A Náusea e a Torre

janeiro 28, 2020

A Náusea e a Torre

 

          Há dias em que determinados fatos nos fazem mergulhar no passado. O dia que vou narrar é um deles.

Primeiro mergulho: morte

Foi cremada conforme seu desejo. Suas cinzas foram jogadas num rio. Não sobrou nada dela. Literalmente nada. Nem os ossos.

Família de imigrantes italianos. Casou-se. Teve dois filhos e dois abortos. O marido bebia e se tornava violento. Deixou-a surda depois de espancá-la. Saía com mulheres. Largou-a com os filhos na adolescência. Divorciaram-se. E a partir daí foi a solidão. Aposentada, vivia modestamente, perto da casa da filha – o filho sempre a ignorou e jamais a ajudou financeiramente. Tinha umas minguadas economias e com 80 anos ainda sonhava em comprar uma quitinete para não ter de pagar aluguel. E com 80 anos ainda sonhava encontrar um homem para dividir a velhice com ele. Morreu aos 91 anos. Sem quitinete nem homem. Partiu sem casa própria e sem companheiro. Sobraram as parcas economias para os netos.

Era minha sogra – ou ex-sogra, mãe de minha ex-mulher – com quem eu tinha boas relações. Acompanhava-a ao oftalmologista (sofria de glaucoma) e ao psiquiatra (sofria de mania persecutória) e quando ia visitá-la sempre levava compota de cidra ou peras ou lichias em calda. Sentia muita compaixão pela sua solidão. Em suma, uma existência como milhões de existências.

E partiu. Não deu trabalho a pobrezinha. Desmaiou e partiu. E não sobrou nada dela. Nem os ossos.

Como não sobra nada de ninguém. Mesmo porque não há nada. A não ser o Nada universal. Quanta ilusão. Quanta superstição. Quanto apego à ideia de que existe algo depois da morte. O ser humano é muito fraco nesse sentido e não admite que não haja nada. Na sua irracionalidade, não é capaz de entender que a única coisa que sobrevive (até um certo ponto) é a Arte. A Arte (sim, com maiúscula) que torna o ser humano superior. E que o Absoluto (o que seria o Absoluto?) só se atinge com a espiritualidade laica, com a paixão da ética e com o culto da Razão e, obviamente, a verdadeira Razão engloba o amor ao próximo.

Segundo mergulho: reencontro

Pois é, David Haize, você já não tem mais paciência para suportar imbecilidades.

O que prometia ser uma reunião agravável virou, se não um pesadelo, pelo menos uma náusea. Sim, uma náusea literalmente falando. E com certeza não se tratava de náusea existencial.

Aquela velha história de antigos colegas de trabalho que, após muitos anos, marcam encontro para jantar. Fomos a um restaurante vietnamita cujo dono, amigo de um dos meus colegas, nos recebeu amavelmente.

Sessentões e sessentonas. Carecas ou não. Gordos ou ainda magros. Aposentados. Ou no fim de carreira. Casados. Ou divorciados. Recasados. Com filhos e netos. Situação financeira mais ou menos estável. Culturalmente aposentados. Política e socialmente levemente (ou totalmente) alienados.

Eu não estava muito bem. E as frases (verdadeiras pérolas) que foram surgindo, de uns e de outros, me deixaram pior.

– Trump é um bom presidente. Com ele a economia melhorou muito nos EUA.

– Ainda bem que Bolsonaro foi eleito para salvar o Brasil do PT.

– O AI-5 é necessário para manter a ordem e a paz no País.

– A Amazônia é brasileira e o mundo não tem nada a ver com um território que pertence ao Brasil.

– A História, a Sociologia e a Antropologia são coisas de comunistas.

– Taxar as instituições religiosas é coisa de comunista.

– A luta contra a desigualdade social é coisa de comunista.

– A luta pelo meio ambiente é coisa de comunista.

– As crianças precisam ter educação religiosa e não de educação sexual.

– O homossexualismo deve ser erradicado do País.

– Os agnósticos e os ateus devem ser perseguidos como fomentadores do caos.

– Os direitos humanos devem ser subordinados à ordem do País.

– Deus está acima da Liberdade.

– Os intelectuais deveriam ser castrados.

