O Gigolô Honesto

março 12, 2019

O Gigolô Honesto

 

        Preciso escrever sobre o assunto. Mas num tom cool. Sem investidas contra a tísica moral vigente. Sim, devo-lhes um livro. À generosidade de minha amante e à compreensão de minha esposa.

Talvez deva intitular o relato de ‘Os Cínicos”. Ou “Os Blasés” (não tem tradução). Ou simplesmente “A Felicidade”. Sim, a felicidade. A felicidade de gente que não tem preconceitos. De gente intelectualmente superior? Sim, talvez.  Ou deveria ser o título “Os Imorais” (muito usado)? Não tenho nada a provar neste relato (“baseado em fatos reais” ou numa “história verídica” como diz a publicidade de livros e filmes) Nada a provar e menos ainda a justificar. Não devo satisfação a ninguém a não ser a minha consciência. E minha consciência está tranquila. Sou, como todo escritor que se preze, livre. Não faço concessões. Não tenho explicação a dar a ninguém. Nas sou hipócrita. Não minto.

O começo.

– Você é muito bom escritor. Mas deveria produzir mais.

– Tenho um emprego e não tenho como escrever com mais assiduidade.

– Largue o emprego.

– Como, largar o emprego? Vou viver de quê? Tenho mulher e dois filhos.

– Posso te ajudar.

– Como, me ajudar? Preciso de um salário.

– Eu te daria um salário.

– Em troca de quê?

– De companhia.

– A senhora…

– Já te falei para não me tratar de senhora.

– Você quer dizer de sexo?

– Sim. De sexo.

Silêncio.

– Preciso falar com minha mulher.

– Você acha necessário?

– Sim, claro. Como vou justificar a origem desse salário?

– Você é muito honesto.

– Gosto de fazer as coisas às claras.

– Bem. Não há pressa. Mas não creio que sua mulher aceite a proposta do marido. Ela é ciumenta?

– Ela me ama e eu a amo. Teria de ser um jogo limpo.

– Entendo. Mas acho que a prioridade é sua literatura.

– A literatura é muito importante para mim. Mas eu amo minha mulher.

Conheci-a num jantar de amigos. Conversamos muito. Viúva, sem filhos, era culta, inteligente e franca. Dava a impressão de que tinha bastante dinheiro. Mas não o ostentava. Era fina e elegante. E, digamos, bonita, levando em consideração seus 70 anos que eu calculava que ela tinha. Nuns minutos em que nos encontrávamos sozinhos no jardim, ela me fez a proposta. Uma proposta perturbadora e excitante. Voltei para casa com minha mulher. Não parava de pensar nisso. Abria-se uma perspectiva que me eletrizava.

Pensei durante dias. Meu pensamento, mesmo sem eu querer, ia parar na proposta. Claro que estava disposto a aceitar. Não tinha absolutamente nenhum escrúpulo em me fazer pagar por sexo. Tem mais, confesso que desde muito jovem – adolescente – sonhava em me fazer pagar por sexo. Era algo que, obscuramente, me fascinava. Verdadeira vocação de puta. Ou, melhor dito, de puto. Puto, literalmente, profissional. Era algo muito obscuro que eu não sabia de onde vinha. Logo, eu iria unir a paixão pela escrita com o desejo de ser pago por sexo. O útil ao agradável. Que mais poderia eu pedir? Era a fusão da mente com a sexualidade. É óbvio que sempre fui suficientemente lúcido e evoluído para conscientizar-me de que, no fundo, numa sociedade absolutamente hipócrita e mercenária voltada apenas para o dinheiro, todos, com raríssimas exceções, eram putos e putas, já que todos trabalhavam por dinheiro. Só não era puta ou puto quem trabalhava por amor. Aí poderia incluir os escritores (não todos, claro) e os verdadeiros artistas. Ou seja, aqueles que fazem tudo pela arte. E que são capazes de morrer por ela.

Falei com minha mulher. Ela chorou.

– Vou ganhar o dobro.

– Você vai me largar.

– Nunca. Jamais faria isso. Eu te amo e te desejo.

– Não quero te dividir com ninguém. Não se divide com ninguém quando se ama.

– Não estou te dividindo com ninguém.

– Como não?

– É apenas uma questão profissional.

– Que seja. Mas a literatura é mais importante para você do que nosso amor.

– Não fale assim. Você sabe que vivo para você e nossos dois filhos.

– Não sei. Não sei. Só sei que não quero te perder.

– Juro pelo mais sagrado que você nunca vai me perder. E não vai te faltar sexo.

Ela acabou aceitando. Com restrições. Eu teria um tempo limitado para passar com minha… benfeitora. Uma vez por semana. Com o tempo ela foi aceitando o acordo como algo natural. Pois era de fato algo natural. Passei a transar mais frequentemente com ela, já que me sentia menos cansado sem emprego. Nosso nível de vida melhorou muito. E minha produção literária foi aumentando. Sentia-me satisfeito ao ver que ganhava a vida com meu membro – com os livros ganhava muito pouco – que felizmente cumpria com seu dever conjugal e com o compromisso profissional. Meu membro, que nunca me decepcionara, que nunca me traíra. Meu membro, do qual eu gostava muito e que me dava muito prazer e satisfação. E que estava sempre com disposição, pois, graças a Deus, eu tinha um excelente apetite sexual – que aumentara quando larguei o emprego. Meu membro, do qual eu tinha muito orgulho. Falocentrismo? Sei lá. Machismo? Sei lá. Estava pouco me lixando para as feministas de carteirinha. Mesmo porque sempre fui a favor da igualdade de gêneros. É claro, é óbvio que preferia ser o puto, e não minha mulher a puta.

Com o tempo, esposa e mecenas se tornaram amigas. Jantávamos em restaurantes, íamos ao cinema, teatro, concertos e exposições sempre os três juntos. E ela (minha benfeitora) promovia meus livros entre suas numerosas amizades. Ela era discreta, mas não escondia que era minha amante. Amoral? Não. Apenas eu aproveitara uma oportunidade na vida sem enganar ninguém. Além do mais, a moral é algo muito relativo.

Minha protetora morreu há um ano. Aos 85. Passei 15 anos com ela. Fui-lhe fiel. Fi-la feliz. Deixou-me dois apartamentos de alto padrão, uma chácara e uma casa na praia, além de uma boa quantia de dinheiro. Que mais posso desejar? Continuo escrevendo – que é o mais importante e não preciso de emprego para manter a minha família.  Em suma, mais vale se prostituir com uma mulher do que com um emprego. É mais honesto prostituir o membro do que prostituir a mente. Quanto à moral burguesa, que se dane. Estou acima dela. Jactância? Sim, e daí?

