Os Esquecidos do Oscar

agosto 10, 2017

Os Esquecidos do Oscar

 

Os prêmios – seja qual for o campo da arte – são, como é sabido, relativos. O que quer dizer que nem sempre é o melhor que vence. Se pegarmos o prêmio Nobel de literatura, veremos que alguns escritores laureados estão praticamente esquecidos. Outros, que o tempo consagrou como grandes autores, hoje clássicos, foram ignorados. Como é o caso de Tolstoi, Proust, Kafka, Joyce, Borges e outros.

No âmbito do cinema, grandes filmes foram praticamente ignorados nos três maiores festivais da sétima arte do mundo: Veneza (o mais intelectualizado e mais antigo), Cannes (o maior em termos de transações cinematográficas) e Berlim (o mais engajado politicamente). Em 1962, quando O Pagador de Promessas recebeu a Palma de Ouro em Cannes, havia obras infinitamente maiores concorrendo, como O Eclipse, de Antonioni, O Anjo Exterminado, obra-prima de Buñuel, e Os Inocentes, de Jack Clayton, obra-prima do gênero e talvez o melhor filme de terror de toda a história do cinema. Claro, isso sem pretender desmerecer as qualidades do concorrente brasileiro. No caso dos grandes festivais, os critérios são outros. Mais exigentes e menos comerciais. Os prêmios são outorgados por um júri formado por gente de cinema: críticos, diretores, roteiristas, produtores e atores internacionais, de vários países, para que não aja favorecimento ao concorrente de uma determinada nação. Mesmo assim, às vezes os jurados, movidos pela simpatia da denúncia ou causa defendida no filme, outorgam o que poderíamos chamar de prêmio político a obras que, do ponto de vista estritamente cinematográfico, são inferiores a outras concorrentes, como foi o caso de Michael Moore, que arrebatou a Palma de Ouro em Cannes, em 2004, com Fahrenheit 11 de Setembro. Quero frisar que sou admirador de Michael Moore, mas Edukators, de Hans Weingartner, e Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasethakul, que também concorriam à Palma de Ouro, eram superiores.

No caso de Hollywood, a coisa é diferente. A Academia melhorou em termos de prêmios no sentido que não prevalece sempre o lado comercial – exemplo: Moonlight: Sob a Luz do Luar, Oscar 2017 de melhor filme, não tinha nada de obra para o grande público. Mas Hollywood tem uma tendência acentuada a premiar atores/atrizes muito jovens em detrimento de grandes veteranos que nunca receberam a cobiçada estatueta. E, em relação aos intérpretes – sem mencionar diretores e roteiristas – cometeram-se muitas injustiças, em alguns casos redimidas (em termos, claro), pelo Oscar Honorário que, para um ator ou uma atriz, não é a mesma coisa que receber o galardão por uma determinada interpretação.

A título de exemplo, citemos alguns daqueles que nunca receberam o prêmio da Academia. Entre as mulheres, mencionemos Greta Garbo, apelidada de A Divina, a mais fascinante, mais sedutora, mais misteriosa estrela de todos os tempos. A mítica Lauren Bacall, esposa do também mítico Humphrey Bogart. A insinuante Barbara Stanwyck. A finíssima Deborah Kerr. A maravilhosa Jean Simmons que, além de boa atriz, era linda. A excelente Gena Rowlands (ainda viva), esposa do maior diretor independente dos EUA, John Cassavetes. A sensível Claire Bloom. A subestimada Viveca Lindfors, cujo talento sempre esteve acima dos papéis que lhe foram dados na Meca do cinema. Thelma Ritter, talvez a melhor coadjuvante que Hollywood nos deu, extremamente espontânea e engraçada; ela foi indicada seis vezes ao prêmio, mas nunca o obteve – aliás, a Academia sempre pareceu ignorar que fazer rir é muito mais difícil do que fazer chorar, e sempre se esqueceu dos comediantes, valorizando mais os dramas do que as comédias. Agnes Moorehead, outra grande coadjuvante, que foi indicada quatro vezes sem nunca ganhar.

Entre os intérpretes masculinos, temos Fred MacMurray, grande comediante. Glenn Ford, parceiro de Rita Hayworth em vários filmes, entre eles Gilda. Gene Kelly, que não era só um grande bailarino. Os britânicos Richard Burton – malgrado ter sido indicado sete vezes – e os notáveis Dirk Bogarde, Alan Bates e Oliver Reed, que trabalharam em filmes memoráveis. E o excelente Harvey Kietel (ainda vivo).

05-07-2017

Anúncios

Knight of Silence

abril 5, 2017

Knight of Silence

 

Oh Threats of Hell and Hopes of Paradise!

One thing at least is certain – This Life flies;

One thing is certain and the rest is Lies –

The Flower that once has blown forever dies.

Omar Khayyám (in Rubáiyát)

 

Bones and dust

remembrance

blood and joy

but no God

fulfilling the promise

*

Among noise and hurry

soul got lost

and the dirty night of the damned

writes down restless

the vast solitude

*

Still waiting for Him

but no word

no breath

He is still unreachable

to questions

*

Still alone in the nest

on that summit

in the desert

waiting for the last bird

the blind one

*

If you ever meet the lonesome Knight

on the high Hamada

tell the gods

he is still waiting

waiting for the Man

*

Such a long journey

oh the lonesome Knight is so tired of wandering

so thirsty of being

so stuck in the solitude of his dialogue

that he is forgetting his land and his name

*

Silence

mirror of his soul

why should the Knight ask

more than his silent dialogue

Silence makes him exist

*

Yore

when the Knight was wise

he used to lie to his foolish heart

yesterday

when he was wild

he used to dive in the fury of living

today he is old naked and free

*

Give him bread and water

or rice and tea

and the Knight will grow mind and heart

through the fields of Liberty

in no man´s land

*

When years become heavy

Death and Time start dancing around

with a dark smile

whispering hurry up

strangling illusions

*

Childhood sun and sand

and the casbah labyrinth

poor kid bore shoes

he used to eat dreams with dates

and drink green tea by the sea

*

Stay with the Knight

man from Africa

for his has lost his roots

and his words are becoming rare

far away from himself

in the fields of loneliness

love him

*

Oh God

what an unbearable stupidity

turns a man into a biped

In the prison of social conventions

Knight

don´t yell

destroy

*

Why should the Knight kiss

what the others kiss

why should the Knight embrace

what the others embrace

leave him alone with his dignity

*

Silence

diving in the Silence

far away from noise and words

and useless clothes

Silence

please hold the Knight

naked

*

Rainy night

lonesome street

steps and shadows

the Knight walks along with sad angels

looking for the joy of demons

lustful smile greedy eyes

his body shivers

*

Follow the Knight

to the land of desire fury and wine

where you will change your name

and embrace the typhoon of Freedom

before dark

*

Don´t answer

ask

for life is short

vast is pleasure

waiting for living

*

 

Where is this desolation coming from

why are words unable to determine actions

what could one expect from Fate´s owner

who will show the way in this marionettes world

the answer is nowhere

*

Since one is just a puppet

why such an anxious living

decades struggle is useless

Destiny is laughing

he is always the winner

*

Oh how serene the sand garden is

naked under the beech

passions in the attic

the Knight is just feeling himself

without thinking

*

Twilight

the funeral of the gods is over

dreams are buried

nothing was left but

greediness

chaos

and a fake History

*

Murmur of Time

slowly dropping the past

grey foam of ancient desires

frisson passing by

under the solemn oaks

*

Come away Knight

your faery is wounded

listen to her moan

pale is the sun through the mist

wandering steps

amid the mournful cypress

Come away Knight

*

Irreversible

no God

no Paradise

no demiurge

no hero

Art perhaps Love

maybe laic spirituality

*

August 10, 2016

For more Roldan´s poems in English refer to:

http.//tuckmagazine.com/2016/03/17/poetry-279/

 

 

Pequeno Léxico de Reflexões Filosóficas e Contestações Sociopolíticas

Texto revisto e ampliado

 

De tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver

agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem

 chega a rir-se da honra, desanimar-se da justiça e ter

vergonha de ser honesto.

Rui Barbosa

 

As convicções são inimigas mais perigosas

da verdade do que as mentiras.

Nietzsche

 

A superstição põe o mundo em chamas, a filosofia

 apaga-as.

Voltaire

 

Sempre notei que as pessoas falsas são sóbrias, e

 a grande moderação à mesa geralmente anuncia

 costumes dissimulados e almas duplas.

Rousseau

 

 

Se você não fosse tão ignorante (ou burro ou imbecil ou perverso) entenderia que…

 

01[Absoluto]…o Absoluto e o Nada convergem..

02[Afronta]…os salários, privilégios e regalias dos parlamentares são uma afronta ao povo brasileiro, algo absolutamente inadmissível.

03[Amor]…o amor talvez inclua jogar pedras aos porcos, pois um deles pode apreciá-las.

04[Armas]…é inconcebível que ainda se fabriquem armas, o que torna a humanidade profundamente atrasada.

05[Bancos]…o despotismo dos bancos deve ser regulado..

06[Cobiça]…o neoliberalismo incentiva a cobiça, o pior defeito humano..

07[Competir]…competir é imoral.

08[Conhecimento]…o fascínio do Desconhecido leva ao Conhecimento.

09[Consumismo]…o consumismo é fascista..

10[Corporações]…o despotismo das corporações deve ser regulado..

11[Cultura]…o achatamento, o raquitismo e a rarefação da cultura são  decorrentes da política cultural do neoliberalismo, já que, segundo o imediatismo do neoliberalismo, a cultura não dá lucro. .

12[Cultura]…há uma certa barbárie no menosprezo do neoliberalismo pela cultura..

13[Democracia]…o Brasil não é uma democracia, mas uma ditadura do capital – o impeachment de Dilma Rousseff é uma prova.

14[Deus]…a emoção confirma a existência de Deus, enquanto a razão a nega.

15[Deus]… nada prova a existência de Deus nem a sua não existência. .

16[Deus]…Deus é silêncio absoluto e não gritaria.

17[Deus]…Deus não precisa de intermediários, portanto não tem nada a ver com a religião..

18[Deus]…todo aquele que se arroga ser portador da palavra de Deus é um impostor, um charlatão e um picareta.

19[Deus]…Deus vomita os mornos, segundo a Bíblia.

20[Deus]…Deus ama os negros, os judeus, os ciganos, os agnósticos, os ateus, os homossexuais, os viciados, as prostituas e todas as minorias..

21[Deus]…Deus não ama os fanáticos, os intolerantes, os fundamentalistas, os sectários, os racistas e os homófobos.

22[Deus]…Deus talvez não esteja morto, mas está estressado, gasto..

23[Deus]…Deus deixou de ser um estereótipo.

24[Deus]…Deus é inominável..

25[Dignidade]…a dignidade começa pela ética, passa pelo desprendimento e termina pela Liberdade.

26[Economia]…a economia prevalecer sobre o bem-estar social é um crime político.

27[Economia]…o materialismo dialético do marxismo é um humanismo comparado com o degradante materialismo do neoliberalismo..

28[Economia]…se os economistas fossem um pouco menos ignorantes, se tivessem um mínimo de conhecimento do ser humano, se conhecessem um pouco de história e antropologia, perceberiam que a arte rupestre das grutas de Altamira e Lascaux diz muito mais – há milhões de anos – do que suas estúpidas teorias de sistema de governo.    

29[Educação]…um país que não prioriza a educação e a saúde não é um país sério, é um país atrasado que não merece respeito.

30[Educação]…as crianças deveriam ter aulas de ética, sexo, ecologia/meio ambiente, sociologia e antropologia no ensino fundamental. .

31[Eternidade]…a eternidade não existe, que é apenas um mito, já que tudo tem fim.

32[Ética]…a legalidade não pode prevalecer sobre a ética; que quando a legalidade fere a ética, a legalidade deve ser contestada, burlada, sabotada e destruída por todos os meios; não se pode esquecer que a escravidão era legal, assim como a segregação racial.

33[Ética]…no Brasil a ética está mais abaixo do que anus de réptil.

34[Exército]…é inconcebível que quase todos os países do Planeta ainda tenham exército, o que prova o atraso da humanidade.

35[Fé]…a fé é acreditar no potencial de transformação do Homem.

36[Feminismo]…o feminismo fora de um determinado contexto sociopolítico soa falso.

37[Fidelidade]…aquele que não é fiel consigo nunca será fiel com os outros.

38[Finitude]…a consciência da finitude reduz a prepotência.

39[Fome]…o cidadão com fome tem o direito de saquear.

