A Morte da Amada Mulher Odiada

setembro 2, 2016

A Morte da Amada Mulher Odiada

 

Primeira Sequência – No Velório

        Se pudesse eu a estupraria depois de morta. Não por amor ou tesão. Mas por ódio. Assim ela iria para o outro mundo – se é que existe essa bosta do tão decantado outro mundo – com minha porra dentro da boceta como lembrança do meu caralho. Ela que consumiu metros do meu caralho e litros de minha porra ao longo dos anos de casados e de mais alguns anos de descasados amantes. Seria um tanto insólito um cadáver de fêmea com leite de macho na mítica bursa. Mas não seria possível comê-la depois de morta. Primeiro porque não vou poder ficar sozinho com o corpo. Segundo porque meu pau não iria levantar. Seria gozado enfiar o cacete na carne fria. Não gosto de necrofilia. Não me dá tesão. Então Beduíno, por que você está falando tanta besteira? Não me chame de Beduíno! Meu nome é David Haize. Mas todo mundo te conhece por Beduíno ou Bedú. Mas eu não sou beduíno. Você é beduíno, sim. Nasceu nos confins do Marrocos, quase no deserto do Saara. De mãe beduína e pai judeu. Um judeu malucão, aventureiro e ateu que raptou tua mãe. Mesmo porque a tribo não iria permitir que uma muçulmana casasse com um judeu. A minha mãe era berbere, não beduína. É a mesma coisa, tudo raça das areias escaldantes, que limpa o cu com areia depois de cagar. É a mesma coisa porra nenhuma. São duas etnias, duas línguas e duas culturas diferentes. Mas teu pai chamava tua mãe de Beduína. Ele a chamava de Beduína, mas era apenas um apelido carinhoso. E vê se me deixa em paz agora com essa história de família. Mas você amava profundamente teus pais e sempre falou deles em todos os teus livros. Sim, eu os amava profundamente, mas eles estão mortos. Mortos como meu irmão. Todos mortos. Caralho! Não é hora de pensar nisso. Por que não? Quando se vela um morto sempre aparece um ou outro flashback. Não estou pensando em nada. Vá chupar o pau de Zeus, porra! No caso não seria mais o pau de Hades, deus dos mortos? Ou então vá comer o cu de uma ema. Nossa, que delícia, deve ser bem quente. Me deixa em paz. Estou cansado. Com sono. Minha nora me acordou a uma hora da manhã para me comunicar o falecimento de minha ex-mulher. Não estou pensando em nada. Nem nos metros de pica que você enfiou na tua mulher ao longo de tantos anos? Agora é você que está falando besteira. Nem nos litros de porra que você soltou na boceta de tua mulher ao longo de tantos anos? Para de falar besteira, porra! A morte de um membro da família, de uma pessoa íntima, deixa atordoado. Com a cabeça confusa, embotada pelo impacto. É, David Beduíno, não é fácil, não. Estou cansado de tomar café e de fumar para espantar o sono. Cansado de receber abraços e pêsames. Quero ficar sozinho. Quero dormir. Isso mesmo. Não pensar em nada. Afundar no sono e dormir doze horas sem interrupção. E me vem uma náusea da vida. Uma náusea da existência. Porque tudo acaba em morte. Porque o fim de tudo é a morte. Porque para um animal como eu, a morte é suja. Que lassidão! Ainda mais que estou ficando velho. Perdendo as ilusões. O apetite de viver. Só o estômago que ainda não está saturado. Nem o pau, que ainda gosta muito de meter.  Sim, sexo e comida. Como bom hedonista, duas coisas que ainda me dão prazer. E quando não puder mais nem meter nem comer, é melhor morrer. E se a morte demorar a chegar, é melhor antecipá-la por conta própria. Viver sem ilusão, ainda vai. Mas sem o prazer do sexo e da comida não dá. É, Beduíno, as ilusões dão o fora com o passar dos anos e a pessoa vai ficando cada vez mais sozinha. Sim, você tem razão, estou cada vez mais sozinho. Perdi meu pai, minha mãe e meu irmão. E agora, minha ex-mulher, mãe de meus dois filhos. Isso sem contar tios, tias, primos, primas e muitos amigos. E aí a gente não tem mais nada para conversar. Não tem mais nada a dizer aos outros. É, David Haize, Beduíno do Saara, ainda bem que você escreve. Sim, realmente, ainda bem que eu escrevo, que é o que me retém neste mundo. Como muito e, de vez em quando, dou uma trepada circunstancial.