22-02-2019

 

 

 

 

 

Anúncios

Prece do Libertário

janeiro 7, 2019

Prece do Libertário

Deus,

Liberte-me da massificação da mentira, da negação do fato, da ignorância da maioria manipulada pelo poder, do próprio poder estabelecido.

Liberte-me da normalidade sufocante, massacrante, que demoniza a suposta anormalidade.

Liberte-me da submissão ao radicalismo totalitário, seja religioso ou ideológico, que restringe meu pensamento e o cerceia.

Liberte-me do modelo padrão que elimina a possibilidade de escolha de um modelo diferente.

Liberte-me da afirmação da tua existência, pois é na dúvida que me elevo a alturas sem limites.

Liberte-me do que não muda, do que não evolui, pois a estagnação de ideias e sistemas leva à degradação e à morte.

Liberte-me da aberração das superstições religiosas que ofendem a inteligência, a lógica e a Razão.

Liberte-me da obediência para que possa me manter íntegro perante a minha consciência.

Liberte-me das amarras que prendem a rebeldia que sustenta a minha dignidade.

Liberte-me de minha omissão e faça meu grito de revolta me tornar superior.

Liberte-me da violência de não ser eu mesmo, de não me respeitar.

Liberte-me de subordinar a Liberdade a interesses mesquinhos.

E liberte-me da arrogância de acreditar, para poder crer.

16-10-2018

 

 

 

 

Ostentação, Despojamento, #MeToo e Brasília

 

A Ostentação

A ostentação é um aspecto da vulgaridade. E, ao contrário do que comumente se pensa – tão em voga neste século XXI que prima pela vulgaridade – chega a ser grotesca em todas as mídias. Para seres exigentes e lúcidos, vira uma aversão física: a náusea do brilho. Esse brilho barato de fim de feira. Competir para ver quem brilha mais é típico de cérebro de galinácea. Ou seja, de seres intelectualmente inferiores. Em outras palavras, a ostentação, ou vaidade, é um traço de pobres de espírito.

 

O Despojamento

Não existe elevação espiritual sem despojamento. O despojamento liberta dos trastes inúteis da nossa vida cotidiana – física e mental. Física porque ocupam o nosso espaço. Mental porque obstruem a mente que não consegue enxergar horizontes mais altos e distantes.  O ser superior não precisa desse monte de superficialidades que lhe tolhem a liberdade de ser e de pensar. Que lhe impedem de focar o que realmente é importante. Em suma, o consumismo e seu cortejo de superficialidades é tóxico. Assim como o engarrafamento de informações inúteis.

 

#MeToo

O #MeToo, com todo o respeito pelos direitos da mulher, passou de edificante a abusivo e a ser um instrumento de vingança, em muitos casos suspeito. Não é esse o caminho: apenas denunciar a torto e a direito, só porque está na moda – sempre a imbecilidade de estar na moda, e modismo é coisa de gente limitada. Não ao feminismo fascista. É a mesma coisa que um país sair de uma ditadura de direita para entrar numa ditadura de esquerda. Em certos casos, o politicamente correto se torna ridículo e hipócrita. As atrizes Judi Dench, Catherine Deneuve e Cate Blanchett fizeram declaração pertinentes e lógicas sobre o assunto.

 

Brasília

Mas deixemos as digressões ascéticas. Apelemos ao “fucking old angry man” que dispara em todas as direções como bom ser consciente e coerente. Ou brinquemos de “épater le bourgeois” que, como estamos atrasados, aqui, no Brasil, ainda funciona.  Voemos para a Sodoma e Gomorra brasileira. Ou seja, Brasília, onde ao odor nauseabundo da carniça dos abutres (e não se trata só da corrupção descarada, mas do abuso salarial e dos privilégios dos parlamentares e do judiciário, uma afronta, um verdadeiro roubo instituído que é a vergonha do País) veio se juntar a urina ácida do anjo armado, exterminador – supostamente purificador – que exala um insuportável cheiro de recalcado sexual nos templos da repressão medievalista, um odor igualmente nauseabundo de mofo e ranço de conservadorismo em estado de decomposição, encabeçado pelos famigerados  caciques neopentecostais, impostores da indústria de Cristo, que anulam qualquer esperança salutar de progresso social. Esses caciques neopentecostais deveriam ser presos por lavagem cerebral, extorsão, indução à alienação social e ao fanatismo.  E nem falemos das pérolas de alguns “salvadores da pátria” do futuro governo, como a do ministro de relações exteriores que teve a petulância (perdão, petulância não, estupidez) de alegar ser admirador de um lixo chamado Trump. Os países sérios e democráticos devem estar rindo da palhaçada de sua declaração. Ah, ia me esquecendo. O que dizer da paranoia comunista? O Brasil regrediu setenta anos para mergulhar na Guerra Fria dos anos 1950? É a quintessência da cretinice. Claro, sabemos que é uma estratégia para aglutinar débeis mentais.

Meus caros amigos Baudelaire, Rimbaud, Nietzsche, Bukowsky e Chomsky, pelo sagrado esperma do deus da Razão, poupem-me de todos esses brilhantes cérebros onde cintilam os excrementos a serem bastardamente instaurados.  

 

30-11-18

 

        

O Sublime Absurdo

setembro 9, 2018

O Sublime Absurdo

 

        Costuma-se dizer, não sem certa lógica, que o ser humano precisa de uma força superior, ou seja, divina, para dar um sentido ao absurdo da existência. E aí entra a religião com sua repressão, castração intelectual, superstições e sede desmesurada de poder – no caso das instituições religiosas – e promessas mirabolantes de uma vida melhor após a morte.

Mas deixemos a religião sob o ponto de vista das instituições. Atenhamo-nos a Deus – que nada tem a ver com a religião. Perante a dúvida sobre Deus (o que é Deus, o Inominável?), não podemos deixar de constatar que a verdadeira elevação espiritual, ética e moral é laica. Ou seja, quanto menos apoiada em Deus, mais elevada, mesmo porque essa elevação não espera nenhum benefício de Deus. Em outras palavras, elevar-se sem as muletas de Deus, eis a grandeza espiritual. Mas e o absurdo? Bem, o absurdo pode ser sublime quando partimos da premissa de que a vida em si é um milagre e que não é necessário dar um sentido à existência a não ser o próprio milagre de ser. Nem mais nem menos. Para que mistificar? Em suma, qual é o valor do respeito ao Bem se só agimos movidos pelo temor de Deus, e não de livre e espontânea vontade, partindo de princípios éticos e morais? Qual é o mérito? Sim, são os princípios – tão raquíticos, tão atrofiados hoje em dia, tão subordinados a interesses materiais – a base sólida da meta de tornar-se superior como ser humano. Enfim, parafraseando Sartre que disse que o existencialismo é um humanismo, poderíamos afirmar que o sublime absurdo também é um humanismo.

