Derrubem a Lei de Anistia!

1 – A revisão da Lei de Anistia foi rejeitada pelo STF. O STF é constituído por uma elite que não representa a vontade do povo brasileiro.

2 – O que estão esperando os frouxos do Congresso para alterar a Lei?

3 – O crime contra a Humanidade não prescreve.

4 – A comissária da ONU para direitos humanos condenou a decisão do STF e disse o que já foi dito muitas vezes: por que não seguimos o exemplo da Argentina?

5 – A corte da OEA deverá julgar o Brasil por não condenar os acusados de crimes contra a Humanidade.

6 – Por que o Brasil continua, em termos políticos e sociais, um dos países mais atrasados da América Latina? Por que continuamos atrelados a esse ranço da época colonial?

7 – O Brasil precisa acabar com essa “tradição” de panos quentes. Ou seja, de impunidade.

8 – Os bandidos que sequestraram, torturaram e assassinaram devem ser caçados e julgados como foram os nazistas pelos israelenses.

9 – Brasileiros, manifestem-se, protestem, paralisem o País se for o caso e exijam um referendo sobre a Lei de Anistia.

10 – Um país se faz com justiça e rigor.

11 – O bolor das leis conservadoras é um incentivo para o crime, a corrupção e a impunidade.

12 – A Lei de Anistia é fascista, criminosa, retrógrada, reacionária, vergonhosa, cínica, perversa, canalha. Em suma, um lixo. Um lixo como aqueles que a promulgaram. Um lixo que denigre a imagem do Brasil perante o mundo.

01-05-2010

25 Preceitos e Deveres do Cidadão Honesto
Guia Prático para os Jovens

1 – Não obedecer a nenhuma lei que se oponha à consciência – o Estado, a Justiça e a Religião manipulam o cidadão.

2 – Incentivar e promover a desobediência civil sempre que necessário – omitir-se, por exemplo, em relação à violência da globalização e ao totalitarismo do neoliberalismo, é um crime contra a cidadania.

3 – Incentivar e aderir à paralisação do País para combater a injustiça social, o abuso salarial dos parlamentares, o nepotismo, o coronelismo e a corrupção.

4 – Contestar, solapar, combater, destruir e aniquilar toda e qualquer tentativa de massificação do indivíduo – o indivíduo não é gado, a massificação é uma das características do fascismo. O sistema, para melhor dominar a massa, promove a sua imbecilização – aliás, o que faz todo sistema totalitário.

5 – Afirmar e provar por ações concretas a liberdade individual – mesmo que seja pelo ato gratuito. Subverter a ordem estabelecida para fazer prevalecer a liberdade individual.

6 – Por em prática toda e qualquer ideia de libertação do indivíduo – desafiando ou burlando a autoridade estabelecida se for necessário.

7 – Defender a liberdade acima de tudo para salvaguardar a dignidade – a censura, por exemplo, de um livro e sua proibição por ação judicial é algo inadmissível, inconcebível, um ato fascista, retrograda, medieval, perpetrado por um juiz tendencioso, reacionário e incompetente que deveria ser condenado por atentado à liberdade de expressão. Proibir um livro é ranço de nazismo. Quanto à censura ao jornal Estado, é simplesmente uma aberração, uma afronta à democracia, um ato imbecil e perverso ao mesmo tempo.

8 – Combater com todas as armas e por todos os meios tudo aquilo que possa vir a comprometer o equilíbrio ecológico – o meio ambiente tem prioridade absoluta e deve ser preservado a todo custo e acima de tudo. Portanto, declarar a guerra àquele que não respeitar a preservação do Planeta. É uma questão de sobrevivência.

9 – Não se afiliar ao poder – todo poder é corrupto, portanto deve ser contestado.

10 – Não seguir nenhum líder – via de regra todo líder visa o poder. Che Guevara é uma exceção. O líder Buda outra. O líder Cristo outra.

11 – Não confiar em nenhum político – todo político é, potencialmente, desonesto, salvo raras exceções, e tem como objetivo encher o bolso e não contribuir para o bem da Nação. Mesmo porque o próprio sistema é corrupto e o impele – mesmo o político sendo basicamente honesto – a entrar no jogo do poder.

