Depoimento de Uma Prostituta

julho 1, 2016

Depoimento de Uma Prostituta

 

 

… às vezes penso em me matar. Sim. O suicídio como solução. Como solução para uma vida… Uma vida que não aguento mais. A barra está muito pesada. Mas não tenho coragem de me matar. Não por medo. Ou por convicções religiosas. Mas porque não posso deixá-los sozinhos. Quem vai cuidar deles? Quem vai cuidar da minha família? Se Deus me deu essa cruz, é meu dever carregá-la até o fim da vida. Depois da minha vida, está tudo nas mãos de Deus. Tenho muita fé em Deus. Rezo toda manhã e toda noite. Depois da oração sinto paz e força para continuar lutando. É o que peço a Deus todo dia: força para continuar lutando. Às vezes, quando estou muito aflita, peço a Deus que Ele faça um milagre. Um pequeno milagre. Pouca coisa para Ele. Muito para mim. Para dizer a verdade, esse milagre que imploro fervorosamente me dá energia e esperança para não desistir de tudo. Há muitos anos que espero por esse milagre. Há muitos anos que espero por esse homem. Um homem suficientemente generoso que me aceite com meu filho e meu pai – mesmo porque não posso abandoná-los. Mas que homem vai querer uma puta cinquentona com um filho deficiente mental e um pai com Alzheimer? Esse homem teria de me amar muito para querer ficar comigo. Eu sempre explico a Deus que quero esse homem não só para me tirar da vida de puta – que não é nada fácil. Posso até continuar na profissão, só meio período, para ajudar no orçamento da casa, se ele me pedir. Quero esse homem para ter alguém que me ame. E a quem eu ame. Ah, meu Deus, eu que faço sexo com tantos homens não sei o que é fazer sexo com amor! Um homem bom, trabalhador, que me respeite. Pode ser branco, negro ou amarelo. Pouco importa a raça. Também não me importo com a religião. Pode ser até ateu, que eu rezaria por ele. Pode ser gordo ou magro. Alto ou baixo. Pode ser pobre. Pode ser feio. Não procuro um macho – de machos estou cheia. Procuro um homem. Não quero um corpo. Quero um coração. Um coração que alivie minha solidão acolhendo meu coração. Esse meu coração tão machucado e tão sedento de amor. Seria uma boa companheira para ele. Cuidaria desse homem com amor e devoção. Não sou feia, embora esteja envelhecendo. Sou carinhosa e sei muito bem cozinhar. E não sou burra nem ignorante. Terminei o segundo grau e entrei na faculdade. Fiz um ano de Letras. Queria ser escritora – que ingenuidade. Lia muito naquela época, muito mesmo. Aí fiquei grávida de um estudante de medicina. Ele sumiu e minha vida desandou. E me ferrei para o resto da vida. Fui obrigada a sair da casa dos meus pais. Não encontrava emprego – não tinha com quem deixar meu filho. Nem como empregada doméstica – desde que me aceitassem com meu bebê. Aí entrei na profissão. Prometi a mim mesma que seria só por um tempo. Até meu filho crescer e eu encontrar emprego. Mas fui me acomodando na rotina de mulher da vida, como se dizia antigamente. Para falar a verdade, eu não tenho, e nunca tive, vocação para ser puta. Não é nada fácil aguentar esses corpos em cima da gente. Alguns fedem, pois tem homem porco. Há homens educados e generosos. Mas a maioria é grossa e se esquece de que sou uma mulher, um ser humano. Alguns são violentos. Uma vez, um desses cafajestes me estuprou antes mesmo de me pagar – e não me pagou, claro. Outro me bateu porque queria sexo anal e eu só faço pelo dobro do preço. Outro queria transar sem camisinha e também me bateu e foi embora sem transar e sem me pagar, claro. Outro me ameaçou com uma navalha e me roubou todo o dinheiro que tinha ganhado aquela noite. E assim por diante. Tive um cliente, durante vários anos, que era muito bom para mim. Carinhoso, conversava bastante, me pagava muito bem e sempre me trazia bombons. Até pensei ingenuamente que ele quisesse ficar comigo. Mas ele sumiu e nunca mais o vi. Talvez tenha morrido. Com o passar do tempo, os clientes foram diminuindo. Tive que baixar o preço. Desci de categoria na profissão. E, claro, o nível dos clientes caiu. O tempo passa e cobra seu imposto. Homem, a menos que esteja duro, não quer puta velha. Homem quer garotas. Carne fresquinha, seios durinhos. Para puta velha só sobra a ralé. E com o que ganho mal dá para comer, pagar aluguel, luz e água e comprar remédios – alguns remédios não são fornecidos pelo posto de saúde. Sim, estou cansada desta vida. Por que Deus me deu um filho deficiente mental?  Ele já está com 30 anos. Se fosse normal poderia estar me ajudando. E aí não teria de ser puta. Já teria deixado essa vida. Às vezes converso com Deus e imploro perdão pelas coisas que peço. Porque Deus pode achar que estou exigindo muito e pode me castigar para me tornar humilde. Penso que nossa situação poderia piorar. Como seria se eu ficasse doente e não pudesse trabalhar? Não dá para viver com o salário mínimo que é o que meu pai recebe de aposentadoria. Outras vezes fico um pouco revoltada com o peso da vida. E então me pergunto se Deus me vê. Se Deus me olha. Se eu sou alguma coisa neste mundo que mereça a atenção Dele. Uma noite fria de garoa, comecei a chorar na rua, pois não aparecia nenhum cliente – a chuva e o frio espantam os clientes. Embora homem não goste de puta chorona, eu chorava, chorava em silêncio numa esquina, embaixo da marquise. Meu Deus, que tristeza! Houve uma interrupção de energia elétrica. A rua ficou um breu. De repente vi uma luz dourada que me envolveu. Parecia um holofote. E então senti uma paz muito grande e uma incrível alegria em meu coração. Foi isso uma manifestação divina? Não sei. Mas sempre penso nisso. É algo que não esqueço. Essa luz repentina durou apenas uns segundos. Depois de dois ou três minutos a iluminação da rua voltou. E eu voltei para casa feliz. Sim, sem um centavo, mas feliz. Acho que naquele momento Deus estava comigo e me fazia sentir Sua presença. Deus tinha me olhado. Mas… Sim, estou cansada desta vida. Estressada. Não tenho nenhum divertimento. Nenhuma distração. Há anos que não leio nada. Não vejo TV (só aos domingos, que não trabalho), pois à noite estou na rua e durante o dia cuido da casa. Eu que gostava tanto de ler e de cinema. Eu que lia tanto. Escritora! Ilusão juvenil. Só se for para contar minha vida de puta pobre. Mas seria um livro sem graça. Quem iria se interessar pela vida de uma puta com um filho deficiente mental e um pai com Alzheimer? As pessoas gostam de ler histórias mais alegres, mais românticas. Histórias com final feliz. Mas quem vai se interessar por uma história triste, amarga, sem perspectiva? Uma história onde não acontece nada. Uma história onde todos os dias são iguais. Vou falar de que no livro? De lavar louça e roupa? De limpar a casa? De cozinhar? De fazer compras no supermercado? De dar banho no meu filho? De levar meu pai e meu filho ao médico? De ir buscar remédios para os dois? Do meu trabalho na rua com os clientes? Tudo é cinzento ao meu redor. Há apenas uma luzinha que brilha na minha vida. A luz de vela da fé em Deus. Mas essa vela pode se apagar a qualquer momento. Há putas que se dão bem na vida. Mas são poucas. Geralmente pertencem a famílias da classe média. Moças estudadas que têm meios de se produzir e que cobram caro. Algumas chegam a fazer um pé de meia e garantem a velhice. Outras, da mesma classe social, muito bonitas, casam e se tornam senhoras respeitáveis. E outras, muito espertas, encostam em alguma celebridade e se tornam figuras públicas. Não é meu caso. Sou uma puta velha e pobre. E nem tenho o direito de me matar. Não tenho o direito de me matar simplesmente porque amo meu filho e meu pai. Sim, apesar desta vida dura, ainda resta amor em mim.

