Negro, Pobre e Gay

maio 10, 2016

Negro, Pobre e Gay

 

         Não escolhi ser negro – fui engendrado por negros. Não escolhi ser pobre – nasci numa família extremamente pobre. Não escolhi ser homossexual – a natureza assim me fez. Não sou revoltado por causa da cor da minha pele, da minha pobreza de origem nem da minha homossexualidade. Não há ódio em mim. Mas convenhamos que o destino foi bastante irônico quando traçou as linhas da minha existência. E convenhamos também que a minha vida seria mais fácil se eu fosse branco – num país de maioria branca. Se eu não fosse de origem socialmente tão miserável.  E, principalmente, se eu fosse heterossexual. Porém, tento conviver com aquilo que sou e com o que tenho. Convivo bem com a minha condição de negro. Na realidade, em nosso País, a discriminação vem mais da classe social do que da etnia, já que temos uma das piores desigualdades sociais do mundo, e a sua consequente segregação. Não sou mais miserável, pois estudei e tenho um emprego bem remunerado. Todavia, às vezes é muito duro ser gay numa sociedade conservadora – logo machista – onde a ignorância começa por determinadas definições, tais como ‘opção sexual’, como se alguém optasse por ser hétero ou homo. Ninguém opta pelo caminho mais difícil. Por que ser gay se tudo é mais fácil sendo heterossexual? Quanta ignorância! A grande maioria ainda não percebeu que se nasce heterossexual ou homossexual.

Há gays muito bem resolvidos que lidam tranquilamente com a sua condição de homossexuais. Talvez eu seja um deles, pois li muito a respeito do homossexualismo. Mas… Mas o problema sou eu, independentemente de ser homo. Ou talvez, no fundo, uma coisa esteja atrelada à outra. Em uma palavra: a minha carência afetiva. É mais fácil para um heterossexual amar e ser amado do que para um gay, pelo fato de haver mais oportunidades de relacionamento entre os heterossexuais. Mas isso não quer dizer que um gay seja necessariamente carente. Porém, eu sou carente desde criança. Desde que a minha mãe saía para trabalhar e me deixava no barraco da vizinha. Os meus pais davam um duro para ganhar a vida e não dispunham de muito tempo para mimar os filhos. Sim, eu já era sozinho – essa solidão que sempre me acompanhou. Não me entrosava com ninguém. Não me enturmava nem na escola nem na rua. Fechava-me num mundo de fantasias para sobreviver à solidão do mundo externo. E, naquela época da infância e da puberdade, tinha complexo de inferioridade por ser negro e pobre. E quando, na adolescência, tive consciência (embora obscura) de que me sentia atraído pelo mesmo sexo, fiquei profundamente perturbado. Já era um homem de 27 anos quando a minha timidez me permitiu tocar e ser tocado por um homem. Até então eu achava que teria de casar com uma mulher e ter filhos, como todo homem faz. Mesmo que eu não sentisse absolutamente nenhuma atração pelo sexo feminino. Depois foi uma longa busca. Não de sexo, mas de amor. Sim, procurava alguém que me amasse e a quem eu amasse. Um homem para mim. Um companheiro com quem dividir a vida. Mas a minha ingenuidade, a minha pureza e a minha timidez me reservavam mais de uma cilada. Dolorosas ciladas armadas por homens sem escrúpulos que se aproveitaram da minha boa fé e da minha carência afetiva. A última doeu não só no coração e na alma, mas no corpo todo. E me mandou ao pronto-socorro.