40[Gozo]…o gozo regula a existência.

41[Gozo]…o gozo dá um sentido à vida.

42[Gozo]…o sábio equilibra o gozo entre a existência e a vida.

43[Homofobia]…a homofobia é uma característica dos seres inferiores..

44[Homófobo]…o homófobo é um homossexual enrustido.

45[Homossexualidade]…a criança já nasce homossexual.

46[Indiferença]…se tornou algo comme il faut em nossa sociedade alienada.

47[Ingenuidade]…é o suprassumo da ingenuidade afirmar que, num país tradicionalmente corrupto como o Brasil, as privatizações do governo FHC se deram sem corrupção.

48[Justiça]…todos os brasileiros não são iguais perante a Justiça (depende da conta que cada cidadão tem no banco).

49[Justiça]…a punição do infrator brasileiro depende de sua classe social e de sua conta no banco.

50[Justiça]…um país se faz com justiça e não com a impunidade das classes privilegiadas.

51[Justiça]…a omissão da Justiça acoberta o crime e o “legaliza”.

52[Justiça]…a Justiça é tão retrógrada no Brasil que ainda considera o crime sexual mais grave que o crime ecológico..

53[Justiça]…a justiça é tão retrógrada no Brasil que ainda considera o assalto a um banco (uma instituição suspeita sob o ponto de vista ético) um crime mais grave que a corrupção..

54[Liberdade]…nenhum ideal está acima da Liberdade..

55[Liberdade]…a Liberdade requer um desenvolvimento espiritual e intelectual para ser compreendida na acepção mais profunda do termo.

56[Liberdade]…tudo aquilo que atentar contra a Liberdade, sejam crenças religiosas, ideológicas ou convenções sociais deve ser destruído, aniquilado, pulverizado por todos os meios.

57[Lei]…toda lei que viole os direitos humanos deve ser destruída por todos os meios; que lei não é sinônimo de ética.

58[Mídia]…a mídia que está nas mãos de grandes corporações é tendenciosa, parcial e que, obviamente, favorece a classe social à qual pertence.

59[Milagre]…a vida vegetal, animal e humana é um milagre em si.

60[Nações]…há nações que não são dignas do presidente que têm, como é o caso dos EUA e do presidente Barack Obama. .

61[Nada]…o Nada e o Absoluto convergem.

62[Nada]…é o Nada que integra ao Todo.

63[Neoliberalismo]…no lupanar do neoliberalismo se vende tudo, até a própria mãe.

64[Neoliberalismo]…o totalitarismo do neoliberalismo ainda não entendeu que existe uma terceira via e que, para sobreviver, ele vai ter de ceder.

65[Opção]…tudo na vida é uma questão de opção, que quando optamos estamos anulando automaticamente o lado rechaçado, que a não opção é sinônimo de acomodação, frouxidão ou covardia, sem contar que a não opção é uma opção em si.

66[Opulência]…suas luxuriantes risadas são acompanhadas de sonoras flatulências.

67[Ousar]…ousar, ato salutar, é sinônimo de caráter. .

68[Padronização]…a padronização – ou massificação – é um atentado contra o indivíduo, uma aberração característica do fascismo, do nazismo, do stalinismo, do maoísmo e do neoliberalismo, já que o ser humano não é gado. .

69[Parlamentares]…os parlamentares não podem ter salários que ofendam a ética e a miséria do País, que esses salários são um abuso de poder que deve ser erradicado..

70[Parlamentares]…os parlamentares, em sua grande maioria, são uma corja de safados medíocres, sem ideologia e sem ideal, que se vendem como meretrizes a quem paga mais.

71[Parlamentares]…os parlamentares não podem de jeito nenhum ter imunidade; isso é antidemocrático, absurdo, inadmissível.

72[Parlamentares]…todo parlamentar corrupto deve ser cassado pelo resto da vida.

73[Parlamentares]…a função do parlamentar não pode comportar esse grau de desfaçatez, de arrogância e estupidez a serviço do próprio bolso. .

74[Parlamentares]…o parlamentar não se candidata para o bem do País, mas para o bem do seu bolso..

75[PMDB]…o PMDB e o PSDB são tão corruptos quanto o PT, sendo que a intenção de frear a Lava Jato é a prova mais evidente..

76[Poder]…todo poder privado tem de ter um limite para não se transformar num tumor ditatorial dentro do Estado e prejudicar a sociedade.

77[Ponderação]…a ponderação, em certos casos, é frouxidão, omissão e covardia.

78[PT]…a esquerda não é sinônimo de PT..

79[PT]…todos os males do Brasil não vêm do PT.

80[Questionar]…questionar absolutamente tudo é um direito do cidadão..

81[Racismo]…o racismo é uma característica dos seres inferiores.

82[Razão]…a Razão é a marca registrada do Homem Superior.

83[Razão]…se chega a espiritualidade pela Razão..

84[Religião]…a função da religião é ajudar e prover as necessidades dos carentes e conscientizá-los de seus direitos em vez de drogá-los com alienação, imbecilização, fanatismo e cegueira..

85[Religião]…o fanatismo religioso deve ser erradicado com o incentivo de uma educação absolutamente laica baseada na Razão. .

86[Religião]…a isenção tributária das instituições religiosas deve ser abolida já que a não taxação é medieval, reacionária e antidemocrática. .

87[Religião]…a lavagem cerebral, a extorsão, a promoção do fanatismo, do obscurantismo, da segregação, do preconceito, da repressão sexual e da imbecilização do cidadão que certas igrejas pentecostais (e por extensão outras religiões) promovem é um crime social que atenta contra a dignidade humana e que deve ser punido por lei. .

88[Religião]…todas as religiões, sob o ponto de vista filosófico, estão decadentes, o que atesta a pobreza espiritual da humanidade. .

89[Religião]…o Homem Superior prescinde de religião.

90[Revolução]…a revolução deve ser ministrada em pequenas doses homeopáticas para envenenar o conservadorismo sem matá-lo, pois o conservadorismo pode ser útil em caso de vazio pós-orgasmo revolucionário.

91[Saber]…não devemos pedir perdão por saber.

92[Sagrado]…só a vida humana, animal e vegetal é sagrada, o resto é mito descartável ou cobiça.

93[Sexo]…a vida sem sexo é insípida como comida de hospital..

94[Sexo]…o sexo faz bem à saúde física, mental e espiritual..

95[Sexo]…a repressão sexual é um crime contra o corpo, logo, contra a natureza.

96[Sexo]…a abstinência sexual pregada por fanáticos religiosos é uma aberração que instiga a violência, já que todo ser reprimido sexualmente se torna violento.

97[Silêncio]…o Silêncio é a dimensão sonora do Absoluto.

98[Silêncio]…é no Silêncio que a alma se olha no espelho.

99[Silêncio]…o Silêncio é a manifestação do Infinito.

100[Silêncio]…só o ser superior ouve o Silêncio.

101[Social]…o Brasil é profundamente atrasado em termos sociais.

102[Social]…o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão. .

103[Social]…o Brasil não lutou pela independência como todos os países do Continente Americano (e isso se reflete em seu lastro social), o que perpetua os vícios sociais inerentes à colônia.  .

104[Social]…a desigualdade social no Brasil – e sua consequente segregação – é uma das piores do mundo.

105[Social]…a divisão de classes é uma abominação que data da época dos faraós. .

106[Social]…o conservadorismo brasileiro é tão obtuso e reacionário que trava qualquer tentativa de progresso social..

107[Social]…águas estagnadas fedem, assim como fede o conservadorismo, que é uma estagnação.

108[Solidão]… nunca o ser humano foi tão sozinho quanto neste século XXI.

109[Superficialidade]…a superficialidade de nossa época leva às trevas.

110[Superioridade]…a superioridade inclui a ética, a Razão e o desprezo pelos bens materiais.

111[Terrorismo]…o terrorismo é um termo ambíguo, já que depende de um determinado ponto de vista, ou seja, do lado em que se está.

112[Terrorismo]…os nazistas chamavam os patriotas franceses da Resistência e os italianos do Maquis de terroristas, assim como a Inglaterra chamava os irlandeses do IRA de terroristas – e foram os irlandeses do primeiro IRA que venceram a Inglaterra na luta pela independência. Aliás, a Inglaterra deveria indenizar o povo irlandês pelas atrocidades que, durante séculos, cometeu contra ele, entre muitas outras o tráfico de escravos irlandeses para o Novo Mundo – mas disso os historiadores não costumam falar,        como não costumam falar do lado sanguinário da rainha Elizabeth I.

113[Trabalho]…o neoliberalismo aviltou, degradou, o trabalho do assalariado exprimindo cada vez mais seus benefícios sociais e isso é um crime social.

114[Trabalhador]…se a população envelheceu, esse fator social tem de ser compensado pelos que têm, não pelos que não tem condições econômicas; chega de explorar os desfavorecidos.

115[Transgressão]…a transgressão tonifica os nervos, chacoalha os flácidos e ilumina verdades suspeitas.

116[Trump]…construiu uma persona para impactar os ignorantes e se saiu muito bem.

117[Trump]…é um excelente homem de negócios que ganhou a eleição com bravatas que ele sabe serem impossíveis de realizar.

118[Trump]…todo populista tem estofo de ditador e vende produtos adulterados e Trump não foge à regra.

119[Universal]…o amor universal talvez requeira não pertencer a nada.

120[Universal]…só a Razão e o despojamento podem nos elevar ao Universal.

121[Vaidade]…a vaidade é o anus do orgulho.

122[Valores]…os valores não são eternos, mudam com o tempo e o espaço.

123[Vandalismo]…a reação violenta da miséria decorrente da exploração não é vandalismo.

124[Vandalismo]…o vandalismo é representantes da classe média destruindo obras de arte.

125[Vantagem]…que a tradição de tirar vantagem está na origem da corrupção brasileira.

126[Vazio]…o século XXI aprofundou o vazio político, humanista e cultural das duas últimas décadas do século XX.

127[Venezuela]…não se deve confundir a Venezuela de Maduro com o Brasil de Dilma Rousseff.

128[Verdade]…toda verdade é relativa..

129[Verdade]…toda verdade absoluta é suspeita.

130[Verdade]…a única verdade – ou certeza – é a morte.

131[Vida]…entre outras coisas, é o estalar de uma flor que se abre.

132[Violência]…toda violência é social e determinada por fatores sociais como miséria e desigualdade social.  .

133[Violência]…a miséria é a mais terrível violência social que existe..

134[Vulgaridade]…o século XXI se caracteriza pela vulgaridade, que vai das artes à guerra, passando pelas relações pessoais; que essa vulgaridade se iniciou nos anos 1980.

135[Xenofobia]…a xenofobia é uma característica dos seres inferiores.

136[Yoruba]…num país de maioria negra como o Brasil, ninguém sabe que “mo ni fe” significa eu te amo em yoruba.

 

01-06-16

Revisto e ampliado em 28-02-17

 

 

De Amor e Solidão

fevereiro 1, 2017

De Amor e Solidão

 

S1

Como ave precursora de solidão

de asa ferida e sonho rasgado

atravesso o deserto do exílio

à procura do ninho

 

A1

A tua pele absorve-me a culpa milenar

fundindo-se com a minha

e me narras à meia luz

a fábula do beduíno e do masai

 

S2

Partiram os deuses

restam apenas lendas que não curam

e Deus não responde aos meus gritos

de silêncio

 

A2

E entendi atos que minha razão negava

e me tornei menino para te amar

sem perguntar

apenas sentir

 

S3

Eu os fiz

eles têm meu nome meu sangue meu DNA

mas eles não têm meu Verbo

que recusam

 

A3

A pele se inflama

a carne se entrelaça

a morte foge perante a candeia

da paixão

 

S4

No cabo da Desesperança

pisca a alma

para atrair um navio

perdido

 

A4

De onde vens estranho amor

que semeaste a candeia da alma

no meu membro descrente?

de que espaço de que tempo?