12 – Não dar o voto a nenhum político – votar seria contribuir para o enriquecimento ilícito de malandros. Abolir o sigilo fiscal e bancário de todo político antes de ele assumir o cargo e depois de deixá-lo. Abolir toda e qualquer imunidade parlamentar. A imunidade é uma afronta. Estipular por lei que o salário de nenhum parlamentar ultrapasse 20 salários mínimos incluindo todos os benefícios.

13 – Isolar, “congelar”, todo indivíduo que tente tirar proveito em qualquer circunstância.

14 – Relegar ao ostracismo vitalício os corruptos. No caso de políticos, cassação para o resto da vida, ou seja, banimento da vida política.

15 – Defender, por princípio, todas as minorias. Sempre que não se trate de fanáticos religiosos.

16 – Desconfiar da maioria – mesmo porque maioria é sinônimo de massa manipulada.

17 – Por em cheque, pela lógica e o bom senso, as convenções sociais.

18 – Boicotar as grandes marcas de produtos comerciais – pois elas manipulam o consumidor eliminando as concorrentes.

19 – Recusar-se a adquirir novos aparelhos enquanto aqueles em uso estiverem ainda funcionando – o consumismo é fascista.

20 – Não contribuir financeiramente com nenhuma instituição religiosa – toda instituição religiosa tem como meta a riqueza e o poder. O dízimo, por exemplo, é uma desfaçatez, um cinismo digno do ladrão profissional. Exigir que o governo taxe as instituições religiosas.

21 – Negar-se terminantemente a competir – além de indecente e imoral, a competição é ditatorial e fere a Ética.

22 – Combater e eliminar tudo o que atente à Ética – a Ética deve reger todos os atos do cidadão e servir como guia de comportamento. E um sistema que incentiva a abolição da Ética deve ser sistematicamente destruído por todos os meios possíveis.
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23 – Combater e eliminar o mercantilismo na educação, na cultura e nas artes – se é que arte mercantilista pode ser considerada arte.

24 – Preservar a identidade de modo a que nenhuma concessão venha a descaracterizá-la, desagregá-la, ou dilui-la – identidade é referência, memória, patrimônio, fatores inerentes ao equilíbrio psíquico do ser humano.

25 – Buscar a elevação espiritual dentro de si, sem o auxílio suspeito das regras, dogmas e superstições da religião que cerceiam a liberdade – Deus não tem religião, ele é natural. E a religião nada tem a ver com a religiosidade.

