Uma Semana na Vida de Um Escritor

outubro 3, 2016

Uma Semana na Vida de Um Escritor

 

 

Segunda-feira

        Não sei o que deu em mim de querer escrever um diário. Para alguém de vida insípida, não faz sentido escrever um diário. Ou talvez faça justamente porque não tenha nada a dizer. O que me leva a indagar o motivo de não ter nada a dizer. Mesmo porque em literatura pode se extrair muita coisa do nada. Refiro-me aos nadas da vida, os nadas cotidianos. Nada a ver com o Nada. Esse Nada que converge com o Absoluto. Por outro lado, mesmo que seja para escrever apenas um parágrafo diário, o fato de sentar e redigir as pequenas ocorrências do dia a dia já significa estar escrevendo, estar ativo. E eu preciso absolutamente escrever para sobreviver. Não para sobreviver materialmente (como fazia Balzac, que escrevia compulsivamente para publicar e pagar as dívidas), porque meus livros não me rendem praticamente nada, mas para sobreviver mentalmente, intelectualmente, já que é a escrita que me energiza e me faz tocar o barco. É a escrita que constitui minha razão de continuar vivendo. Estou tão imbuído do absurdo universal, que só a escrita me tira desse absurdo e dá um norte a minha existência. Não creio em nada, a não ser no prazer. E a literatura é um prazer. Nesse sentido talvez eu seja mais epicurista que hedonista. Embora o hedonismo (sexo e comida) esteja presente em minha vida diária e em minha obra. Deste mundo nada se leva. Portanto, o que importa é gozar o que a existência nos oferece sem questionar em absoluto o apego ao prazer. Mesmo porque só se vive uma vez. Sempre digo e repito isso. E nada prova o contrário. Logo, não deixemos para amanhã o que podemos gozar hoje.

 

Terça-feira

        Como disse ontem, o importante é escrever algo, por pouco que seja, todo dia. E atualmente não tenho tempo para escrever um livro. Um livro, um romance, por exemplo, requer meses de anotações e de maturação. E depois, de um a três anos para ser redigido e lapidado. No caso, tratando-se de um romance médio, de umas 200 páginas. Isso sem contar que o romance exige uma assiduidade, por assim dizer, de trabalho. Em outras palavras, o escritor não pode ficar um longo período sem redigir o romance uma vez começado. Não pode, por exemplo, escrever hoje dez ou vinte páginas e passar duas ou três semanas sem retomar o trabalho. O romance requer uma continuidade de criação sem longos períodos de interrupção, senão o autor perde o fio da meada.

Hoje fiz faxina em casa. O que leva praticamente o dia todo. Faço eu mesmo porque não tenho como pagar uma faxineira. Ando mais duro do que pau de recém-casado. Para compensar a chatice de limpar a casa – não gosto mesmo de me ocupar da casa – coloco música. Blues (Buddy Guy, BBKing, Koko Taylor, Alberta Hunter, Janis Joplin), que adoro e que me transmitem muita energia. Ou determinadas árias de ópera (como Toreador, de Carmen, de Bizet, Libiamo, de La Traviata, de Verdi ou Lascia ch´io pianga, de Rinaldo, de Haendel) que também me passam energia. Ou oratórios como A Paixão de São Mateus, de Bach ou O Messias, de Haendel, igualmente muito energizantes. Nunca ouço o famoso adágio de Albinoni, durante a faxina, pois fico muito triste, muito mesmo e aí esse estado é negativo para executar a tarefa. Ouço esse adágio quando quero me preparar para escrever algo muito melancólico, muito nostálgico. Levo umas oito horas para limpar o apartamento. Às vezes paro para dançar um blues de Koko Taylor (deve ser engraçado, eu pelado, mas de tênis, dançando blues com a vassoura na mão), ou para sonhar um pouco com Libiamo ou para fazer alguma anotação de ideia surgida repentinamente na minha mente ou para tomar chá verde e fumar um cigarro, o que atrasa a faina caseira – e no fim do dia não tenho nenhuma disposição para escrever. No máximo participo de algum debate de escritores pela internet e dou meu ponto de vista de fucking angry old man. Não tenho muito saco para contemporizar nesses debates.

