Sonho Salpicado de Pesadelos

abril 21, 2019

Sonho Salpicado de Pesadelos

 

Quando me vi, quando tomei consciência, no crepúsculo, estava sentado à beira da estrada.

À minha direita estava, sentado, um menino, meu irmão. A esquerda, sentado, meu pai, jovem. Eu folhava o original de um livro meu, num caderno de espiral. Quando cheguei ao meio do caderno, percebi que havia outro caderno menor – outro livro meu. Abri-o e, para minha surpresa, meu pai, sem tirar esse original das minhas mãos, começou a lê-lo, ele, que nunca lera um livro meu. Uma súbita emoção fez brotar duas lágrimas. Meu pai, sem uma palavra, secou-as com seu dedo indicador. A emoção cresceu. Fechei os olhos. Quando os abri, meu pai não estava mais ao meu lado. Nem meu irmão.

Durante alguns minutos permaneci sentado, quieto, entregue a uma doce sensação provocada pelo gesto de ternura de meu pai. Com um caderno dentro do outro embaixo do braço, com as mãos nos bolsos da calça, levantei-me e comecei a andar, pensando que, talvez, caminhando reencontrasse o meu pai e o meu irmão.

 

PRIMEIRA INTERRUPÇÃO/INTERVENÇÃO

Carnaval. Quadros de Uma Exposição – aliás, acompanhada da música homônima de Mussorgsky. Cores de Delacroix.

Quadro Um: Bolsonaro, como drag queen fantasiada de Lucrécia Bórgia, acompanhada de seus três filhos fantasiados de hienas deslumbradas, lambe, de olhos fechados, o ânus da drag queen Trump fantasiada de bobo da corte fantasiado de suíno chauvinista.

Quadro Dois: Ernesto Araújo, fantasiado de arcanjo caolho, cavalga o dragão de maldade, com uma bandeira enfiada no ânus, enquanto fela o longo pênis retorcido do dragão.

Quadro Três: Damares Alves, fantasiada de Messalina, copula com um bode enquanto 666 gladiadores contemplam o intercurso acariciando o membro, aguardando a sua vez de fornicar com ela.

Quadro Quatro: Ricardo Vélez Rodríguez, fantasiado de feto, dorme o sono dos justos dentro de um ovo de Hieronymus Bosch. À direita, Abraham Weintraub dorme dentro de um ovo de dinossauro decorado por Miró.

Quadro Cinco: Olavo Carvalho, fantasiado de Grande Pilantra, fantasiado de Rasputin, saudoso da czarina Alexandra Romanov, tenta seduzir a primeira-dama enquanto escreve escatologias de autoajuda.

Há um odor nauseabundo de vômitos e fezes congelados na exposição.

FIM DO PRIMEIRO FLASH

 

Era uma estrada de terra solitária, ladeada de choupos melancólicos. Não passava nenhum veículo, nenhum caminhante. O silêncio era total, apenas rompido por um ou outro crocitar de um corvo atrasado, o que adensava a atmosfera de melancolia que impregnava a paisagem. O sol declinava, quase desaparecendo no horizonte. Os álamos projetavam a sua sombra na estrada. Eu não pensava, não procurava, não esperava. Apenas caminhava.

Já era noite quando avistei uma chaumière à beira da estrada. Uma janela estava iluminada. Bati na porta. Uma mulher idosa, cuja fisionomia me lembrava a da minha mãe, abriu.

– A senhora por acaso viu o meu pai?

Ela sorriu, pensativa, e respondeu:

– Há tantos anos que não o vejo… Ah, o tempo. O tempo…

– O tempo?

– Sim. O tempo que varre tudo. Que destrói tudo como o vento de um temporal.

– Sei. O tempo… E o meu irmão, a senhora não o viu?

– O seu irmão, há uns anos, passou por aqui com a mulher e a filha.

– Há uns anos?

– Sim. Há uns anos. O tempo…

– Que tempo?

– Você está procurando o seu pai?

– Acho que sim. Sempre o procurei.

– Continue caminhando. Você encontrará a casa da cartomante. Talvez as cartas revelem o paradeiro do seu pai.

 

SEGUNDA INTERRUPÇÃO/INTERVENÇÃO

Coroação da Imperatriz Mediocridade do Brazil (sic). Séquito da nobreza bastarda: A Imbecilidade, A Mentira, A Ignorância, A Intolerância, A Corrupção, O Retrocesso. Luxo, fulgor, opulência. Mediocridade, em trajes de Josefina de Beauharnais, brilha como uma deusa suburbana. Lá fora, a massa ignara grita: Viva a Imperatriz Mediocridade! Longa vida à Imperatriz Mediocridade.  A “Marcha Triunfal” de “Aida”, de Verdi, impede que se ouça uma indiscreta flatulência da Imperatriz Mediocridade. Cores de Jacques-Louis David. Já é noite. Festa. A Divina Sacerdotisa, Marafona Mor do Templo Universal, em trajes de Salomé, executa a dança dos sete véus e pede a cabeça da Inteligência. Escuridão. Fogo de artifício. Apoteose.