*

Eu o conhecia desde a adolescência e o achava muito atraente. Ele já era um homem maduro quando eu era garotão. A sua casa era uma das mais belas construções daquela cidade do interior. Lembrava um pouco as mansões inglesas do século XIX. Pouco se sabia sobre ele. Mesmo porque, embora muito educado com os vizinhos, não conversava praticamente com ninguém. Às vezes viajava. Mas ninguém sabia aonde ele ia. Aparentemente vivia de rendas, pois ele não saía de casa para trabalhar. Vivia quase recluso. Poucas pessoas frequentavam a sua casa. Com exceção de uma misteriosa mulher – de outra cidade – que o visitava mensalmente, passando o fim de semana com ele. O pouco que se sabia a seu respeito era através dos empregados da mansão. Tinha uma doméstica, uma cozinheira e um mordomo que cuidava um pouco de tudo, como uma governanta, e que fazia as compras e tudo o que requeria sair à rua. Mas, de acordo com esses empregados, ele não se abria com eles, apenas dava ordens, sempre de modo cortês. Corriam rumores de que era viúvo ou divorciado e que tinha três filhos, de várias esposas, que moravam no exterior. Um vivia em Singapura, outro na Austrália e outro na Finlândia. Como era muito reservado e nunca conversava, os empregados, intimidados, não ousavam perguntar nada a respeito de sua vida. Era chamado de doutor Wilson. Não se sabia se esse nome era prenome ou sobrenome. Uns diziam que era médico. Outros, advogado. Mas ele não exercia nenhuma profissão. Costuma se trancar, durante longas horas, em sua biblioteca, lendo ou ouvindo música erudita.

Um belo dia o seu mordomo morreu. Não sei por que me ocorreu que poderia pleitear o cargo do falecido. Uma manhã decidi bater à porta da mansão. A empregada – que pelo jeito filtrava as raras visitas – perguntou-me de que se tratava. Respondi que procurava um emprego de mordomo. A empregada me deixou na rua, do outro lado da grade, e pediu que esperasse. Voltou dizendo que o doutor Wilson não podia me atender, mas que eu poderia retornar à tarde, às 16 horas.

Confesso que a minha condição de negro me deixava inseguro. Muito branco que se diz não ser racista no fundo gosta de negros a uma certa distância. O falecido mordomo – já idoso – era branco. Bem, pensei, não custa tentar. O fato de ele ter aceitado me receber para uma eventual entrevista já era um passo que dava margem à esperança.

E ele me recebeu. Nunca esquecerei aquele primeiro contato com aquele senhor alto, esbelto, grisalho, de porte aristocrático. Antes de falar, olhou-me durante longos segundos, o que me perturbou bastante. Por que esse olhar inquisidor, sem palavras, me perturbou tanto? Era algo que eu arrastava inconscientemente havia muitas gerações? O homem negro que se sente intimidado perante o homem branco que vai eventualmente admiti-lo como empregado? Ou era algo mais perturbador do que isso? A possibilidade de morar com um homem cujo físico me atraía e cuja figura envolta em mistério me fascinava? Ou eram as duas coisas?

– Você gosta de ler? perguntou – mais tarde eu entenderia por que essa foi a sua primeira pergunta.

– Gosto, sim senhor. Leio muito.

– Você tem experiência como mordomo?

– Não senhor. Mas acredito que não haverá problema, pois sou garçom num restaurante, respondi ingenuamente.

– Em caso de admissão você teria de morar aqui. Alguma objeção?

– Não senhor. Sou solteiro. Posso morar em sua casa.

– Qual é a sua pretensão salarial?

– Fica a critério do senhor.

– Quando você estaria disponível?

O restaurante onde trabalhava me dispensou do aviso prévio e uns dias depois estava instalado na mansão do doutor Wilson, trabalhando como mordomo, profissão um tanto anacrônica em nossa época, diga-se de passagem. No fim do mês tive uma agradável surpresa: o salário era bem mais alto do que eu esperava.

Começou então a longa e lenta aproximação. Ele me tratava cordialmente, mas com um certo distanciamento. Esse distanciamento era o mesmo que ele mantinha com a empregada e com a cozinheira – que não moravam na casa. Eu atribuía essa recusa de uma maior intimidade ao seu caráter, à sua forma de ser. Ninguém o visitava a não ser a misteriosa dama que vinha mensalmente. Diziam que ela era casada. Ela vinha sempre numa sexta-feira, no fim do dia, e ia embora no domingo, após o almoço. O café da manhã lhes era servido na cama. Aliás, eles passavam a maior parte do tempo trancados no quarto.