Hoje talvez assista a algum filme na TV a cabo. Não posso ficar muito tempo sem ver um bom filme. Mas não tenho paciência para ver esses blockbusters que deixam certos críticos (que não sabem o que é cinema) extasiados como cretinos. Por sinal, a semana passada revi Um Lugar ao Sol, de George Stevens. Grande filme. O tipo de obra perfeita: roteiro, fotografia, interpretações de Montgomery Clift e Shelley Winters mais o esplendor da beleza de Elizabeth Taylor. Sem contar, obviamente, a direção de Stevens, primorosa nos detalhes, no distanciamento, na contenção e na crítica social. George Eastman, o protagonista, é devorado pela engrenagem social, exatamente como o inesquecível Julien Sorel do emblemático O Vermelho e O Negro, de Stendhal. Ambos, pobres, mas ambiciosos, são destruídos pela aristocracia que não perdoa que alguém de classe social inferior ouse.

 

Quarta-feira

        Ontem à noite, depois de ver o filme (Fruitvale Station – Última Parada (muito bom, gosto muito do cinema independente norte-americano) na TV paga, dei-me conta de que só tinha uma lata de sardinhas, um pedaço de pão preto e uma banana para jantar. Estou farto de viver na pendura. Estou cheio de não poder encher a geladeira de tudo o que gosto de comer. Cheio de viver duro e de ter de controlar todas as despesas. Odeio ter de controlar, regular o dinheiro. Isso me deixa muito irritado. Não nasci para racionar nem para racionalizar o dinheiro. Até parece que ganho muito. Não é que eu seja consumista, mas sou um gourmet e gosto de comer bem.

Por falar em dinheiro, os aparelhos eletrodomésticos em casa estão num estado lastimável. A TV, que tem mais de vinte anos, funciona mal. O telefone, mais de vinte anos, funciona mal. O rádio-relógio já não funciona de tão velho. A geladeira (mais de trinta anos) está em péssimo estado. Uma das janelas quebrou e ameaça despencar na rua, portanto não posso abri-la. Sim, está certo, eu não me preocupei muito com os eletrodomésticos de casa, mas cheguei a um ponto em que preciso trocá-los. E agora não tenho dinheiro para isso. E não tenho mais cartão de crédito. Não tenho grana nem para comprar roupa. Antes eu doava a roupa velha. Agora a uso até rasgar. Que merda viver desse jeito.  Não estou mais dando aulas. Os livros que agora coloquei na Amazon não rendem nada. E com a aposentadoria só dá para comer e pagar as contas – às vezes atraso o pagamento do condomínio. Essa dureza me leva a sonhar que talvez eu encontre um editor que “veja” minha obra e que queira reeditá-la.

 

Quinta-feira

        Hoje fui à casa do meu filho caçula, deficiente físico (cadeirante depois de um acidente de moto). Na realidade vou quase todo dia depois que sua mãe (minha ex-mulher) morreu. Preciso ir buscar remédios no posto de saúde. Ou aprovar guia na Unimed. Ou marcar consulta pessoalmente com o médico. Preciso me ocupar também da avó (mãe de minha ex, que mora com meu filho), pois ela tem 88 anos e não pode ir sozinha ao médico. Bem, como estava dizendo, fui à casa do meu filho, peguei a receita e fui pegar os remédios. Passei mais de uma hora na fila do posto de saúde. Voltei para casa do meu filho, deixei os remédios e retornei a minha casa. Conclusão, lá se foi a manhã inteira. E é justamente de manhã que minha mente está melhor para escrever.

É difícil escrever aos trancos e barrancos – por mais que eu precise escrever para manter meu equilíbrio psicossomático. Primeiro, são os afazeres do dia a dia em casa e na casa do meu filho. Depois, é o sufoco da situação financeira que me tira o sossego. Já tive que pedir dinheiro emprestado a meu filho mais velho e a um amigo e não consigo devolver. E o pior é que não existe nenhuma perspectiva de melhora das finanças. A menos que surja um mecenas que se interesse em reeditar minha obra e eu ganhe algo, pelo menos para pagar as dividas. Sim, é difícil, nessas circunstâncias, escrever. Preciso de um pouco de paz de espírito e de mais tempo para mim. Logo, de mais dinheiro para comprar essa paz de espírito e esse tempo necessários para escrever.