15 de agosto de 2009

R.Roldan-Roldan

Eu não fumo. Mas não tenho raiva de quem fuma. E deixo claro que não pretendo fazer neste artigo a apologia do cigarro. Mesmo porque cigarro faz mal à saúde. Mas a lei que proíbe fumar em locais fechados, públicos ou privados é fascista. Lugares públicos, vai lá. Ou que um restaurante ou um bar proíba fumar, é admissível. O que é inadmissível é que o proprietário de um restaurante ou bar que admita fumantes em seu estabelecimento se veja obrigado a proibir o cigarro. É um direito que o assiste permitir fumo em seu local. O correto seria um cartaz: aqui não é permitido fumar ou aqui é permitido fumar. O cliente faria a sua opção na entrada. Mas impingir uma lei que obrigue um dono de bar ou restaurante a proibir o uso do cigarro em seu próprio espaço é simplesmente uma medida antidemocrática. Abertamente fascista. Bem de acordo com o modelo norte-americano. Por que essa neurose contra o cigarro? Por que esse fanatismo típico dos EUA que não é nem mais nem menos que mais uma cruzada fundamentalista? Mais uma imitação dos nossos “amiguinhos” do norte do Hemisfério. Mais um modismo importado da “fucking America” como os salgadinhos tipo isopor salgado, os fast foods, os refrigerantes, as palavras em inglês que avacalham a língua portuguesa e outros lixos modernosos incluindo os culturais. Por que não escolhemos um país mais avançado para imitar? Os EUA são tão atrasados socialmente que nem saúde pública eles têm. Tão atrasados que ainda têm pena de morte. O país mais cristão do mundo é o maior produtor de pornografia e o maior consumidor de drogas. Mas voltando ao tema do atentado contra a liberdade que é essa campanha antitabagista, por que o governo estadual (e por extensão o federal) não se ocupa e preocupa com assuntos mais pertinentes, mais importantes, com problemas mais urgentes e graves do que o uso do cigarro? Por que não institui multas bilionárias (e não milionárias) para industrias que poluem o ar, os rios e o mar? Ou então ordena o seu fechamento? Isso sim é importante. Primordial. Premente. Urgente. E por que os babacas que tanto alardeiam o antitabagismo não deixam os seus carros na garagem e se locomovem de ônibus ou metrô para diminuir a poluição em vez de achar normal continuar engolindo toneladas de monóxido de carbono? Por que não exigem energia limpa para os seus veículos? Por que não se organizam para invadir as indústrias que poluem? Por que não saem às ruas, arregimentando o povo e arrebentam tudo no caminho, se for o caso, para mudar as coisas? Porque as coisas podem ser mudadas. Basta querer. Basta ser íntegro e honesto. E lançar ultimatos, entre outras ações, contra as corporações que poluem para reverter as coisas. Poluímos, em todos os sentidos, porque queremos. Se o consumismo, esse totalitarismo do século XXI, esse fascismo disfarçado, essa praga do neoliberalismo que assola e destrói o Planeta, esse horror resultante da cobiça oficializada, essa maldição com o seu pesadelo de lixo (literalmente falando), fosse freado, as condições ambientais melhorariam. Mas não. Isso seria utópico. O que importa é ganhar mais e mais. O que conta é a obsessão de lucro a todo custo. E Planeta que se estrepe. Ser ecologicamente consciente – como qualquer cidadão honesto deveria ser – é algo ligado à ética, o que absolutamente não interessa. Algo que fere os interesses criados. Portanto, bombas no sistema. Não é o cigarro que polui o Planeta. São as indústrias que poluem. E os veículos. E a devastação das áreas verdes. E o consumismo. E a ambição desenfreada de lucro. Haja pois paciência para aguentar a cretinice dessa ridícula campanha antifumo. Isso sem contar que esses alienados que não fumam se entopem de todo tipo de drogas. Das legais e das ilegais. Aliás, por falar em drogas, por que o governo não acaba com a violência das drogas? Não combatendo o tráfico. Mesmo porque todo mundo sabe que não é assim que o problema vai ser resolvido. Mas legalizando-as. Como outros países já fizeram. Porém, legalizá-las seria coisa de gente honesta. E hoje em dia tem de ter peito para ser honesto. E digo honestidade porque a droga não se legaliza simplesmente porque praticamente todas as instituições estão com o rabo preso. Envolvidas, direta ou indiretamente com o lucrativo negócio. Qual seria então a razão para não legalizá-las? É óbvio que as altas esferas não querem o fim do esquema, da mamata. E têm a petulância, a desfaçatez de alegar, hipocritamente, que a legalização das drogas seria algo imoral. Como seria também imoral, para esses fariseus, a legalização da prostituição, como já foi feito em outros países. Mas que cinismo, que hipocrisia, falar em imoralidade. E insisto, não se fala em imoralidade por ingenuidade ou ignorância. Mas por hipocrisia. Por perversão. Para não desfazer todo um esquema de interesses fortemente estabelecidos. Uma máfia cujos tentáculos se estendem por todos os setores da sociedade. E com a qual ninguém tem interesse em mexer. As caçadas policiais são apenas encenações para embromar a opinião pública. Só que ninguém é bobo. Chamar a legalização da drogas de imoralidade! Imoralidade e atraso de terceiro mundo são os vícios corruptos que se alastram há cinco séculos no País. Como o coronelismo. O nepotismo. O clientismo. O trabalho escravo. A isenção de impostos das instituições religiosas – verdadeiras indústrias da religião. E a corrupção de modo geral. Todos disfarçados de jeitinho, esse câncer do Brasil.

