Oi, Vizinho. Posso Entrar? Feliz Natal!

dezembro 1, 2016

Oi, Vizinho. Posso Entrar? Feliz Natal!

 

– Não acredito. Não posso acreditar. Se eu não visse com meus próprios olhos, não acreditaria. Como é que pode?  É muita desfaçatez. É muita cara-de-pau. É muita sem-vergonhice. Eu não sou nem fresca nem puritana. Mas tem certas coisas que não admito. Tem coisas que passam do limite e que são inadmissíveis. Todos nós temos defeitos. Todos nós damos mancadas. Todos nós temos falhas. Todos nós erramos. Mas a paciência se esgota. E a tolerância tem limites. Não sou perfeita. Longe disso. Mas tem uma coisa: eu não admito falta de respeito. Sou tempestiva. Temperamental. Deve ser o sangue espanhol do meu pai e o sangue italiano da minha mãe. Mas sou justa e me revolto com injustiça. E rodo a baiana quando é preciso. E coitado daquele ou daquela que me enfrentar. Porque não deixo barato. Sou uma mulher educada, compreensiva e carinhosa. Mas não cutuque a onça com vara curta. E eu sei muito bem o que estou falando. E como sei! Faz tempo que poderia ter dado um chute no meu marido. Que ele bem que merece. Mas não faço isso. Não por falta de coragem. Porque coragem tenho até de sobra. E sou muito decidida. Não penso duas vezes. Mas não o largo porque o amo. Se ele merece meu amor, é outra história. Nada me impede largá-lo. Nossas duas filhas já casaram. Estou sozinha com ele em casa. Às vezes me pergunto: por que fico com esse homem que… Deixa para lá. Fico com ele porque o amo. É meu marido, pai de minhas filhas e o amo. É claro que poderia apelar para algo mais cômodo que me permitisse gozar a vida sem abandoná-lo. Mas eu tenho princípios. Princípios muito sólidos que herdei dos meus pais. Não sou mulher de enganar ninguém. Menos ainda meu marido. Não sou mulher de vários homens. Quando estou com um homem, é só esse homem. Não interessa se já não transo mais com meu marido. Ele bebe. Bebe demais. E a bebida impede a ferramenta de funcionar. Paciência. Todos nós temos nossa cruz. Eu ainda tenho muito carinho e ternura por ele. Mas não sou santa nem heroína. E confesso que sinto falta de sexo. Que tenho muito desejo. Sou uma mulher fogosa que curte os prazeres da cama. Mas arranjar um amante é algo que não me passa pela cabeça. Embora ele, meu marido, tenha insinuado, sem falar abertamente, que posso arrumar outro homem, desde que não largue o companheiro de tantos anos. Pobrezinho do meu marido, nunca, jamais vou largá-lo. Não sei como iria me sentir nos braços de outro homem. Pensaria no meu marido e me sentiria culpada. Ah, meu Deus! O que eu não daria para que a ferramenta dele funcionasse. Já até rezei para santo Antônio para que ele realize esse milagre doméstico. Mas aparentemente santo Antônio deve ter coisas mais importantes para resolver. Mas deixemos minha história de lado. O que eu queria mesmo é falar de você, meu caro vizinho. E de tua tristeza. Uma tristeza mais do que justificada. Não me conformo com o que está te acontecendo. E, para falar a verdade, fico revoltada com o que você é obrigado a engolir. Sabe, vizinho, o que te ocorre me toca, me afeta, pois você é uma pessoa que apreço muito. Mas não vá pensar mal. Não estou te cantando. Apenas… Apenas bato no teu apartamento para te entregar um panetone para as crianças e uma garrafa de vinho para vocês e… E de repente você começa a chorar e me conta. Me conta algo que já sabia, pois ninguém é bobo e só uma parede separa meu apartamento do teu. Um homem tão bom. Tão trabalhador. Tão amante de sua família. E tão bonito. Porque você é um homem muito bonito. Se eu fosse tua mulher… Deixa para lá. Ela não sabe o que está perdendo – ou vai acabar perdendo. Ela vai se arrepender, essa biscate, essa vagabunda, essa vadia. Desculpe, meu querido, desculpe. Quando estou brava xingo para valer. Essa mulher não tem o mínimo respeito por você nem pelos teus filhos. Isso não é coisa que se faça com o pai dos filhos dessa vaca no cio. Tua mulher não te merece. Dá um chute nela. Mande-a para puta que pariu. Sabe de uma coisa? Ela merece uma surra. Tem que apanhar para aprender a respeitar o marido e os filhos ainda pequenos. Mas nem puta faz isso. Isso mesmo, pior do que marafona. Desculpe, meu querido, mas estou muito revoltada como o que essa rameira te aprontou. E não é a primeira vez. Sei lá quantos amantes ou casos ela já teve. Já a vi com vários homens. Uma vez no shopping, no cinema, à tarde, beijando um barbudo. E uma vez que você viajou com teus filhos para a casa dos teus pais, ela trouxe um macho careca para tua casa. E transaram a tarde toda na tua cama. Eu ouvia a putana gemer de prazer, de tão alto que ela gemia. Mas desta vez ela extrapolou. Muito filha da puta mesmo. Muito sacana, a lazarenta. Quer dizer que a safada da cadela, com furor uterino, com a boceta em chamas, provavelmente porque conheceu um novo macho hoje mesmo e não podia perder a oportunidade de meter (vai ver que o macho estava de passagem pela cidade e ia embora no dia seguinte), decide passar a véspera de Natal fodendo com o amante casual e larga marido e filhos esperando-a para a ceia de Natal! Mas nem puta rampeira faz isso! E você não fala nada?

– Eu amo minha esposa.

 

15-10-16

 

 

 

 

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5 Respostas to “Oi, Vizinho. Posso Entrar? Feliz Natal!”

  1. Maria Fátima R Machado Says:

    Muito, muito bom. Imagino que você não goste desse tipo de comparação (e permitido esculhambar…) mas me lembrou Nelson Rodrigues, a vida como ela é… Instantâneos da vida em sua crueza, escritos com a beleza necessária. Universais.

  2. Maria Fatima Roberto Machado Says:

    Querido Pafúncio da Antuérpia

    Consegui! Consegui! Fiz um comentário no seu último post. E mais: corajosa, permiti a esculhambação pública!

    Trepei! Trepei com a literatura!

    Beijos da sua

    Maribete do Salgueiro


  3. Excelente texto, Roldan. Gostei muito.


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