Carta a Lola

agosto 1, 2016

Carta a Lola

 

        Oi, Lola. Tudo bem, minha querida?

Você deve estar estranhando esta carta, pois nunca te escrevi uma carta. Mas há sempre uma primeira vez. Por que estou te escrevendo? Porque não tenho ninguém com quem conversar. Porque dói de tanto ficar sozinha. Porque você sempre foi minha confidente. Sempre soube me ouvir sem me reprovar. Sempre me aceitou como sou. Acho que tudo o que me acontece é reflexo das minhas atitudes. Meu pai diz que eu só acho namorados nos guetos. Porque só me relaciono nos guetos. Deve ser verdade. Além do mais, eu sei que sou complicada. E que acabo espantando os homens. Sim, os homens acabam dando o fora. Quando não é por um motivo, é por outro. No fundo, não quero compromisso com ninguém. É uma contradição porque, como qualquer pessoa, sinto carência afetiva e preciso de alguém. E os namorados vão se sucedendo. Começa com atração, vira amor (ou será só paixão?) e depois vem o fracasso, a ruptura. E assim vai. Tem horas em que não quero ver mais homem na minha frente. E me isolo. Não vejo ninguém. E aí vem, depois da desintoxicação, a necessidade de afeto, de companhia masculina. E recomeço tudo de novo. Isso me cansa. Não faz sentido viver desse jeito. Sei que nunca vou casar. Não quero ter ninguém na minha casa. Não quero morar com ninguém. Não quero compartilhar minha vida com ninguém – há muitos anos que moro sozinha e tenho minhas manias. Aí só sobra sexo. Só. Meu pai diz que mulher mal-amada se torna agressiva e revoltada. Pode ser. Pena que ele more a nove mil quilômetros de distância. Ele diz também que o amor, de certa forma ou até certo ponto, é um exercício. Temos que ter não só a disponibilidade de amar, mas também a disposição de amar. E que mesmo sem estarmos deslumbrados com uma pessoa, podemos chegar a amar essa pessoa. Que às vezes é questão de tempo. Que começar pela paixão nem sempre garante o futuro da relação. É provável. Meu pai fala muito sobre meu modo de ser que acaba complicando minha vida. E ele acaba pegando no meu pé. Eu sei que ele quer minha felicidade, mas ele me cansa. Eu me torno agressiva e ele acaba estourando como só ele sabe. Ele também não é fácil. É tão arrogante quanto eu. Bem, Lola, chega de prólogo. Estou parecendo meu pai, que fala mais que a boca, como dizia meu tio, o irmão dele. Vamos lá extirpar o que me aflige o coração.

Você se lembra do Ion, o romeno? Ele esteve uma vez em casa, antes de você partir e gostou muito de você. Não quero parecer preconceituosa, mas me avisaram que esses imigrantes romenos não são nada confiáveis. Mas digamos que isso poderia ter acontecido com um ucraniano, um chileno ou um marroquino. Os imigrantes ilegais não são realmente muito confiáveis – sejam da Europa do Leste, da América Latina, do Magreb ou do resto da África – talvez pelas circunstâncias difíceis em que vivem. Quero dizer com isso que roubam sempre que podem quando estão sem trabalho – eu própria sou uma imigrante, mas legal, e nunca fui obrigada a roubar. Bem, o Ion, mas jovem que eu – que já sou quarentona – bonito, carinhoso e divertido me cativou logo de cara e me deixei levar pensando que desta vez ia dar certo. Mas ele era ilegal, estava desempregado, duro e, após umas semanas de relacionamento, me roubou todo o dinheiro que tinha na carteira, o cartão de crédito, o celular e os passes do metrô. E sumiu do mapa. Doeu, Lola, doeu muito. Doeu não pelo roubo em si, mas porque eu acreditei nele e estava me apegando e ele me usou. E o vento o levou…

O anterior, como você já sabe, foi Ahmed, o marroquino, oriundo de Tânger, mas a família era de Ksar el-Kebir. Também mais jovem que eu. Bonito, fogoso, muito viril. Era ilegal, mas trabalhava na cozinha de um restaurante. Era muito trabalhador. Muçulmano, sem ser fanático, brincava comigo (na realidade não sei se ele estava brincando comigo ou se ele falava sério) e me dizia que se eu me convertesse ao islamismo, ele casaria comigo. Mas um dia, sem mais nem menos, ele me disse que ia embora para o Marrocos. Que ia se casar com uma garota marroquina que ele conhecia desde a infância. Que fazia tempo que a família o pressionava. Que a família não queria de jeito nenhum que ele casasse com uma cristã. Que devia respeito a sua religião e a sua família. Que ele casaria comigo se eu quisesse, cada um seguindo sua crença religiosa, se não fosse pela família. Eu não tinha nada a dizer. Fiquei muda e não chorei na frente dele. Acho que ele me amava mesmo, mas… Fiquei muito machucada. Foi o homem que mais amei. Foi o homem que mais prazer me deu na cama. Um relacionamento muito bonito que durou mais de dois anos. Chorei muito, muito. E não o esqueço. Nem vou esquecê-lo. Pelo menos ele foi honesto e me avisou em vez de sumir sem dizer nada. E o vento o levou…

Antes dele houve Ali, o paquistanês. Esse era imigrante legal. Trabalhava no mercadinho dos pais onde eu fazia compras. Mais jovem que eu – meu pai diz que só arrumo namorados que cheiram a fraldas molhadas. Não era propriamente bonito, mas era atraente. Ele sempre me olhava de maneira significativa quando eu ia comprar no mercadinho. Aos poucos fui me interessando. Um dia ele me convidou para sair. Aceitei. E começamos a namorar. A relação durou uns meses. Até o dia em que o pai dele veio conversar comigo, educadamente, dizendo que eu era velha demais para ele e que eu era cristã e ele muçulmano. E ele pedia que eu me afastasse dele. Aí ele pegou um envelope e me entregou. Curiosa, sem imaginar qual seria o conteúdo, abri o envelope e vi que continha dinheiro. Dinheiro para eu me afastar do seu filho, como se eu fosse uma garota de programa. Peguei o dinheiro e o joguei, literalmente, na cara dele. E nunca mais voltei ao mercadinho. Mais um que o vento levou. Embora esse aí eu o veja de vez em quando na rua. Quero dizer, cruzo com ele. Mas não o cumprimento. Ele tentou várias vezes falar comigo, mas eu não quis saber.

Antes do paquistanês houve… Chega, Lola, chega. Não vou mais falar dos meus casos. Dos meus tristes casos que não dão em nada. Estou me sentindo mais aliviada depois de te escrever esta carta que vou colocar embaixo da caixinha com tuas cinzas. Talvez você sinta as vibrações de minhas palavras através de tuas cinzas.

Sinto muito tua falta. Meu Deus, que saudade de minha Lolinha, minha gata tão querida. Você era tão meiga. Uma gatinha tão bonita e tão carinhosa. Lembra-se de quando eu colocava um pedacinho de peito de peru entre meus lábios e você o pegava delicadamente e o comia? Lembra-se de que toda manhã você me acordava massageando alguma parte do meu corpo? Lembra-se de quando você subia no meu colo e esfregava tua cabecinha em meu rosto? Você era minha melhor amiga e eu te contava tudo o que acontecia comigo.

Um beijo, meu amorzinho.

04-06-2016

14-06-2016

19-06-2016

 

 

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Uma resposta to “Carta a Lola”

  1. J. Campos Says:

    Há uma grande beleza em seu texto, Roldan. É sempre prazeroso para mim ler as coisas que escreve. Um forte abraço.


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