Balada do Poeta Errante

(À Guisa de Biografia)

Rápido rápido ele está passando

quem é? quem é?

dizem que

a terra de Lorca o viu nascer

a cidade de Ibn Batouta o viu crescer

o país de Baudelaire o educou

o de Bandeira o adotou

e o mundo ele abraçou

e de estar passou a ser

será?

quem é? quem é?

ele já passou

Venho de longe

espaço aberto tempo ido

filho errante do Planeta

pelas sendas do universo

viajo de poesia

de louros e espinhos siderais coroado

vestido de abismos

perfumado de paixão

enfeitado de trigo e papoulas

permaneço no entanto com os pés no chão

e embora segregado da Grande Sinfonia

carrego na lembrança atávica

sóis de antanho

estrelas de Belém

luas de outrora

rios sagrados

e o gozo da terra em cio

Rápido rápido ele está passando

quem é? quem é?

dizem que

morou num galpão

morou num porão

morou numa pensão

trabalhou numa corporação

onde quase fodeu o coração

de tanto militar na putificação

será?

quem é? quem é?

ele já passou

Venho de longe

espaço-cruz tempo-círculo

o branco monacal trago do Leste

a lucidez metálica da razão do Norte

a areia escaldante do Sul

o gozo exuberante da vida do Poente

e de língua em língua

de país em país

arrasto

funâmbulo dos extremos

paladino dos jardins selvagens

o estigma de a nada pertencer

senão ao Verbo

e para alguns

trago escondido na alma

um brinquedo proibido

e a perplexidade de existir adulto

quem quer meu viver de menino?

Rápido rápido  ele está passando

quem é? quem é?

dizem que

catou sucata e jornal velho

comeu restos de frutas

restos de doces

que os clientes não queriam

e quando se deitava sua mãe

a única calça lhe lavava

será?

quem é? quem é?

ele já passou

Venho de longe

espaço ferido e tempo fragmentado

de guerras fome e exílios impregnado

trago na ponta dos dedos

carícias trincadas gestos truncados palavras trancadas

do amor a lágrima represada na solidão

entre o ruído e a velocidade de estar sem ser

semeando o poema do caminhante

no desterro da consciência

o amor e a escrita como sina

a liberdade como estandarte

o desejo como perdão

diluo meu corpo na vastidão do espírito

meu passo na escuridão da lucidez

alço vôo

alcanço as alturas

miserável ao tocar o chão peregrino

quem em dias de pragmatismo o acolheria?

Rápido rápido ele está passando

quem é? quem é?

dizem que

fumou

cheirou

roubou

contrabandeou

e amou

escreveu

e amou

será?

quem é? quem é?

ele já passou

Venho de longe

espaço sangrando tempo revogado

de furor liberdade e saber calado

trago nos ombros

a parca generosidade do mercantilismo

deste século profano

que exauriu Deus e plastificou o Mistério

dando aos órfãos

a lubricidade de engolir sem degustar

que esvaziou os olhos da Ética

violando o ritmo milenar de ser e haver

abortando o Silêncio de Mãe-Terra

século totalitário do adulterado

algoz do Início e do Eterno Retorno

século robotizado de Harmonia aviltada

que fizeste do Sagrado?

Rápido rápido ele está passando

quem é? quem é?

dizem que

é o filho do Sol

tataraneto de Eurípides

é o filho do Mar

bisneto de Kayyam

é o filho do Vento

neto de Villon

é o filho da Terra

filho de Rimbaud

será?

quem é? quem é?

ele já passou

Venho de longe

espaço sem identidade tempo sem memória

de despojamento silente e referências mortas

agora empossado

transpassado pelo silvo da solidão

fio de algodão

da lembrança ancestral

fiando fiando fiando

em rocas de séculos acumulados

as filigranas da alma

tecendo tecendo tecendo

no que restou do tear do silêncio

no côncavo telúrico do pensamento

recolhido no segredo de não-ser

quieto de estrondos mal vividos

no que resta de mentira

como ilusão da própria vida

venho e nunca chego

quem quer meu silêncio?

David Haize

Março de 2004

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