Não queria me irritar com tanta besteira. Não queria replicar a tanta idiotice, pois sabia que ia acabar brigando – meu pavio sempre foi curto e não gosto mesmo de conservadores. Eram meus amigos – ou tinham sido. Passei bons momentos com eles, quando era jovem e menos seletivo. Percebi logo que não tinha mais nada em comum com eles. A amizade é como o amor: a maior parte das vezes não é para toda a vida. Notaram que estava muito calado, eu que, com a ajuda da cerveja, costumava me tornar loquaz. Assim, quando alguém me interpelou, aleguei cansaço e sono e permaneci quieto. Um mal-estar se apossava de mim. Eu queria ir embora. Não me sentia bem com essas pessoas que não me diziam mais nada. Teria preferido estar sozinho em vez de comparecer a essa reunião que, para mim, era um fiasco.

A sensação de deslocamento foi crescendo e, com ela, o mal-estar. No fundo era o mesmo mal-estar que me causava o governo Bolsonaro. Eu queria ir embora do Brasil. Teria ido embora se não fossem meus filhos e se eu fosse mais jovem. Havia algo nesse governo reacionário, fascista, hipócrita que me provocava, não só revolta, mas repugnância. Havia algo repulsivo, asqueroso, nojento nesse gabinete presidencial que fedia a ranço, a mofo, a bolor. A Inquisição. Havia algo repelente em ministros que primavam pela imbecilidade, pela incompetência, pela ignorância, pela falta absoluta de capacidade para preencher o cargo que ocupavam. Ministros que, como o Araújo, de Assuntos Exteriores, a Damares, dos Direitos Humanos, o Salles, do Meio Ambiente, o Guedes (que não era burro, mas perverso e fascista), da Economia, e o estúpido, nazista e arrogante do Alvim, secretário da Cultura e o escroto do Rasputin de Brasília, “o filósofo” (entre aspas) de periferia Olavo de Carvalho. Enfim, de presidência de merda, só podia sair um ministério de merda. Às vezes me perguntava se essa laia de seres inferiores não seria tão besta, imbecil, ignorante quanto aparentava, mas ostentava uma persona adequada para bajular e conseguir apoio da massa alienada e ignara. Talvez tudo não passasse de uma encenação perversa. Sim, não bastasse mais de cinco séculos de corrupção, mais de cinco séculos de espírito escravagista, mais de cinco séculos de impunidade, mais de cinco séculos de desigualdade social. Não bastasse mais de cinco séculos de privilégios vergonhosos das elites. Privilégios que foram se perpetuando com os salários exorbitantes de parlamentares e juízes. Um cinismo, uma desfaçatez, uma afronta ao povo brasileiro. Pois é, a Revolução Francesa de 1789 ainda (ainda!) não chegara ao Brasil. Esses carinhas, parlamentares e juízes não tinham vergonha na cara, não tinham consciência. Eles instituíram o roubo legal dos cofres públicos. Não bastasse uma proclamação da Independência que foi uma farsa, uma piada e não bastasse uma proclamação da República que basicamente não mudou nada no País, tradicionalmente reacionário, estagnado socialmente, agora tínhamos um pavoroso retrocesso medieval. Com, entre outras coisas, os milhares de pastores neopentecostais picaretas explorando a indústria de Cristo – céus, que avacalhação do cristianismo.

Senti náusea, ânsia de vômito. Levantei-me da mesa e fui ao banheiro. Passando na frente do caixa, reparei que a funcionária era muito parecida com a minha ex-mulher quando jovem. Entrei no banheiro. Entrei numa cabine. Vomitei. Defequei. Depois de evacuar pela boca e pelo ânus tudo o que sentia, limpei-me e dei descarga. Puxei cuecas e calça e sentei-me na privada. Adormeci.

Terceiro mergulho: fuga

Quando acordei, estava numa espécie de pequena cela circular, vazia, com uma diminuta janela por onde mal entrava a luz do sol. Havia uma porta estreita. Abri-a e deparei-me com uma escada de pedra. Comecei a subir. Após galgar alguns degraus, percebi que um menino negro de uns cinco ou seis anos me seguia. O guri me disse:

– No primeiro andar tem um homem com sorvetes.

– Ah, é?

– Outro dia minha mãe não tinha dinheiro pra comprar um sorvete pra mim. Ela falou que outro dia ela ia comprar. Outro dia quando ela chegou do trabalho, eu abri a bolsa dela pra ver se tinha sorvete.

– Mas sorvete derrete na bolsa.

– Derrete?

– Sim.

– Eu nunca chupei sorvete. Minha mãe falou que é caro.

– Você quer um sorvete?

– Quero.

– Vamos comprar um do sorveteiro.