É por isso que não tenho paciência para aturar frescuras burguesas em geral e de escritores burgueses que não sabem o que é trampar para não passar fome, para sobreviver. Quanta babaquice. Quanta futilidade. Quanta superficialidade. Para não dizer quanta alienação e imbecilidade. Gosto de escritores viscerais. Daqueles que jorram o seu sangue nas páginas que escrevem. Gente como Bukowski, Genet ou Violette Leduc.

 

Sexta-feira

        Ontem à noite, antes de dormir, bati uma boa punheta salivada na cama. Embora sem fantasia, bati bem devagar, para retardar a chegada do gozo. Meu pau respondeu bem à chamada do prazer. Ainda bem. Eu me masturbo regularmente. Pelo menos uma vez por semana. Há períodos em que estou atacado e surto – por assim dizer. Aí toco bronha diariamente durante uma semana ou mais. Até apagar o tesão. Esses surtos são periódicos. Fazem bem ao coração, ao intestino e ao sistema nervoso.

Hoje almocei com Maya num restaurante popular, por quilo. Maya foi um amor da juventude. Casou. Eu Casei. Fez filhos. Eu fiz filhos. Descasou. Eu descasei. Mas seu ex continua vivo. Minha ex morreu. Continuamos amigos depois de tantos anos. Ela foi militante de esquerda e esteve presa. Atriz de teatro. Professora. Morou dois anos na França e um ano nos EUA. Agora ela está sozinha, como eu. Mas ela anda mal da cabeça. Apaga tudo da memória e é cansativo conversar com ela, pois esquece tudo e é necessário repetir quatro ou cinco vezes até ela guardar algo na memória, embora por pouco tempo. Mas ainda é uma pessoa cheia de vida, inteligente e de mente aberta. Gosto muito dela.

Minha filha me telefonou de Barcelona, onde ela mora há muitos anos. Está bem. Namorando um mauritano. Ultimamente anda na fase de namorar africanos. Sinto saudade dela e da maravilhosa e vibrante cidade de Barcelona. Uma coisa me deixa feliz: ultimamente ela está se interessando pelo que escrevo e anda me lendo.

No fim da tarde fui ao supermercado. Está tudo muito caro. Faz tempo que cortei queijos, geleias, chocolates amargos importados e frutas caras.

Kunta me ligou e convidou para uma pizza no sábado.

 

Sábado

Tive um pesadelo está noite. É um pesadelo recorrente. Sonhei que estava em casa, deitado, dormindo e que alguém entrava em meu apartamento. Alguém ameaçador que eu não via. Eu queria gritar para acordar os vizinhos e pedir socorro, mas não conseguia. Acordei. Às vezes sonho que estou numa trilha, à beira de um precipício, encostado num paredão rochoso, sem ousar me mexer. O medo de despencar no abismo me faz acordar. Outras vezes sonho que voltei a trabalhar na empresa onde trabalhava antes de largar tudo para me dedicar à literatura – esse é o pior de todos os pesadelos e, no próprio sonho, me digo que tudo isso é apenas um sonho, pois há anos que larguei esse emprego. E às vezes sonho que estou trepando com minha ex-mulher, já falecida.

De manhã lavei roupa e arrumei algumas coisas em casa. Depois iniciei dois debates num grupo de escritores, na internet. Um é A Alienação do Escritor Contemporâneo. O outro é Escritor, Por Que Você Escreve?. Acredito que o segundo dará mais interlocutores do que o primeiro, mesmo porque o escritor gosta de falar muito de si e de fazer o mundo girar em volta do seu umbigo e de falar pouco ou nada de sua alienação sociopolítica. Hoje em dia, os imbecis consideram que ter consciência sociopolítica é algo démodé. Os escritores engajados não estão mais na moda. O mesmo acontece com os cineastas. Sobrevivem Ken Loach e Robert Guédiguian. O neoliberalismo é um câncer que destrói a consciência.

E por falar em política e neoliberalismo, leio todo dia o jornal enquanto almoço num restaurante barato. Às vezes fico tão revoltado com as injustiças deste mundo, que a comida fica entalada na garganta. Essa revolta contra a injustiça me leva a escrever artigos virulentos num jornal, artigos que, depois de publicados, edito em meu blog. Recebo elogios, mas também há leitores que querem me ver morto. Alguns amigos dizem que é preciso muita coragem para escrever o que escrevo nessas matérias.

