O Enigma do Black Angel

outubro 4, 2019

O Enigma do Black Angel

 

David, David, David Haize, o que é isso? Como assim, o que é isso? Você, David Haize, usando um título parcialmente em inglês? Bem, resolvi dar uma de modernoso e apelar para um título em inglês, bem ao gosto cafona da  periférica classe média que, se tivesse um pouco de bom gosto, em vez de se deixar invadir por vocábulos de inglês norte-americano, escolheria uma língua mais rica, mais elegante, mais bonita, como o grego por exemplo, ou o russo, ou mesmo o euskara (basco) que é uma das línguas vivas mais antigas do mundo. Afinal de contas, o inglês era, na Idade Média, o idioma da ralé. Isso sem contar o apelo ao anjo. Pois é, mais uma concessão modernosa, já que anjos, demônios, bruxos, magos e toda essa parafernália barata estão na moda. Um pouco de gozação não mata nenhum leitor.

Talvez ele viesse do Leste.

Primeiro Encontro

OUTDOOR: O JARDIM DAS DELÍCIAS, DE BOSCH

Já era noite. Escurecera cedo. Chovia lentamente, como se regasse a alma. Estava escrevendo na cafeteria que costumava frequentar. Um jovem, de uns 30 anos, mas com cara de menino, negro e bem-apessoado, se aproximou de minha mesa e me ofereceu dropes. Mergulhado no meu trabalho, recusei automaticamente. De repente, um garçom expulsou o rapaz em voa alta:

– Aqui não pode!

O jovem saiu. Senti pena dele. Levantei-me e fui atrás. Na rua, comprei-lhe a caixa inteira de dropes. Pegou o dinheiro e, durante alguns segundos, embaixo da marquise, me olhou fixamente antes de agradecer. Então disse:

– É o senhor mesmo.

– Como assim? perguntei. Você me conhece?

– Acabo de reconhecê-lo.

Deu meia volta, abriu o guarda-chuva e sumiu na noite.

Voltei à cafeteria. Sentei. Pedi mais um café. Mas não conseguia me concentrar na escrita. O vendedor ambulante tomara, inexplicavelmente, conta do meu pensamento.

Comecei a ouvir, mentalmente, a voz de Joan Baez cantando a Marcha de Sacco e Vanzetti (assassinados pela Justiça norte-americana), música de Morricone, do filme de Montaldo:

Here´s for you

Nicola and Bart

Rest for ever here in our hearts

The last and final moment is yours

That agony is your triumph

E logo depois, sem transição, o Stabat Mater Dolorosa, de Pergolesi. Na hora, claro, não percebi a razão dessas músicas – tão opostas uma da outra – me invadirem. Só bastante tempo depois me ocorreu que talvez ele já estivesse preparando a conexão.

Paguei. Deixei a caixa de dropes na mesa – não gosto de dropes – e saí.

Segundo Encontro

OUTDOOR: GERNIKA, DE PICASSO

Passaram-se meses. Esqueci-me do vendedor noturno de dropes. Mas numa noite chuvosa em que estava na mesma cafeteria escrevendo, apareceu. Reconheci-o. Alto, magro, olhar distante. Pensei que ele ia me vender dropes novamente ou qualquer outra coisa. Mas ele, sem dizer uma palavra, tirou umas papeletas da mochila e as foi colocando, uma após a outra, sobre a mesa. As papeletas tinham uma frase manuscrita cada uma. Uma frase que parecia saída da Bíblia ou do Alcorão, ou de um manifesto fragmentado. Mandamentos como:

e matarás aquele que atente contra o meio ambiente.

e matarás aquele que atente contra os direitos humanos.

e matarás aquele que levante falsos testemunhos.

e matarás aquele que espalhe notícias falsas.

e matarás aquele que atente contra o conhecimento, a cultura e a ciência.

e matarás aquele que manipule o povo com superstições religiosas em detrimento da História, da Antropologia e da Sociologia.

e matarás aquele que negue os fatos.

e matarás aquele que usurpe o poder.

e matarás o fanático religioso ou ideológico.

e matarás o empresário da indústria de Cristo.

Parou de colocar papeletas sobre a mesa. Convidei-o a sentar-se e tomar um café. Aceitou.

– Desse jeito não vai sobrar ninguém no mundo, comentei em tom irônico.

Sorriu. Mas para alguém que me parecia ser um radical de esquerda, seu sorriso era calmo e nada insolente.