FIM DO SEGUNDO FLASH

 

 

 

Fechei a porta. Continuei andando. Depois de uma centena de metros, vi luz na janela de uma casinha, uma outra chaumière. Bati na porta.

– A senhora é cartomante?

– Sim. Entre. Tem como pagar?

– Não.

– Não faz mal. Você é um homem de bem. Sente-se.

Era um ambiente só, mal iluminado por um lampião. Uma vez sentados, ela disse enquanto embaralhava as cartas e as colocava sobre a mesa:

– Você olha demais para o passado. Você precisa se afastar desse peso. O passado só lhe trava a vida. A vida não é como nós queremos, mas como determinam os astros. Há coisas que não podemos mudar. Coisas que temos de aceitar. O que você quer saber especificamente?

– Meu pai.

– Seu pai partiu há muito tempo. Deixe-o em paz. Ele foi duro com você, mas foi um bom pai.

– Ele estava comigo há pouco, na estrada, e leu um pouco de um dos meus livros. E me senti muito feliz.

– Ele sempre te amou muito. Embora não o demonstrasse.

– E meus livros? Qual será o destino dos meus livros?

– A glória literária virá. Mas demorará. Você tem Saturno no seu itinerário. Conte sete estrelas durante sete noites e faça o seu pedido, antes de dormir, depois de colocar um espelho debaixo do travesseiro.

– E se eu não tiver mais nada a pedir?

– Então siga caminhando que você encontrará a casa das Três Feladoras, onde você poderá se divertir até esgotar o seu tempo.

– O meu tempo?

Saí e continuei caminhando.

 

TERCEIRA INTERRUPÇÃO/INTERVENÇÃO

Preto e branco. Como as gravuras de Oswaldo Goeldi.  Edifícios públicos em chamas. Residências dos parlamentares em chamas. Bancos em chamas. Multidão nas avenidas arrastando os corpos dos políticos e empresários corruptos, dos criminosos do meio ambiente e dos forjadores de mentiras. Clima dantesco. Ouve-se Aleluia do Messias, de Handel. Depois, noite, corpos sem sepultura. Cinzas. Devastação. Desolação. Ouve-se Trenodia Para as Vítimas de Hiroshima, de Penderecki. Apocalipse. Silêncio.

FIM DO TERCEIRO FLASH

 

Depois de uma boa caminhada no escuro, vi mais uma casinha à beira da estrada. Bati à porta. A porta se abriu e vi, mal iluminadas, três mulheres idosas que lembravam as figuras das velhas grotescas de Goya. Uma fiava. Outra tecia. A terceira cortava o fio. Quando elas me viram, começaram a rir sem parar. Teria eu entendido mal a palavra da cartomante? Seriam essas três anciãs as Fiandeiras (ou fiadoras da existência?) em vez de as Feladoras?

14-04-19

 

 

 

 

 

 

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3 Respostas to “Sonho Salpicado de Pesadelos”


  1. Excelente. Um texto roldaniano em toda a sua essência. Corajoso em todos os sentidos. Parabéns.

  2. Robert de la B. Says:

    Bascovegildo amado, olá.
    O Gúgol, na sua onipotência, anda separando seus e-mails do resto da escumalha. Resto da escumalha é ótimo, porque é o que sobra do sobrenadante: tu és o píncaro da merda, o expoente do lúmpen eletrônico. Basco comuna, claro que é a bosta da bosta.
    E eu, a bostícula fétida do resto da humanidade, como se sentem os deprimidos com vontade, inapetente até o limite e mais um pouco, incapaz de vê-lo ou de me comunicar sequer. Mas ainda consigo ser uma bosta com raiva (ou réiva, como dizem mineiros e agora também os japas, que entraram na era da reiwa). Mas tergiverso, Tertúlio. Gincólibo, preserva-se minha capacidade de neonomice, Traquéivo, como se nada houvesse ocorrido. Krastênio, Servicionai-vos (sêde serviçal de porra alguma). Louco por louco, perco pudores de ser inteligível.

    Abúlico Rodaniosko Cataprézio, saúde. E loucura junto, que uma sem a outra gera somente seres atesticulados e mansos, grafobúndicos.

    Beijos sem senão!


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