Carta a Lola

agosto 1, 2016

Carta a Lola

 

        Oi, Lola. Tudo bem, minha querida?

Você deve estar estranhando esta carta, pois nunca te escrevi uma carta. Mas há sempre uma primeira vez. Por que estou te escrevendo? Porque não tenho ninguém com quem conversar. Porque dói de tanto ficar sozinha. Porque você sempre foi minha confidente. Sempre soube me ouvir sem me reprovar. Sempre me aceitou como sou. Acho que tudo o que me acontece é reflexo das minhas atitudes. Meu pai diz que eu só acho namorados nos guetos. Porque só me relaciono nos guetos. Deve ser verdade. Além do mais, eu sei que sou complicada. E que acabo espantando os homens. Sim, os homens acabam dando o fora. Quando não é por um motivo, é por outro. No fundo, não quero compromisso com ninguém. É uma contradição porque, como qualquer pessoa, sinto carência afetiva e preciso de alguém. E os namorados vão se sucedendo. Começa com atração, vira amor (ou será só paixão?) e depois vem o fracasso, a ruptura. E assim vai. Tem horas em que não quero ver mais homem na minha frente. E me isolo. Não vejo ninguém. E aí vem, depois da desintoxicação, a necessidade de afeto, de companhia masculina. E recomeço tudo de novo. Isso me cansa. Não faz sentido viver desse jeito. Sei que nunca vou casar. Não quero ter ninguém na minha casa. Não quero morar com ninguém. Não quero compartilhar minha vida com ninguém – há muitos anos que moro sozinha e tenho minhas manias. Aí só sobra sexo. Só. Meu pai diz que mulher mal-amada se torna agressiva e revoltada. Pode ser. Pena que ele more a nove mil quilômetros de distância. Ele diz também que o amor, de certa forma ou até certo ponto, é um exercício. Temos que ter não só a disponibilidade de amar, mas também a disposição de amar. E que mesmo sem estarmos deslumbrados com uma pessoa, podemos chegar a amar essa pessoa. Que às vezes é questão de tempo. Que começar pela paixão nem sempre garante o futuro da relação. É provável. Meu pai fala muito sobre meu modo de ser que acaba complicando minha vida. E ele acaba pegando no meu pé. Eu sei que ele quer minha felicidade, mas ele me cansa. Eu me torno agressiva e ele acaba estourando como só ele sabe. Ele também não é fácil. É tão arrogante quanto eu. Bem, Lola, chega de prólogo. Estou parecendo meu pai, que fala mais que a boca, como dizia meu tio, o irmão dele. Vamos lá extirpar o que me aflige o coração.

Você se lembra do Ion, o romeno? Ele esteve uma vez em casa, antes de você partir e gostou muito de você. Não quero parecer preconceituosa, mas me avisaram que esses imigrantes romenos não são nada confiáveis. Mas digamos que isso poderia ter acontecido com um ucraniano, um chileno ou um marroquino. Os imigrantes ilegais não são realmente muito confiáveis – sejam da Europa do Leste, da América Latina, do Magreb ou do resto da África – talvez pelas circunstâncias difíceis em que vivem. Quero dizer com isso que roubam sempre que podem quando estão sem trabalho – eu própria sou uma imigrante, mas legal, e nunca fui obrigada a roubar. Bem, o Ion, mas jovem que eu – que já sou quarentona – bonito, carinhoso e divertido me cativou logo de cara e me deixei levar pensando que desta vez ia dar certo. Mas ele era ilegal, estava desempregado, duro e, após umas semanas de relacionamento, me roubou todo o dinheiro que tinha na carteira, o cartão de crédito, o celular e os passes do metrô. E sumiu do mapa. Doeu, Lola, doeu muito. Doeu não pelo roubo em si, mas porque eu acreditei nele e estava me apegando e ele me usou. E o vento o levou…