– O que você faz na vida além de distribuir papeletas revolucionárias?

Não respondeu. Limitou-se a encolher os ombros. Não sabia o que pensar desse jovem. Talvez ele estivesse apenas blefando. Talvez ele quisesse me pedir dinheiro ou qualquer outra coisa e não ousasse. De qualquer modo não sentia antipatia e menos ainda irritação pelo rapaz. Mesmo porque eu já fora muito radical quando jovem. Radical como um bom soixante-huitard. Restou em mim, com o passar dos anos e o desencanto – ou a saturação – o desprezo. O desprezo não como arma, mas como reação instintiva, já que por mais intelectualizado que fosse, continuava com a visceralidade de um animal. Sim, o desprezo que concede a superioridade da Razão. O desprezo pelo conservadorismo. O desprezo pelo nacionalismo. O desprezo pelo populismo, fosse de direita ou de esquerda. O desprezo pelo imediatismo perverso do capitalismo. O desprezo pelo que não muda, pelo que não evolui. O desprezo pela estagnação social. O desprezo pela mediocridade reinante no mundo todo. O desprezo pelo achamento cultural. O desprezo pela vulgaridade da cultura de massa. O desprezo pelo raquitismo intelectual. O desprezo por tudo aquilo que me causava nojo, asco, repulsa. Náusea. Sim, restou apenas a superioridade do desprezo.

E claro, esse desprezo incluía esse cara fascista, boçal, prepotente e demagogo eleito presidente da República pela classe média histérica, paranoica (sim, com a histeria e paranoia anticomunista dos EUA dos anos 1950, da Guerra Fria, ou seja, com uma visão política defasada, de 70 anos atrás). Um cara ignorante, retrogrado, pobre de espírito, medíocre (como Hitler e Mussolini, que eram totalmente medíocres), moralista dado a arroubos de prima donna com TPM, sem postura diplomática, sem noção de política, incompetente, deslumbrado com o poder e, o que é pior, com tendência de ditador, como todo imbecil. O suprassumo do lixo político. Em suma, uma nulidade, uma inutilidade. Uma nulidade e uma inutilidade perigosas.

Terminou de beber seu café. Virou as papeletas sobre a mesa e constatei que eram cartas do tarô. Sim, o tarô de um lado e do outro os “mandamentos”. Qual era a relação do tarô com as suas ideias subversivas? Não sei, sou muito cartesiano para entender essa relação. Muito resistente quando não consigo explicar algo pela Razão.

Terceiro Encontro

OUTDOOR: A LIBERDADE CONDUZINDO O POVO, DE DELACROIX

Passaram-se alguns meses. Deixei de pensar no rapaz das papeletas. Para falar a verdade, esperei encontrá-lo na cafeteria. Mas ele não apareceu.

Por aquela época, um amigo me convidou a passar um fim de semana em sua fazenda. Era uma antiga fazenda centenária que fora loteada. Sobrou a casa-grande e um terreno razoável, uma espécie de sítio.

– É um ótimo lugar para você escrever, disse meu amigo.

Deixou-me na fazenda na sexta-feira e combinamos que ele me apanharia no domingo.

Era uma bela construção que fora restaurada. A maior parte dos cômodos estava vazia. Havia apenas dois dormitórios, a sala imensa, a copa e a cozinha mobiliados.

– Você acredita em fantasmas? perguntou o meu amigo.

– Não. Por quê?

– Aqui acontecem coisas estranhas durante a noite.

– Que coisas?

– Barulhos.

– Barulhos? Que barulhos?

– Passos. Às vezes risadas. Outras vezes choros. Você não se incomoda com isso?

– Não. Acho que vou me divertir. Os fantasmas me fascinam, embora não acredite neles.

– Então divirta-se com os fantasmas. Vou te apanhar domingo no fim do dia.

Jantei – comida da mulher do caseiro. E deitei. Fazia um pouco frio e havia nevoeiro. No meio da noite acordei com alguém respirando ao meu lado. Assustado, acendi a luz. Não havia ninguém, claro. Peguei novamente no sono e fui acordado pelo que me pareceu serem gemidos de prazer, como se um casal estivesse fazendo sexo. Acendi a luz, vesti-me, peguei um agasalho e saí da casa.

O nevoeiro era intenso. Não se via nada. Feliz – adoro névoa – sentei-me num banco. Daqui a pouco senti uma presença ao meu lado.

