Súplica do Escritor Maldito

 

Senhor,

Eu, David Haize, aliás, O Beduíno, aliás, O Tangerino, aliás, O Basco, lhe escrevo esta carta. Não para louvar a sua grandeza ou a sua onipotência – porque cansado estou dos grandes e onipotentes.

Eu, Haize, David, o perseguido, o desterrado, o exilado, o apátrida, o deslocado, o não pertencente, o outsider, o de alma cética de tanto ter lavado a alma, o de coração fechado de tanto ter esperado, o sem-país, o sem-língua, o sem-nome, lhe escrevo esta missiva. Não para implorar saúde, riqueza ou poder – porque caolho como Camões e surdo com Goya, velho estou e sem forças e agora pouco importa a riqueza e o poder.

Eu, David, O Beduíno, que tanto mundo percorreu, do Afeganistão ao Japão, de São Paulo a Istambul a Atenas, de Nova York a Paris a Barcelona a Granada, de Tânger a Tânger (cidade-obsessão, cidade-fetiche), eu, de impossível raiz fincada, ajoelho-me e imploro – não o eterno retorno, já que não tenho mais para onde retornar – mas um improvável milagre, além do milagre de existir, pois profunda gratidão tenho pelo meu pai e pela minha mãe por eles me terem feito com amor.

Eu, Haize, O Basco, Haize como vento em euskara, o libertário que amou desmesuradamente mulheres, homens e Arte sem medir as consequências, que se entregou irracionalmente (claro) sem muito esperar em troca a não ser um ninho onde esconder e acalentar a carência, escrevo esta epístola. Não para me redimir dos pecados, pois a minha racionalidade os elimina.

Eu, David, O Tangerino, em quem cravaram a identidade de uma cidade internacional sem identidade, ou, melhor, construída de inidentidades, eu que, criança, catei e vendi pedaços de ferro velho, jornais velhos e pedaços de paus para o forno de uma padaria, eu, de sapatos furados e olhar de menino sonhador, escrevo, sem muita ordem e raciocínio estas linhas, não para me redimir de minha arrogância, porque essa arrogância nasceu da miséria, das humilhações e da revolta, mas para pedir o que nunca ousei lhe pedir, por coerência.

Eu, estranho e inclassificável David Haize, que ousei, desafiei, transgredi e choquei para reafirmar a minha identidade que, com a sagrada Razão, coloquei acima de tudo, escrevo – meio a torto e a direito, levado pelo impulso, exatamente como soltei esperma em todas as cavidades que me apareceram pela frente – estas palavras que brotam de minhas entranhas, como brota toda a minha escrita, visceral.

Eu, D.H., judeu errante, muçulmano, beduíno, que fugiu da repressão escondido num navio, passageiro clandestino, e que, apátrida, morou num galpão de teto esburacado, que comeu as frutas que os outros não queriam, que comeu os doces que os outros não queriam, escrevo esta carta. Não para pedir perdão pelas minhas transgressões, mas para pedir perdão por estar pedindo. Por trair a minha coerência por estar pedindo.

Eu, D.H., pied-noir, estrangeiro sem pátria, puro como o gelo eterno dos grandes cumes, que roubou, contrabandeou e conheceu as drogas sem macular a sua pureza, redijo estas palavras de minhas vísceras. E imploro – perdão por implorar – o que nunca fiz, no furor de viver, na voragem da existência. E menino surpreso, me ajoelho, humilde.

Eu, D.H., O Magrebino, O Camponês Granadino, rebelde, cosmopolita, eclético, filho de pai anarquista, com muito orgulho, apaixonado por

Andersen/H.C. Anouilh Arrabal Baudelaire Bukowski Buzzati/Dino Calvino/Italo Camus Chekhov Chomsky Eurípides Fontela/Orides GarcíaLorca/F Grimm/irmãos Hernández/Miguel Hesse/Hermann Kafka Khayyam La Rochefoucauld Lautréamont Mendes/Murilo Miller/Arthur Miller/Henry Nassar/Raduan Neruda Nietzsche Perrault Pessoa Pirandello Potocki/Jan Pushkin Quental/Antero Rimbaud Sá-Carneiro Saramago Shakespeare Sontag/Susan Spinoza Stendhal Tolstói Trakl Turgueniev Villon Williams/Tennessee Yeats Ungaretti e outros

Allen/Woody Almodóvar Angelopoulos Antonioni Arcand/Denys Bergman Bertolucci Bolognini Buñuel Cassavetes Ceylan/NuriBilge Costa-Gavras Demy Deville/Michel Dreyer/Carl Fellini Ford/John Guédiguian/Robert Has/Wojciech Herzog/Werner Kawalerovicz/Jerzy Kazan/Elia Kurosawa Loach/Ken Mankievicz Montaldo Oliveira/Manoelde Olmi Pasolini Pontecorvo Resnais Ritt/Martin Rohmer/Eric Saura Scola Shindo/Kaneto Sokurov Tarkovsky Tarr/Béla Taviani/irmãos Tornatore Visconti Von Trier Welles Wilder/Billy Zurlini e outros