Chegamos num patamar onde havia um homem asiático, provavelmente um imigrante do Vietnã, cuja fisionomia lembrava a do dono do restaurante vietnamita, com um carrinho de sorvetes. Como tinha feito o sorveteiro para subir a escada com o carrinho? E quem iria comprar sorvete naquele lugar pouco frequentado? Comprei um. Os olhos do garotinho brilharam. E ele desceu as escadas, chupado seu sorvete, feliz.

Continuei subindo. Ao que tudo indicava, aquela edificação era uma torre medieval. Chegando ao patamar seguinte, deparei-me com um adolescente negro muito parecido com o menino do sorvete. E, curiosamente, com o garçom que nos servira no restaurante. Ele estava encostado na janela – que era mais uma espécie de fresta no muro, uma brecha ou meurtrière, como se diz em francês – por onde entrava alguma claridade que lhe permitia ler um livro.

– O que você está lendo? perguntei.

O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, respondeu.

– Está gostando?

– Muito. O senhor já o leu?

– Sim. Muitos anos atrás. Quando tinha mais ou menos a sua idade.

Continuei subindo. No patamar seguinte encontrei um homem negro, maduro, de uns 50 anos. Lia um livro, em pé, perto da brecha à guisa de janela. Quando me viu, sorriu.

– O que está lendo? perguntei.

O Bárbaro Liberto, respondeu, e sorriu novamente.

– Está gostando?

– Muito. Um livro fascinante. Parabéns.

– Por que parabéns?

– Porque o senhor é o autor.

–  O senhor me conhece? estranhei.

– Sim. De fotos na internet.

– Muito obrigado pela leitura e por gostar do livro. O que o senhor faz na vida?

– Sou professor de literatura brasileira. E estava aqui, nesta torre, à sua espera para conhecê-lo pessoalmente. O senhor pode autografar meu exemplar?

– Claro.

– Muito obrigado.

– Diga-me, o senhor sabia que eu viria aqui hoje?

– Sim. Foi por esse motivo que eu vim. Tomei essa decisão depois de mergulhar nas aventuras do Bárbaro Liberto.

– Agradeço. Um dia poderemos nos encontrar para almoçar e falar sobre literatura.

– Tenho certeza de que vamos voltar a nos encontrar.

Continuei subindo. Cheguei no patamar seguinte. E deparei-me com minha ex-mulher. Estava em pé. Olhando pela brecha da parede. Ao ouvir meus passos, virou-se e perguntou:

– O que você quer?

– Nada, respondi surpreso.

– Você não me deixa em paz nem depois de morta.

– Eu não sabia que você estava aqui.

– Você invadiu minha vida e agora invade minha morte.

– Porra! Você continua a mesma. Histérica. Não melhorou nem depois de morta. Você me persegue como um fantasma. O que você quer de mim? Me atormentar pelo resto da minha vida?

Essa era a mulher que tanto amei. A mulher de minha vida.

Dei meia volta e continuei subindo. No patamar seguinte, havia uma cigana muito velha.

– Vai a boaventura? perguntou.

Estendi-lhe a mão. Leu.

– Menino sozinho, separado dos pais. Uma cidade antiga, exótica, cercada de fronteiras. Uma cidade com três línguas. O menino não sabe qual é a sua língua. Menino pobre. Trabalha desde a infância.

E ela parou. Como se estivesse admirada. Ou assustada.

– Vejo muita luz. Uma luz que ofusca. Que fere. Muitas brigas. Mas alguém vai saber quem você é.

E fechou minha mão.

– Quanto lhe devo?

– Nada.

Continuei subindo. No seguinte patamar surpreendi-me com uma jovem belíssima. Seu rosto misterioso lembrava a fascinante fisionomia de Marie Laforêt. Ostentava uma discreta elegância no vestir.

– A felação está em promoção, ofereceu.

– Como? perguntei rindo.

– É isso mesmo. Com direito a lambida nos testículos e nas virilhas.

– Você fala muito bem. Tem classe física e oral para uma garota de programa.

– Não sou garota de programa. Não gosto de eufemismos.

– Você é o quê, então?

– Sou puta mesmo. Mas não preciso dizer: “bem, vamos fazer nenê” para convidar um cliente.

– E aparecem muitos clientes nesta torre?

– Às vezes aparece um perdido nesta torre. Um solitário carente.

– Você é uma prostituta diferente.

– Sou uma puta-escritora. Ou escritora-puta.

– Você é escritora?

– Sou. Mas não me prostituo com a literatura.

– Ainda bem.