Ele tinha um leve sotaque, indefinido, talvez proveniente de várias línguas. Diziam que era russo, mas criado na China – mas então de onde vinha o nome Wilson? No entanto, eu nunca perguntei sobre a sua origem. Nem sobre a sua família. Era um relacionamento estritamente profissional, sem a intimidade que poderia se supor entre duas pessoas que moram sob o mesmo teto.

Assim foram passando os meses e o fascínio deu lugar à paixão. E a paixão, reprimida, cedeu o lugar ao amor. Um amor silencioso, abafado, mas não infeliz. Eu não pedia nada. Eu não queria nada. Eu não esperava nada, mesmo porque ele gostava de mulher. Apenas queria estar – como estava – perto dele e cuidar dele. Eu o amava como o cão ama o seu dono. Como o escravo ama o seu amo. Mas seria reducionista pensar que eu enveredava pela submissão secular dos negros em relação aos brancos. Não. Eu era apenas um homem, negro, que amava um homem, branco. E que, por vias das circunstâncias sociais, esse homem branco era o patrão do homem negro. Poderia muito bem ter sido o inverso, ou seja, o negro num patamar social acima do branco.

Ele tinha idade para ser o meu pai. Era sessentão – calculava eu – quando eu, quase quarentão, comecei a trabalhar em sua casa. E assim foram passando os anos. A intimidade – uma intimidade muito peculiar, física sem ser sexual, levou tempo para brotar e foi crescendo progressivamente, bem devagar. Na realidade, a paixão, que é amor e desejo – ou talvez tudo isso seja redundância e se resuma apenas a amor no sentido mais profundo da palavra – passou a exigir a sua parte, tanto afetiva como sexual. Eu não saía com ninguém – anos a fio sem saber o que era o corpo de um homem – e me masturbava constantemente pensando no homem que amava. Às vezes tinha poluções noturnas sonhando com ele. Era muito difícil reprimir essa vontade convivendo o dia todo com o objeto do desejo. Contudo, eu acabava sublimando esse amor.

Um dia em que ele cortava as unhas das mãos, eu lhe disse que, se ele quisesse, eu poderia cortar as suas unhas. Ele aceitou e me estendeu a mão e a tesoura sem uma palavra. E cortei as suas unhas. E tive imenso prazer em tocar e segurar as suas mãos. Quando terminei, criei coragem e lhe disse que poderia cortar também as unhas dos seus pés, se assim ele o desejasse. E uns dias depois cortei as suas unhas dos pés, depois do banho. E toquei os seus pés, com imenso prazer. Ele estava só de roupão e eu podia ver as pernas e parte das coxas, o que me excitou, mas controlei a ereção. E passei a cuidar das suas mãos e dos seus pés com muita alegria. Isso me deu coragem para o que eu considerava mais uma ousadia para usufruir do contato físico do homem que amava. Sugeri-lhe que eu poderia lhe esfregar as costas quando ele estivesse tomando banho de imersão. Ele aceitou. Como aceitara que cuidasse de suas mãos e de seus pés. Ele apenas disse: tudo bem. Claro que eu pensava: será que ele sente algo quando o toco? Mas, para não criar expectativas, tentava me convencer de que ele gostava apenas de ser cuidado. De que ele, solitário, apreciava que alguém cuidasse de seu corpo regularmente.

Quando esfregava as suas costas, antes que a espuma turvasse a água, eu olhava o seu sexo, o que deixava o meu membro ereto. Mas não havia problema, pois ele não podia me ver, já que eu estava atrás dele. Porém, um dia, inesperadamente (e propositalmente), ele me pediu que esfregasse o seu peito. Na hora fiquei petrificado: o meu membro estava ereto. Fui à sua frente e ele percebeu.

– Você está excitado.

– Desculpe, doutor Wilson, desculpe, disse eu abaixando o olhar.

– Não há nada a desculpar. É uma reação natural. Não se preocupe.