O anterior, como você já sabe, foi Ahmed, o marroquino, oriundo de Tânger, mas a família era de Ksar el-Kebir. Também mais jovem que eu. Bonito, fogoso, muito viril. Era ilegal, mas trabalhava na cozinha de um restaurante. Era muito trabalhador. Muçulmano, sem ser fanático, brincava comigo (na realidade não sei se ele estava brincando comigo ou se ele falava sério) e me dizia que se eu me convertesse ao islamismo, ele casaria comigo. Mas um dia, sem mais nem menos, ele me disse que ia embora para o Marrocos. Que ia se casar com uma garota marroquina que ele conhecia desde a infância. Que fazia tempo que a família o pressionava. Que a família não queria de jeito nenhum que ele casasse com uma cristã. Que devia respeito a sua religião e a sua família. Que ele casaria comigo se eu quisesse, cada um seguindo sua crença religiosa, se não fosse pela família. Eu não tinha nada a dizer. Fiquei muda e não chorei na frente dele. Acho que ele me amava mesmo, mas… Fiquei muito machucada. Foi o homem que mais amei. Foi o homem que mais prazer me deu na cama. Um relacionamento muito bonito que durou mais de dois anos. Chorei muito, muito. E não o esqueço. Nem vou esquecê-lo. Pelo menos ele foi honesto e me avisou em vez de sumir sem dizer nada. E o vento o levou…

Antes dele houve Ali, o paquistanês. Esse era imigrante legal. Trabalhava no mercadinho dos pais onde eu fazia compras. Mais jovem que eu – meu pai diz que só arrumo namorados que cheiram a fraldas molhadas. Não era propriamente bonito, mas era atraente. Ele sempre me olhava de maneira significativa quando eu ia comprar no mercadinho. Aos poucos fui me interessando. Um dia ele me convidou para sair. Aceitei. E começamos a namorar. A relação durou uns meses. Até o dia em que o pai dele veio conversar comigo, educadamente, dizendo que eu era velha demais para ele e que eu era cristã e ele muçulmano. E ele pedia que eu me afastasse dele. Aí ele pegou um envelope e me entregou. Curiosa, sem imaginar qual seria o conteúdo, abri o envelope e vi que continha dinheiro. Dinheiro para eu me afastar do seu filho, como se eu fosse uma garota de programa. Peguei o dinheiro e o joguei, literalmente, na cara dele. E nunca mais voltei ao mercadinho. Mais um que o vento levou. Embora esse aí eu o veja de vez em quando na rua. Quero dizer, cruzo com ele. Mas não o cumprimento. Ele tentou várias vezes falar comigo, mas eu não quis saber.

Antes do paquistanês houve… Chega, Lola, chega. Não vou mais falar dos meus casos. Dos meus tristes casos que não dão em nada. Estou me sentindo mais aliviada depois de te escrever esta carta que vou colocar embaixo da caixinha com tuas cinzas. Talvez você sinta as vibrações de minhas palavras através de tuas cinzas.

Sinto muito tua falta. Meu Deus, que saudade de minha Lolinha, minha gata tão querida. Você era tão meiga. Uma gatinha tão bonita e tão carinhosa. Lembra-se de quando eu colocava um pedacinho de peito de peru entre meus lábios e você o pegava delicadamente e o comia? Lembra-se de que toda manhã você me acordava massageando alguma parte do meu corpo? Lembra-se de quando você subia no meu colo e esfregava tua cabecinha em meu rosto? Você era minha melhor amiga e eu te contava tudo o que acontecia comigo.

Um beijo, meu amorzinho.

04-06-2016

14-06-2016

19-06-2016

 

 

Depoimento de Uma Prostituta

 

 