– Quem está aí? perguntei.

– Sou eu.

– Quem, você? Não consigo vê-lo.

– Nem poderia.

– Você é um fantasma?

– Não. Não sou um fantasma. O senhor não se lembra de mim?

– A sua voz não me é desconhecida, mas não consigo identificá-la.

– O homem dos dropes e das papeletas-tarô.

– Oi, rapaz! Agora me lembro. Mas o que você está fazendo aqui?

– Vim lhe fazer um pouco de companhia.

– Você não é mesmo um fantasma?

– Não.

– Mas eu ouvi gemidos de gente fazendo sexo.

– São os fantasmas.

– Que fantasmas?

– O da fazendeira e o do escravo negro. A fazendeira se apaixonou pelo escravo. O fazendeiro pegou os dois fazendo amor e matou o escravo. Uns dias depois, a fazendeira, para castigar o marido, se suicidou. Eles voltam a se encontrar para fazer amor nas noites frias de nevoeiro.

– Que história trágica. É um amor sem fim. Diga-me, você não é o escravo que amou a fazendeira?

Mas não houve resposta. Senti que a presença esvanecera.     Quem estava ao meu lado? O fantasma do jovem assassinado pelo fazendeiro? Ou era o vendedor de dropes? O anjo exterminador das papeletas-tarô? Como podia eu, um racionalista, digerir essa insólita história? Qual era a relação entre o fantasma e o jovem radical? E me larguei, deixando a Razão de lado, recolhido no nevoeiro que me oferecia um invólucro de proteção.

Quarto Encontro

OUTDOOR: MARIE LAFORÊT, ANOS 1960, SEU ROSTO FASCINANTE, SEUS OLHOS MÁGICOS

E então veio o drama. O imponderável. Fenda do destino? Irregularidade no desenvolver do Equilíbrio Superior? Pane no girar cósmico da existência humana?  Capricho dos deuses que distribuem bonança e desgraça a torto e direito? Não há explicação. Vai além da Razão.

Sim, o drama. O acidente de moto do meu filho caçula. Dois meses na UTI entre a vida e a morte. Três meses e meio em coma. A dor. O desespero. A angústia. Sim, o pior é a angústia: não saber se ele vai voltar do coma.

– Doutor, como está meu filho?

– O cérebro é um enigma. Pode voltar dentro de uma semana, de um mês, de um ano. Ou nunca mais voltar.

Sim, a angústia. Angústia que impede de respirar. Não saber para onde se virar. Para Deus? Tentar súplicas forçadas e repetitivas a um Deus no qual não acreditava. Tentar preces automáticas na vã ilusão de que talvez assim, implorando e implorando, eu conseguisse acreditar um pouco e chamasse a atenção de Deus, esse desconhecido. E cheguei a ponto de entrar na internet e procurar o Pai Nosso em francês. Por que em francês? Porque eu tinha sido educado na língua francesa. E por que o Pai Nosso, se eu, sem religião, poderia ter procurado uma prece islâmica ou judaica (já que fora criado entre muçulmanos e judeus) ou budista? Porque descendia de uma família católica, logo, era uma obscura referência, um atavismo racionalmente explicável. E recitava o Pai Nosso várias vezes por dia para meu filho – que sempre foi religioso – ouvir. E – céus! – meu filho ouvia e emitia um som gutural, como se entendesse que eu rezava por ele. Sim. Meu amado filho, do fundo do seu coma, ouvia e entendia e agradecia.

E uma noite, no hospital, uma noite insone e por sinal de nevoeiro, sentado no sofá do quarto de meu filho em coma, a porta se abriu. E ele apareceu. Olhou o meu filho e depois se sentou ao meu lado. Eu estava tão passado, tão esgotado e tão insensibilizado (por assim dizer), que não esbocei nenhuma reação. Na minha mente e nos meus sentidos embotados pareceu-me absolutamente natural que ele aparecesse de repente, sem mais nem menos, para visitar o meu filho. E nem sequer me perguntei como ele ficou sabendo do acidente e do estado do meu amado garotão. Limitei-me a dizer:

– Obrigado por vir ver meu filho.

Pensei que ele não iria responder. Mas ele, sempre tão lacônico, respondeu:

– Seu filho está bem. Ele vai se recuperar e sair do coma.

– Vai?

– Vai, sim. Eu vim ver você e aliviar a sua angústia.

