O Escritor Roldan-Roldan Entrevista o Escritor David Haize

 

 

RR

Como você se sente com 37 livros publicados?

DH

Sinto-me satisfeito por ter construído uma obra, embora, como todo escritor que se preze, não estou satisfeito (pelo menos totalmente) com meus livros. Por outro lado, sinto-me frustrado por não ser reconhecido.

RR

Ao que você atribui o fato de não ter sido reconhecido até agora?

DH

Não estou na mídia, nem no meio acadêmico. E não escrevo livros comerciais. Estou remando contra a maré.

RR

O que você considera um livro comercial?

DH

Aquele escrito com o único intuito de agradar ao grande público – se é que existe um grande público de leitores.

RR

Sua obra, embora de teor surrealista, aborda temas e situações que não podem ser qualificados de populares. Em suas páginas encontramos a margem da sociedade. São seres excluídos por causa da etnia, de deficiência física ou mental, de opção ideológica ou sexual.

DH

Sim. Sempre senti, desde muito jovem, uma profunda compaixão pelos marginalizados. Fossem negros, índios, ciganos, judeus, imigrantes, deficientes físicos ou mentais, homossexuais e prostitutas. E, de modo geral, por artistas que, de certa forma, são discriminados.

RR

Isso o torna um escritor humanista?

DH

Sem dúvida.

RR

A sua compaixão pelos marginalizados tem algo a ver com a sua vida particular? Seu filho deficiente físico, sua cegueira do olho direito, sua surdez, sua condição de refugiado político e de imigrante?

DH

A deficiência física do meu filho, a minha cegueira do olho direito, e a minha surdez parcial, são fatos relativamente recentes. Eu já sentia muita compaixão pelos cadeirantes e pelos cegos bem antes de experimentar isso na própria carne. Quanto à minha condição de refugiado apátrida preso durante dez anos numa cidade-estado e, posteriormente, à minha condição de imigrante, assim como a extrema pobreza, isso são fatos que marcaram a minha vida, portanto a minha obra.

RR

Isso tem algo a ver com a sua opção ideológica?

DH

Claro. Sou coerente e fiel a minha origem.

RR

Você é filiado a algum partido?

DH

Não. Sou libertário.

RR

Por falar em origem, como você se sente depois de ter morado em vários países? De ter assimilado várias culturas?

DH

Pertenço a quatro países – sem, no fundo, pertencer totalmente a nenhum deles. Sou um cidadão do mundo. O que às vezes incomoda.

RR

Por que incomoda?

DH

Porque como neto de camponeses gostaria de pertencer a um lugar só. Sinto-me constantemente deslocado, exilado em meu ??????? adorado cosmopolitismo.

RR

Esse seu cosmopolitismo não vai ao encontro de sua ideologia?

DH

Sim. Vai. Mas repare que as elites são cosmopolitas.

RR

O que quer dizer?

DH

Que posso me identificar com os valores estéticos das elites, mas não com a sua ideologia. Por outro lado, identifico-me com a ideologia do povo, mas não com sua estética. Como já disse, sou coerente e fiel a mim mesmo sem fazer concessões de rótulos.

RR

Falando de ideologia, como você vê o governo Bolsonaro?

DH

Um nojo. Um asco. Algo repelente. Desprezível. Uma classe inferior subiu ao poder. A degradação da democracia. Esse desiquilibrado????? que está na presidência tem estofo de ditador, como todo imbecil. É uma nulidade – independentemente de qualquer ideologia – que está prejudicando o País.???????

RR

Como, uma classe inferior?

DH

Tudo ???? aquilo que não prioriza o ser humano é, ética e moralmente, inferior.

RR

Você fala muito em ética e moral. Você se considera um filósofo?

DH

Não. Não me considero um filósofo.

RR

Um moralista como no século XVII francês?

DH

Li os moralistas franceses. Gosto de Pascal e de La Rochefoucauld – cito bastante este último que acho muito atual. Mas não sei se a influência é direta. Tive, por parte do meu pai, uma educação bastante filosófica, ética e moral.