Intuíra ele que eu me excitava quando esfregava as suas costas? Será que ele quis confirmar o que suspeitava, pedindo que esfregasse o seu peito? Talvez, porque ele nunca mais voltou a pedir que esfregasse o seu peito. Uma coisa é certa: nunca o vi com ereção enquanto eu esfregava as suas costas. O que significava que ele não se excitava. Ou ele conseguia se reprimir?

Uma noite – isso depois de mais de um ano após eu ter começado a trabalhar em sua casa – ele inquiriu:

– Você me disse que gosta de ler.

– Sim, doutor Wilson.

– Você não gostaria de ler comigo na biblioteca depois do jantar?

– Sim, doutor Wilson, gostaria.

E praticamente toda noite passamos a ler na biblioteca. Ele me sugeria livros, que eu devorava. Não conversávamos. Apenas líamos. E quando eu terminava um livro, ele perguntava:

– Gostou?

E eu respondia invariavelmente que sim. E assim a nossa intimidade ia se estreitando. E o meu amor crescendo. Entretanto, o seu rosto continuava impenetrável. Um rosto marmóreo que eu não conseguia decifrar. Um rosto onde eu tentava descobrir um sinal de amor, de desejo. E com o passar do tempo, passei a sentir ciúme da misteriosa mulher elegante que o visitava regularmente. Essa mulher com a qual ele fazia sexo durante todo um fim de semana, uma vez por mês. Uma vez a cozinheira – a mais velha de casa – comentou que essa mulher era, na realidade, a sua ex-mulher, que se casara novamente, mas que não o esquecia, que continuava gostando dele. Não sei de onde a cozinheira tirara essa informação. Ele nunca falava nada sobre a sua família e eu, obviamente, não indagava nada. Às vezes eu me perguntava qual era o enigma de sua vida. Teria ele algo a esconder? Um dia uma vizinha xereta me perguntou se o meu patrão era judeu, sobrevivente de um campo de concentração nazista. Ignoro de onde ela tirara essa história. Evidentemente respondi que não sabia. Curiosamente ou não, essa indagação da vizinha acabou se revestindo de uma inopinada conotação erótica. Se ele, o meu patrão – para usar o termo que empregara a vizinha – ou seja, o meu amado doutor Wilson era judeu, ele era circunciso. Portanto, caberia a mim observar o seu pênis enquanto eu lhe esfregava as costas. E desvendar o mistério de sua origem na sua glande era algo altamente estimulante, instigante.

Todavia, depois de anos, ventos funestos varreram as finanças da casa. Um dia ele me perguntou se eu sabia cozinhar. Respondi que sabia preparar alguns pratos.

– Você aceita cozinhar para mim?

– Aceito, doutor Wilson.

E pela primeira vez na vida ele se abriu comigo.

– Estou numa situação financeira muito difícil. Vou ter que demitir a cozinheira e a empregada.

– Pode contar comigo, doutor Wilson.

E ficamos os dois sozinhos naquela casa imensa. E passei a lhe preparar as refeições. Era tão grande o meu amor por ele, que me tornei criativo na cozinha. A partir do dia em que iniciei a minha nova tarefa, passamos a comer juntos na sala de jantar. Sim, café da manhã, almoço e jantar sentados à mesma mesa. Logo depois de assumir a minha nova função, ele me pediu que deixasse o meu quarto na água-furtada e me mudasse para um cômodo de hóspedes ao lado do seu dormitório. Estava cada vez mais perto dele. Será que um dia ele me convidaria a compartilhar a sua cama?

Por aquela época, a misteriosa dama deixou de visitá-lo – teria ela morrido, ou brigado ou se cansado da relação? Senti-me feliz por não ter mais rival. Talvez agora que não tinha mais parceira sexual, ele se aproximasse de mim, me quisesse, me amasse como eu o amava. Mas as suas finanças pioraram e uma noite, durante o jantar, ele me comunicou laconicamente a minha demissão.

– Lamento, mas não tenho mais meios de mantê-lo comigo.