Na hora reagi, e senti que poderia formular uma série de perguntas. Quem era esse homem misterioso? O que ele realmente queria de mim? De onde ele vinha? Para onde ele ia? O que fazia ele na vida? Mas não inquiri nada. Não queria saber. Por quê? Por indiferença? Devido ao estado letárgico em que me encontrava? Não. Não era exatamente isso. Era a necessidade de saber que alguém estava ao meu lado. Era a necessidade de deixar a Razão de lado e acreditar, mesmo obscuramente, que havia um canto não explorado onde eu podia ter fé e aguardar um milagre.

No entanto quis elucidar algo que não se coadunava com a ideia que eu me fazia desse homem.

– Por que você me mostrou aquelas papeletas tão agressivas?  Você parece um ser de bem, de amor.

– Queria identificar a sua pessoa.

– A minha pessoa? Como assim? Você sabe quem eu sou?

– David Haize, o escritor.

– E você? Quem é você?

– Alguém que sempre estará ao seu lado.

E de repente algo desmoronou em mim. E comecei a chorar convulsivamente. Ele colocou o seu braço sobre meus ombros. E senti o seu calor. O calor de um corpo. Era uma pessoa de carne e osso, e não um suposto fantasma. Era o primeiro contato físico entre os dois.

Permanecemos assim durante uns breves minutos. Fui me acalmando. Parei de chorar. Ele se levantou e foi embora. Sem uma palavra. Fiquei sentado no sofá. Então, sem querer mistificar, foi a epifania. Ou já fora minutos antes? Na penumbra do quarto, uma luz roxa, intensa, desceu, caiu de cima e me iluminou como um holofote. Era como se alguém estivesse vertendo uma cascata luminosa em cima de mim. E uma súbita sensação de bem-estar, uma repentina alegria, invadiram o meu corpo e a minha mente. Sentia-me leve, limpo de angústia, feliz. E adormeci.

Quinto Encontro

OUTDOOR: JEAN SEBERG, ANOS 1960, E SEU MARAVILHOSO ROSTO DE ANJO

Depois de três meses e meio, o meu filho voltou do coma. Inesperadamente. De uma hora para outra. Foi uma explosão. Ou, melhor dito, uma implosão de alegria. Um júbilo que eu não conseguia expressar e que se manifestava por um silêncio total. Sim, silêncio. Um silêncio que, sem eu querer, sufocava o riso e as lágrimas. A felicidade, quando é muito intensa, também esmaga.

Poderia, para comemorar, ter enchido a cara de cerveja ou vinho com os amigos. Mas preferi uma comemoração na intimidade. Sim, na mais íntima privacidade. Eu e a minha alma. Assim, no dia seguinte, no dia seguinte do grande dia da volta de meu filho, saí para caminhar no mato ao alvorecer. Havia neblina. Neblina da qual tanto gosto. Fui caminhando por trilhas que conhecia muito bem. Aos poucos a neblina foi se dissipando e árvores e arbustos foram aparecendo.

E então começou a celebração. Os meus passos lentos foram entrando em harmonia com o palpitar do mato. E o meu corpo e a minha mente foram se entregando ao entorno. Senti as raízes das árvores penetrando minha carne e a folhagem acariciando minha pele. E no silêncio, salpicado pelo canto de um ou outro pássaro que acordava, fui me dissolvendo na terra antes de me integrar no Absoluto.

Saí da trilha para desembocar numa estrada de terra. Dei-me então conta de que ele, o anjo negro, estava lá me esperando, sentado na encruzilhada. Sim, o rapaz dos dropes, o jovem das papeletas, (o fantasma?) estava me aguardando. Quando me viu, levantou-se e me deu a mão. E achei perfeitamente natural que ele estivesse ali. Não questionei a sua presença. Não quis saber mais nada além do fato de ele estar presente. Não falou nada. Apenas me sorriu.

Começamos a caminhar de mãos dadas. O sol se levantara. Batia em nossas costas. Vi então as nossas sombras projetadas na estrada. E constatei, por essas sombras, que eu era apenas um menino e ele um homem muito alto. E o júbilo da humildade me encheu o coração. Existia algo além da Razão ou a Razão em si já era o Todo?

07-09-2019

 

 

2 Respostas to “O Enigma do Black Angel”

  1. Paco Says:

    Muito bom, acalma a mente e a alma, parabéns.


  2. Texto maravilhoso, Roldan. Parabéns!


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