Para finalizar, o que talvez pareça subjetivo e paradoxal, pode-se acrescentar que as oscilações entre Espinoza e o Homem Superior de Nietzsche (que nos enriquecem com dúvidas – dúvida, sinal de inteligência) são certamente menos contraditórias do que a espantosa defesa da pena de morte de terminados cristãos.

Em tempo: relacionado com o acima exposto, uma pitada de nada-querer não mata ninguém e torna a alma mais leve e a paz interior mais próxima.

07-09-2018

 

Entre Exílios

julho 31, 2018

Entre Exílios

 

1-Às vezes o passado abre suas asas sobre o mar

E me cobre de sombras angustiantes

Reage o sangue colhendo flocos solares

Evitando a alma soçobrar

Entre os arrecifes de exílios

Perdas e desamor cravados nos sentidos

Irreversibilidade

*

 

 

 

 

 

2-Como bala jamais retirada da carne

Carrego o exílio

Sem poder extirpá-lo

Entre vida e existência

Empurro a dicotomia

De estar sem ser

De ser sem estar

*

 

 

 

 

 

 

 

3-A alma tontinha de vida

Ainda sobe no carrossel colorido

Onde brinca de sentir o pulsar

Sem os espinhos do existir

Onde se deixa levar pela onda musical

De amar

E de ser amada

*

 

 

 

 

 

 

 

4-Cego voa o pássaro no exílio  

Cego voa o pássaro sem retorno

Cego diz amém ao irreversível

Apenas guiado pelo tilintar de seu coração      

Que parece chacoalhar uma moeda sem valor

Numa lata enferrujada de leite em pó

Cego e intrépido segue o pássaro pela trilha celeste

*

 

 

 

 

 

 

 

5-Livre e despojado pega o ermitão a estrada

O sol seca seus farrapos

Molhados pela chuva da noite

Aonde vai ele

Manca tosse e balbucia uma prece capenga

Peregrino sem romaria que esperas da vida

– Nada a não ser deixar de existir

*

 

 

 

    

 

 

 

6-No exílio tórrido do deserto

O pássaro azul das neves se esconde

E ali nos ergs calcinados oculta sua identidade

Sem distinguir o cheiro da língua que falará

No futuro de fugas sem perdão

De paixões e solidão

De sendas sem retorno

*

 

 

 

 

 

 

 

7-Como verso desgarrado do poema

Como poema desgarrado da Poesia

O poeta desgarrado de seu solo

É arrastado pela enxurrada da existência

Perdendo nome e identidade

Nas águas turbulentas do não ser

Nomeado

*

Do livro “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo”

 

O Rimbaud Negro

ou

A Lua do desejo

 

 

