avalovara, de Osman Lins, Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Diário – Acredita que os brasileiros estão perdendo o hábito da leitura?

Roldan – Sim, o brasileiro está perdendo o hábito da leitura. É um longo processo de há décadas que vem se acentuando com o descaso do sistema em relação à cultura de modo geral. Mas, obviamente, não podemos esquecer que há um fator, a nível mundial, que é a expansão da cultura da imagem, que acaba se desdobrando na crescente ausência de raciocínio. Em outras palavras, cada vez existe menos espaço para pensar. Pede-se ao cidadão que compre cultura barata, superficial, de fácil digestão e que a degluta rapidamente para prosseguir com o consumo idiota e sem sentido. O seja, o absurdo de consumir por consumir. Logo, a cultura de massa é lixo descartável que não serve para nada, a não ser para alienar o consumidor. Qualquer escritor sério, que se preze, vai rejeitar esses montes de best-sellers – e aí incluo os famigerados livros de autoajuda – que assolam o mercado editorial e que não acrescentam nada à inteligência.

Diário – Além de escrever, pratica algum outro tipo de arte?

Roldan – Se não fosse escritor seria cineasta. Sou cinéfilo, mas não filmo. Tenho uma verdadeira paixão pelo cinema. Mas certamente não por aqueles blockbusters insuportáveis que parecem dirigidos a débeis mentais.

Diário – Com qual livro você se presentearia hoje?

Roldan – Com qualquer clássico. Desde os clássicos gregos aos clássicos modernos.

Diário – Cite três autores que gostaria de homenagear.

Roldan – Citarei três autores que admiro e que me marcaram: Rimbaud, Khayyam e Nietzsche.  Identifico-me totalmente com o visionário francês, com o hedonista persa e com o niilista alemão.

Diário – O que acha dos jogos interativos? Acredita que podem ajudar crianças a aprenderem a ter gosto por leitura logo cedo?

Roldan – Sou bastante cético a respeito.

Diário – Se fosse para reescrever uma obra já consagrada, qual seria?

Roldan – Das obras consagradas que amo não reescreveria nenhuma, embora eu seja muito exigente. Todavia, é bom frisar que nem toda obra consagrada é realmente uma grande obra. E isso ocorre em todas as manifestações da arte em geral. Às vezes se convenciona consagrar uma obra que deixa a desejar sob certos aspectos. Mas, por temor de parece ignorante, ninguém é capaz de contestar a qualidade dessa obra.

Diário – O que tem a dizer sobre a alfabetização de adultos?

Roldan – A alfabetização de adultos é louvável, mas o fato de um cidadão saber escrever seu nome e ler (mal) não indica que o País tenha elevado seu nível cultural.

Diário – Fale em poucas linhas quem é Roldan-Roldan.

Roldan – Como sou um animal literário – ou um animal intelectual, por assim dizer – apaixonado pela literatura, acho que a primeira das três melhores coisas da vida é escrever. Como sou sanguíneo e voraz, acho que a segunda melhor coisa da vida é copular. E como sou hedonista e gourmet, acho que a terceira melhor coisa da vida é comer. O exercício da escrita me proporciona um prazer que me eleva não só mentalmente, mas espiritualmente. O sexo me faz sentir vivo e me torna mais generoso, humilde e tolerante. A repressão sexual é uma violência contra o corpo e o espírito e é uma aberração. E o alimento encerra o que considero a divina trindade do hedonismo.

Sou, por linhagem da qual me orgulho muito, livre-pensador e libertário. E não tolero o achatamento do conhecimento humano em nome da religião ou de qualquer doutrina política. O cidadão é livre e tem por missão destruir tudo aquilo que atente contra sua liberdade. É de pasmar como, durante séculos, a classe dominante, fosse civil ou religiosa, esmagou todos aqueles que contestavam a verdade oficial, em nome da qual tudo o que a ela se opunha era eliminado. Os exemplos históricos estão aí para prová-lo. E frisemos que o homem honesto se atém apenas ao factual. Assim como um governo honesto deve se ater só ao factual e disseminar o conceito de verdade provada entre seus cidadãos. E para finalizar, é o suprassumo da ignorância achar que a Razão, ou racionalismo, elimina a espiritualidade, que, diga-se de passagem, pode ser laica.

02-03-2016

 

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2 Respostas to “O Diário dos Escritores Entrevista R.Roldan-Roldan”

  1. Robert de La B. Says:

    Basco, o mais relevante de toda essa prosa, que é o seu comportamento, infelizmente ninguém vê. Se nego cai de pára-quedas e lê essa entrevista, pode achar que você é um imbecil arrogante – ou, talvez, um inteligente arrogante. Mas não saberá o quanto suas ações são rigorosa e inflexivelmente compatíveis com o discurso, quanto sangue foi suado nessa trajetória e quanto batráquio teve de ser deglutido no percurso.

    É o preço, né, Basco? Como diria o Senhor Spock, “live longer and prosper”.

    (Star Trek pode eventualmente figurar na sua lista de lixos culturais, mas é também disso que sou feito. E o Leonard Nimoy era, como indivíduo, sábio)


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