31-07-09

R.Roldan-Roldan é escritor

Publicado no jornal “Correio Popular” de Campinas a 4 de agosto de 2009

Honoráveis Torturadores

julho 31, 2009

Todos os países da América Latina fizeram a sua faxina histórica, por assim dizer. O Brasil ainda não. Todos os países da América Latina varreram o lixo da História e jogaram água com detergente, para uma limpeza mais eficiente. O Brasil ainda não. Ou digamos que os restos da pizza foram varridos para debaixo do tapete. O que não é uma limpeza, claro. Como manda a nossa vergonhosa tradição de impunidade. Todos os países da América Latina prenderam, julgaram e condenaram os seus seqüestradores, torturadores, estupradores e homicidas das suas respectivas ditaduras. O Brasil ainda não. Por que temos de ser política e sociamente, via de regra, mais atrasados do que os nossos vizinhos? Como, entre outras coisas, por exemplo, termos um dos piores salários mínimos do hemisfério, o que é um atraso social. Por que somos os únicos que ainda não limparam a sujeira da ditadura? Ou seja, por que ainda não resolvemos a questão dos crimes cometidos pela ditadura militar? Se a Argentina (que no dia 24 de julho sentenciou à prisão perpétua o general Luciano Benjamín Menéndez, acusado de seqüestro, tortura e desaparecimento de quatro civis), o Chile e o Peru reviram as suas legislações abolindo as normas que anistiaram os militares, por que nós não podemos ter mais dignidade e fazer a mesma coisa? Não. Nós sempre afrouxamos. Nós sempre colocamos panos quentes. Nós sempre buscamos uma conciliação que beira o indigno. Porque certamente essa atitude de omissão não é digna de um país que se diz democrático – embora não haja democracia dentro do neoliberalismo, mas isso é outra história. Nós proclamamos uma auto-anistia. E assim, os nossos seqüestradores, estupradores, torturadores e assassinos continuam à solta. Não foragidos. Não. Muito pelo contrário. Vivendo tranqüilamente, em paz. Livres e respeitados como honoráveis cidadãos. Como se não tivesse acontecido nada. Como se nenhuma atrocidade tivesse sido cometida. Que vergonha. Como é possível essa aberração judiciária? Aliás, para que serve a Justiça? Se não passa de uma farsa caduca, corrupta, decadente? Pois ignorar crimes de lesa humanidade e esquecê-los é um flagrante ato de injustiça e total degradação do Poder Judiciário. E não se trata de revanchismo. Em absoluto. Trata-se simplesmente, como já disse, de dignidade. E justiça. A impunidade (e não só dos crimes da ditadura militar) é uma mácula que o Brasil deve pensar em eliminar para ser mais respeitado no cenário mundial como país sério. Como país digno.

Outra coisa que deveríamos pensar em banir de uma vez por todas – será que ninguém pensou nisso até agora? – são todos os nomes de presidentes do regime ditatorial dados a logradouros. É simplesmente inconcebível – e ofensivo – que depois de mais de duas décadas ainda encontremos ruas, praças, avenidas, rodovias ou bairros com nomes como Castelo Branco, Costa e Silva, Médici e companhia. Quem são esses fulanos para merecer tal honra? Como é possível que um país perpetue o nome de um presidente da ditadura militar? Onde já se viu? Naquela época, obviamente, compreende-se. Mas agora? Soa ridículo. Grotesco. Esse ranço de totalitarismo que ainda persiste. Os países do Leste Europeu apagaram os vestígios do stanilismo. A Espanha, os do franquismo. O Chile, os do pinochetismo. Por que não fazemos a mesma coisa? Será que não basta ter o nome de Getúlio Vargas em tudo quanto é lugar?

27-07-08
R.Roldan-Roldan é escritor
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davidhaize@ig.com.br

Artigo publicado pelo jornal “Correio Popular” de Campinas a 31 de julho de 2008

Viva Maio de 68!