 

Segunda Sequência – Flashback

Eu a amei muito. Foi a mulher mais importante de minha vida. Ou, como se costuma dizer, a mulher de minha vida. Como era bonita quando jovem. Uma beleza diferente. Eu tinha ciúmes, mas nunca o demonstrei. Tinha um tesão louco por ela. Quando casei, era o homem mais feliz do mundo. Quando nasceu nosso primeiro filho, eu era o homem mais feliz do mundo. Quando nasceu nosso segundo filho, eu era o homem mais feliz do mundo.  Céus! Como a vida em família pode ser linda quando a gente ama e é amado. Como o mundo inteiro parece melhor. Como os horrores deste nosso mundo se tornam distantes. Eu era tão feliz que naquela época escrevia muito pouco. Será que a felicidade é prejudicial à escrita e à arte em geral? Será que o artista que é feliz produz menos que aquele que é infeliz? Não sei. Sempre afirmei que o desassossego – e até certo ponto o desespero – gera energia. A energia necessária para criar. Que a dinâmica da criação é o desejo, seja qual for. Aliás, o desejo, de modo mais abrangente, é o motor da existência. O desejo que nos impulsiona. O desejo que nos faz lutar. O desejo que mantém vivo o desejo de viver. O desejo que nos faz amar a vida. O desejo que torna a existência vida. O desejo que nos leva a continuar vivendo. O desejo que nos tira do absurdo. Desse absurdo universal de quem só acredita na Arte e no prazer. Sim, ela era o desejo de viver. E quando ela me largou, o mundo desmoronou. E aí todo o desejo se concentrou na literatura. Toda a força do amor que sentia por ela foi aos poucos incorporando a literatura como meio de sobreviver ao vazio. Ao vácuo sem nome daqueles que não desejam mais nada. Sim, doeu muito quando nos separamos. Doeu, essa ruptura que eu não queria. Doeu que eu não sabia viver sem ela. E chorei, chorei. É, Beduíno, é foda, né? Sim, é foda mesmo.

 

Terceira Sequência – Raiva e Ressentimento

– Por que você quis romper?

– […]

– Porque teu amor por mim tinha acabado?

– […]

– Porque você estava estressada por causa da tua família disfuncional, com pai violento, alcoólatra e mãe omissa?

– […]

– Porque você não aguentava mais cuidar de uma mãe com problemas mentais e de uma tia solteirona também com problemas mentais, que sobraram para você porque todos os outros membros da família também eram uns bostas e não queriam saber de ajudar nesse teu fardo tão pesado?

– […]

– Será que você não percebia que eu te ajudava nesse fardo da melhor forma possível?

– […]

– Por que você tinha tanto ciúme de minha filha, tua enteada?

– […]

– Por que você tinha tanto ciúme da literatura, ou seja, do fato de eu escrever?

– […]

 

– Por que você tinha tanto ciúme pelo fato de eu publicar (a ponto de sempre se exclamar com irritação: mais um livro!), como se eu estivesse fazendo algo errado? Ou era porque você teria gostado que o dinheiro que eu gastava na publicação fosse usado para qualquer outra coisa da casa menos para publicar livros? Por acaso eu deixava faltar algo em casa? Será que você se esquecia de que eu levava lanche de casa ao trabalho para economizar o dinheiro do almoço no restaurante?

– […]

– E depois da separação, por que essa sua frieza e essa agressividade? Por que você falava mal de mim aos nossos filhos dizendo que eu era machista (por que machista? Porque gostava muito de sexo? Machista eu, que sempre admirei mulheres livres como Joana D´Arc, Jeanne Hachette, Agustina de Aragón, George Sand, Anita Garibaldi, Florbela Spanca, Rosa Luxemburg, Olga Benário, Hannah Arendt, Jane Fonda e Susan Sontag, entre outras?) e egocêntrico (por que egocêntrico? Porque me dediquei toda a vida à literatura sem, no entanto, negligenciar minha família?)?

– […]

– Que foi que eu fiz para você me tratar como um filho da puta?

– […]

– Será que você se esqueceu de que eu te amava profundamente e que vivia exclusivamente para você e os meninos e que me matava de trabalhar para o sustento da família, dando aulas particulares depois do expediente na empresa?

– […]

– Será que você não percebia que, mesmo depois de separados, eu tinha o maior respeito por você, te ajudava em muitos sentidos e queria ter amizade com você?

– […]

– Será que você não notava que durante anos e anos te mandei flores para teu aniversário e você nem sequer se lembrava de mim ou fazia questão de me ignorar quando eu completava anos? Nem sequer um telefonema?