Beksinski/Zdzislaw Blake/William Bosch/Hieronymus Bruegel/OVelho Bruegel/OJovem Caravaggio Colville/Alex De Chirico Delacroix Delvaux El Greco Ensor/James Foujita Géricault Giotto Goeldi/Oswaldo Goya Hokusai Hopper/Edward Kokoschka Magritte Modigliani Munch Murillo Orozco Panzetti Portinari Rembrandt Renoir Rivera Rouault Segall Siqueiros Sisley  Toulouse-Lautrec Van Gogh Van Ostade Utrillo Vermeer Vlaminck Zurbarán e outros

Albinoni Aznavour Bach Baez/Joan Bassey/Shirley Barbara Beethoven Berio/Luciano Bizet Boccherini Brasens Brel Buarque/Chico Clapton/Eric Cohen/Leonard Dalida Elomar/FigueiraMello Ferré/Léo Guy/Buddy Haendel Hvorostovski/Dmitri Ibañez/Paco Janequin/Clément Jara/Victor Jopling/Janis King/B.B. Llach/Lluís Montand/Yves Monteverdi Mozart Penderecki Pergolesi Piaf Scarlatti Sosa/Mercedes Stockhausen Taylor/Koko Vandré/Geraldo Verdi Viglietti/Daniel Vivaldi Waits/Tom e outros

Aimée/Anouk Auteuil/Daniel Bardem/Javier Bates/Alan Binoche/Juliette Cardinale/Claudia Chaplin/Geraldine Dench/Judi Fabian/Françoise Falconetti/Marie Fonda/Jane Freeman/Morgan Garbo/Greta Gardner/Ava Girardot/Annie Hackman/Gene Hayworth/Rita Hepburn/Katharine Hoffman/PhilipS. Hurt/William Kietel/Harvey Laforêt/Marie Lancaster/Burt Leigh/Vivien Lualdi/Antonella Magnani/Anna Mangano/Silvana Masina/Giulietta Mastroianni/Marcello Monroe/Marilyn Montenegro/Fernanda Moreau/Jeanne Newman/Paul Noiret/Philippe Otowa/Nobuko Papas/Irene Penn/Sean Piccoli/Michel Podestà/Rossana Redgrave/Vanessa Reed/Oliver Ritter/Thelma Riva/Emmanuelle Rowlands/Gena Salvatore/Renato Schneider/Romy Seberg/Jean Seyrig/Delphine Sfat/Dina Signoret/Simone Smith/Maggie Streep/Meryl Tierney/Gene Ullmann/Liv Valli/Alida  Volontè/GianM. e outros

Bourdelle/Antoine Bourgeois/Louise Claudel/Camille Duncan/Isadora Fídias Gades/Antonio Gaudi Gehry/Frank Krajcberg/Frans Míron Nijinsky Nureyev Pavlova/Anna Praxíteles Rodin Ulanova/Galina

E fascinado por

Árvores

Mar

Animais

Cerejeiras em flor

Amendoeiras em flor

Jardins de areia

Tempestade

Ásia Central

Saara

Liberdade ejaculando papoulas em céu azul

Vísceras da escrita explodindo em ouro astral

Vida de outsider turbulenta passional múltipla sem retorno

Eu, David Haize, O Saariano, escritor maldito, ao longo de décadas falei de tempo, de identidade, de exílio, de pobreza, de solidão, de marginalidade, de liberdade, de transgressão, de sexo, de amor, de paixão, de loucura, dos descartados, dos deficientes, da perplexidade perante o existir, da condição humana e do silêncio (sim, do sagrado Silêncio), no momento em que já não espero mais nada, no instante em que, ciente de minha eventual partida, num derradeiro sobressalto de esperança, com o coração na mão e lágrimas nos olhos, escrevo esta carta tão patética quanto sincera, para lhe pedir que rompa o seu silêncio, que interceda, que me olhe e que me envie um demiurgo para me ajudar a ser reconhecido como escritor antes de morrer. Não peço dinheiro. Nem fama. Apenas o reconhecimento de mais de 50 anos de luta e dezenas de livros publicados, incluindo os que destruí depois de editados. Para que me tire do limbo. Desse limbo ao qual sou relegado porque sou essencialmente um escritor humanista, e o humanismo caiu em desuso. Mas ninguém me acusa de humanismo, mas de pornografia, de cinismo, de deboche, de panfletarismo, de petulância. E o limbo é um dos destinos daqueles que incomodam o entorno.

Eu, David Haize, O Beduíno, O Tangerino, O Basco, O Estrangeiro conto com a sua generosidade e fico no aguardo de sua resposta, entre as últimas papoulas, os últimos gemidos, os últimos gozos, os últimos coutos da não rejeição, as últimas expectativas, e o último sangue quente onde ainda flui o amor.

Vai me responder? Não demore. Pode ser por e-mail, Facebook, Linkedin, telefone ou correio.

Eu… nada. Sim, nada. Mesmo porque a eternidade não existe. Mas existe a Arte, sem a qual a vida não faz sentido.

Um abraço

10-08-2019