– Ainda bem por quê?

– Porque tem muito escritor e escritora picaretas.

– Não é meu caso. Decidi investir, enquanto sou jovem, na minha vagina. Sou formada em Letras. Tinha um bom emprego. Mas o emprego preenchia todo o meu tempo. Larguei o emprego e comecei a vender sexo. E, claro, tinha tempo para escrever.

– Entendo. E o que você escreve?

– Romances de amor.

Estava excitado. Abri a braguilha. Ela se ajoelhou, pegou meu membro e iniciou a felação. Chupava divinamente. Gozei em sua boca. Ela engoliu meu esperma. Levantou-se. Fechei a braguilha.

– Quanto é?

– Nada.

– Como nada?

– Você é escritor. Portanto, colega de profissão. Para você faço de graça.

– Como você sabe que sou escritor?

– Pelo sabor do seu esperma.

– Meu esperma não tem o gosto do esperma de qualquer homem?

– Não. Tem um sabor especial. Conheço esperma.

– Você sempre engole?

– Não. Mas o seu, quis engolir. Seu esperma vai para meu intelecto.

– Agradeço o privilégio. Você é uma garota muito bonita e inteligente. Posso voltar a esta torre para te ver de novo?

– Venha quando quiser.

– Mas vou pagar.

– Não se preocupe.

– E se eu me apaixonar por você?

– A vida é feita de riscos.

– Posso te beijar?

– Pode.

Beijei-a. E ouvi em surdina Marie Laforêt cantando Aime-moi jusqu´à demain. Continuei a ascensão.

No patamar seguinte, uma senhora de bastante idade parecia me esperar. Vestia um elegante modelo – embora um tanto surrado – dos anos 1880. Estava excessivamente maquiada e abanava-se com um suntuoso leque, apesar de não fazer calor.

– Bom dia. Sou Marie-Louise-Joséphine-Charlotte-Marguerite de La Belle Chatte de Beaucourt. Muito prazer, e estendeu a mão – que beijei.

– Bom dia. David Haize, escritor.

– Ah, escritor! Eu adoro romances de amor. Pensei, ao ouvir seus passos subindo a escada, que o senhor fosse ele.

– Ele, quem?

– O príncipe.

– Que príncipe?

– O príncipe Rudolf von Habsburg, meu amado. O senhor não cruzou com ele na escada?

– Não.

– Ele está demorando muito.

– Deve estar na taverna da esquina.

– Ele não frequenta tavernas.

– Então deve estar no salão de chá da outra esquina.

– Ele não frequenta salões de chá. Ele não pode frequentar lugares públicos.

– Nem disfarçado de camponês?

– Não. É muito perigoso. Pode sofrer um atentado.

– Então deve estar em Mayerling.

– Credo! e fez o sinal da cruz.

– Que foi?

– Não pronuncie essa palavra fatídica. Ele quase morre nesse pavilhão de caça com a amaldiçoada baronesa Marie Vetsera.

– E então onde é que a senhora o encontra?

– Nesta torre medieval que é muito romântica. O senhor vem sempre aqui?

– Não. É a primeira vez.

– Ele mandou um bilhete pelo pombo-correio dizendo que viria hoje. Mas assuntos de Estado devem tê-lo impedido. Bom, acho que vou embora.

Despediu-se e foi descendo as escadas.

Continuei subindo. No patamar seguinte deparei-me com… Cristo copulando, em pé, com Maria Madalena. Ele estava com a túnica levantada que deixava ver suas nádegas brancas e algo peludas. Madalena, encostada contra a parede, também estava com a túnica arregaçada. E, entre gemidos e suspiros do célebre casal, ouvi a seguinte conversa que, além do ato sexual, me deixou excitado. Na realidade, era só Cristo que falava em meio à excitação. Madalena se limitava a dizer “aleluia”.

– E regarei teu ventre e te farei dez filhos. Pois eu te amo esposa minha.

– Aleluia!

– E meus dez filhos espalharão a minha verdade pelo mundo. A minha verdade. Não a que a lenda forjou.

– Aleluia!

– Pois não sou filho de Deus. Sou apenas um homem escolhido por Deus para falar aos homens.

– Aleluia!

– E desfarei vinte séculos de mentiras.

– Aleluia!

– E libertarei os homens de suas superstições.

– Aleluia!

– Pois sou o Amor e não o fanatismo e a intolerância.

– Aleluia!

– E conduzirei os homens à Razão para eles crescerem ética e moralmente.

– Aleluia!