O mundo pareceu desabar. Era o fim da minha vida. Longe dele a minha existência não fazia sentido. Tive muita dificuldade de conter as lágrimas. Tomei uma decisão instantânea, já que tudo parecia perdido.

– Doutor Wilson, pelo amor de Deus, não me mande embora. Eu fico aqui sem salário. Não quero sair desta casa. Há mais de dez anos que estou com o senhor. A minha vida é nesta casa. Não tenho mais nada a fazer fora desta casa a não ser morrer.

Teria gostado de acrescentar que o amava, que o amava desesperadamente. Que não queria ficar longe dele. Que não lhe pedia nada. Absolutamente nada senão que me deixasse morar com ele. Os meus olhos marejaram. Pedi desculpas e saí. Queria chorar sozinho em meu quarto. Subi as escadas correndo. Entrei em meu quarto. Sentei na poltrona e comecei a chorar como uma criança desamparada. Poucos minutos depois ele bateu à porta e entrou. Automaticamente me levantei. Parei de chorar. Sequei os olhos. Ele avançou em minha direção. Durante uns segundos olhou-me sem dizer nada. Então o seu semblante, abandonando a fleuma, esboçou um leve sorriso. E ele me abraçou. Ele me abraçou pela primeira vez na vida. Voltei a chorar. Ele me apertou bem forte em seus braços. Quanto tempo permanecemos abraçados? Não sei. Quando ele desfez o abraço, acariciou o meu rosto e disse:

– Pode ficar.

Peguei a sua mão e a beijei. Foi a maneira que encontrei de lhe agradecer. E esclareci:

– Não choro por perder o emprego, mas por perder o senhor.

– Eu sei, replicou ele, você é muito nobre.

Na realidade, o meu pranto foi uma catarse. O aviso de demissão foi um pretexto para os diques que represavam a paixão estourarem. Sim, em verdade eu estava chorando uma paixão reprimida durante mais de dez anos. E sabia que não havia esperança. Ou estaria eu enganado? Estaria ele reprimindo o desejo? Será que ele, heterossexual, não teria uma dose, uma porcentagem de homossexualidade? Algo lá no fundo que ele não deixava aflorar? Ou estaria eu fantasiando algo que não existia? Talvez ele tivesse apego, afeição por mim depois de tantos anos de convivência. O que não queria dizer necessariamente que ele tivesse vontade de deitar comigo. Sim, talvez fosse isso que o induzira a aceitar que eu permanecesse na casa sem ganhar nada. Ele estava muito acostumado com a minha presença. Com os meus cuidados. Eu sabia que ele apreciava os meus mimos, por assim dizer. Que ele gostava tanto que eu cuidasse dele (cortar as unhas, esfregar as costas e, uns tempos depois, aparar a sua barba e barbear o seu pescoço, isso sem contar os pratos exóticos que eu lhe preparava), que cuidasse do seu corpo (que tocasse o seu corpo?) que engoliu o eventual orgulho de patrão que se vê reduzido a aceitar a ajuda do empregado.

E a vida continuou naquela casa que ninguém frequentava. Embora ele tivesse contratado uma faxineira uma vez por semana, eu tinha muito trabalho a fazer. Mas fazia tudo com entusiasmo e alegria. O prazer de servir o homem que amava loucamente. O deleite de cuidar de um homem que para mim era um pai, um irmão, um filho. Um homem solitário que era a minha única família. O fato é que éramos tão sozinhos um quanto o outro.

Uma manhã ele se sentiu mal. Chamei a ambulância. Fomos ao hospital. Ele saiu no dia seguinte: não era nada grave. Senti-me muito feliz, pois ficara apavorado com a ideia de perdê-lo. Uma semana depois fui ao banco para ver o meu saldo, pois às vezes eu comprava mantimentos para a casa do meu bolso, já que eu, com o passar dos anos, tinha feito um pequeno pé de meia. Constatei então que alguém (que só poderia ser ele) depositara uma soma – respeitável para mim – na minha conta. Indaguei:

– Doutor Wilson, o senhor depositou dinheiro na minha conta?