– […]

– Por que tanta indiferença (ou era ódio?) a ponto de mal me cumprimentar?

– […]

– Por que tanto ódio a ponto de jogar fora todos os livros de minha autoria que te ofertei, dedicados a você e aos meninos?

– […]

– Por que tanta falta de generosidade afetiva para com o homem que tanto te amou? Para com o pai dos teus filhos?

– […]

– Por que tanta amargura, tanto ressentimento?

– […]

– Será que você não percebeu que morreu envenenada de tanto amargor, de tanto rancor, de tanta mesquinhez?

– […]

– Não, você não percebeu. Você não percebeu nada. Você só percebia que era a maior vítima do mundo e fez desse seu complexo de vítima a razão de existir. Você estava seca e não era capaz de dar nada.

– [..]

– Pois então morra com tua morte. Exatamente como você me apagou totalmente de tua vida.

Calma, Beduíno, calma. Calma a puta que pariu! Vá tomar no cu! Me deixa em paz. Quero dar vazão à minha raiva. Calma, David Haize, calma, que você também não é flor que se cheire. Eu sou íntegro e leal, e ela nunca reconheceu isso. Você é muito susceptível, se queima por nada e é estourado demais. Juntar ego exacerbado e pavio curto dá o que você é. Eu sempre fui honesto com ela. Sempre a tratei com respeito. Eu não saía com outras mulheres. Eu não bebia. Não comprava nada para mim. Vivia para a minha família. Agora, que ninguém venha gritar comigo, me tratar com desrespeito, agressividade ou queira me impor algo ou desprezar meus valores, porque aí eu viro uma fera, grito mais alto e quebro coisas contra a parede. Ela era desequilibrada como a mãe e a tia. Era bipolar. E não me venha com essa desculpa de que ela foi muito maltratada pela vida, rejeitada pelo pai e pela mãe durante a infância e a adolescência. Eu também fui maltratado pela vida de modo muito duro. O que não impede que eu seja generoso afetivamente falando. Que eu seja amoroso. Que eu seja capaz de ternura e perdão depois da tempestade. Mas ela não. Ela não perdoava. Ela vivia armazenando raiva, rancor, ressentimento e não era capaz de reconhecer seus erros. Eu tenho defeitos, mas quando erro tenho a honestidade de admitir que errei. O que ela jamais fazia. Ela se achava perfeita. Só ela sabia fazer as coisas. Ninguém, a julgar pelas suas atitudes, fazia as coisas tão bem quanto ela. Era de uma arrogância insuportável. Era dura demais. Inflexível demais. Autoritária demais. E eu detesto que alguém mande em mim. Ela morreu de amargura e solidão – sim, ela era muito sozinha, não tinha nenhum amigo. E vivia falando mal de mim. Dizendo aos nossos filhos que perdeu os melhores anos de sua vida ao casar comigo, que nunca deveria ter casado. Eu nunca, jamais, falei isso nem para nossos filhos nem para ninguém. Casei com ela e ela me deu dois lindos filhos e a amei muito. Por que haveria eu de estar arrependido de ter casado? Beduíno, se você diz que sabe perdoar, perdoe-a. Sim, perdoe-a. Ela já morreu. Ela tinha qualidades: era honesta, trabalhadora, e cuidava muito bem dos filhos e da casa. Sim, é verdade, mas ela me tratava, depois da separação, como se eu fosse um filho da puta. Beduíno, ela estava querendo apagar você da vida dela. Foda-se a vida dela! Mas era a forma que ela encontrou para passar a borracha num capítulo que ela queria esquecer, o capítulo do fracasso do casamento. Custa-me entender isso. Mas você tem de entender, Beduíno. Você tem de entender que cada um é como é. E que não podemos esperar que o outro aja exatamente como queremos. Mas ela foi muito filha da puta comigo, principalmente depois do acidente que deixou nosso filho caçula de cadeira de rodas. Ela estava estressada, exausta. Mas nada justifica a atitude dela. Eu não tenho culpa pelo fato de nosso filho ter sofrido um acidente. Tudo bem, Beduíno, debite as atitudes agressivas dela no desequilíbrio emocional dela. Por outro lado, ocorre-me que talvez ela visse em você a figura do pai. Mas eu era todo o oposto do pai. Mas você representava o homem, o macho. Não faz sentido o que você diz. E pare de remoer essas lembranças. Estou remoendo essas lembranças porque ela não foi ainda enterrada (aliás, cremada), porque a coisa é recente e dói. Mas ela passou a vida inteira remoendo o que era ruim, sem jamais pensar no que lhe ocorreu de bom. Vira a página, Beduíno, vira a página. Não se vira a página de uma hora para outra. Ainda mais que o corpo dela ainda está na geladeira aguardando a cremação. O cadáver gelado na solidão gelada dos outros mortos. Chega, Beduíno, chega. Você está ficando mórbido. Eu, eu… Céus, que tristeza! Chora, Beduíno, chora. Chora, David Haize, chora. Chora a morte da amada mulher odiada. Eu não a odiava. Como poderia odiar a mulher que me deu dois filhos? Eu apenas sentia raiva. No fundo raiva de não ser amado pela mulher que tanto amei. Mas, Beduíno, nunca te ocorreu que talvez ela sentisse a mesma coisa? Ou seja, raiva de não ser amada pelo homem que ela, numa época já distante tanto amou? Mas eu nunca deixei de amá-la. Será que ela não percebia? Beduíno, talvez ela esperasse que você lhe dissesse isso, que você nunca deixou de amá-la. Mas você nunca falou nada. E você sabe que ela era muito orgulhosa. Tão orgulhosa quanto você. Sim, sim, tão orgulhosa quanto eu. Mas ela não me amava. No primeiro Natal depois da separação, nossos filhos armaram um complô para que nos reconciliássemos: inventaram que ela estava me convidando para a ceia de Natal. Era mentira. Era uma invenção dos meninos. Subi ao apartamento deles (eu me mudara para outro apartamento no mesmo prédio, não para estar perto dela, mas para estar perto dos nossos filhos, assim eles podiam me ver todos os dias – eu chorava cada vez que pensava nos meus meninos). Quando entrei, ela me disse que não tinha me convidado, mas que podia jantar com eles. Fiquei com cara de bobo, mas aceitei. Depois do jantar, convidei-a para ir ao meu apartamento. Ela aceitou. E fomos para a cama. E eu chorei de emoção quando a senti novamente em meus braços.