– E amaldiçoarei aqueles que usam meu nome para se enriquecer.

– Aleluia!

– E glorificarei o Sexo como princípio sagrado.

– Aleluia!

– E darei início ao Homem Novo, inteligente, generoso e despojado.

– Aleluia!

– E… Ah!

– Ale… Ah!

E gozaram juntos. Depois do orgasmo e após uns minutos, Cristo e Madalena baixaram suas túnicas. E suspiraram, felizes, porque o intercurso fora decorrente de um grande amor. E então Cristo se virou. E me olhou. Arrepiei-me. Como se uma descarga elétrica tivesse me atingido. Era um belo homem negro. Um homem da Etiópia. Assim como Madalena era uma bela mulher da Etiópia. Senti vontade de beijar a mão desse homem tão superior. Mas retive-me. Provavelmente ele não teria gostado de meu ato de idolatria.

Prossegui com a minha ascensão. E cheguei num patamar onde encontrei um adolescente, extremamente parecido com Rimbaud, que, sentado no chão à moda oriental, lia um livro enquanto se masturbava. Esperei que ele gozasse e perguntei:

– O que você está lendo?

Não respondeu. Apenas me estendeu o livro, que peguei. O título era A Busca do Silêncio, de autor anônimo.

Durante um ou dois minutos folhei o livro. Quando o devolvi, constatei que aquele adolescente era um velhinho de cabelo branco. Um ancião que parecia esperar. Esperar o quê? A morte? E ele me sorriu. Um sorriso zen que pareceu me gelar o sangue nas veias. Talvez porque esse sorriso atestasse a tragicidade do tempo.

Continuei subindo. No patamar seguinte encontrei meu irmão. Céus, que emoção! Eu nem conseguia falar. Abracei-o com lágrimas nos olhos.

– Salam! disse ele em árabe.

– O que você está fazendo aqui, nesta torre?

– Vim te ver.

– Você sabia que eu estava aqui?

– Sim.

– E os pais, como estão?

– Estão bem.

– Não quiseram vir me ver?

– Estão cansados.

– Cansados?

– Sim. Os mortos, depois de um certo tempo, se cansam.

– Tem visto filmes?

– Sim, de vez em quando pego um cineminha. Hoje vou assistir a Dor e Glória, de Almodóvar, e Um Dia de Chuva em Nova York, o último Woody Allen.

– Vi os dois e gostei muito. E por falar em cinema, o outro dia me lembrei de dois filmes que marcaram a minha memória. Um foi Lili, de Charles Walters, que o pai contou para a mãe – que não pôde ir porque você era muito pequeno e não tinha com quem te deixar. Ouvi o pai contar e o filme ficou gravado na minha memória. Uns anos depois eu o vi. O outro foi Luzes da Ribalta, de Chaplin. A mãe não me deixou ir porque aquele dia houve distúrbios na cidade – era o começo da luta pela independência do Marrocos. Eu chorei porque queria muito ver esse filme. Vi-o uns anos depois. Lembro-me também de quando fomos, os quatro, assistir a Bambi, de Walt Disney, no cine Roxy. Você era muito pequeno e perdeu sua chupeta (o “popo”) durante a sessão. Foi seu primeiro filme.

– Sim. A mãe me contava que eu não ficava parado no colo dela durante o filme. E agora vou embora.

– Já?

– Sim. Quero ver os dois filmes hoje. Não perco nenhum filme de Almodóvar nem de Woody Allen.

– Gozado, assistir a filmes depois de morto.

– E por que não?

– Tem razão, mano. Os gostos não mudam depois da morte.

E foi descendo as escadas. Fiquei uns minutos parado, com o coração encolhido pela saudade e as lágrimas rolando pela minha face, antes de continuar subindo.

Chegando no patamar seguinte, deparei-me com madame Giraud. Que surpresa agradável, emocionante e totalmente inesperada. Sim, madame Marie Giraud, prenome e sobrenome bastante comuns na França. Ela era originária do sul da França, do Languedoc-Roussillon e falava o catalão e o occitano. Além do espanhol e do árabe. Fazia muito tempo que ela vivia no Marrocos. Era viúva. O filho único morrera na Segunda Guerra Mundial. Morava sozinha, com uma empregada marroquina que dormia em sua casa. Era culta, elegante, discreta e lia muito. Sua casa, relativamente simples, tinha um belo jardim – que ela cultivava – com várias árvores. Era muito amiga de umas primas de minha mãe, que a recomendaram a madame Giraud como costureira.  Quando minha mãe terminava a costura, eu levava a roupa pronta e recebia o dinheiro. Foi assim que conheci minha amiga idosa da adolescência. Ela dizia que eu falava francês sem sotaque e me chamava de jeune homme.