BLACK RIMBAUD OR THE MOON OF DESIRE

ROCK OPERA BIO

FLASHBACK

DESAPARECE COM SEU AMIGO NO BUTÃO

O mundo é muito pequeno para minha sede

teu vômito faz tua grandeza

POETA PROFESSOR ATIVISTA POLÍTICO

Não vim ao mundo para escrever frouxidões edulcoradas

tua luz me faz com os estilhaços do teu corpo

DIONISÍACO HEDONISTA PRIÁPICO LIBERTÁRIO

A poesia como a alma tem músculos sangue e esperma

tua lua me coagula o esperma de tua mente

IRREVERENTE INSOLENTE TEMPESTIVO PASSIONAL GENEROSO CALOROSO SACRALIZA O SEXO

A poesia também é ação

teu urro injeta loucura criativa em meu cérebro

ALTO ESBELTO BONITO OLHAR PERTURBADOR

Meu sangue é quente meu esperma lírico

injetas-me paixão nas artérias do meu intelecto

POESIA VULCÂNICA VISCERAL ORGÂNICA DELIRANTE E

Ser si próprio mais que ousadia é dignidade

respeitas o que és para não te desintegrar

EXISTENCIAL E METAFÍSICA

Não existe dignidade sem fidelidade a si próprio

és essência estado bruto de integridade

NASCE EM COTONOU/BENIM

A poesia não se escreve se vive

quem és tu Rimbaud Negro

DE PAI FRANCÊS E MÃE AFRICANA

A poesia é indomável não se submete

 teu voo perfaz teu sangue

COM NOVE MESES É RETIRADO DA MÃE E LEVADO PARA A FRANÇA

A poesia como o sexo é uma força da natureza

quem és tu Rimbaud Noir entre a África e a Europa

A MÃE FICA NO BENIM E MORRE POUCO DEPOIS

A poesia me eleva a mais alta espiritualidade laica

em lascívias vespertinas extrais os espinhos da minha alma

TRÊS ANOS DEPOIS MORRE O PAI

O poeta que se alia ao poder é mercenário

do leopardo cravando os dentes em carne fresca

ÓRFÃO É CRIADO PELOS AVÓS PATERNOS

O poeta deve colocar a poesia acima de sua vida

às insolências parisienses

ESTUDA LETRAS E VARIAS LÍNGUAS AFRICANAS YORUBÁ WOLOF E AMÁRICO

O poeta que não vai a extremos não sabe o que é poesia

passando pela milenar Etiópia

APAIXONA-SE POR RIMBAUD

Sou instinto um animal africano que escreve poesia em francês

fincas em mim o gozo da criação

PEREGRINAÇÃO RIMBALDIANA

Gozem que amanhã vocês podem estar mortos

e alças voo em direção aos paraísos baudelairianos

CHARLEVILLE BRUXELAS LONDRES HARAR ÁDEN

Só se vive uma única vez o resto é baboseira

de tua mente em ebulição/evolução/revolução

PARTICIPA DE MAIO DE 68

A normalidade é inimiga da criação artística

e tua carne e asas me tornam outro eu

COM A CONSCIENTIZAÇÃO POLÍTICA

Viver é ousar transgredir desafiar

que em ti reencontro

VEM A CONSCIENTIZAÇÃO DE SUA NEGRITUDE

Quem não ousa não goza

selvagem na lucidez da paixão

RETORNA AO BENIM ÀS ORIGENS

A vida sem prazer não faz sentido

quem és tu Black Rimbaud

CHORA A MÃE AGUDÁ QUE NÃO CONHECEU

As minorias são superiores já que elas sobrevivem

que me redimes do desassossego de viver

VOLTA ÀS ORIGENS DAS ORIGENS À BAHIA

A afirmação da identidade é o respeito a si próprio

para me mergulhar no frenesi de existir

AMA A BAHIA MAS

O fato de abominar as religiões não significa que eu seja ateu

quebro-me em teus arrecifes

DECEPCIONA-SE COM A ALIENAÇÃO DO NEGRO BRASILEIRO

A censura à arte é um crime cultural

e peço perdão por não te ser em horas demoníacas

VIAJA A NOVA ORLEANS

Escrever é como fazer sexo um ato sagrado

sondo teus não-ditos subterrâneos

É DEPORTADO DOS EUA POR PARTICIPAR DAS MANIFESTAÇÕES PELOS DIREITOS CIVIS

Conhecer tudo fazer tudo viver tudo antes de que tudo acabe

de fervor e sublimação submundos

TRÊS CASAMENTOS COM BRANCAS

Deus vomita os mornos diz a Bíblia

e me arrastas na correnteza de teu sangue

PRIMEIRO TRÊS FILHOS

Não diga amem diga não

para me fazer transparecer

SEGUNDO DOIS FILHOS

Nunca compreendi o sentido da palavra eternidade

pavio esgotando o existir no fio da navalha

TERCEIRO DOIS FILHOS

O nada me faz nadar mais livremente

antes de chegar à pólvora explosão

AO LONGO DESSES TRÊS CASAMENTOS

Não nasci para seguir o rebanho

quem és tu Schwartz Rimbaud

RELACIONA-SE COM PROFESSOR NEGRO DE LITERATURA NA SORBONNE

A leveza excessiva pesa demais

explodo em ti para me serenar para me semear

É SEU AMIGO ÍNTIMO E CONFIDENTE

As convenções atrofiam os sentimentos

e busco altares rebeldes

PUBLICA SETE LIVROS DE POESIA

Não preexisto apenas existo

altares que a miséria do dia a dia me nega

TRÊS ENSAIOS SOBRE A NEGRITUDE

Os europeus e os árabes cometeram genocídios na África

e floresces em meus atos outrora esboços

SUAS PALESTRAS INCENDEIAM OS JOVENS

Os cristãos e os islâmicos cometeram etnocídios na África

agora paixão e afirmação da negação

COM SUA MISTURA DE POESIA SEXO PAIXÃO E REVOLUÇÃO

Os cristãos e os islâmicos impuseram o horror da repressão religiosa na África

dessa negação superior que só poupa o amor

CANTA BLUES E TOCA SAXOFONE PARA OS AMIGOS

Tolerância zero com o racismo

vem meu Rimbaud Negro vem

AMIZADE COM LÉO FERRÉ SERGE REGGIANI

Não se deve negociar com o racismo mas destruí-lo

que ousar é feitio dos fortes

PACO IBAÑEZ JOAN BAEZ E MERCEDES SOSA

O ativista não pode ignorar que a melhor defesa é o ataque

vem correr pelas savanas ou pelos bulevares de Paris

SUA ÚLTIMA OBRA POÉTICA REFLETE O SENTIMENTO DE DESLOCAMENTO E ORFANDADE

Uma sociedade presa às superstições da religião é uma sociedade retrógrada estagnada e deve ser revolucionada 

antes de tomar o absinto abismo

O TEMA DO SILÊNCIO SE TORNA OBSESSIVO E SEUS ÚLTIMOS POEMAS ESTÃO IMPREGNADOS DA MELANCOLIA DA NOSTALGIA

O barulho suja o silêncio limpa

vem largar os lúgubres corredores do bem-estar

NOVAS VIAGENS DESTA VEZ COM O AMIGO

O totalitarismo do capital é um atentado à dignidade humana

e deitar em misteriosas mansardas

AO BENIM ETIÓPIA BAHIA

 Sou despojado embora seja barroco na cama e na mesa

onde nosso sangue e nosso esperma são um só pó

VIAGEM AO NEPAL E AO TIBETE COM O AMIGO

A ousadia nos fortalece a máscara nos debilita

e nossa iluminação a dualidade entre efêmeras papoulas

DESAPARECE NO BUTÃO COM O AMIGO

Ser ou estar eis a questão

mo ni fe yorubá Rimbaud Negro

DESAPARECE (?) MAS ANOS DEPOIS DIZEM TÊ-LO VISTO EM ULAN BATOR E EM SAMARCANDA

É na plenitude do silêncio que a alma reencontra o seu diálogo

e o eco do teu silêncio perpetua meu estrondo

E EM VLADIVOSTOK

O verdadeiro intelectual só pode ser cosmopolita

sempre e todo estarás no vasto mundo respirando o não dito  

E NA BAHIA

Senhor livrai-nos da imbecilidade da maioria

recolho-me em ti atos universais sem palavras   

10-06-18

 

Maio de 68: 50 anos

maio 1, 2018

O Cavaleiro Errante volta a…

III

Maio de 68: 50 anos

 

1-Glória

Aurora vermelha céu azul a alma veste branco

O comportamento entra em erupção

Abala vinte séculos de repressão judaico-cristã

As barricadas exalam odor de esperma juvenil

O sonho adolescente ergue seu falo em flor

O demiurgo Rimbaud volta vibra e ejacula

*

  

2-Aleluia

Os lilases dançam a java

Bakunin também volta e sorri benevolente

Ecos da sagrada Comuna estremecem o firmamento

Os lírios gauleses se agitam os jovens exultam

Os bem-pensantes tremem

A vulgar estabilidade cede ao orgasmo da rebelião

*

 

3-O ímpeto arrebenta supostas verdades

As ideias turbinam as artérias

O gozo principia o pensamento

As malvas dançam a bourrée

Ter vinte anos desnorteia deuses cartesianos

E desvela impossíveis horizontes

Despertados pelo sonho soixante-huitard

*

 

4-Comichão frenesi paixão

Alegria visceral da revolução

Tal tambor dispara o coração

É festa da transgressão coroando subversão

Da revolta da nova vibração

Do conformismo à exaltação

Santo Maio da renovação

*

 

5-Descrente está Descartes

E La Rochefoucauld mais ainda

Sorriso cínico de Voltaire riso safado de Khayyam

Pouco importa há paixão

Os jovens vibram exultam gozam

Com a sacrossanta estabilidade

Virada de ponta-cabeça

*

  

6-Abriremos nossa mente tanto quanto nossa braguilha

Os slogans fustigam o século

Nunca uma rebelião foi tão romântica

Talvez Nietzsche desconfie

A Liberdade copula em praça pública

É proibido proibir os miosótis dançarem a giga

Iluminação sejamos realistas exijamos o impossível

*

 

 7-Gloriosa barricada pavor do mesquinho burguês

Os asfódelos desabrocham em Maio de 68

Ao som do rondó dos gladíolos

Esqueceremos tudo o que aprendemos

A Primavera Francesa impacta o mundo e o faz tremer

Perfume de cravos mas hélas um sorriso à Mona Lisa

Desconfia malgrado o entusiasmo

*

02-04-18

Do livro “O Rimbaud Negro”

 

 

 

A Tirania da Economia ou a Economia Selvagem

 

Não se pode controlar o próprio povo pela força, mas se pode distraí-lo com consumismo.