 

S5

Não me pareço com nada

minha voz não encontra eco

vislumbro luz na sombra

a luz dos outros me fere

 

A5

Mergulhas-me na humildade

na generosidade

na alegria primitiva de viver

e teu amor me aproxima de Deus

 

S6

Em abismos de meteco

sondo relíquias de sonhos

onde os mortos falam

a minha língua

 

A6

Calo-me perante a extensão do teu olhar

e povoo meu silêncio com o vasto sorriso

da compreensão infinita

de amar e ser amado

 

S7

Nada sou sem o espelho do outro

nada sou sem a palavra do outro

em meu castelo urdo uma língua

que nunca será compreendida

 

A7

Quando o furor animal

funde nossos corpos

o estertor da pequena morte

faz-nos pingar a alma feita uma

 

S8

Muito hei de esperar para que os outros

vejam minhas cores ouçam meu som

muito hei de esperar para que minha luz se faça

na glória do silêncio

 

A8

És meu suor minha saliva meu odor sou teu  

és o vôo da águia sou o pulo do tigre

és o lago profundo sou a torrente

és a savana sou o deserto somos êxtase

 

S9

O ser e o cosmos

a solidão da pergunta

o Absoluto inatingível

Deus não me trava não me liberta

 

A9

Bebes minha essência bebo a tua

nossas almas se tornam a nossa alma

nossos corpos o nosso corpo

para além do gozo de estar ser

 

S10

Meu Pai foi embora

pelos caminhos da Razão

só fiquei como animal abandonado

em terra inóspita

 

A10

Dou-te de boca para boca

as capitosas uvas do desejo

e abafo teus gemidos

com o uivo do meu gozo

 

S11

Nas ermas paragens

habito-me

de silêncio e luz

do Nada

 

A11

Há nos gestos cotidianos

de um para o outro

a dimensão sagrada

de zelar pelo uno

 

S12

Entre a cegueira do ignorante

e a cobiça do perverso

traço o voo proscrito

acoplando vácuo e exílio

 

A12

Da fúria animal

extraímos a seráfica ternura

e a liturgia sem par

do uno em êxtase

 

S13

Hordas de fanáticos

arrastam-se como larvas

atrás de deuses repulsivos

e me cubro de lama para afugentar os súcubos

 

A13

Olhos nos olhos

debulhando os séculos

dos que amam

plasmando eternidades no instante

 

 

 

 

S14

Longas estradas de mutismo

a inteligência rarefeita me sufoca

reverberações sem revelações

a alma crava-se espinhos para se aquecer

 

A14

Invasão mútua tornando-nos primitivos

anulação mútua tornando-nos platônicos

anexação do corpo transferência da carne

te amo em mim porque em ti sou

 

S15

Mentes estreitas corações mesquinhos

da caatinga às estepes

de exílio em exílio sou

chego em solidão estou

 

 

A15

E a solidão com vara magicamente amor se fez

soam os sinos entre as pernas

a glória de viver

no instante sagrado de existir

19-02-16/06-06-2016

 

 

De Favelado a Empresário a Favelado

 

 

Cada um tem tantos direitos,

 segundo o poder que tem.

Spinoza

 

 

Ao Homem Negro

 

 

Barros*

Não dou entrevistas.

Repórter

Por favor, só umas perguntas.

B

Não. Não dou entrevistas.

R

Eu tenho a maior admiração pelo senhor. Sou novo no emprego e gostaria de ter essa chance. Além do mais sou negro, como o senhor.

B

Tudo bem, entre. Você tem só quinze minutos. Não tire fotos nem de mim nem da casa. Nem cite meu nome nem endereço. Nem sequer o bairro. E não faça referências aos membros de minha família.

R

Entendido e prometido. Vou ser objetivo e direto já que o senhor só me concede quinze minutos. O senhor, que foi um homem rico, não se sente um tanto deslocado na favela?

B

Absolutamente não. Foi uma opção retornar às origens. Quanto ao rótulo de homem rico, gostaria de frisar que não era nenhum bilionário.

R

Essa decisão de nível socioeconômico não o incomoda?

B

Acabo de lhe dizer que não.

R

O senhor nasceu na favela. Começou a trabalhar ainda criança ajudando seu pai com o carreto, que era o sustento da família. Recém-saído da adolescência, o senhor, com a ajuda do seu pai, comprou um caminhão velho e começou a trabalhar por conta própria. Foi prosperando. E estudando. Juntou uma pequena frota de caminhões. Formou-se em administração de empresas. A firma continuou crescendo. O senhor fez mestrado e, posteriormente, doutorado. A pequena empresa de transporte tornou-se uma grande empresa. A que o senhor atribui seu sucesso?

B

Ao trabalho. À disciplina. À persistência.

R

Uma vez no topo da carreira de empresário, o senhor decide largar tudo, por assim dizer. O que o levou a tal decisão?

B

A consciência.

R

A consciência de quê?

B

A consciência é algo muito abrangente. Depois do doutorado, passei a ler muito. Mas aí não eram mais livros sobre gestão empresarial e economia. Mas obras sobre sociologia, história, antropologia e filosofia. Ou seja, humanismo. E minha mente foi se abrindo para um mundo além dos limites do que tinha estudado para minha profissão. E percebi o quão pequeno e restrito era meu mundo de empresário. E também o quanto era egoísta esse meu mundo.

R

Dessas leituras, que escritores o marcaram?

B

Muitos. Chomsky, Spinoza e Freud, entre outros.

R

Curiosamente, os três autores citados são judeus.

B

Não julgo os escritores pela etnia, mas pelas suas ideias, por aquilo que eles escrevem. Sou um admirador da cultura judaica, mas certamente não do Estado de Israel.

R

O senhor disse que seu mundo era egoísta.

B

O neoliberalismo é um sistema injusto que favorece os que já têm muito em detrimento dos que têm pouco. Eu fazia parte desse sistema.

R

É um enfoque de esquerda.

B

Digamos que a palavra esquerda está um tanto datada. Mas a visão e atitude radicais e obviamente limitadas da grande maioria dos neoliberais impedem que eles percebam que a verdadeira esquerda hoje em dia é o humanismo. Mas esses cavalheiros retrógrados, exímios mercadores sedentos de dinheiro e bitolados pelos milagres da economia neoliberal, e que curiosamente se dizem democratas, continuam associando a esquerda ao stalinismo e maoísmo. O que é pura ignorância.      

R

Sua decisão foi então política?

B

No fundo, tudo é político na vida. Tudo é um ato político. Desde comprar determinados produtos até votar em determinado candidato. Mas além do aspecto sociopolítico em que eu estava inserido, dentro de uma determinada classe social, claro, havia o aspecto existencial, por assim dizer. Quanto mais lia, quanto mais abria horizontes, quanto mais racionalizava, mais me dava conta de que algo essencial me faltava, de que algo não fazia sentido na vida de homem abastado que levava. Algo me pesava. E eu sentia a necessidade de uma vida mais leve, mais solta, que só o despojamento poderia me trazer. E aí fui me desfazendo dos meus bens. Fui passando praticamente tudo para meus filhos, com exceção do que doei. Até me sentir em paz comigo mesmo e com a vida. Quando envelhecemos, queremos retornar às raízes. E eu quis voltar à simplicidade do início da minha existência.

R

O senhor foi rotulado de ermitão, de recluso, de misantropo depois da publicação de seu livro sobre a decisão de romper com tudo.

B

Não sou ermitão nem recluso nem misantropo, já que me relaciono com a comunidade da favela.

R

O senhor também foi acusado de radical em relação ao sistema vigente.

B

Talvez seja porque não aceite de modo algum a desigualdade social, a discriminação social perante a Justiça, em uma palavra, a injustiça social. E porque tenha dito e escrito que não sou nenhum imbecil para passar a vida trabalhando para ficar cada vez mais rico. Isso não faz sentido. Mesmo porque o fim é a morte. E a existência tem de ser usufruída antes que ela acabe. Devemos dedicar um tempo para sentir a vida e não fazer com que a vida nos atropele. A correria, a pressa, a ansiedade de ganância chegam a se tornar totalmente absurdas. E certamente não respondem a nossa indagação: o que fazemos neste mundo?

R

O senhor também foi tachado de racista em relação aos brancos em sua defesa da causa dos negros.

B

Não sou racista, mas defendo os direitos do homem negro. Sempre houve racismo neste País, muitas vezes camuflado pelo paternalismo. O negro não quer favores. O negro quer o que lhe pertence, ou seja, o que lhe é de direito, como qualquer cidadão, seja qual for a etnia desse cidadão. O negro tem de afirmar e assumir sua negritude em vez de seguir os valores brancos. O modelo do negro é africano e não europeu. O negro é tão inteligente, capaz e bonito quanto o branco. Isto não é proselitismo. São fatos. Apenas temos de admitir que determinadas conquistas sociais só foram alcançadas com um certo radicalismo. Basta ler a História para se convencer disso. Aqueles que detêm os privilégios nunca querem ceder. Logo, se eles recusam o diálogo, a luta é necessária, por todos os meios.

R

Quando começou a sua conscientização de homem negro?

B

Quando criança, achava que tudo o que era dos brancos era mais bonito. Desde o aspecto físico até as roupas e as moradias. Tinha complexo pelo fato de ser negro, pois às vezes me sentia humilhado por meninos brancos, que me chamavam de macaco ou carvão. Quando me tornei adolescente, percebi que as coisas não eram bem assim. Que, na realidade, era uma questão de faixa social. Os negros eram sempre os mais pobres e não podiam ostentar o que ostentavam os brancos. Veio-me, embora inconscientemente naquela época, uma espécie de revolta que canalizei para o trabalho a fim de ganhar dinheiro e me igualar aos brancos. E assim comecei a galgar os degraus na minha vida profissional – sem esquecer os estudos, que sabia serem imprescindíveis. Mas minha conscientização de homem negro (no sentido de ação) se deu na maturidade, por volta dos 40 anos, depois de ter lido muito e esgotado como insipiente (para não dizer perverso) o modelo de vida que adotara. Uma forma de viver que não me satisfazia. No fundo, minhas conscientizações sociais, políticas, raciais e existenciais estavam intimamente entrelaçadas. Eram uma só: a consciência.

R

Algumas pessoas viram no seu despojamento uma busca de Deus.

B

Não foi exatamente a busca de Deus. Mas o despojamento do conceito de Deus. Ou seja, Deus isento das trevas, travas, preconceitos, superstições e mitos da religião que, em certos casos, é um atentado à dignidade humana. O caminho da pureza começa pelo despojamento. Buda é um exemplo disso. O consumo exacerbado, por exemplo, não só imbeciliza como entope os canais da percepção, da sensibilidade e da inteligência.

R

O senhor era de família neopentecostal e largou sua igreja. Por quê?

B

Porque aos poucos fui me conscientizando de que não podia fazer parte de uma igreja, ou comunidade, que limita a liberdade, o conhecimento, a expansão do saber humano e que, portanto, castra a evolução intelectual do Homem. Isso sem mencionar a intolerância e a doutrinação da alienação absoluta, não só sociopolítica. Os negros, por exemplo, são presas fáceis do fanatismo neopentecostal pelo fato de eles serem pobres e ignorantes. E com o tempo passei a desenvolver uma verdadeira aversão pelo fanatismo religioso. Enfim, foi uma época em que comecei a racionalizar tudo. E a elevar a Razão ao seu mais alto grau. A Razão, que é um sinal de inteligência e de elevação espiritual.

R

O senhor escreveu que alienar o povo em nome da religião é um crime social.

B

Sim, escrevi. E continuo a afirmá-lo. Se os fundamentalistas fazem propaganda, o Estado deveria fazer propaganda contra o fundamentalismo.

R

Algumas pessoas na favela o consideram um sábio, um guru ou mesmo um santo.

B

As pessoas simples falam. Mas não é bem assim. Faço trabalhos voluntários e ajudo os moradores da favela na medida do possível. Porém, não sou nem sábio, nem guru e menos ainda santo. Aliás, diga-se de passagem, que sempre desconfiei de sábios, gurus e santos. Sou apenas um homem que viveu muito, trabalhou muito e cresceu intelectual, ética e espiritualmente para chegar à essência do viver. Ou, mais explicitamente, para dar um norte a esse viver.

R

Como é o relacionamento com sua família depois da grande ruptura em sua vida?

B

Digamos que cordial. Mas distante. Com exceção de minha filha, que vem me visitar regularmente, meus outros três filhos homens raramente aparecem por aqui. Têm vergonha de ver o pai morando numa favela. Todos eles estão casados e bem de vida e vivem num meio social onde é difícil admitir que o pai more numa favela.

R

Isso o entristece?

B

Não. Mesmo porque posso entender o que sentem três dos meus quatro filhos. Eu não sou um caso comum. Logo, não posso esperar que os outros me aceitem como sou. Via de regra, as pessoas não gostam daquilo que escapa do modelo padrão. Não se sentem confortáveis com aquilo que é diferente. As pessoas, de modo geral, acham que sou um louco ou um rico extravagante.

R

E suas ex-mulheres?

