Os Esquecidos do Oscar

agosto 10, 2017

Os Esquecidos do Oscar

 

Os prêmios – seja qual for o campo da arte – são, como é sabido, relativos. O que quer dizer que nem sempre é o melhor que vence. Se pegarmos o prêmio Nobel de literatura, veremos que alguns escritores laureados estão praticamente esquecidos. Outros, que o tempo consagrou como grandes autores, hoje clássicos, foram ignorados. Como é o caso de Tolstoi, Proust, Kafka, Joyce, Borges e outros.

No âmbito do cinema, grandes filmes foram praticamente ignorados nos três maiores festivais da sétima arte do mundo: Veneza (o mais intelectualizado e mais antigo), Cannes (o maior em termos de transações cinematográficas) e Berlim (o mais engajado politicamente). Em 1962, quando O Pagador de Promessas recebeu a Palma de Ouro em Cannes, havia obras infinitamente maiores concorrendo, como O Eclipse, de Antonioni, O Anjo Exterminado, obra-prima de Buñuel, e Os Inocentes, de Jack Clayton, obra-prima do gênero e talvez o melhor filme de terror de toda a história do cinema. Claro, isso sem pretender desmerecer as qualidades do concorrente brasileiro. No caso dos grandes festivais, os critérios são outros. Mais exigentes e menos comerciais. Os prêmios são outorgados por um júri formado por gente de cinema: críticos, diretores, roteiristas, produtores e atores internacionais, de vários países, para que não aja favorecimento ao concorrente de uma determinada nação. Mesmo assim, às vezes os jurados, movidos pela simpatia da denúncia ou causa defendida no filme, outorgam o que poderíamos chamar de prêmio político a obras que, do ponto de vista estritamente cinematográfico, são inferiores a outras concorrentes, como foi o caso de Michael Moore, que arrebatou a Palma de Ouro em Cannes, em 2004, com Fahrenheit 11 de Setembro. Quero frisar que sou admirador de Michael Moore, mas Edukators, de Hans Weingartner, e Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasethakul, que também concorriam à Palma de Ouro, eram superiores.

No caso de Hollywood, a coisa é diferente. A Academia melhorou em termos de prêmios no sentido que não prevalece sempre o lado comercial – exemplo: Moonlight: Sob a Luz do Luar, Oscar 2017 de melhor filme, não tinha nada de obra para o grande público. Mas Hollywood tem uma tendência acentuada a premiar atores/atrizes muito jovens em detrimento de grandes veteranos que nunca receberam a cobiçada estatueta. E, em relação aos intérpretes – sem mencionar diretores e roteiristas – cometeram-se muitas injustiças, em alguns casos redimidas (em termos, claro), pelo Oscar Honorário que, para um ator ou uma atriz, não é a mesma coisa que receber o galardão por uma determinada interpretação.

A título de exemplo, citemos alguns daqueles que nunca receberam o prêmio da Academia. Entre as mulheres, mencionemos Greta Garbo, apelidada de A Divina, a mais fascinante, mais sedutora, mais misteriosa estrela de todos os tempos. A mítica Lauren Bacall, esposa do também mítico Humphrey Bogart. A insinuante Barbara Stanwyck. A finíssima Deborah Kerr. A maravilhosa Jean Simmons que, além de boa atriz, era linda. A excelente Gena Rowlands (ainda viva), esposa do maior diretor independente dos EUA, John Cassavetes. A sensível Claire Bloom. A subestimada Viveca Lindfors, cujo talento sempre esteve acima dos papéis que lhe foram dados na Meca do cinema. Thelma Ritter, talvez a melhor coadjuvante que Hollywood nos deu, extremamente espontânea e engraçada; ela foi indicada seis vezes ao prêmio, mas nunca o obteve – aliás, a Academia sempre pareceu ignorar que fazer rir é muito mais difícil do que fazer chorar, e sempre se esqueceu dos comediantes, valorizando mais os dramas do que as comédias. Agnes Moorehead, outra grande coadjuvante, que foi indicada quatro vezes sem nunca ganhar.

Entre os intérpretes masculinos, temos Fred MacMurray, grande comediante. Glenn Ford, parceiro de Rita Hayworth em vários filmes, entre eles Gilda. Gene Kelly, que não era só um grande bailarino. Os britânicos Richard Burton – malgrado ter sido indicado sete vezes – e os notáveis Dirk Bogarde, Alan Bates e Oliver Reed, que trabalharam em filmes memoráveis. E o excelente Harvey Kietel (ainda vivo).

05-07-2017

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4 Respostas to “Os Esquecidos do Oscar”

  1. J.Campos Says:

    Parabéns, Roldan, pelo texto. Excelente, esclarecedor…

  2. lunazzi Says:

    Acho válido pelo que conheço, embora não conheça alguns atores e atrizes que menciona, nem contra quem concorreram. Sei de Richard Burton, grande ator. Seria porque pegou a Liz Taylor, e ficaram com raiva do inglês invasor? E Chaplin então, nem se fala, é uma vergonha que Hollywood vai carregar para sempre. Mas vou dizer uma coisa: o filme “Birdman” não consegui acabar de assistir, e esse agora, o “Moonlight” fui até o final, mas achei um desastre. Não quiseram dar mais um Oscar para a grande Meryl Streep, e deram para a mocinha que só usou duas expressões faciais no filme todo. Parece que votaram com veleidades de artistas, e não pensaram em cinema.


  3. Concordo com você, Roldan. Realmente, em se tratando de literatura e cinema, nem sempre são reconhecidos os melhores.

  4. Marcos Benassi Says:

    Basco, não tô nem aí com o Oscar. Nem com o Osvaldo, o Ovídio, muito menos com o Olenércio. Quero mesmo é dar notícias pro Catapúrcio.

    Enfiei-me num buraco fundo como um ânus de ogro, Basco. Mal e mal, conseguia dar notícias pros meus pais, com esforço. Realmente sumi, fiquei numa catatonia de dar aflição , mas to melhorando. Voltei à tona, visitei meus pais, retomei o trabalho com a minha orientadora… enfim, emergindo.

    Vou ao Mamanguá nesta semana, quer descer comigo para uns dias? Depois você sobe de bumba. Veja aí se o convite lhe serve, ok? Você deve estar saudoso de salgar os bagos, descei, descei.

    Beijo, abraço ursolino ao amigo queridíssimo!


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