– Pronto. Não precisa mais olhar para a câmera.

– Acabou?

– Sim. É só isso. Obrigado pelo depoimento. Pegue seu cachê.

– Mas você está me pagando muito.

– Você merece.

– Obrigada. Deus lhe pague.

10-06-2016

 

 

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10 Respostas to “Depoimento de Uma Prostituta”

  1. J. Campos Says:

    Parabéns, Roldan ! Texto triste, mas maravilhoso.

  2. lunazzi Says:

    Prezado escritor David Haize,

    Li seu texto, lhe envio meu comentário, pois não deixo vínculos em serviços de comentários. Apenas nos que são abertos ou que posso colocar minha senha exclusiva para ele. Senão, passo a ser multiplemente bisbilhotado.

    Eis o comentário: Bom. Apenas comento que o pai não deixou a filha morar com eles por causa do neto. Merece o amor da filha? Ou a história é ainda mais escura?. Tragédia.

    • davidhaize Says:

      Muito obrigado pelo seu comentário, Lunazzi.

      A sua observação é pertinente. Mas às vezes fazemos o bem àqueles que nos fizeram o mal. A prostitua da minha história tem bom coração. Um abraço

  3. Sidney Says:

    Bonito e triste. Infelizmente a realidade de muitas mulheres.

  4. Robert de La B. Says:

    É, Basco, a vida, muitas e muitas vezes, é uma merda.

    Ainda ontem ouvi uma antiga e noturna música da Fernanda Abreu, chamada “speed racer”, muito diferente do resto da obra dessa cantora, em que há uma estrofe mais otimista do que a minha afirmação: “a vida nem sempre é boa”. E me lembro do roqueiro-punk Marcelo Nova que, em uma entrevista, contava ter dito ao filho “a vida é boa, mas não é justa: acostume-se a isso”.

    Aliás, ambos são mais otimistas do que eu: justa, somente por exceção; boa, se você der sorte (o que não dispensa trabalho, no mundo e sobre si próprio).

    Só a fé desta puta a salva. Senão, matava o filho e o pai, e dava um fim em si própria. A despeito do horror que tenho do neopentecostalismo superficial que grassa por aí, ele até que salva. E, como contrapartida (ou objetivo principal, a conferir), mantém o rebanho quieto. Mas, que salva incontáveis reses, salva.

    Sabe o que fodeu essa senhora? A luz que presenciou naquela noite. Não fosse ela, o drama já teria tido fim. Ou estou amargo demais? Hoje tomarei um bitter: “similia similibus curantur”, que sabe…

    de La B.


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