B

Fui casado três vezes. Com a primeira mulher tive dois meninos. Com a segunda, uma menina. E com a terceira, um menino. A primeira é a única com a qual ainda me relacionou cordialmente. A primeira é negra. As outras duas, brancas. Fui feliz com todas elas e não guardo nenhum ressentimento – mesmo porque fui eu que pedi a separação nos três casos.

R

Uma de suas ex-esposas o acusou de machista e sexista.

B

É a opinião dela. Certas feministas agem como quem derruba uma ditadura de direita para instaurar uma ditadura de esquerda.

R

Sem querer invadir sua privacidade, o senhor tinha fama de Don Juan. Nas entressafras, teve casos com mulheres belíssimas.

B

Eu era jovem, bem apessoado, deslumbrado, tinha dinheiro, muita saúde e muita vontade de viver, de gozar a vida. Portanto, era natural o que fazia. Em suma, vivi intensamente, mesmo porque sou hedonista. Ainda bem. Hoje, mesmo que voltasse a ser jovem e abastado, não agiria dessa forma. Ou não sei. Talvez agisse. Cada fase de nossa vida tem suas características. Não podemos voltar no tempo achando ingenuamente que seriamos capazes de viver a juventude com a experiência adquirida na maturidade – aliás, isso soaria falso. O figo fresco tem um sabor, o figo seco tem outro sabor. Na mocidade, as chamas. Na maturidade, as brasas. Não me arrependo de nada do que fiz. E posso dizer que tampouco me arrependo de nada do que não fiz. Mesmo porque nunca deixei de fazer o que queria fazer. De certo modo, sempre tive um sentimento de urgência, como se eu não devesse deixar para amanhã o que podia ser alcançado hoje. Talvez pelo fato de eu não ter “vivido” minha infância e minha adolescência. Sim, recuperar o tempo perdido na pobreza. E essa urgência inclui tanto o prazer como os objetivos práticos da existência. Só se vive uma vez. Uma única vez. E a vida é muito vasta para ser devorada numa única existência. Essa consciência de nossa limitação temporal pode ser altamente positiva em todos os sentidos. Pois é uma inesgotável fonte de energia.

 

*Barros é um nome fictício.

 

18-12-16

 

 

 

 

Oi, Vizinho. Posso Entrar? Feliz Natal!

 

– Não acredito. Não posso acreditar. Se eu não visse com meus próprios olhos, não acreditaria. Como é que pode?  É muita desfaçatez. É muita cara-de-pau. É muita sem-vergonhice. Eu não sou nem fresca nem puritana. Mas tem certas coisas que não admito. Tem coisas que passam do limite e que são inadmissíveis. Todos nós temos defeitos. Todos nós damos mancadas. Todos nós temos falhas. Todos nós erramos. Mas a paciência se esgota. E a tolerância tem limites. Não sou perfeita. Longe disso. Mas tem uma coisa: eu não admito falta de respeito. Sou tempestiva. Temperamental. Deve ser o sangue espanhol do meu pai e o sangue italiano da minha mãe. Mas sou justa e me revolto com injustiça. E rodo a baiana quando é preciso. E coitado daquele ou daquela que me enfrentar. Porque não deixo barato. Sou uma mulher educada, compreensiva e carinhosa. Mas não cutuque a onça com vara curta. E eu sei muito bem o que estou falando. E como sei! Faz tempo que poderia ter dado um chute no meu marido. Que ele bem que merece. Mas não faço isso. Não por falta de coragem. Porque coragem tenho até de sobra. E sou muito decidida. Não penso duas vezes. Mas não o largo porque o amo. Se ele merece meu amor, é outra história. Nada me impede largá-lo. Nossas duas filhas já casaram. Estou sozinha com ele em casa. Às vezes me pergunto: por que fico com esse homem que… Deixa para lá. Fico com ele porque o amo. É meu marido, pai de minhas filhas e o amo. É claro que poderia apelar para algo mais cômodo que me permitisse gozar a vida sem abandoná-lo. Mas eu tenho princípios. Princípios muito sólidos que herdei dos meus pais. Não sou mulher de enganar ninguém. Menos ainda meu marido. Não sou mulher de vários homens. Quando estou com um homem, é só esse homem. Não interessa se já não transo mais com meu marido. Ele bebe. Bebe demais. E a bebida impede a ferramenta de funcionar. Paciência. Todos nós temos nossa cruz. Eu ainda tenho muito carinho e ternura por ele. Mas não sou santa nem heroína. E confesso que sinto falta de sexo. Que tenho muito desejo. Sou uma mulher fogosa que curte os prazeres da cama. Mas arranjar um amante é algo que não me passa pela cabeça. Embora ele, meu marido, tenha insinuado, sem falar abertamente, que posso arrumar outro homem, desde que não largue o companheiro de tantos anos. Pobrezinho do meu marido, nunca, jamais vou largá-lo. Não sei como iria me sentir nos braços de outro homem. Pensaria no meu marido e me sentiria culpada. Ah, meu Deus! O que eu não daria para que a ferramenta dele funcionasse. Já até rezei para santo Antônio para que ele realize esse milagre doméstico. Mas aparentemente santo Antônio deve ter coisas mais importantes para resolver. Mas deixemos minha história de lado. O que eu queria mesmo é falar de você, meu caro vizinho. E de tua tristeza. Uma tristeza mais do que justificada. Não me conformo com o que está te acontecendo. E, para falar a verdade, fico revoltada com o que você é obrigado a engolir. Sabe, vizinho, o que te ocorre me toca, me afeta, pois você é uma pessoa que apreço muito. Mas não vá pensar mal. Não estou te cantando. Apenas… Apenas bato no teu apartamento para te entregar um panetone para as crianças e uma garrafa de vinho para vocês e… E de repente você começa a chorar e me conta. Me conta algo que já sabia, pois ninguém é bobo e só uma parede separa meu apartamento do teu. Um homem tão bom. Tão trabalhador. Tão amante de sua família. E tão bonito. Porque você é um homem muito bonito. Se eu fosse tua mulher… Deixa para lá. Ela não sabe o que está perdendo – ou vai acabar perdendo. Ela vai se arrepender, essa biscate, essa vagabunda, essa vadia. Desculpe, meu querido, desculpe. Quando estou brava xingo para valer. Essa mulher não tem o mínimo respeito por você nem pelos teus filhos. Isso não é coisa que se faça com o pai dos filhos dessa vaca no cio. Tua mulher não te merece. Dá um chute nela. Mande-a para puta que pariu. Sabe de uma coisa? Ela merece uma surra. Tem que apanhar para aprender a respeitar o marido e os filhos ainda pequenos. Mas nem puta faz isso. Isso mesmo, pior do que marafona. Desculpe, meu querido, mas estou muito revoltada como o que essa rameira te aprontou. E não é a primeira vez. Sei lá quantos amantes ou casos ela já teve. Já a vi com vários homens. Uma vez no shopping, no cinema, à tarde, beijando um barbudo. E uma vez que você viajou com teus filhos para a casa dos teus pais, ela trouxe um macho careca para tua casa. E transaram a tarde toda na tua cama. Eu ouvia a putana gemer de prazer, de tão alto que ela gemia. Mas desta vez ela extrapolou. Muito filha da puta mesmo. Muito sacana, a lazarenta. Quer dizer que a safada da cadela, com furor uterino, com a boceta em chamas, provavelmente porque conheceu um novo macho hoje mesmo e não podia perder a oportunidade de meter (vai ver que o macho estava de passagem pela cidade e ia embora no dia seguinte), decide passar a véspera de Natal fodendo com o amante casual e larga marido e filhos esperando-a para a ceia de Natal! Mas nem puta rampeira faz isso! E você não fala nada?

– Eu amo minha esposa.

 

15-10-16

 

 

 

 

Zotão dos Divinos Bagos

novembro 1, 2016

Zotão dos Divinos Bagos

ou

Quando a Sagrada Berinjela Pulou a Cerca

 

 

 

Oh, vem com o velho Khayyam, e deixa os sábios!

Uma coisa é certa: a vida voa; uma coisa é certa,

o resto é mentira. A flor que nasce uma vez morre

para sempre.

Khayyam

 

 

Caríssimo amigo Marquis,

 

Num ataque (ou surto) de repentina veleidade literária ou, mais especificamente, cronista ou missivista, resolvi te contar como conheci meu atual amor. Algumas coisas que transcrevo não as presenciei, mas consegui costurá-las com pequenos detalhes que fui garimpando em conversas.

Como você sabe, eu era um marido fiel até conhecer a Zuzú (Zuleica), que era viúva fazia alguns anos. Mas primeiro faz-se necessário te relatar por que, sendo um marido fiel, amante de minha mulher, de minhas duas filhas e da vida familiar, pulei a cerca, como se costuma dizer. Acontece que minha esposa Lúcia, não sei se por depressão ou no fundo cansada de nossa relação, começou a frequentar uma igreja neopentecostal no intuito – acho eu – de salvar nosso casamento. Até aí, tudo bem. Respeitei sua decisão. Porém, ela queria que eu também frequentasse a igreja, mas eu me recusei. Ela insistiu. Mantive minha recusa. Mas um belo dia ela me veio com uma conversa que me deixou muito puto. Você é homem e vai entender.

– Jonas, eu queria te dizer uma coisa muito séria.

– Fala, Lúcia.

– É o seguinte, bem, não me leve a mal, mas…

– Mas o quê, Lúcia? Fala logo.

– Bem, eu gosto muito de você, meu bem. Você é      meu marido e pai de nossas filhas e…

– E daí?

– E daí que não posso mais… Por favor, não fique      bravo comigo.

– Lúcia, desembucha logo o que você tem a falar.      Não vai me dizer que você arrumou um amante.

– Credo, Jonas! Como você pode falar uma coisa       dessas! Você me ofende.

– Estou brincando, querida. Mas fala logo o que         está te incomodando.

– Jonas, meu querido marido, não vou poder fazer     mais sexo com você.

– O quê? Não estou entendendo.

– É isso mesmo. Não vou poder ter mais relações       sexuais com você.

– Você pretende ter sexo com outro homem? Você    se apaixonou por outro homem e pretende ter sexo com ele?

– Pelo amor de Deus, Jonas! Não fala assim! Você     sabe que sou uma mulher honesta, decente, fiel, que        respeita seu marido.

– Então continuo sem entender.

– Jonas, meu amado marido, nossas duas filhas já      se tornaram adultas e nós não vamos ter mais filhos.

– E daí?

– Que sexo é para procriar, senão é pecado.

– É isso o que você aprendeu na igreja?

– É o que está escrito na Bíblia.

Veio-me uma raiva súbita: minha mulher, em     questão de algumas semanas virara fundamentalista,    fanática. Deu-me vontade de gritar: enfia tua igreja    no cu porque eu vou cair fora desta casa. Mas         contive-me e disse, frio e radical:

– Você está me propondo o divórcio?

– Não, pelo amor de Deus! O casamento é indissolúvel.

– Você não espera que fique com você sem mulher,   né? Ou você acha que vou passar o resto da       minha      vida me masturbando?

E saí sem esperar resposta. Fui dar uma volta de        carro. Estava perplexo, revoltado. Sentia-me     rejeitado. Mesmo porque eu amava minha mulher. A       Lúcia me dera um banho de água gelada. Respeitei    sua decisão e não lhe pedi sexo, nem uma única vez.        Estava profundamente decepcionado. Meu casamento     ruíra depois de 25 anos. E após algumas semanas na     base do “cinco contra um”, resolvi caçar mulher.       Procurei de vários modos. Estava sempre de antena ligada, pressionado pela premente necessidade de       sexo. Afinal de contas, um homem de 51 anos não vai    ficar sublimando o sexo ou viver de fantasias     punheteiras. E acabei conhecendo a Zuzú pela    internet.