Noam Chomsky

All struggle, all resistance is – must be – concrete. And all struggle has a global resonance. If not here, then there. If not now, then soon .Elsewhere as well as here.

Susan Sontag    

“Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.”

Nietzsche

 

 

        Um país avança com uma economia sadia. Óbvio. Mas tornar a economia um totalitarismo, subordinar os direitos humanos à tirania da economia, é outra coisa – todo excesso é condenável. Calma, leitor, calma. Não banque o apressadinho, tipo interneteiro, que apenas pelo título já deduz o conteúdo do texto. Quanto ao artigo em si, dispenso a imbecilidade dos rótulos, puro reducionismo. Etiquetas carimbadas pela cretinice, pré-fabricadas, de epítetos como comunista, petista ou sonhador nostálgico de Maio de 68. Etiquetas periféricas um tanto datadas. Usemos o clichê: ouça (você ouve?) e pense (você pensa?) antes de rebater. E, principalmente, informe-se e consulte estatísticas – e não só as que lhe interessam. E leia um pouco de história, sociologia e antropologia, se o Facebook lhe deixar um pouco de tempo e de raciocínio.

O Brasil, economicamente falando (só economicamente, pois politicamente anda uma lástima e socialmente um desastre), está reagindo. Os economistas, embora prudentes, estão otimistas. Ou quase. Sim, o País está reagindo positivamente. Está tudo bem. Ou quase. Que ingenuidade! Ou melhor, que perversão! Pois o Brasil fede como fedia a Dinamarca de Shakespeare. Como pode o Brasil estar bem com a pior desigualdade social da América Latina? Como pode o Brasil estar bem com a violência – de pais em guerra, decorrente da desigualdade social – que o coloca entre as nações mais violentas do mundo? Como pode o Brasil estar bem com o ensino numa posição no ranking mundial que o classifica atrás de países africanos? Como pode o Brasil estar bem com uma classificação lamentável no IDH mundial? Como pode o Brasil estar bem com 52 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza? Como pode o Brasil estar bem com 40% da população sem saneamento básico? Como pode o Brasil estar bem se ainda não erradicou as doenças tropicais? Como pode o Brasil estar bem com a corrupção em todos os níveis? Com a impunidade? Com o nepotismo? Com uma política flácida exceto para roubar descarada e impunemente? Com o salário dos parlamentares e dos juízes, uma afronta, um insulto, uma desfaçatez, uma imoralidade, um roubo legalizado? Será que esses carinhas não têm vergonha na cara? Será que esses sujeitos não têm consciência? Que indecência! Ah, dirão esses fulaninhos, mas está tudo dentro da lei – fora a roubalheira, claro. Que lei? Que farsa de lei? A escravidão nas Américas também era lei; o genocídio de judeus na Alemanha nazista também era lei; o apartheid na África do Sul também era lei; a segregação racial nos Estados Unidos também era lei. Não me venham falar de lei que isso não significa nada. Determinadas leis, sempre ditadas por aqueles que detêm o poder e para favorecer aqueles que detêm o poder, devem ser sistematicamente burladas, atacadas, até serem erradicadas. Como respeitar leis implantadas por uma corja de aves de rapina carnavalescamente disfarçadas de cidadãos honestos? Cidadãos de estirpe (de ladrões) cujos discursos edificantes causam náusea? E assim vai. E chamam esse sistema de democracia. Uma alucinada democracia dopada sacudindo os quadris ao som do samba? Como pode um país tão rico ser tão miserável em termos sociais? E o pior é que nada muda. Fundamentalmente, nada. Mas, se a economia está reagindo, tudo bem.

Como qualificar uma visão limitada, ou tendenciosa, ou cega, do bem-estar da Nação? Como qualificar essa voracidade? Essa cobiça? Esse cinismo? Essa perversão? Essa falta total de ética? De altruísmo? De generosidade? De humanismo? De amor ao próximo? Mas, senhor Roldan-Roldan (ou David Haize para os íntimos), o senhor falou em ética, altruísmo, generosidade, humanismo, amor ao próximo? O senhor está sonhando?… Isso são coisas de poeta démodé. A economia é tudo. E como é tudo, a economia selvagem apagou o termo ética do dicionário. A economia vende a mãe, a mulher e a filha se for necessário. Bajula e mata se for necessário. Os escrúpulos foram eliminados – são reminiscências quixotescas. Acorda, meu caro fucking old fashioned man! Sim, a economia é tudo. A economia é uma força totalitária que não admite contestação. E que permite tudo em nome do lucro. O bem-estar social não conta. Nem a educação. Nem a saúde. A cultura então nem se fala, pois a cultura não dá lucro. Para que serve a cultura no mundo de hoje? O economista (o mesmo que era contra a abolição da escravatura porque isso iria quebrar a economia do País), de uma arrogância e ignorância estúpidas, está na moda no miserável, famigerado, estagnado mundo neoliberal. O economista, inteligência non plus ultra, que se acredita o dono da verdade, que acha o neoliberalismo eterno, tem, evidentemente, todo o apoio de quem detém o poder, ou seja, dos donos do dinheiro. Desse dinheiro protegido pelo neoliberalismo do economista. Alguém pode alegar, mas, meu amigo, você se esquece de que um país com uma economia forte implica na melhora do nível aquisitivo da população. Sim, de fato, algo sobra para a população elevar o nível de consumo e ficar ainda mais alienada, já que o consumo é fascista e tem por objetivo bitolar e manipular ainda mais a massa – e quem assim não o vê é ignorante ou perverso. Sem contar que a gloriosa economia do neoliberalismo não erradicou a fome do mundo, como provam as estatísticas.  Em outras palavras, o lema do neoliberalismo é: consuma, coma e defeque e permaneça ignorante, logo, alienado. Em suma, a massa tratada como frango de granja “hormonado”.

É deplorável. Mesmo porque o problema do Brasil não é exatamente o governo (ou os governos que se sucedem sem mudar nada substancialmente) ou os partidos. O problema endêmico é um sistema que se alastra desse a colonização. Mesma corrupção. Mesma desigualdade social.  Mesma discriminação social. Mesma impunidade. Mesmos aberrantes, inconcebíveis, intolerantes privilégios – a Revolução Francesa de 1789 ainda não chegou ao Brasil – de uma determinada classe social – que, obviamente, inclui parlamentares e magistrados e instituições religiosas.

Não, não me esqueci de dar uma amável pincelada sobre a farsa da reforma da previdência, que, como tudo neste país cujo Deus era brasileiro (ao que tudo indica não o é mais), não elimina nenhuma das polpudas regalias de políticos, senadores, deputados e juízes. O suprassumo do absurdo. Absolutamente kafkiano.