julho 31, 2009

Há 40 anos, em maio de 1968, Paris pegava fogo. Esplendidamente. Romanticamente. Historicamente. Algo de fazer inveja à história de qualquer nação. Os muros tomavam a palavra e lançavam slogans que atingiam o mundo inteiro, com repercussão política significativa na Alemanha, Itália, Tchecoslováquia, EUA, México e Japão. Sejam realistas, peçam o impossível. A imaginação no poder. Proibido proibir. Somos todos judeus alemães. Professores, vocês nos fazem envelhecer. A anarquia é a ordem. O sonho é realidade. Decreto o estado de felicidade permanente. Um homem não é estúpido ou inteligente: é ou não é livre. A ação não deve ser uma reação, mas uma criação. Gozem aqui e agora. A revolução deve deixar de ser para existir. Amem-se uns sobre os outros. Façam amor e recomecem. Exagerar é começar a inventar. E assim por diante. Mas era um sonho. Apenas um sonho adolescente. Um movimento estudantil e social misto de anarquia e ideais hippies. O fragor de uma bela utopia. Mesmo porque os comunistas – que com seu tradicional conservadorismo, nunca entenderam que a verdadeira revolução inclui a revolução comportamental – preferiram – para sorte do governo – a ordem burguesa à nova ordem dos revolucionários de Maio de 68. Sim, um sonho de primavera. Embora houvesse conquistas essenciais para a história do Ocidente, tais como, entre outras, a liberação sexual, as grandes reformas universitárias, os direitos da mulher, das minorias étnicas, religiosas e sexuais e um novo comportamento de todos os jovens do mundo. A esquerda ortodoxa achou pouco, politicamente falando, diante da proporção do que começou com greves e acabou com insurreição. Quarenta anos depois, com as conquistas consolidadas, restou mais do que nada nostalgia. Não só a nostalgia do tesão revolucionário para “nós que amávamos tanto a revolução”, mas a nostalgia de um ideal. Um ideal? Que coisa démodée, não é? Talvez tão ultrapassada quanto a dignidade. E eis a questão. Pois se, de certo modo, celebro Maio de 68, não é tanto pelo fato de algo que poderia ter sido, ter deixado logo de ser – ou, sob um determinado enfoque, não ter chegado a ser. Ou porque pertencendo à geração de Maio de 68, e como soixante-huitard (o equivalente, “sessenta-e-oiteiro”, não existe em português) convicto não poderia evitar de deixar pingar um pouco de saudade da juventude, não só rebelde, mas politicamente consciente. O motivo da celebração da primavera de 68 se deve ao vácuo que se instalou, depois, substituindo o ideal. Em verdade, o que me faz olhar para trás não é o tempo perdido em si. Mas o presente, esse horror cotidiano que nos é impingido, suavemente, de forma latente, mas, no fundo, perversa, sórdida e, sobretudo, com um brilho que ofusca os idiotas e que, para aqueles que têm consciência, causa náusea e revolta. Refiro-me à globalização e a seu séqüito de falsos valores e degradação. A globalização incentiva o mais abjeto, vil e escabroso aspecto da condição humana: a cobiça. Promovendo assim a corrupção, a miséria e a inevitável violência que dela decorre e desencadeando, no processo acumulativo de dinheiro e poder, todas as mazelas que assolam o Planeta e que o levam à destruição. E esse processo de destruição, incluindo a ambiental, é conduzido com o mais desbragado cinismo. Assim, já não se trata unicamente da ruína dos valores éticos, morais, intelectuais, humanistas que, com algumas variantes, guiaram todas as culturas da Terra. Não. Trata-se simplesmente de um sistema que, não só não traz nenhum benefício (a não ser às grandes corporações e a uma parcela ínfima da população), mas destrói, literalmente falando, a civilização. Logo, por que deveríamos ter qualquer tipo de escrúpulos quanto aos meios de eliminar a globalização? Metaforicamente falando, guerra é guerra. E se a guerra é deflagrada, é necessário defender-se do inimigo. Em suma, deve haver um modo de destruir esse fascismo disfarçado de consumo, esse totalitarismo adocicado para melhor engolir, essa violência que nos é imposta – em nome do dinheiro e da competição – diariamente, de maneira camuflada para que aceitemos pacificamente, como verdadeiros imbecis, uma total falta de opção, já que só temos uma ilusória liberdade de fachada. A globalização é a antítese da democracia. Acrescente-se a esse admirável sistema reacionário e decadente – que não hesita, como Hitler, a lançar suas hordas para invadir os paises cobiçados – a inércia, a flacidez, o conformismo ou a cegueira da maioria silenciosa que se limita a encolher os ombros e a dizer que não existe alternativa. Que não há remédio. E os famigerados defensores da globalização alegam que é um processo irreversível. E se esquecem, estupidamente, de que, sob certos aspectos, a História não conhece nenhum processo irreversível. E se esquecem também de que o Terceiro Reich afirmava mais ou menos a mesma coisa. Que era irreversível e que duraria mil anos. Durou apenas doze anos (1933-1945). O próprio império norte-americano já está dando sinais de esgotamento e desgaste. E a União Européia está questionando os efeitos colaterais da globalização e tentando reformulá-la. Logo, diante da sordidez, da perversão, da ditadura da globalização, não posso me impedir de sentir saudade das barricadas, dos milhões de pessoas nas ruas contestando a ordem estabelecida, da paralisação de uma nação. Em suma, de Maio de 68. Há sempre dignidade na postura do Não, Basta! Mesmo que seja necessário atingir o caos para recomeçar. Para renovar, o que equivale a dizer: para continuar. A aceitação pode ser válida, talvez, do ponto de vista de um inelutável drama pessoal. Mas nunca política e socialmente falando. Águas estagnadas fedem.