Mas eu saíra de uma relação estável com a Lúcia       e procurava uma relação séria. O que não era exatamente o que a Zuzú queria. Ela desejava um   relacionamento sem compromisso. Queria passar bem       na cama comigo e, para falar a verdade, também fora     da cama. A Zuzú é uma branca culta e gosta de curtir a arte. Passamos a ir ao cinema, ao teatro, a         musicais, a concertos e exposições. E fui-me      transformando. Não que eu seja ignorante. Como         advogado, tenho um certo grau de cultura e gosto    de ler, mas nunca fora muito ligado à arte. Isso, fora da cama. E na cama… Santo Deus! A mudança foi     radical. Zuzú é um vulcão. Tudo o que um    homem    pode querer entre quatro paredes. Passei a fazer com         ela coisas que         jamais fizera com minha mulher.        E ela me fez coisas que a Lúcia nem imagina que   possam ser feitas. E, incentivado por ela, que é boca       suja, bem escrachada na        cama, me acostumei a           falar palavrão quando metia.        A Zuzú me fazia rir na   cama. Fazia-me dar gargalhadas. Para começar,      deixou de me chamar de Jonas para me chamar de         Jotão, e, mais tarde, de Zotão – apelido que eu achava engraçado.      Isso além de uma lista de outros   nomes que não acabava         nunca, pois ela, criativa e      teatral, sempre a renovava. Atributos e definições,      que giravam em torno da minha genitália, tais como         “chourição da minha vida”, “PG, ou seja, pau     grosso”, “divinas bolas da Zuzú”, “divinas ameixas pretas da Zuzú”, “divinos bagos do Zotão”, “sagrada berinjela da minha         vida”, “santa pica de ébano da      Zuzú”, “cilindro negro do meu coração”. E quando        estávamos trepando, dizia: “fala que sou a puta       branquela do   negrão”, “fala que o negrão gosta da         boceta da        branquela”, “fala que o negrão quer irrigar         a racha da branquela”, “fala que a branquela é a      escrava do negrão e que o negrão faz com a        branquela tudo o que ele quiser na hora de meter”. E        eu, divertindo-me, repetia e ria.

Mas a Zuzú, viúva como disse, não era feliz       como       seus comentários e brincadeiras    esculachados poderiam deixar supor. Não era feliz e      não era livre. Tinha um amante fazia anos. Um         homem casado que ela amava. Mas sabe como é,    homem casado, via de   regra, não larga a mulher. Ou por conveniência, ou por falta de coragem ou por         preceitos religiosos. E ela passou a sair comigo como forma de compensar sua solidão de condição de         “a outra”, de coadjuvante que percebia que nunca        teria a chance de ser a protagonista. O amante, vira         e mexe, lhe dava o cano. E ela ficava em casa, esperando em vão. A família era      a prioridade dele.   Fosse para jantar fora, para ir ao   cinema, para visitar     amigos ou para cumprir com o dever conjugal. Uma vez ela deixou o amante esperando, ou seja, deu     cano, e quando ele lhe pediu         satisfação, ela         simplesmente respondeu que se ele tinha sua mulher,   ela podia ter outro homem. E ele teve de engolir.      Mas a relação com a Zuzú – embora    me fizesse       muito bem física e mentalmente – não me satisfazia   plenamente, não era o que eu queria. Eu almejava     uma mulher só para mim, uma relação fixa, estável.

Bem, introduzi a Zuzú para te contar como foi   que conheci, ou, melhor dito, como comecei a me relacionar com a Fina (Delfina). Aconteceu mais ou        menos assim, pelo que pude deduzir do que me foi         relatado.

F – Entre, querida. Que prazer recebê-la. Tudo bem   com você?

Z – Tudo bem, Fina. E você?

F – Tudo em ordem, Zuzú. Mas poderia estar melhor.

Z – Está te faltando algo para completar esse tudo em       ordem?

F – Está, Zuzú, está.

Z – O quê? Um homem? Você está apaixonada?

F – Acho que estou. Quer dizer, não sei. Bem…

Z – Fina, está ou não está apaixonada?

F – Querida não posso afirmar que esteja apaixonada        se mal falo com ele. Só bom dia, boa tarde e até logo.   E uns olhares significativos da parte dele. Acho que      ele é tímido. Não sei qual de nós dois é mais tímido.

Z – Fina, está esperando o quê? Dá uma dica para ele.       Algo que o faça entender. Nem sempre é o homem       que tem de dar o primeiro passo. Vai ficar com a      compadecida criando teia de aranha, sem fazer nada?

F – Ai, Zuzú, não comece com esse seu linguajar       chulo.

Z – Não falei nada demais. Disse a compadecida em vez de usar o termo boceta.

F – Credo! Que horror! Detesto essa palavra.

Z – Mas é graças à santa boceta que existe a       humanidade, ou não é?

F – Para, Zuzú. Senão não conto mais nada.

Z – Conta então. De onde você o conhece?

F – Do escritório. Ele vai frequentemente ao      escritório. É sempre muito educado e amável comigo.         Um dia ele me trouxe uma caixa de bombons.

Z – Porra, Fina! Ele já te deu sinal. Faça algo. O cara        está interessado em você. Saia com ele. Conheça-o   melhor. Não precisa disponibilizar a boceta logo no     primeiro encontro.

F – Zuzú, ou você para de falar palavrão ou eu não    conto mais nada.

Z – Tudo bem. A vagina. O que ele faz?

F – É advogado. Dr. Jonas.

Z – Negro? Bonitão? Cinquentão?

F – Sim. Você o conhece?

Z – Como o mundo é pequeno.  Sim, eu o conheço.

F – De onde?

Z – De… De alguns contatos profissionais.

F – O que você acha dele?

Z – Bonitão e muito gostoso.

F – Como você sabe que ele é gostoso?

Z – Bem… Eu… Basta olhar para ele para saber que é        gostoso. Deve ter um cacete bem grosso e um par de colhões enormes.

F – Credo, Zuzú! Como você fala! Parece mulher da vida.

Z – Ué, você não gosta de um pau bem grosso e de    duas bolas bem grandes? Negro é bem dotado de rola e de bagos. Você nunca transou com negro?

D – Eu não. Você sabe que só tive três homens na      minha vida. E todos brancos.

Z – Você não sabe como é bom um macho negro na cama.

F – Nem quero saber. Eu quero é amar e ser amada.   Não estou à procura de pênis e testículos avantajados,    sejam de negro, de branco ou de amarelo.

Z – Pois é, minha filha. É por isso que você ficou       solteirona. Você perde seu tempo. Você deixa a vida     escapar. Só se vive uma única vez. A gente tem de   agarrar a vida como ela se apresenta, sem exigir        demais. Que foi? Ficou triste pelo que falei?    Desculpa, minha amiga, não quis te magoar. Gosto        muito de você e quero que você aproveite a vida e     seja feliz.

F – Não é nada, Zuzú. Você tem razão, sou uma         boba.

Z – Você não é nenhuma boba, Fina. Você é uma       mulher inteligente e sensível. Uma cinquentona muito      bonita. Talvez um pouco à moda antiga. Diferente de       mim. Eu sou mais extrovertida, mais atirada. Mas         masculina no sentido de agir, de tomar a dianteira.    Depois que meu marido morreu, descontei o tempo       perdido e conheci biblicamente todos os homens que        quis. Nunca traí meu marido. E descobri com outros         homens, o quanto ele era comportado na cama. E       passei a gostar do sexo selvagem, como dizem. Agora     estou tendo um novo caso. Com um homem negro,        por sinal.

F – Mas e o Pedro? Você rompeu com ele?

Z – O Pedro é meu amante oficial, por assim dizer.    Mas de vez em quando preciso castigá-lo      um   pouco      para ele sentir como é dividir a pessoa     amada com     alguém. Pimenta no cu dos outros não         arde. Amo o     Pedro, mas estou cheia de ser “a   outra”. A amante,   que só recebe o que sobra de        tempo, de atenção, de compartilhamento da vida.

F – Eu entendo, querida, eu entendo.

Z – Por sinal, convidei meu… sei lá o que ele é. Digamos meu caso temporário, para vir aqui, jantar   conosco. Ele deve chegar daqui a pouco. Você não se    incomoda, né?

F – Não, minha querida, em absoluto. Será bem-        vindo.

Z – Se faltar comida, pedimos uma pizza ou comida chinesa.

F – Não se preocupe, Zuzú. Fiz bastante comida.        Preparei um couscous marroquino.

Z – Que delícia!

F – Estão chamando no interfone.

Z – Deve ser ele. O Zotão.

F – Zotão é o nome dele?

Z – Sim, Zotão das divinas ameixas. Porque tem uns formosos bagos que parecem ameixas pretas.

F – Zuzú, você não tem jeito.

Z – Os cilindros e as esferas masculinos me fizeram perder o jeito há bastante tempo. Graças a Deus,    passei a curtir intensamente as delícias da carne de macho bem apimentada. Quem se atém só ao papai-  mamãe não sabe o que está perdendo. Além do mais,     arroz e feijão todo santo dia cansa.

Subi ao apartamento. A Fina fez uma cara de     espanto   quando me viu. A Zuzú sorriu    maliciosamente e me piscou discretamente.         Abrimos uma garrafa de vinho. Passaram-se uns dez minutos. O celular da Zuzú   tocou. Ela atendeu. Falou pouco e        desligou.

– Gente, minha mãe não está passando bem. Preciso ir.    Não se preocupem comigo. Continuem com o        vinho. Ligo mais tarde.

E a Zuzú saiu. Continuamos bebendo, a Fina e   eu. Uma meia hora depois, Zuzú ligou:

– Fina, jantem vocês dois. Minha mãe está melhor,    mas não vou sair, não quero deixá-la sozinha. Um   outro dia programaremos um novo jantar para nós duas. Um beijo. Dê um beijo ao Zotão.

Jantamos. Conversamos muito. Fina é uma         mulher    adorável. Delicada, feminina, sensível,        inteligente e muito bonita. Um amor de branca, para    falar a verdade. Continuamos tomando vinho, que foi         deixando os corações e outras partes saltitantes.         Pintou um clima de sedução. A pomba-gira entrou no    apartamento. Afrodite, a safada, e os Exus        conspiraram – ou melhor, cooperaram. O mastro        começou a ficar inquieto – como animal que detecta    o odor sagrado – e ficou muito doido. E de repente,       os sinos do Zotão dobraram alegremente entre as         pernas enquanto o cilindro afundava prazerosamente         na santa caverna… E assim começou o nosso amor, quando eu menos esperava.

É só isso por enquanto.

Deu certo o novo emprego?  Espero que esteja           tudo bem com você e família.

Um abraço fraterno do Jonas.

P.S.: No próximo fim de semana estou livre. Vamos tomar uma cervejinha? Ligue-me.

 

18-09-2016

 

 

Uma Semana na Vida de Um Escritor

 

 

Segunda-feira

        Não sei o que deu em mim de querer escrever um diário. Para alguém de vida insípida, não faz sentido escrever um diário. Ou talvez faça justamente porque não tenha nada a dizer. O que me leva a indagar o motivo de não ter nada a dizer. Mesmo porque em literatura pode se extrair muita coisa do nada. Refiro-me aos nadas da vida, os nadas cotidianos. Nada a ver com o Nada. Esse Nada que converge com o Absoluto. Por outro lado, mesmo que seja para escrever apenas um parágrafo diário, o fato de sentar e redigir as pequenas ocorrências do dia a dia já significa estar escrevendo, estar ativo. E eu preciso absolutamente escrever para sobreviver. Não para sobreviver materialmente (como fazia Balzac, que escrevia compulsivamente para publicar e pagar as dívidas), porque meus livros não me rendem praticamente nada, mas para sobreviver mentalmente, intelectualmente, já que é a escrita que me energiza e me faz tocar o barco. É a escrita que constitui minha razão de continuar vivendo. Estou tão imbuído do absurdo universal, que só a escrita me tira desse absurdo e dá um norte a minha existência. Não creio em nada, a não ser no prazer. E a literatura é um prazer. Nesse sentido talvez eu seja mais epicurista que hedonista. Embora o hedonismo (sexo e comida) esteja presente em minha vida diária e em minha obra. Deste mundo nada se leva. Portanto, o que importa é gozar o que a existência nos oferece sem questionar em absoluto o apego ao prazer. Mesmo porque só se vive uma vez. Sempre digo e repito isso. E nada prova o contrário. Logo, não deixemos para amanhã o que podemos gozar hoje.

 

Terça-feira

        Como disse ontem, o importante é escrever algo, por pouco que seja, todo dia. E atualmente não tenho tempo para escrever um livro. Um livro, um romance, por exemplo, requer meses de anotações e de maturação. E depois, de um a três anos para ser redigido e lapidado. No caso, tratando-se de um romance médio, de umas 200 páginas. Isso sem contar que o romance exige uma assiduidade, por assim dizer, de trabalho. Em outras palavras, o escritor não pode ficar um longo período sem redigir o romance uma vez começado. Não pode, por exemplo, escrever hoje dez ou vinte páginas e passar duas ou três semanas sem retomar o trabalho. O romance requer uma continuidade de criação sem longos períodos de interrupção, senão o autor perde o fio da meada.