Leitor, você está, provavelmente, esperando que eu não feche o artigo sem sugerir uma solução. O que fazer então? Uma revolução? Mas a que preço? Isso sem contar que os heróis revolucionários, com o gostinho viciante do poder, se tornam ditadores. A História está cheia de exemplos. Leis mais duras? Prisão perpétua para a corrupção e os crimes ecológicos? Ou pelo menos a cassação vitalícia de todos os direitos políticos para o político corrupto?  Claro que quem detém o poder não está interessado em honestidade nem em decência, mesmo porque o rabo preso incomoda e não permite nenhum movimento. A permissividade do gigantesco lupanar deve ser mantida a todo preço. Muito pelo contrário: quem detém o poder, tapa o sol com a peneira com, por exemplo, a gravidade judaico-cristã dos crimes sexuais. O crime sexual afeta um ou alguns indivíduos. O crime de corrupção afeta um país inteiro. E o crime ecológico afeta o Planeta todo. Nesta democracia capenga, falsa, hipócrita, nesta democracia de marafona abastada, resta ao brasileiro a revolta contra as injustiças, contra as instituições degradadas, bastardas, a contestação permanente, a desobediência civil, a paralisação do País. Os poderosos cedem quando a situação chega a ponto de atingir o bolso.

27-01-18

 

 

Petit Léxique Poétique

janeiro 15, 2018

R.Roldan-Roldan

 

 

Petit Léxique Poétique

suivi de

Eros, Amen

Poésie

 

 

 

 

l´Absence

Puits sans eau

fenêtre murée

plage sans mer

squelette d´oiseau en cage

trou au coeur

vie en friche

l´irréversible séchant l´âme

#

 

l´Adolescence

Intenses deviennent la masturbation

et la fureur d´être

le rêve et la passion

solitaire

elle déguste des livres et des films

écrit compulsivement

et nie sa parole aux autres

qui ne comprennent rien

à cette prime jeunesse

qui l´inonde du sperme des songes

#

 

l´Amour

Se niche dans des trous louches

tel um insecte fuyant la peur

s´enfuit dans des labyrinthes frigides

enveloppé d´effluves écoeurants

parfois il rêve des explosions du sang

des tambours du coeur et

des pétales de coquelicots emportés par le son du clavecin

#

 

l´Amour II

Et puis au fil des soleils

levants couchants

il s´effiloche

sans bruire

le désespoir s´installe

sourd muet

et la joie s´enlise

dans les sables mouvants de l´indifférence

et puis un beau jour il se lève livide

le lit est vide

#

 

l´Apatride 

Il est seul

il est different

étranger on le montre du doigt

il ne ressemble à rien

il n´appartient à rien aime tout et rien

voudrait ressembler aux autres

toujours déplacé il se demande ce qu´il est

son coeur toujours ailleurs se plaît aux abîmes

sa pensée toujours ailleurs vague sur les nues

il parle plusieurs langues il a l´accent

il aime la littérature d´un pays

la philosophie d´un autre

la peinture d´un autre

la musique d´un autre

la passion d´un autre

la raison d´un autre

il est tout il n´est rien

voudrait quelqu´un qui soit tout et rien

rêve aux racines primitives

il cherche

il est seul

#

 

l´Ascète

Il se vide pour se remplir

se dépouille pour s´enrichir

ferme les yeux pour voir

méprise la carapace

cultive la Raison

et sourit

non pas à Dieu ni aux prophètes

mais à l´Infini

à l´Absolu

au Silence

mais

gourmet et addicte au sexe

il est baroque

à table et au lit

#

 

le Bonheur

Après-midi de printemps

la brise ouvre les rideaux blancs aux jasmins

sur son lit à côté de son bébé

un jeune papa contemple son enfant

paisiblement

il ne sait pas prier

mais son âme qui transborde de tendresse

s´élève vers l´Absolu

que seul l´amour atteint

il sourit et ramasse des instants d´éternité

#

 

la Compétition

Sainte pute du dieu Argent

ça brille comme l´or

ça vend

l´épouse la fille la mère

aux enchères

l´éthique connais pas

prostituition

on l´appelle Divine Néo

se croit étertnelle

et crucifie les démons supérieurs

#

 

les Conventions

Bâtardes

maquillées

vulgaires

elles surveillent le trottoir des sentiments

et veules et louches

codifient le comportement

fières de conduire le troupeau

des non-élus par la passion

vers le havre rassurant

de la prostituition comme il faut

#

 

Dieu

Il bâille

s´emmerde

légèrement suranné

il fume de l´opium

et boit de l´absinthe

pour oublier l´imbécilité des humains

au petit matin il se branle

et sourit aux cartésiens contestataires

à qui il dédie son éjaculation

n´ayant rien à faire il se recouche

#

 

l´Ecrivain

Son rêve fait pâlir la réalité

dans un monde de passion

la couleur de ses personnages

efface celle des êtres réels

il fait l´amour avec les mots

et la pollution nocturne surpasse le sexe

quand les phantasmes s´en donnent à coeur joie

#

 

l´Enfance

Regard ébahi

étrange est le monde

déjá la solitude la ronde

cachée sur les arbres

ou dans une maison en ruine

clair est son sourire se balançant

entre la rigueur et la rationalité de son père

et la tendresse et la foi de sa mère

elle contemple les oiseaux

qui dessinent des messages secrets sur le firmament

#

 

l´Exil

Il a la gueule du différent

les gestes de l´absent

il pue la nostalgie

la couleur de sa peau sent l´exotique

il boude les sources et pourtant

il pleure les neiges d´antan

et la musique des dunes

#

 

l´Exil II

Dans son propre pays

valeurs vulgaires

éthique batârde

ça pue la bourse avide

et la phtisie de l´âme

la masse défèque sa culture

et les lois ont un goût moyenâgeux

on dépile l´amour

stérilise la pensée

et dans l´arène on jette des camélias aux gladiateurs

qui se vendent aux enchères

du Nouveau Temple

tandis que les dieux s´ennuient

et se grattent les couilles

#

 

la Foi

Languide sourire

de sainte Thérèse de banlieue après l´orgasme

désirs refoulés

elle expose sa culpabilité au bon Dieu

qui narquois conseille

jouis espèce d´idiote pour te purifier

avant de m´adresser la parole

car la joie de la jouissance purifie et délivre

bien plus que l´abstinence

qui pue la mort

#

 

le Frère

Il voit la lumière au Maghreb

son sang andalou chante l´anarchie paternelle

il lit Bakounine

aux tropiques il prend les armes contre les dictateurs

il se passionne pour le cinéma

aime Angelopoulos Antonioni Bergman

Kieslowski Kubrick Tarkovsky

écrit des essais

et pur

part jeune

#

 

la Gloire

Elle scintille étincelle

brille aux éclats

tournoie tourbillonne

et s´élêve propulsée par l´Art

fusée en état de grâce phallus bienheureux

vers l´espace sidéral de la Beauté

et explose en myriades de constellations

#

 

le Hasard 

On le nomme Dieu

ou Destin

son masque grec

sourire ou rictus

traduit le cycle qui le régit

énigmatique et fascinant

il trompe la Raison

#

 

l´Humilité

Elle baisse le ton de sa voix

dit non sans arrogance

tout en gardant sa dignité

devant l´imbécilité

apprend sans faire semblant

salue la vie

et la remercie

#

 