– Depositei.

– Mas é muito dinheiro e o senhor está tão apertado.

– Vendi um terreno.

– Mas…

– Se eu não faço isso por você, por quem o faria?

– Doutor Wilson…

– Você faz coisas por mim que ninguém jamais fez. Além do mais você está pondo dinheiro do seu bolso na casa. Digamos que o que depositei é uma pequena recompensa pelos seus serviços, pela sua devoção, pela sua lealdade.

Eu estava profundamente emocionado com as suas palavras. Era a segunda vez que ele me elogiava – e desta vez de modo mais extenso. Teria ele pensado na morte e querido deixar algo para mim antes de partir? Ah, meu Deus, como o amava! Amava-o tanto que em vez de dinheiro teria preferido que ele passasse uma noite comigo. Sim, teria preferido sentir o seu corpo fazendo amor com o meu.

Uma noite acordei de madrugada com alguém – que só poderia ser ele – batendo à porta do meu quarto. Estaria ele se sentindo mal ou ele queria…

*

Nunca consigo dar um fecho à minha fantasia. Por um estranho mecanismo do meu inconsciente, talvez não queira lhe dar um final. Ou talvez não queira consumar o ato tão esperado para não romper o encantamento. Às vezes crio variantes da história. Mas é basicamente o mesmo relato que nunca acaba. O doutor Wilson é sempre o mesmo, assim como o seu mordomo. Esses dois personagens fazem parte da minha vida. Deixam de ser virtuais para se tornarem quase tangíveis. Presumo que é um pouco o que acontece com o romancista e os seus personagens durante a criação do romance. Aliás, talvez um dia eu escreva O Doutor Wilson e Seu Fiel Mordomo. A ficção é sempre mais bonita que a realidade. Sou formado em biologia, mas sempre gostei de literatura e de escrever. Além do mais, essa história, essa projeção, me mantém vivo, por assim dizer. Dá-me esperança. Dá-me esperança depois das enroscadas da vida. Na vida de um homem negro, de origem paupérrima e gay. De um homem que acredita – ingenuamente? – no amor.

Sim, essa história me ajuda a superar os fracassos amorosos. E sempre que sofro uma decepção amorosa, apelo para essa fantasia para sobreviver. Como aconteceu com a minha última relação. Deveria ter desconfiado. Um branco bonito, sensual, fogoso, carinhoso e…  aproveitador, cafajeste e violento.  Aproveitou-se da minha carência afetiva. Um gigolô. Pediu-me dinheiro três vezes. Não devolveu. Na quarta, neguei e apanhei. Apanhei feio. Lábios e nariz sangrando. Tive que ir ao pronto-socorro. A única reação que tive foi dizer:

– Se você voltar à minha casa, os meus irmãos te matam. Eu sei onde você mora. Eu sei onde te encontrar.

Deu-me mais um tapa e saiu. E nunca mais voltou.

Os meus quatro irmãos se afastaram de mim quando souberam que eu era gay. Não tenho nenhum contato com eles. Sou o caçula, o único que estudou. Os meus pais já são falecidos. Não tenho família.

Eu não aprendo. Não aprendo a desconfiar dos homens. E vivo me ferrando. Porque sou sozinho e quero ser amado como todo ser humano. Um homo tem as mesmas necessidades afetivas que um hétero, claro. Sim, vivo me ferrando. É por isso que apelo para a minha fantasia. O doutor Wilson, embora muito fechado (será que ele não consegue sair do armário?), é um homem branco bom, honesto, respeitável e respeitador. Gosto muito dele. E ele gosta de mim. Em última instância, só tenho ele.

10-05-2016

Alguns dos 31 livros publicados em papel de R.Roldan-Roldan estão agora na Amazon.

 

 

 

 

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9 Respostas to “Negro, Pobre e Gay”

  1. J.Campos Says:

    Excelente, Roldan-Roldan. Parabéns!

  2. Sidney Says:

    Maravilhoso.

  3. Goudet Says:

    Um bom argumento para o cinema. Não?
    Abraço.


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