Hoje fiz faxina em casa. O que leva praticamente o dia todo. Faço eu mesmo porque não tenho como pagar uma faxineira. Ando mais duro do que pau de recém-casado. Para compensar a chatice de limpar a casa – não gosto mesmo de me ocupar da casa – coloco música. Blues (Buddy Guy, BBKing, Koko Taylor, Alberta Hunter, Janis Joplin), que adoro e que me transmitem muita energia. Ou determinadas árias de ópera (como Toreador, de Carmen, de Bizet, Libiamo, de La Traviata, de Verdi ou Lascia ch´io pianga, de Rinaldo, de Haendel) que também me passam energia. Ou oratórios como A Paixão de São Mateus, de Bach ou O Messias, de Haendel, igualmente muito energizantes. Nunca ouço o famoso adágio de Albinoni, durante a faxina, pois fico muito triste, muito mesmo e aí esse estado é negativo para executar a tarefa. Ouço esse adágio quando quero me preparar para escrever algo muito melancólico, muito nostálgico. Levo umas oito horas para limpar o apartamento. Às vezes paro para dançar um blues de Koko Taylor (deve ser engraçado, eu pelado, mas de tênis, dançando blues com a vassoura na mão), ou para sonhar um pouco com Libiamo ou para fazer alguma anotação de ideia surgida repentinamente na minha mente ou para tomar chá verde e fumar um cigarro, o que atrasa a faina caseira – e no fim do dia não tenho nenhuma disposição para escrever. No máximo participo de algum debate de escritores pela internet e dou meu ponto de vista de fucking angry old man. Não tenho muito saco para contemporizar nesses debates.

Hoje talvez assista a algum filme na TV a cabo. Não posso ficar muito tempo sem ver um bom filme. Mas não tenho paciência para ver esses blockbusters que deixam certos críticos (que não sabem o que é cinema) extasiados como cretinos. Por sinal, a semana passada revi Um Lugar ao Sol, de George Stevens. Grande filme. O tipo de obra perfeita: roteiro, fotografia, interpretações de Montgomery Clift e Shelley Winters mais o esplendor da beleza de Elizabeth Taylor. Sem contar, obviamente, a direção de Stevens, primorosa nos detalhes, no distanciamento, na contenção e na crítica social. George Eastman, o protagonista, é devorado pela engrenagem social, exatamente como o inesquecível Julien Sorel do emblemático O Vermelho e O Negro, de Stendhal. Ambos, pobres, mas ambiciosos, são destruídos pela aristocracia que não perdoa que alguém de classe social inferior ouse.

 

Quarta-feira

        Ontem à noite, depois de ver o filme (Fruitvale Station – Última Parada (muito bom, gosto muito do cinema independente norte-americano) na TV paga, dei-me conta de que só tinha uma lata de sardinhas, um pedaço de pão preto e uma banana para jantar. Estou farto de viver na pendura. Estou cheio de não poder encher a geladeira de tudo o que gosto de comer. Cheio de viver duro e de ter de controlar todas as despesas. Odeio ter de controlar, regular o dinheiro. Isso me deixa muito irritado. Não nasci para racionar nem para racionalizar o dinheiro. Até parece que ganho muito. Não é que eu seja consumista, mas sou um gourmet e gosto de comer bem.

Por falar em dinheiro, os aparelhos eletrodomésticos em casa estão num estado lastimável. A TV, que tem mais de vinte anos, funciona mal. O telefone, mais de vinte anos, funciona mal. O rádio-relógio já não funciona de tão velho. A geladeira (mais de trinta anos) está em péssimo estado. Uma das janelas quebrou e ameaça despencar na rua, portanto não posso abri-la. Sim, está certo, eu não me preocupei muito com os eletrodomésticos de casa, mas cheguei a um ponto em que preciso trocá-los. E agora não tenho dinheiro para isso. E não tenho mais cartão de crédito. Não tenho grana nem para comprar roupa. Antes eu doava a roupa velha. Agora a uso até rasgar. Que merda viver desse jeito.  Não estou mais dando aulas. Os livros que agora coloquei na Amazon não rendem nada. E com a aposentadoria só dá para comer e pagar as contas – às vezes atraso o pagamento do condomínio. Essa dureza me leva a sonhar que talvez eu encontre um editor que “veja” minha obra e que queira reeditá-la.

 

Quinta-feira

        Hoje fui à casa do meu filho caçula, deficiente físico (cadeirante depois de um acidente de moto). Na realidade vou quase todo dia depois que sua mãe (minha ex-mulher) morreu. Preciso ir buscar remédios no posto de saúde. Ou aprovar guia na Unimed. Ou marcar consulta pessoalmente com o médico. Preciso me ocupar também da avó (mãe de minha ex, que mora com meu filho), pois ela tem 88 anos e não pode ir sozinha ao médico. Bem, como estava dizendo, fui à casa do meu filho, peguei a receita e fui pegar os remédios. Passei mais de uma hora na fila do posto de saúde. Voltei para casa do meu filho, deixei os remédios e retornei a minha casa. Conclusão, lá se foi a manhã inteira. E é justamente de manhã que minha mente está melhor para escrever.

É difícil escrever aos trancos e barrancos – por mais que eu precise escrever para manter meu equilíbrio psicossomático. Primeiro, são os afazeres do dia a dia em casa e na casa do meu filho. Depois, é o sufoco da situação financeira que me tira o sossego. Já tive que pedir dinheiro emprestado a meu filho mais velho e a um amigo e não consigo devolver. E o pior é que não existe nenhuma perspectiva de melhora das finanças. A menos que surja um mecenas que se interesse em reeditar minha obra e eu ganhe algo, pelo menos para pagar as dividas. Sim, é difícil, nessas circunstâncias, escrever. Preciso de um pouco de paz de espírito e de mais tempo para mim. Logo, de mais dinheiro para comprar essa paz de espírito e esse tempo necessários para escrever.

É por isso que não tenho paciência para aturar frescuras burguesas em geral e de escritores burgueses que não sabem o que é trampar para não passar fome, para sobreviver. Quanta babaquice. Quanta futilidade. Quanta superficialidade. Para não dizer quanta alienação e imbecilidade. Gosto de escritores viscerais. Daqueles que jorram o seu sangue nas páginas que escrevem. Gente como Bukowski, Genet ou Violette Leduc.

 

Sexta-feira

        Ontem à noite, antes de dormir, bati uma boa punheta salivada na cama. Embora sem fantasia, bati bem devagar, para retardar a chegada do gozo. Meu pau respondeu bem à chamada do prazer. Ainda bem. Eu me masturbo regularmente. Pelo menos uma vez por semana. Há períodos em que estou atacado e surto – por assim dizer. Aí toco bronha diariamente durante uma semana ou mais. Até apagar o tesão. Esses surtos são periódicos. Fazem bem ao coração, ao intestino e ao sistema nervoso.

Hoje almocei com Maya num restaurante popular, por quilo. Maya foi um amor da juventude. Casou. Eu Casei. Fez filhos. Eu fiz filhos. Descasou. Eu descasei. Mas seu ex continua vivo. Minha ex morreu. Continuamos amigos depois de tantos anos. Ela foi militante de esquerda e esteve presa. Atriz de teatro. Professora. Morou dois anos na França e um ano nos EUA. Agora ela está sozinha, como eu. Mas ela anda mal da cabeça. Apaga tudo da memória e é cansativo conversar com ela, pois esquece tudo e é necessário repetir quatro ou cinco vezes até ela guardar algo na memória, embora por pouco tempo. Mas ainda é uma pessoa cheia de vida, inteligente e de mente aberta. Gosto muito dela.

Minha filha me telefonou de Barcelona, onde ela mora há muitos anos. Está bem. Namorando um mauritano. Ultimamente anda na fase de namorar africanos. Sinto saudade dela e da maravilhosa e vibrante cidade de Barcelona. Uma coisa me deixa feliz: ultimamente ela está se interessando pelo que escrevo e anda me lendo.

No fim da tarde fui ao supermercado. Está tudo muito caro. Faz tempo que cortei queijos, geleias, chocolates amargos importados e frutas caras.

Kunta me ligou e convidou para uma pizza no sábado.

 

Sábado

Tive um pesadelo está noite. É um pesadelo recorrente. Sonhei que estava em casa, deitado, dormindo e que alguém entrava em meu apartamento. Alguém ameaçador que eu não via. Eu queria gritar para acordar os vizinhos e pedir socorro, mas não conseguia. Acordei. Às vezes sonho que estou numa trilha, à beira de um precipício, encostado num paredão rochoso, sem ousar me mexer. O medo de despencar no abismo me faz acordar. Outras vezes sonho que voltei a trabalhar na empresa onde trabalhava antes de largar tudo para me dedicar à literatura – esse é o pior de todos os pesadelos e, no próprio sonho, me digo que tudo isso é apenas um sonho, pois há anos que larguei esse emprego. E às vezes sonho que estou trepando com minha ex-mulher, já falecida.

De manhã lavei roupa e arrumei algumas coisas em casa. Depois iniciei dois debates num grupo de escritores, na internet. Um é A Alienação do Escritor Contemporâneo. O outro é Escritor, Por Que Você Escreve?. Acredito que o segundo dará mais interlocutores do que o primeiro, mesmo porque o escritor gosta de falar muito de si e de fazer o mundo girar em volta do seu umbigo e de falar pouco ou nada de sua alienação sociopolítica. Hoje em dia, os imbecis consideram que ter consciência sociopolítica é algo démodé. Os escritores engajados não estão mais na moda. O mesmo acontece com os cineastas. Sobrevivem Ken Loach e Robert Guédiguian. O neoliberalismo é um câncer que destrói a consciência.

E por falar em política e neoliberalismo, leio todo dia o jornal enquanto almoço num restaurante barato. Às vezes fico tão revoltado com as injustiças deste mundo, que a comida fica entalada na garganta. Essa revolta contra a injustiça me leva a escrever artigos virulentos num jornal, artigos que, depois de publicados, edito em meu blog. Recebo elogios, mas também há leitores que querem me ver morto. Alguns amigos dizem que é preciso muita coragem para escrever o que escrevo nessas matérias.

 

Domingo

Ontem à noite fui jantar pizza com Kunta. É um velho amigo, professor universitário de literatura brasileira. Militante dos direitos do homem negro. Pesquisador da influência dos escravos brasileiros no Benin. Gosto muito dele. Ele gosta de minha pessoa e aprecia muito minha obra. Já escreveu vários artigos, resenhas e ensaios sobre meus livros. Aliás, sua tese de mestrado foi Surrealismo e Realismo na Obra de David Haize, sobre minha obra. Sou-lhe muito agradecido por ter escolhido meu trabalho para sua tese. Bem, a conversa girou, para variar, em torno de literatura. Bebi bastante vinho e acabei meio bêbado, repetindo, com os olhos marejados, que ninguém lê meus livros. Kunta me disse – e não é a primeira vez – que o que escrevo não é para o grande público, porque não falo de crepúsculos, magos, bruxas e bruxos, nem de mensagens edificantes e autoajuda, que é o lixinho da vez que se vende hoje em dia. Fiquei muito contente em rever Kunta, que é um apelido, pois ele é negro. É um puta amigão, muito digno e inteligente.

Meu filho mais velho me convidou para almoçar – alegando que a mulher estava viajando e que fazia tempo que não me via. Fomos almoçar num restaurante japonês. Comi que nem hipopótamo. Tirei a barriga da miséria. Digamos que a semana foi boa em termos gastronômicos. Convidado a comer pizza no sábado e comida japonesa (que adoro) no domingo. Dois pequenos agitos – sem contar o almoço com Maya, mas aí cada um pagou o seu. Bem, vi meu filho mais velho e dois amigos íntimos. Para quem passa meses sem ver ninguém (a não ser meu filho caçula cadeirante), já é muito. A solidão vai aumentando conforme avançamos na idade.