L´Identité

Elle se regarde au miroir et le brise

les fragments s´incrustent dans sa chair

son visage se multiplie

elle cherche en vain des points de repère

des figures effacées

des mémoires trompées

des rues moyenâgeuses des paysages neigés

ou les ergs douloureux

elle rêve aux étiquettes

mais ne trouve aucune qui lui siée

#

 

l´Imbécilité

En ce siècle de suprême vulgarité

elle grasse tout

se pavane partout

Art politique religion media comportement

elle glorifie les merdes ensoleillées

glousse après avoir pondu son oeuf

glamoureuse et stupide elle lèche la mediocrité

pute éclatante du système

elle brille le temps d´une allumette

s´adonne à la félation du dieu Publicité

voire prostituition

se laisse sodomiser par le dieu Argent

et défèque de l´or fake pour les ignorants

en chantant

#

 

la Jeunesse

Tel un phallus jupitérien

crachant sa fureur de vivre

d´insolence en transgression

de passion en rage

elle boit l´existence jusqu´à la satiété

et abreuve ses jours de soifs dionysiaques

et d´élans libertaires

tandis que Chronos trompeur

se charge de la démentir

en lui niant l´éternité

#

 

Kinema

Le rêve la magie la féérie dans le noir

lumière des Lumière

pour oublier la dure l´amère réalité

constellations

Greta Garbo Jeanne Moreau Anna Magnani

Annie Girardot Romy Schneider Jean Seberg

Vanessa Redgrave Anouk Aimée Vivien Leigh

et les dieux

Visconti et le bal du temps perdu

Resnais et la mémoire à Hiroshima et Marienbad

Antonioni et l´arthrose des mots qui se vident

Bergman et les fraises sauvages plongées dans le silence

Buñuel et la bourgeoisie promenant son chien andalou

Saura et les quatre loups de l´Apocalypse

Demy et les couleurs de la chanson de Cherbourg

Kaneto Shindo et la farandole des démons

Welles et l´énigme Rosebud

Angelopoulos et la grandeur éternelle de la Grèce

et l´évasion de l´adolescent tangérois solitaire et farouche

qui cherche des bouts de ferraille qu´íl vend heureux

pour aller au ciné

#

 

la Liberté

Altière hautaine fière

belle à en mourir

elle couche avec l´Intelligence et la Raison

méprie les couards

ignore les conventions

svelte et élégante

elle sourit à la Révolution

supérieure elle dédaigne la modération

insolente elle défie le Pouvoir

et rit aux éclats en regardant les mesurés

#

 

la Mère

Son regard doux se mouille de nostalgie

elle lit le journal elle paysanne d´un autre pays

aime Les feux de la rampe de Chaplin

La dame aux camélias de George Cukor

Nada de Carmen Laforet et Carlos Gardel

raccommode les chaussettes de ses enfants

en leur racontant des histoires de la famille et de la guerre

prépare un maigre bouillon de pattes de poulet

et quand l´exil lui serre la poitrine

elle murmure sa priere à la Vierge

#

 

la Misère

Boiteuse elle traîne sa savate

borgne elle défie les détails

elle fouille les ordures

qu´elle dispute aux urubus

rêvant de dénicher un tout petit trésor

qui lui permette de boucler la semaine

et quand la pluie se met à tomber

elle ouvre son parapluie troué

et sourit édentée

quand le soleil revient

#

 

la Mort

Sans fanfares ni tambours

discrète et domestique

elle fauche les êtres aimés

et installe sa présence au sein de nos convictions

pour nous rappeler le néant

et nous dire

profite-s-en demain sera trop tard

#

 

le Néant

Il côtoie la Mort à l´Ouest

longe l´Absolu à l´Est

s´écarte du Vide

vague parmi les astres

rien ne l´atteint

ni l´amour ni le chagrin

il sourit au vol de l´aigle

plane

quand tout devient Silence

berçant le Sens au creux du Sacré

#

 

l´Opulence

Yeux bleus saillants

sourire fake à la Mona Lisa

lèvres pincées à la Goya

elle fait sonner ses bracelets

comme une vache son grelot

balance ses fesses felliniennes

et pète en riant aux éclats

et rêve vaguement à l´engin d´un beau luron

tandis quelle caresse tendrement de son médium

sa charlotte mouillée

#

 

la Passion

Leste et intrépide

elle fait bouillir le sang

tourbillonne le coeur et chasse la raison

elle soulève les sentiments

émeute contre les conventions

révolution

elle libère les élans

plonge dans la liberté

défie la mort

et hurle jouissons

#

 

le Père

Les éclats de la guerre

le mutisme et le Silence

cohérence absolue

l´anarchie comme élévation

et Nietzsche au chevet

il aime Chaplin Garbo et Dostoïevski

il rêve parfois

sans en avoir l´air

généreux et dur seigneur

comme la Nature

 

#

 

le Poète

Lourde est sa vie

sa poche est vide

ses amours se sont évanouies

ses amis sont partis

il a oublié la choreographie des étoiles

et le vol des cygnes en flammes

il ne sait plus s´il écrit par passion

ou par désespoir

il boit le Silence

à petites gorgées

#

 

la Puberté

Elle vend des vieux journaux

des bouts de ferraille

et du bois

pour s´acheter un bouquin

ou aller au cinéma

elle rêve de manger des gâteaux

elle rêve d´aventures fantastiques

et de vaisseaux volants

elle ramasse des songes sur la plage

et se donne du plaisir en cachette

#

 

la Quête

De cime en abîme

elle ronge les entrailles

d´ascèse en catharsis

elle fertilise le cerveau

de soif en nausée

elle rajeunit le sacré cylindre de la création

de chevauchée en méditation

elle remplit les saintes sphères du désir

de deséspoir en révolution

elle sacre le courage d´être soi-même

#

 

le Rebelle  

Ne ressembler à rien

ne suivre personne

la fierté d´être soi-même

quand les tendres années cherchent

quand la passion n´a encore que 20 ans

la sagesse est vieille

lointaine

#

 

la Religion 

Catin puissante puante

maîtresse de l´imbécilité

elle étouffe la pensée

suffoque la passion

étrangle la Raison

émascule la chair

châtre le désir

avachit la volonté

souille la pureté

et crève les yeux de la Liberté

#

 

le Rêve

Travelling

un champ de blé parsemé de coquelicots

mais ce n´est qu´un flash-back

la foule des nuits traîne l´angoisse

de crever sans être arrivé

même si l´ange de l´Art lui souffle

continue mon pot

la mort ne t´arrêtera pas

tes os s´en souviendront

et les maudits aussi

#

 