 

Domingo

Ontem à noite fui jantar pizza com Kunta. É um velho amigo, professor universitário de literatura brasileira. Militante dos direitos do homem negro. Pesquisador da influência dos escravos brasileiros no Benin. Gosto muito dele. Ele gosta de minha pessoa e aprecia muito minha obra. Já escreveu vários artigos, resenhas e ensaios sobre meus livros. Aliás, sua tese de mestrado foi Surrealismo e Realismo na Obra de David Haize, sobre minha obra. Sou-lhe muito agradecido por ter escolhido meu trabalho para sua tese. Bem, a conversa girou, para variar, em torno de literatura. Bebi bastante vinho e acabei meio bêbado, repetindo, com os olhos marejados, que ninguém lê meus livros. Kunta me disse – e não é a primeira vez – que o que escrevo não é para o grande público, porque não falo de crepúsculos, magos, bruxas e bruxos, nem de mensagens edificantes e autoajuda, que é o lixinho da vez que se vende hoje em dia. Fiquei muito contente em rever Kunta, que é um apelido, pois ele é negro. É um puta amigão, muito digno e inteligente.

Meu filho mais velho me convidou para almoçar – alegando que a mulher estava viajando e que fazia tempo que não me via. Fomos almoçar num restaurante japonês. Comi que nem hipopótamo. Tirei a barriga da miséria. Digamos que a semana foi boa em termos gastronômicos. Convidado a comer pizza no sábado e comida japonesa (que adoro) no domingo. Dois pequenos agitos – sem contar o almoço com Maya, mas aí cada um pagou o seu. Bem, vi meu filho mais velho e dois amigos íntimos. Para quem passa meses sem ver ninguém (a não ser meu filho caçula cadeirante), já é muito. A solidão vai aumentando conforme avançamos na idade.

E lá se foi a semana. Minha vida está mais para dono de casa do que para escritor. Não tenho uma vida de loucas aventuras como Rimbaud ou Hemingway. Nem de engajamento como Malraux ou Régis Debray. Nem de marginalidade como Villon, Genet ou Mohamed Choukri. Nem de mistério como Isidore Ducasse, conde de Lautréamont. Embora tenha viajando muito quando jovem (mas não tanto quanto o tangerino Ibn Batouta), minha vida está mais para Kafka. Sim, a agonia de não poder mudar o rumo de minha vida. A aflição de constatar que, por mais que lute, nem tudo depende de minhas ações para reverter o curso de minha existência. Que há algo que, até certo ponto, rege nossa trajetória. Algo que os gregos chamavam de Destino, benevolente ou generoso com alguns, cruel com outros. Sim, o enigma kafkiano, a trava, a não saída, o inexplicável, o ilógico, o absurdo. E o longo cortejo de perguntas que permanecem sem resposta, ou que, para os simplórios, encontram explicação em Deus, ou seja, na vontade de Deus. Explicação simplista e irracional que não me satisfaz. Porém, talvez essa perplexidade, essa impotência de não ser capaz de chegar a uma conclusão, esse racionalismo, essa racionalidade, ou essa racionalização de Deus nos levem (pelo menos àqueles que “pensam”) a fechar o círculo, ou seja, a voltar ao início, ao ponto zero primitivo e a concluir que somos incapazes de “saber”, o que pode nos conduzir a admitir honestamente nossa impossibilidade de estabelecer um critério – já que sempre estaríamos longe de uma convicção – e, perante nossa ignorância, a inclinar humildemente a cabeça e confessar que não sabemos, que se trata de algo além de nossa compreensão. No entanto, pergunto-me: a Razão pura leva (ou eleva) a Deus? Inútil frisar que é simplista tanto afirmar quanto negar a existência de Deus.

Enfim, deixando de lado esta pequena digressão filosófica e voltando a colocar os pés no chão duro da realidade tangível que as circunstâncias nos obrigam a pisar, atualmente sou apenas um escritor do vazio da vida cotidiana, que mistura fatos reais pessoais e fictícios, como fazia Bukowski. Como neste diário onde não acontece nada. Um diário sem importância que não merece ser continuado.

 

16-07-16

 

 

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4 Respostas to “Uma Semana na Vida de Um Escritor”

  1. J. Campos Says:

    Parabéns, Roldan-Roldan. Seus textos são sempre belos e tocantes.

  2. mariel Says:

    Viu? A vida é tudo, menos nada


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