Ela enxergava mal e um dia me perguntou se eu poderia ler um pouco para ela. Estranhei, mas, é claro, aceitei, mesmo porque eu já era um leitor voraz. Passei, pois, a frequentar a sua casa duas vezes por semana. E fui descobrindo nomes, que eu não conhecia, da literatura francesa. E fui descobrindo pratos da gastronomia francesa que eu não conhecia. Pois depois da leitura, ela me convidava para jantar. E eu, que tinha fome, muita fome, aceitava o convite. Eram pratos comuns – ela era ótima cozinheira – que passei a adorar: ragoût, cassoulet, ratatouille e outros. De vez em quando a empregada fazia um couscous marroquino que eu também adorava. No intervalo da leitura tomávamos um chá verde com hortelã e comíamos um pedaço de chuparkia.

Com o passar do tempo, sua visão foi piorando. E ela decidiu voltar à França onde tinha um irmão e uma irmã e quatro sobrinhos. Sua partida me deixou muito triste. E até chorei. E certamente não era porque eu deixara de receber uma graninha semanal com a qual ia ao cinema e comprava livros no sebo. Nunca mais voltei a vê-la. Escrevi-lhe uma carta. Ela nunca respondeu. Talvez a carta tivesse se perdido. Ou ela, meio cega, não tivesse querido responder.

– Madame Giraud! Que esplêndida surpresa! exclamei, emocionado, em francês, abraçando-a.

– Meu caro jovem, como vai?

– Eu estou bem. Encantado por voltar a vê-la.

– Quanto tempo!

– Sim, madame Giraud, muito tempo. Fiquei velho.

– Que nada. Você tem um aspecto muito jovem.

– Muita gentileza sua.

– Estava à sua espera.

– É mesmo? A senhora sabia que eu estava aqui?

– Sim. É por isso que eu vim. Os mortos sabemos tudo sobre os seres que nos são caros.

– Ah, que saudade de minhas leituras e das comidas que a senhora fazia. Eu tinha muita fome. Eu era muito pobre. A sua casa, para mim, era um refúgio de literatura e de boa comida.

– Eu sei, meu querido, eu sei.

– Nunca vou esquecê-la. A senhora foi muito importante na minha adolescência. A senhora alimentava a minha mente e a minha barriga. Nunca vou esquecê-la.

– Eu sei, meu querido, eu sei. É por isso que vim te ver. Meu carinho por você continua o mesmo. Os mortos também amam.

– É mesmo, madame Giraud?

– Sem dúvida. E como vão seus livros?

– Tenho 37 livros publicados. Estou no 38°. Vou incluí-la neste que estou escrevendo.

– Eu sei. Os mortos sabemos tudo o que se refere às pessoas amadas.

– A senhora tem ido a Tânger?

– Já quase não vou. Tânger virou uma metrópole de mais de um milhão de habitantes. Não é mais a cidade que nós conhecemos.  O belo teatro Cervantes não existe mais, nem a casa onde eu morava na rua Jean Jaurès.

De repente ouvi a Valsa N° 2, de Shostakovich. Olhei pela janela. Um bando de gaivotas dançava a valsa no céu azul. Aparentemente não estava mais numa torre medieval, mas num farol. A música cessou. As gaivotas sumiram. Um anjo negro de Chagall, de vestes coloridas, atravessou o firmamento, ao som da Sarabanda, de Haendel, e perdeu-se no horizonte. Depois, ouvi a Cantilena das Bachianas Brasileiras N° 5, de Villa-Lobos, e vi os cisnes em chamas – meus míticos cisnes em chamas da adolescência – atravessarem o céu crepuscular.

Quando saí da janela, percebi que madame Giraud tinha sumido. Reparei então que as paredes do farol – ou da torre? – eram cor de marfim. E vi meu rosto de adolescente de 16 ou 17 anos refletido na parede. Senti um aperto no coração e meus olhos marejaram.

28-12-2019

       

                                                                                  

 

 

 

 

2 Respostas to “A Náusea e a Torre”

  1. J.Campos Says:

    Texto belíssimo. Roldan-Roldan em toda a sua essência. Não temos o poder de parar o tempo, mas ele deixa marcas em cada um dos tijolos de nossa existência. Parabéns, Roldan.


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