R. Roldan-Roldan é escritor
http:/roldan.vila.bol.com.br

Artigo publicado pelo jornal “Correio Popular” de Campinas a 4 de maio de 2008

Há uns dias estava almoçando e lendo o jornal. Como costumo fazer. E uma notícia travou os alimentos em minha garganta – não deveria ler enquanto como. E o sangue subiu. Como deve ter subido em milhões de brasileiros. Ou não? Será que a consciência da dignidade ainda faz subir o sangue nos habitantes do Brasil? Ou chegamos a tal ponto de indiferença ou passividade que nos torna desprezíveis? Um inadmissível estado de deixa-pra-lá onde tudo o que ocorre de abjeto neste País termina numa desconcertante frase: não adianta, é assim mesmo. Como se fosse absolutamente natural que o salário de um parlamentar seja de R$ 24.500 e o mínimo ainda seja 350,00 miseráveis reais. O que é uma afronta. Num país onde um terço da população vive, não na pobreza, mas na miséria. Neste caso a expressão da revolta é um ato de dignidade. E esse ato se resume, não em incendiar ônibus e carros e em destruir lojas (o que seria plenamente justificável e compreensível – e digno? – levando em consideração que seria o único “diálogo” que essa corja, eleita pelo povo, entenderia), mas em paralisar o País inteiro, como qualquer país decente, sério, justo, civilizado e digno faria. Sim, porque um povo digno se manifesta. Um povo digno sai às ruas. Um povo digno paralisa uma nação para mudar uma lei, como, por exemplo, fez o povo francês no primeiro semestre para obrigar o governo a revogar a lei do primeiro emprego – e a lei foi revogada como manda a verdadeira democracia. Já que toda lei é feita pelos homens, logo suspeita, ou seja, sujeita a parcialidade. E quando a lei não atua para o bem do país, seja qual for a lei, seja qual for o país, ela deve ser eliminada. Pois como podemos admitir a vergonha, a pilantragem, a rapinagem, a desfaçatez, o cinismo, o coronelismo, o totalitarismo, o roubo, o abuso de poder, a ditadura dos parlamentares melhor remunerados do mundo? Qual é a diferença entre um traficante e um parlamentar (salvo raras exceções)? Nenhuma. Já que o enriquecimento de ambos é ilícito. Minto: o dos parlamentares é acobertado pela lei. E tem mais: o salário dos traficantes não é pago pelo contribuinte, mas o dos parlamentares é. Logo, uma lei que permite essa aberração social deve ser revogada. Aliás, determinadas leis deveriam ser submetidas a um referendo popular como manda a verdadeira democracia. Um governo (ou o termo sistema seria mais adequado?) conivente com esse ultraje é indigno, logo não é aceitável e deve ser combatido. Um povo que silencia, que não se movimenta e promulga o seu Não em altos brados e aceita essa indecência, essa imoralidade, é indigno. E que fique explícito que não estou absolutamente pregando a violência – como os tendenciosos estariam inclinados a pensar – ou o discurso dialético, como os egoístas estariam propensos a concluir. Não. Nada de proselitismo: não faz o meu gênero. Falo de algo natural. Ou que deveria ser natural. Falo de consciência humana (redundância?) e de dignidade. E permitam-me lembrá-los de que a dignidade se obtém com a ação. Certamente não com o determinismo que trava a humanidade. Não existe determinismo histórico. Existe apenas a História. Mas… a Revolução Francesa de 1789 ainda não chegou ao Brasil. E nem sequer toquei na ética, porque aí entraria no capítulo da barbárie. Deixo-a para uma outra ocasião. E, como não sou demagogo, não aproveito a época natalina para invocar o famigerado espírito de Natal. Talvez apenas apele para um remoto sentimento cristão de generosidade.

17-12-2006
R.Roldan-Roldan é escritor
davidhaize@ig.com.br
http://roldan.vila.bol.com.br

Publicado no jornal “Correio Popular” de Campinas a 21 de dezembro de 2006