Self help  

Livre de saison

doucement con

miséreux affamé

auto-sodomie

auto-imbécilisation

ça vend

comme les bananes aux tropiques

#

 

le Sexe

La joie du coeur

de l´intestin

du cerveau

l´allégresse d´être avant d´en finir

et parfois

il offre son bras à l´amour

pour une flânerie éphémère

qui fait gicler des promesses étourdissantes

sous les arbres sceptiques

et les buissons moqueurs

#

 

le Sexe II

Tambour battant

les sphères valsent Strauss

et le cylindre en état de grâce peint Bosch

rugit le volcan

les spasmes crachent l´éruption

le rideau se léve et dévoile

le sourire dégringolant de la cime

#

 

le Silence

Il élargit l´âme

l´apaise

élève l´esprit

adoucit le corps

et raconte la balade de l´onde

et les secrets du feuillage

parfois un oiseau solitaire

le brise soudain

pour le nomer

et le dialogue recommence

#

 

la Solitude

Les yeux cernés

la mine livide

les lèvres pâles

les cheveux gluants

elle traîne ses sabots sous les ponts

trempée jusqu´â l´âme par le crachin

en quête d´un pauve solitaire

pour retrousser ses jupons mouillés

parfois elle entend les cri-cris de son enfance

et croit rêver

#

 

les Souvenirs

Irréversibles

ils sont lourds

même quand ils sont légers

et lointains

acharnés ils harcèlent la mémoire

l´assaillent

la tourmentent

même quand ils sont doux

pas de paix possible

dans les entrepôts du passé

#

 

le Temps

Il est sage

farceur menteur trompeur blagueur

suit sa routine

se moque des vivants

qui lui font pitié

et ramasse les jours les nuits les ans

comme des feuilles mortes

qui n´ont plus de nom

dans le parc aux illusions fanées

ou manquées

#

 

l´Uchronie

Elle vote la plus belle langue du monde

et le grec devient la langue officielle aux USA

épargne la tête de Louis XVI

et celle  de Marie-Antoinette

exile les Romanov en Allemagne

fait assassiner Hitler par Claus von Stauffenberg

révèle l´énigme d´Isidore Ducasse

de Kaspar Hauser

du dialogue entre l´arbre et la terre

de la musique des fleurs

#

 

 

la Vieillesse

Clopin-clopan

elle raccommode son existence

contemple sa vie à la lunette

tricote les souvenirs

fouille le tiroir de la mémoire

à la recherche d´une lettre ou d´une mèche de cheveux

regarde par la fenêtre un monde qui n´est plus le sien

hausse les épaules

parce que rien n´est important

quand le départ est proche

#

 

les Wasp 

Frères du fascisme

cousins des nazis

fanatiques religieux

ils pillèrent et anéantirent la nation amérindienne

holocauste du peuple indien d´Amérique du Nord

et ils se vantent d´être les fondateurs des USA

go back to Europe foreigners

#

 

le Xénophobe

Rachitique d´esprit

misérable de coeur

court de pensée

l´intelligence atrophiée

il hurle invoquant les dieux

maudissant les différents

et se trompe d´Amour

#

 

les Yankees

Naïfs retardés cruels

ils s´enferment dans leurs frontières

ne sortant que pour bombarder

se croient démocratiques

et pourtant ils font croître

des Chomsky e des Susan Sontag

des Woody Allen et des Orson Welles

des Joan Baez des Janis Joplin e des Tom Waits

des Jane Fonda et des Jean Seberg

des Tennessee Williams et des Edward Hopper

#

 

Zen

Jardin de sable sous la pluie

les yeux mi-clos

parcourent l´enclos du minuscule Néant

les gouttes perlent du feuillage

le sourire s´emplit de vastitude

l´anxiété se dégonfle

le Silence berce le Sacré

#

 

 

 

Quando um Escritor Fica Cego

 

        Eu, R.Roldan-Roldan, ou David Haize, autor de Zirpiak, Última Fronteira e de mais 32 livros, estou ficando cego.

É terrível quando um escritor fica cego. Literalmente cego. Pois nunca fui cego no sentido figurado. Aliás, escritor cego no sentido figurado não pode ser considerado escritor. Sim, terrível, como aconteceu com Borges. Assim com é terrível um compositor ficar surdo, como aconteceu com Beethoven.

Acordar numa sexta-feira e perceber que o olho direito está totalmente cego. Não há visão. Apenas uma tela negra. Após o impacto kafkiano, a alma, sobressaltada, estremece, adoidada, sem saber para onde se virar. Pula de uma direção para outra. O consolo (ou desespero) da prece? A violência (ou racionalidade) do suicídio? Ou a serenidade do estoicismo? Calma, cara, não se afobe. Opte por enquanto pelo estoicismo. Afinal de contas, o outro olho, o olho esquerdo, está funcionando.

E de repente penso, com tristeza calma, que tenho que aproveitar o que a minha visão limitada ainda pode me oferecer. Não só a beleza de uma árvore. Ou o encanto de um jardim coalhado de flores. Ou o esplendor de uma praia deserta ao amanhecer. Ou a arte, pintura, escultura, arquitetura, teatro, cinema. Não. Ocorre-me que quero para meus olhos o banal, o trivial, o dia a dia, a minha rua, os conhecidos de vista cujo nome desconheço e, claro, o rosto das pessoas que amo.

Mas, e a leitura? A paixão pela leitura? Ouvir um livro não é a mesma coisa que lê-lo. E o cinema? A paixão pelo cinema? Escrever, posso escrever, digitando diretamente no computador. Mas ler?

Respiro fundo, com estoicismo. Não, ainda não avisei meus filhos, nem meus amigos. Vou marcar consultas com oftalmologistas e neurologistas. Mas primeiro vou tomar meu café da manhã. Gosto tanto dessa refeição matinal. Café com leite, pão e manteiga, geleia, mel e queijo. E agradeço por ainda estar comendo minha refeição matutina. E elevo meu pensamento. Em silêncio e sem lágrimas. Vou continuar a escrever, aconteça o que acontecer.

Em tempo e como curiosidade. Muitos dos meus amigos, quando leram meu post no Facebook, acharam que se tratava de um personagem do meu último romance, Zirpiak, Última Fronteira, e não do autor dessa obra. Ironia. Mas isso não me entristeceu. Ao contrário, me fez sorrir. Ao longo de minha existência brinquei tanto de misturar minha vida com a dos meus personagens e vice-versa…

30-11-17