E lá se foi a semana. Minha vida está mais para dono de casa do que para escritor. Não tenho uma vida de loucas aventuras como Rimbaud ou Hemingway. Nem de engajamento como Malraux ou Régis Debray. Nem de marginalidade como Villon, Genet ou Mohamed Choukri. Nem de mistério como Isidore Ducasse, conde de Lautréamont. Embora tenha viajando muito quando jovem (mas não tanto quanto o tangerino Ibn Batouta), minha vida está mais para Kafka. Sim, a agonia de não poder mudar o rumo de minha vida. A aflição de constatar que, por mais que lute, nem tudo depende de minhas ações para reverter o curso de minha existência. Que há algo que, até certo ponto, rege nossa trajetória. Algo que os gregos chamavam de Destino, benevolente ou generoso com alguns, cruel com outros. Sim, o enigma kafkiano, a trava, a não saída, o inexplicável, o ilógico, o absurdo. E o longo cortejo de perguntas que permanecem sem resposta, ou que, para os simplórios, encontram explicação em Deus, ou seja, na vontade de Deus. Explicação simplista e irracional que não me satisfaz. Porém, talvez essa perplexidade, essa impotência de não ser capaz de chegar a uma conclusão, esse racionalismo, essa racionalidade, ou essa racionalização de Deus nos levem (pelo menos àqueles que “pensam”) a fechar o círculo, ou seja, a voltar ao início, ao ponto zero primitivo e a concluir que somos incapazes de “saber”, o que pode nos conduzir a admitir honestamente nossa impossibilidade de estabelecer um critério – já que sempre estaríamos longe de uma convicção – e, perante nossa ignorância, a inclinar humildemente a cabeça e confessar que não sabemos, que se trata de algo além de nossa compreensão. No entanto, pergunto-me: a Razão pura leva (ou eleva) a Deus? Inútil frisar que é simplista tanto afirmar quanto negar a existência de Deus.

Enfim, deixando de lado esta pequena digressão filosófica e voltando a colocar os pés no chão duro da realidade tangível que as circunstâncias nos obrigam a pisar, atualmente sou apenas um escritor do vazio da vida cotidiana, que mistura fatos reais pessoais e fictícios, como fazia Bukowski. Como neste diário onde não acontece nada. Um diário sem importância que não merece ser continuado.

 

16-07-16

 

 

A Morte da Amada Mulher Odiada

 

Primeira Sequência – No Velório

        Se pudesse eu a estupraria depois de morta. Não por amor ou tesão. Mas por ódio. Assim ela iria para o outro mundo – se é que existe essa bosta do tão decantado outro mundo – com minha porra dentro da boceta como lembrança do meu caralho. Ela que consumiu metros do meu caralho e litros de minha porra ao longo dos anos de casados e de mais alguns anos de descasados amantes. Seria um tanto insólito um cadáver de fêmea com leite de macho na mítica bursa. Mas não seria possível comê-la depois de morta. Primeiro porque não vou poder ficar sozinho com o corpo. Segundo porque meu pau não iria levantar. Seria gozado enfiar o cacete na carne fria. Não gosto de necrofilia. Não me dá tesão. Então Beduíno, por que você está falando tanta besteira? Não me chame de Beduíno! Meu nome é David Haize. Mas todo mundo te conhece por Beduíno ou Bedú. Mas eu não sou beduíno. Você é beduíno, sim. Nasceu nos confins do Marrocos, quase no deserto do Saara. De mãe beduína e pai judeu. Um judeu malucão, aventureiro e ateu que raptou tua mãe. Mesmo porque a tribo não iria permitir que uma muçulmana casasse com um judeu. A minha mãe era berbere, não beduína. É a mesma coisa, tudo raça das areias escaldantes, que limpa o cu com areia depois de cagar. É a mesma coisa porra nenhuma. São duas etnias, duas línguas e duas culturas diferentes. Mas teu pai chamava tua mãe de Beduína. Ele a chamava de Beduína, mas era apenas um apelido carinhoso. E vê se me deixa em paz agora com essa história de família. Mas você amava profundamente teus pais e sempre falou deles em todos os teus livros. Sim, eu os amava profundamente, mas eles estão mortos. Mortos como meu irmão. Todos mortos. Caralho! Não é hora de pensar nisso. Por que não? Quando se vela um morto sempre aparece um ou outro flashback. Não estou pensando em nada. Vá chupar o pau de Zeus, porra! No caso não seria mais o pau de Hades, deus dos mortos? Ou então vá comer o cu de uma ema. Nossa, que delícia, deve ser bem quente. Me deixa em paz. Estou cansado. Com sono. Minha nora me acordou a uma hora da manhã para me comunicar o falecimento de minha ex-mulher. Não estou pensando em nada. Nem nos metros de pica que você enfiou na tua mulher ao longo de tantos anos? Agora é você que está falando besteira. Nem nos litros de porra que você soltou na boceta de tua mulher ao longo de tantos anos? Para de falar besteira, porra! A morte de um membro da família, de uma pessoa íntima, deixa atordoado. Com a cabeça confusa, embotada pelo impacto. É, David Beduíno, não é fácil, não. Estou cansado de tomar café e de fumar para espantar o sono. Cansado de receber abraços e pêsames. Quero ficar sozinho. Quero dormir. Isso mesmo. Não pensar em nada. Afundar no sono e dormir doze horas sem interrupção. E me vem uma náusea da vida. Uma náusea da existência. Porque tudo acaba em morte. Porque o fim de tudo é a morte. Porque para um animal como eu, a morte é suja. Que lassidão! Ainda mais que estou ficando velho. Perdendo as ilusões. O apetite de viver. Só o estômago que ainda não está saturado. Nem o pau, que ainda gosta muito de meter.  Sim, sexo e comida. Como bom hedonista, duas coisas que ainda me dão prazer. E quando não puder mais nem meter nem comer, é melhor morrer. E se a morte demorar a chegar, é melhor antecipá-la por conta própria. Viver sem ilusão, ainda vai. Mas sem o prazer do sexo e da comida não dá. É, Beduíno, as ilusões dão o fora com o passar dos anos e a pessoa vai ficando cada vez mais sozinha. Sim, você tem razão, estou cada vez mais sozinho. Perdi meu pai, minha mãe e meu irmão. E agora, minha ex-mulher, mãe de meus dois filhos. Isso sem contar tios, tias, primos, primas e muitos amigos. E aí a gente não tem mais nada para conversar. Não tem mais nada a dizer aos outros. É, David Haize, Beduíno do Saara, ainda bem que você escreve. Sim, realmente, ainda bem que eu escrevo, que é o que me retém neste mundo. Como muito e, de vez em quando, dou uma trepada circunstancial.

 

Segunda Sequência – Flashback

Eu a amei muito. Foi a mulher mais importante de minha vida. Ou, como se costuma dizer, a mulher de minha vida. Como era bonita quando jovem. Uma beleza diferente. Eu tinha ciúmes, mas nunca o demonstrei. Tinha um tesão louco por ela. Quando casei, era o homem mais feliz do mundo. Quando nasceu nosso primeiro filho, eu era o homem mais feliz do mundo. Quando nasceu nosso segundo filho, eu era o homem mais feliz do mundo.  Céus! Como a vida em família pode ser linda quando a gente ama e é amado. Como o mundo inteiro parece melhor. Como os horrores deste nosso mundo se tornam distantes. Eu era tão feliz que naquela época escrevia muito pouco. Será que a felicidade é prejudicial à escrita e à arte em geral? Será que o artista que é feliz produz menos que aquele que é infeliz? Não sei. Sempre afirmei que o desassossego – e até certo ponto o desespero – gera energia. A energia necessária para criar. Que a dinâmica da criação é o desejo, seja qual for. Aliás, o desejo, de modo mais abrangente, é o motor da existência. O desejo que nos impulsiona. O desejo que nos faz lutar. O desejo que mantém vivo o desejo de viver. O desejo que nos faz amar a vida. O desejo que torna a existência vida. O desejo que nos leva a continuar vivendo. O desejo que nos tira do absurdo. Desse absurdo universal de quem só acredita na Arte e no prazer. Sim, ela era o desejo de viver. E quando ela me largou, o mundo desmoronou. E aí todo o desejo se concentrou na literatura. Toda a força do amor que sentia por ela foi aos poucos incorporando a literatura como meio de sobreviver ao vazio. Ao vácuo sem nome daqueles que não desejam mais nada. Sim, doeu muito quando nos separamos. Doeu, essa ruptura que eu não queria. Doeu que eu não sabia viver sem ela. E chorei, chorei. É, Beduíno, é foda, né? Sim, é foda mesmo.

 

Terceira Sequência – Raiva e Ressentimento

– Por que você quis romper?

– […]

– Porque teu amor por mim tinha acabado?

– […]

– Porque você estava estressada por causa da tua família disfuncional, com pai violento, alcoólatra e mãe omissa?

– […]

– Porque você não aguentava mais cuidar de uma mãe com problemas mentais e de uma tia solteirona também com problemas mentais, que sobraram para você porque todos os outros membros da família também eram uns bostas e não queriam saber de ajudar nesse teu fardo tão pesado?

– […]

– Será que você não percebia que eu te ajudava nesse fardo da melhor forma possível?

– […]

– Por que você tinha tanto ciúme de minha filha, tua enteada?

– […]

– Por que você tinha tanto ciúme da literatura, ou seja, do fato de eu escrever?

– […]

 

– Por que você tinha tanto ciúme pelo fato de eu publicar (a ponto de sempre se exclamar com irritação: mais um livro!), como se eu estivesse fazendo algo errado? Ou era porque você teria gostado que o dinheiro que eu gastava na publicação fosse usado para qualquer outra coisa da casa menos para publicar livros? Por acaso eu deixava faltar algo em casa? Será que você se esquecia de que eu levava lanche de casa ao trabalho para economizar o dinheiro do almoço no restaurante?

– […]

– E depois da separação, por que essa sua frieza e essa agressividade? Por que você falava mal de mim aos nossos filhos dizendo que eu era machista (por que machista? Porque gostava muito de sexo? Machista eu, que sempre admirei mulheres livres como Joana D´Arc, Jeanne Hachette, Agustina de Aragón, George Sand, Anita Garibaldi, Florbela Spanca, Rosa Luxemburg, Olga Benário, Hannah Arendt, Jane Fonda e Susan Sontag, entre outras?) e egocêntrico (por que egocêntrico? Porque me dediquei toda a vida à literatura sem, no entanto, negligenciar minha família?)?

– […]

– Que foi que eu fiz para você me tratar como um filho da puta?

– […]

– Será que você se esqueceu de que eu te amava profundamente e que vivia exclusivamente para você e os meninos e que me matava de trabalhar para o sustento da família, dando aulas particulares depois do expediente na empresa?

– […]

– Será que você não percebia que, mesmo depois de separados, eu tinha o maior respeito por você, te ajudava em muitos sentidos e queria ter amizade com você?

– […]

– Será que você não notava que durante anos e anos te mandei flores para teu aniversário e você nem sequer se lembrava de mim ou fazia questão de me ignorar quando eu completava anos? Nem sequer um telefonema?

– […]

– Por que tanta indiferença (ou era ódio?) a ponto de mal me cumprimentar?

– […]

– Por que tanto ódio a ponto de jogar fora todos os livros de minha autoria que te ofertei, dedicados a você e aos meninos?

– […]

– Por que tanta falta de generosidade afetiva para com o homem que tanto te amou? Para com o pai dos teus filhos?

– […]

– Por que tanta amargura, tanto ressentimento?

– […]

– Será que você não percebeu que morreu envenenada de tanto amargor, de tanto rancor, de tanta mesquinhez?

– […]

– Não, você não percebeu. Você não percebeu nada. Você só percebia que era a maior vítima do mundo e fez desse seu complexo de vítima a razão de existir. Você estava seca e não era capaz de dar nada.

– [..]

– Pois então morra com tua morte. Exatamente como você me apagou totalmente de tua vida.