RR

Seu pai, sua mãe e, em parte, seu irmão. Você fala muito deles em seus livros onde eles surgem como fantasmas. Isso é xintoísmo?

DH

Não sei se é xintoísmo. Não professo nenhuma religião. Mas se cultuar a memória dos meus queridos antepassados é xintoísmo, então que seja. Tenho um amor irrestrito por aqueles que me transmitiram a vida: pais, avós, bisavós. O meu avô paterno morou em vários países da América do Sul, à procura do Eldorado. Não o encontrou. E voltou com uma mão na frente e outra atrás. O meu bisavô materno esteve na Guerra Hispano-Americana. Era a minha mãe que me contava essas histórias da família. E eu lhe sou muito grato. Tive uns pais maravilhosos.

RR

Já falaram que, no fundo, você é um místico.

DH

Talvez. Um místico primitivo, selvagem. Um pouco como Rimbaud. Sem querer me comparar com o autor de Iluminuras.

RR

Você é um grande admirador de Rimbaud.

DH

Sim. E não só de sua obra, mas também da vida turbulenta que ele levou.

RR

Vida turbulenta… Você teve uma vida conturbada. Separado do pai, depois da mãe – por perseguição política – refugiado apátrida num cidade-estado de onde você não podia sair por falta de documentos, pobreza, tendo começado a trabalhar aos 12 anos. Sem contar as suas rupturas, as suas paixões, as suas decisões radicais, como, por exemplo, destruir seus primeiros cinco livros depois de ????????publicados, três na França e dois no Brasil. Por que você destruiu esses seus primeiros cinco livros?

DH

Porque eram ruins. Eram apenas meros exercícios sem valor literário e eu sou exigente.

RR

É algo espantoso, um escritor fazer isso.

DH

Meu gesto foi natural. Como acabo de lhe dizer, sou exigente. E eu ainda não tinha encontrado meu caminho literário.

RR

Outro autor pelo qual você é fascinado é Khayyam.

DH

Sim, Khayyam me fascina. Era um sábio hedonista em plena Idade Média. Teve muita coragem em dizer o que ele dizia. Antecipou-se seis séculos ao existencialismo cristão de Kierkegaard e sete séculos ao existencialismo ateu de Sartre. Que visão lúcida do mundo. Identifico-me muito com ele. Sexo, rosas, vinho e o Nada.

RR???????????????????????????????/

E o que você me diz daqueles que você define como escritores viscerais?

DH???????????????????????????????/

Gosto dos escritores que chamo de viscerais porque eu mesmo sou visceral. Bukowski, Violette Leduc, Lautréamont, Rimbaud (um visceral visionário), Baudelaire (um visceral aristocrático) entre outros. Via de regra os escritores viscerais são escritores malditos.

RR??????

O que é um escritor maldito?

DH??????

Aquele que desafia, que contesta, que subverte, que transgrede – o que, aliás, é o dever do escritor – e que fica na margem.

RR?????

A Arte é, de modo geral, uma constante em suas páginas. Literatura, cinema, teatro, música, pintura. Alguns grandes nomes da Arte parecem ser uma obsessão em seus escritos. De Stendhal, a Hieronymus Bosch e De Chirico, a Visconti e Resnais, passando por Beethoven e Bach.

DH??????

Sim, de fato. Meus livros são “plásticos”, “visuais”, “musicais” e isso é influência do cinema. O meu pai meu levava ao cinema quando eu era criança. Levava-me a assistir filmes para adultos que eu não entendia muito bem, mas ele me explicava na saída do cinema.

RR?????

Às vezes encontramos em seus romances um clima de sonho como nos filmes de Fellini. É proposital?

DH????

Não exatamente. Em meus livros o sonho convive com uma realidade muito crua. Meus personagens nunca desistem de viver e de esperar algo da existência.

RR/////

Isso seria uma pitada de otimismo?

DH//////

Não. Apenas de resistência.          |

RR

Você está escrevendo seu 38° livro?

DH

Sim.

RR

Muito sexo? Muita política? Como em ????todos os seus livros?

DH

Sim. Sexo, política e literatura.

RR????

Sai quando esse livro?

DH

Não sei. Sou um escritor maldito.

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