 

Quarta Sequência – Os Sonhos

        Sim, dias depois de termos jogado as cinzas num rio, ela invade poderosamente meu inconsciente. Não com ressentimento, rancor, ódio. Não, ela começa a povoar meus sonhos com amor. Ela sempre aparece em alturas. No alto de um monte, num dia ensolarado, acenando-me – e eu olhando-a, ao pé do monte. Ou então numa trilha, subindo uma montanha comigo e pegando minha mão e eu me dizendo: Nossa, ela está pegando minha mão, o que quer dizer que agora ela me aceita, que agora é minha amiga. Ou então num cômodo vazio, iluminado pela claridade vinda de grandes janelas, ela deitada no chão, nua, com as pernas em posição de parturiente, mostrando-me o mistério de seu sexo exposto e dizendo: vem, faz tempo que não fazemos. Ou então numa plataforma sideral, iluminada pela lua e cercada de estrelas, e nós dançando a Valsa Número Dois, de Shostakovich. Sim, ela me ama e não me rejeita mais. E eu a amava… Ah, que saudade de quando ela me amava…

01-07-16

 

 

 

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4 Respostas to “A Morte da Amada Mulher Odiada”

  1. J. Campos Says:

    Parabéns, Roldan-Roldan, seu texto é belíssimo.

  2. Robert de La B. Says:

    É, Basco, o bagulho é louco. Não o ser pai, marido, vivente. Isso é duro, mas é compartilhado pela humanidade. Louco é o bagulho de ser escritor, quando cê abre as pernas pro mundo, contando – misturando ficção e realidade – as experiências e as vivências interiores de um homem, David Haize.

    Quem conhece, sabe que é um tanto de você e outro tanto de ficção. Quem não conhece, pode achar que é tudo você; ou, mais espertamente, achar que é essa mistura – mas o que será fato e o que será imaginação? Nessa literatura, é muito risco pro escritor.

    Tem que ligar o foda-se, abrir as pernas, ser destemido. É muita coragem, Basco. Pra um cagão como eu, inimaginável. Quando eu virar gente grande, serei como você – se calhar de ocorrer, a conferir.

    Um beijo nesse seu caralho valente; um beijo nesse vivente amoroso; um beijo nesse escritor de coragem; um beijo nesse Basco iconoclasta que há anos me batizou de Robert de La Bucetière. Padrinho de um batismo tão bom quanto um do Seu Bergoglio, outro Homem Bom. Amém.


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