Calma, Beduíno, calma. Calma a puta que pariu! Vá tomar no cu! Me deixa em paz. Quero dar vazão à minha raiva. Calma, David Haize, calma, que você também não é flor que se cheire. Eu sou íntegro e leal, e ela nunca reconheceu isso. Você é muito susceptível, se queima por nada e é estourado demais. Juntar ego exacerbado e pavio curto dá o que você é. Eu sempre fui honesto com ela. Sempre a tratei com respeito. Eu não saía com outras mulheres. Eu não bebia. Não comprava nada para mim. Vivia para a minha família. Agora, que ninguém venha gritar comigo, me tratar com desrespeito, agressividade ou queira me impor algo ou desprezar meus valores, porque aí eu viro uma fera, grito mais alto e quebro coisas contra a parede. Ela era desequilibrada como a mãe e a tia. Era bipolar. E não me venha com essa desculpa de que ela foi muito maltratada pela vida, rejeitada pelo pai e pela mãe durante a infância e a adolescência. Eu também fui maltratado pela vida de modo muito duro. O que não impede que eu seja generoso afetivamente falando. Que eu seja amoroso. Que eu seja capaz de ternura e perdão depois da tempestade. Mas ela não. Ela não perdoava. Ela vivia armazenando raiva, rancor, ressentimento e não era capaz de reconhecer seus erros. Eu tenho defeitos, mas quando erro tenho a honestidade de admitir que errei. O que ela jamais fazia. Ela se achava perfeita. Só ela sabia fazer as coisas. Ninguém, a julgar pelas suas atitudes, fazia as coisas tão bem quanto ela. Era de uma arrogância insuportável. Era dura demais. Inflexível demais. Autoritária demais. E eu detesto que alguém mande em mim. Ela morreu de amargura e solidão – sim, ela era muito sozinha, não tinha nenhum amigo. E vivia falando mal de mim. Dizendo aos nossos filhos que perdeu os melhores anos de sua vida ao casar comigo, que nunca deveria ter casado. Eu nunca, jamais, falei isso nem para nossos filhos nem para ninguém. Casei com ela e ela me deu dois lindos filhos e a amei muito. Por que haveria eu de estar arrependido de ter casado? Beduíno, se você diz que sabe perdoar, perdoe-a. Sim, perdoe-a. Ela já morreu. Ela tinha qualidades: era honesta, trabalhadora, e cuidava muito bem dos filhos e da casa. Sim, é verdade, mas ela me tratava, depois da separação, como se eu fosse um filho da puta. Beduíno, ela estava querendo apagar você da vida dela. Foda-se a vida dela! Mas era a forma que ela encontrou para passar a borracha num capítulo que ela queria esquecer, o capítulo do fracasso do casamento. Custa-me entender isso. Mas você tem de entender, Beduíno. Você tem de entender que cada um é como é. E que não podemos esperar que o outro aja exatamente como queremos. Mas ela foi muito filha da puta comigo, principalmente depois do acidente que deixou nosso filho caçula de cadeira de rodas. Ela estava estressada, exausta. Mas nada justifica a atitude dela. Eu não tenho culpa pelo fato de nosso filho ter sofrido um acidente. Tudo bem, Beduíno, debite as atitudes agressivas dela no desequilíbrio emocional dela. Por outro lado, ocorre-me que talvez ela visse em você a figura do pai. Mas eu era todo o oposto do pai. Mas você representava o homem, o macho. Não faz sentido o que você diz. E pare de remoer essas lembranças. Estou remoendo essas lembranças porque ela não foi ainda enterrada (aliás, cremada), porque a coisa é recente e dói. Mas ela passou a vida inteira remoendo o que era ruim, sem jamais pensar no que lhe ocorreu de bom. Vira a página, Beduíno, vira a página. Não se vira a página de uma hora para outra. Ainda mais que o corpo dela ainda está na geladeira aguardando a cremação. O cadáver gelado na solidão gelada dos outros mortos. Chega, Beduíno, chega. Você está ficando mórbido. Eu, eu… Céus, que tristeza! Chora, Beduíno, chora. Chora, David Haize, chora. Chora a morte da amada mulher odiada. Eu não a odiava. Como poderia odiar a mulher que me deu dois filhos? Eu apenas sentia raiva. No fundo raiva de não ser amado pela mulher que tanto amei. Mas, Beduíno, nunca te ocorreu que talvez ela sentisse a mesma coisa? Ou seja, raiva de não ser amada pelo homem que ela, numa época já distante tanto amou? Mas eu nunca deixei de amá-la. Será que ela não percebia? Beduíno, talvez ela esperasse que você lhe dissesse isso, que você nunca deixou de amá-la. Mas você nunca falou nada. E você sabe que ela era muito orgulhosa. Tão orgulhosa quanto você. Sim, sim, tão orgulhosa quanto eu. Mas ela não me amava. No primeiro Natal depois da separação, nossos filhos armaram um complô para que nos reconciliássemos: inventaram que ela estava me convidando para a ceia de Natal. Era mentira. Era uma invenção dos meninos. Subi ao apartamento deles (eu me mudara para outro apartamento no mesmo prédio, não para estar perto dela, mas para estar perto dos nossos filhos, assim eles podiam me ver todos os dias – eu chorava cada vez que pensava nos meus meninos). Quando entrei, ela me disse que não tinha me convidado, mas que podia jantar com eles. Fiquei com cara de bobo, mas aceitei. Depois do jantar, convidei-a para ir ao meu apartamento. Ela aceitou. E fomos para a cama. E eu chorei de emoção quando a senti novamente em meus braços.

 

Quarta Sequência – Os Sonhos

        Sim, dias depois de termos jogado as cinzas num rio, ela invade poderosamente meu inconsciente. Não com ressentimento, rancor, ódio. Não, ela começa a povoar meus sonhos com amor. Ela sempre aparece em alturas. No alto de um monte, num dia ensolarado, acenando-me – e eu olhando-a, ao pé do monte. Ou então numa trilha, subindo uma montanha comigo e pegando minha mão e eu me dizendo: Nossa, ela está pegando minha mão, o que quer dizer que agora ela me aceita, que agora é minha amiga. Ou então num cômodo vazio, iluminado pela claridade vinda de grandes janelas, ela deitada no chão, nua, com as pernas em posição de parturiente, mostrando-me o mistério de seu sexo exposto e dizendo: vem, faz tempo que não fazemos. Ou então numa plataforma sideral, iluminada pela lua e cercada de estrelas, e nós dançando a Valsa Número Dois, de Shostakovich. Sim, ela me ama e não me rejeita mais. E eu a amava… Ah, que saudade de quando ela me amava…

01-07-16

 

 

 

Carta a Lola

agosto 1, 2016

Carta a Lola

 

        Oi, Lola. Tudo bem, minha querida?

Você deve estar estranhando esta carta, pois nunca te escrevi uma carta. Mas há sempre uma primeira vez. Por que estou te escrevendo? Porque não tenho ninguém com quem conversar. Porque dói de tanto ficar sozinha. Porque você sempre foi minha confidente. Sempre soube me ouvir sem me reprovar. Sempre me aceitou como sou. Acho que tudo o que me acontece é reflexo das minhas atitudes. Meu pai diz que eu só acho namorados nos guetos. Porque só me relaciono nos guetos. Deve ser verdade. Além do mais, eu sei que sou complicada. E que acabo espantando os homens. Sim, os homens acabam dando o fora. Quando não é por um motivo, é por outro. No fundo, não quero compromisso com ninguém. É uma contradição porque, como qualquer pessoa, sinto carência afetiva e preciso de alguém. E os namorados vão se sucedendo. Começa com atração, vira amor (ou será só paixão?) e depois vem o fracasso, a ruptura. E assim vai. Tem horas em que não quero ver mais homem na minha frente. E me isolo. Não vejo ninguém. E aí vem, depois da desintoxicação, a necessidade de afeto, de companhia masculina. E recomeço tudo de novo. Isso me cansa. Não faz sentido viver desse jeito. Sei que nunca vou casar. Não quero ter ninguém na minha casa. Não quero morar com ninguém. Não quero compartilhar minha vida com ninguém – há muitos anos que moro sozinha e tenho minhas manias. Aí só sobra sexo. Só. Meu pai diz que mulher mal-amada se torna agressiva e revoltada. Pode ser. Pena que ele more a nove mil quilômetros de distância. Ele diz também que o amor, de certa forma ou até certo ponto, é um exercício. Temos que ter não só a disponibilidade de amar, mas também a disposição de amar. E que mesmo sem estarmos deslumbrados com uma pessoa, podemos chegar a amar essa pessoa. Que às vezes é questão de tempo. Que começar pela paixão nem sempre garante o futuro da relação. É provável. Meu pai fala muito sobre meu modo de ser que acaba complicando minha vida. E ele acaba pegando no meu pé. Eu sei que ele quer minha felicidade, mas ele me cansa. Eu me torno agressiva e ele acaba estourando como só ele sabe. Ele também não é fácil. É tão arrogante quanto eu. Bem, Lola, chega de prólogo. Estou parecendo meu pai, que fala mais que a boca, como dizia meu tio, o irmão dele. Vamos lá extirpar o que me aflige o coração.

Você se lembra do Ion, o romeno? Ele esteve uma vez em casa, antes de você partir e gostou muito de você. Não quero parecer preconceituosa, mas me avisaram que esses imigrantes romenos não são nada confiáveis. Mas digamos que isso poderia ter acontecido com um ucraniano, um chileno ou um marroquino. Os imigrantes ilegais não são realmente muito confiáveis – sejam da Europa do Leste, da América Latina, do Magreb ou do resto da África – talvez pelas circunstâncias difíceis em que vivem. Quero dizer com isso que roubam sempre que podem quando estão sem trabalho – eu própria sou uma imigrante, mas legal, e nunca fui obrigada a roubar. Bem, o Ion, mas jovem que eu – que já sou quarentona – bonito, carinhoso e divertido me cativou logo de cara e me deixei levar pensando que desta vez ia dar certo. Mas ele era ilegal, estava desempregado, duro e, após umas semanas de relacionamento, me roubou todo o dinheiro que tinha na carteira, o cartão de crédito, o celular e os passes do metrô. E sumiu do mapa. Doeu, Lola, doeu muito. Doeu não pelo roubo em si, mas porque eu acreditei nele e estava me apegando e ele me usou. E o vento o levou…

O anterior, como você já sabe, foi Ahmed, o marroquino, oriundo de Tânger, mas a família era de Ksar el-Kebir. Também mais jovem que eu. Bonito, fogoso, muito viril. Era ilegal, mas trabalhava na cozinha de um restaurante. Era muito trabalhador. Muçulmano, sem ser fanático, brincava comigo (na realidade não sei se ele estava brincando comigo ou se ele falava sério) e me dizia que se eu me convertesse ao islamismo, ele casaria comigo. Mas um dia, sem mais nem menos, ele me disse que ia embora para o Marrocos. Que ia se casar com uma garota marroquina que ele conhecia desde a infância. Que fazia tempo que a família o pressionava. Que a família não queria de jeito nenhum que ele casasse com uma cristã. Que devia respeito a sua religião e a sua família. Que ele casaria comigo se eu quisesse, cada um seguindo sua crença religiosa, se não fosse pela família. Eu não tinha nada a dizer. Fiquei muda e não chorei na frente dele. Acho que ele me amava mesmo, mas… Fiquei muito machucada. Foi o homem que mais amei. Foi o homem que mais prazer me deu na cama. Um relacionamento muito bonito que durou mais de dois anos. Chorei muito, muito. E não o esqueço. Nem vou esquecê-lo. Pelo menos ele foi honesto e me avisou em vez de sumir sem dizer nada. E o vento o levou…

Antes dele houve Ali, o paquistanês. Esse era imigrante legal. Trabalhava no mercadinho dos pais onde eu fazia compras. Mais jovem que eu – meu pai diz que só arrumo namorados que cheiram a fraldas molhadas. Não era propriamente bonito, mas era atraente. Ele sempre me olhava de maneira significativa quando eu ia comprar no mercadinho. Aos poucos fui me interessando. Um dia ele me convidou para sair. Aceitei. E começamos a namorar. A relação durou uns meses. Até o dia em que o pai dele veio conversar comigo, educadamente, dizendo que eu era velha demais para ele e que eu era cristã e ele muçulmano. E ele pedia que eu me afastasse dele. Aí ele pegou um envelope e me entregou. Curiosa, sem imaginar qual seria o conteúdo, abri o envelope e vi que continha dinheiro. Dinheiro para eu me afastar do seu filho, como se eu fosse uma garota de programa. Peguei o dinheiro e o joguei, literalmente, na cara dele. E nunca mais voltei ao mercadinho. Mais um que o vento levou. Embora esse aí eu o veja de vez em quando na rua. Quero dizer, cruzo com ele. Mas não o cumprimento. Ele tentou várias vezes falar comigo, mas eu não quis saber.

Antes do paquistanês houve… Chega, Lola, chega. Não vou mais falar dos meus casos. Dos meus tristes casos que não dão em nada. Estou me sentindo mais aliviada depois de te escrever esta carta que vou colocar embaixo da caixinha com tuas cinzas. Talvez você sinta as vibrações de minhas palavras através de tuas cinzas.

Sinto muito tua falta. Meu Deus, que saudade de minha Lolinha, minha gata tão querida. Você era tão meiga. Uma gatinha tão bonita e tão carinhosa. Lembra-se de quando eu colocava um pedacinho de peito de peru entre meus lábios e você o pegava delicadamente e o comia? Lembra-se de que toda manhã você me acordava massageando alguma parte do meu corpo? Lembra-se de quando você subia no meu colo e esfregava tua cabecinha em meu rosto? Você era minha melhor amiga e eu te contava tudo o que acontecia comigo.

Um beijo, meu amorzinho.

04-06-2016

14-06-2016

19-06-2016