Desventuras de Uma Mulher Solitária

julho 9, 2019

Não. Não e não. Nunca mais. Jamais. Depois do que aconteceu sábado passado não quero mais saber de homens. Ai Clotilde não seja exagerada. Isso vai passar. O tempo resolve tudo. Não vai passar não. Estou traumatizada. E não é para menos. Deus nem quero pensar no que me fizeram. Isso não se faz com uma mulher. Com nenhum ser humano. Como pode haver gente tão… Tão… Nem sei como qualificar esse ato. Quero que esse cafajeste morra. Calma Clotilde. Para de pensar nisso. Ouça um pouco de música e relaxe. Você gosta tanto de músicas de filmes. “Love Story”. “Cinema Paradiso”. “Os Guarda-chuvas do Amor”. Você chora de emoção quando escuta essas músicas. Não quero ouvir música. Então vai ficar remoendo a noite toda o que te fizeram? Fique calma. Relaxe. Como posso relaxar se estou morrendo de ódio? Meu Deus o que eu fiz para merecer isso? Por que sou tão infeliz? Chega Clotilde chega. Tire esses pensamentos negativos de tua cabeça. Mas é difícil tirar esses pensamentos de minha cabeça. Estou farta de ser humilhada pelos homens. Estou cheia de  ser tratada como lixo. E estou saturada de ficar sozinha. Se eu tivesse um homem que me amasse de verdade não ia procurar homens na internet. Ou nos bares. Ou em festas de amigos. As raras festinhas de amigos. Minhas amigas estão todas casadas com filhos encaixadas em suas vidinhas. Eu sou a única azarada que não tem ninguém. A única amiga que vejo com alguma regularidade é a Cristina. A doida da Cristina. Para ela não falta homem. Solteirona como eu. Mas ela trata os homens a pontapés. Ela diz que é assim que a coisa funciona. Homem tratado a pontapé fica manso que nem cachorro. Ela diz que eu sou boba ingênua e que vou com muita sede ao pote. Acho que ela tem razão. Sou muito carente e os homens aproveitam. Deveria mudar meu modo de agir. Mas depois dos 50 é difícil mudar. Pois é Clotilde. A tua vida sempre foi solidão. Sempre cuidei dos meus pais. Principalmente da minha mãe doente sempre doente. É a sina da filha primogênita. Meu irmão mora nos EUA. Só falo com ele no Natal. Minha irmã mora na Inglaterra. Só falo com ela no Natal. Os dois estão casados e com filhos. E eu aqui. Sozinha. Mendigando um pouco de amor para amenizar a solidão. Pois é. Há pessoas que vivem para os outros e se esquecem de viver. E eu me esqueci de viver. E quando me dei conta já tinha mais de 40 anos. A gente tem que pensar um pouco na própria vida. Se a gente não der um pouco de atenção a si própria a gente passa a existência em branco. E quando a solidão aperta a gente embarca em aventuras ou melhor dito em desventuras. Encontros passageiros que mal aliviam o corpo. E deixam o coração faminto. É tanto exigir amar e ser amada? Clotilde para. Você tem um bom emprego. Um bom apartamento próprio. Está bem de saúde. Dê graças a Deus que você tem tudo isso. Mas eu não sou amada. E não é só sexo o que procuro mas amor. Sim amor. No fundo todos procuramos amor nesta vida. Vá com calma Clotilde. Quando menos você esperar aparece o homem de tua vida. O homem de minha vida. Que ironia. O antepenúltimo que conheci pela internet me deixou esperando numa cafeteria num shopping. Viu a mulher. Alegou que ia ao banheiro. E fiquei aguardando uma hora. Aí fui embora. No dia seguinte ele me ligou pedindo desculpas e querendo marcar um novo encontro. Recusei. O penúltimo que conheci também pela internet me convidou para irmos a um motel. Aceitei. Quando passou em casa me apanhar estava com outro homem no carro. Não entendi. Ele esclareceu que íamos fazer sexo a três. Recusei. Desci do carro. O que eles pensam esses homens? Será que não respeitam os sentimentos das mulheres? É muito azar. E o último… Meu Deus não quero nem pensar o que ele fez comigo. Mas talvez precise reviver a cena para ver se consigo exorcizar o trauma. Será? Conheci-o numa festinha. Amigo do amigo de uma amiga. Bem pelo menos não era mais um da internet. Cinquentão. Bonitão. Bem vestido. Educado. Advogado. Bom papo. Alguns drinques. E me convidou para irmos a um motel. Para variar aceitei. A boba. A carente. A solitária. Mas como ia eu saber se ele me parecia um cavalheiro? Fomos. Pediu um drinque e petiscos. Comemos e bebemos. E conversamos. E eu querendo outra coisa além de conversa. Num determinado momento ele foi ao banheiro com o prato dos petiscos vazio. Depois de uns minutos saiu do banheiro pelado. Com o prato cheio de merda numa mão e um revólver na outra.  E mandou que eu comesse. Recusei. Ameaçou-me. Come ou morre. Peguei um pouco com a mão e levei à boca. Senti ânsia de vômito. Continue mandou. E em pé começou a se masturbar. Peguei mais um pouco do exótico prato. Levei à boca. Engoli! Engoli sim. Senti ânsia de vômito. Ele gozou e ejaculou no chão. Não grite ou te mato! Limpou o membro na colcha. Colocou o revólver sobre o criado-mudo. Vestiu-se. Guardou o revólver. Eu estava paralisada. Ouvi o carro sair. Não ousava me mexer. Enfiei o dedo na boca e vomitei. E comecei a chorar. Como agora estou chorando. Meu Deus não é possível que entre milhões de homens neste mundo não haja um que me ame. O que há de errado comigo? Não sou feia. Não sou chata. Mas não sou jovem. Calma Clotildinha calma. O bom Deus vai te ajudar. Você é uma boa mulher e merece um homem bom que te ame. Ouça a “Serenata” de Schubert e acenda uma vela para santo Antônio. Passe um pouco de maquiagem e tome uma cervejinha. Você vai ver que as coisas vão melhorar.

07-06-19

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