… às vezes penso em me matar. Sim. O suicídio como solução. Como solução para uma vida… Uma vida que não aguento mais. A barra está muito pesada. Mas não tenho coragem de me matar. Não por medo. Ou por convicções religiosas. Mas porque não posso deixá-los sozinhos. Quem vai cuidar deles? Quem vai cuidar da minha família? Se Deus me deu essa cruz, é meu dever carregá-la até o fim da vida. Depois da minha vida, está tudo nas mãos de Deus. Tenho muita fé em Deus. Rezo toda manhã e toda noite. Depois da oração sinto paz e força para continuar lutando. É o que peço a Deus todo dia: força para continuar lutando. Às vezes, quando estou muito aflita, peço a Deus que Ele faça um milagre. Um pequeno milagre. Pouca coisa para Ele. Muito para mim. Para dizer a verdade, esse milagre que imploro fervorosamente me dá energia e esperança para não desistir de tudo. Há muitos anos que espero por esse milagre. Há muitos anos que espero por esse homem. Um homem suficientemente generoso que me aceite com meu filho e meu pai – mesmo porque não posso abandoná-los. Mas que homem vai querer uma puta cinquentona com um filho deficiente mental e um pai com Alzheimer? Esse homem teria de me amar muito para querer ficar comigo. Eu sempre explico a Deus que quero esse homem não só para me tirar da vida de puta – que não é nada fácil. Posso até continuar na profissão, só meio período, para ajudar no orçamento da casa, se ele me pedir. Quero esse homem para ter alguém que me ame. E a quem eu ame. Ah, meu Deus, eu que faço sexo com tantos homens não sei o que é fazer sexo com amor! Um homem bom, trabalhador, que me respeite. Pode ser branco, negro ou amarelo. Pouco importa a raça. Também não me importo com a religião. Pode ser até ateu, que eu rezaria por ele. Pode ser gordo ou magro. Alto ou baixo. Pode ser pobre. Pode ser feio. Não procuro um macho – de machos estou cheia. Procuro um homem. Não quero um corpo. Quero um coração. Um coração que alivie minha solidão acolhendo meu coração. Esse meu coração tão machucado e tão sedento de amor. Seria uma boa companheira para ele. Cuidaria desse homem com amor e devoção. Não sou feia, embora esteja envelhecendo. Sou carinhosa e sei muito bem cozinhar. E não sou burra nem ignorante. Terminei o segundo grau e entrei na faculdade. Fiz um ano de Letras. Queria ser escritora – que ingenuidade. Lia muito naquela época, muito mesmo. Aí fiquei grávida de um estudante de medicina. Ele sumiu e minha vida desandou. E me ferrei para o resto da vida. Fui obrigada a sair da casa dos meus pais. Não encontrava emprego – não tinha com quem deixar meu filho. Nem como empregada doméstica – desde que me aceitassem com meu bebê. Aí entrei na profissão. Prometi a mim mesma que seria só por um tempo. Até meu filho crescer e eu encontrar emprego. Mas fui me acomodando na rotina de mulher da vida, como se dizia antigamente. Para falar a verdade, eu não tenho, e nunca tive, vocação para ser puta. Não é nada fácil aguentar esses corpos em cima da gente. Alguns fedem, pois tem homem porco. Há homens educados e generosos. Mas a maioria é grossa e se esquece de que sou uma mulher, um ser humano. Alguns são violentos. Uma vez, um desses cafajestes me estuprou antes mesmo de me pagar – e não me pagou, claro. Outro me bateu porque queria sexo anal e eu só faço pelo dobro do preço. Outro queria transar sem camisinha e também me bateu e foi embora sem transar e sem me pagar, claro. Outro me ameaçou com uma navalha e me roubou todo o dinheiro que tinha ganhado aquela noite. E assim por diante. Tive um cliente, durante vários anos, que era muito bom para mim. Carinhoso, conversava bastante, me pagava muito bem e sempre me trazia bombons. Até pensei ingenuamente que ele quisesse ficar comigo. Mas ele sumiu e nunca mais o vi. Talvez tenha morrido. Com o passar do tempo, os clientes foram diminuindo. Tive que baixar o preço. Desci de categoria na profissão. E, claro, o nível dos clientes caiu. O tempo passa e cobra seu imposto. Homem, a menos que esteja duro, não quer puta velha. Homem quer garotas. Carne fresquinha, seios durinhos. Para puta velha só sobra a ralé. E com o que ganho mal dá para comer, pagar aluguel, luz e água e comprar remédios – alguns remédios não são fornecidos pelo posto de saúde. Sim, estou cansada desta vida. Por que Deus me deu um filho deficiente mental?  Ele já está com 30 anos. Se fosse normal poderia estar me ajudando. E aí não teria de ser puta. Já teria deixado essa vida. Às vezes converso com Deus e imploro perdão pelas coisas que peço. Porque Deus pode achar que estou exigindo muito e pode me castigar para me tornar humilde. Penso que nossa situação poderia piorar. Como seria se eu ficasse doente e não pudesse trabalhar? Não dá para viver com o salário mínimo que é o que meu pai recebe de aposentadoria. Outras vezes fico um pouco revoltada com o peso da vida. E então me pergunto se Deus me vê. Se Deus me olha. Se eu sou alguma coisa neste mundo que mereça a atenção Dele. Uma noite fria de garoa, comecei a chorar na rua, pois não aparecia nenhum cliente – a chuva e o frio espantam os clientes. Embora homem não goste de puta chorona, eu chorava, chorava em silêncio numa esquina, embaixo da marquise. Meu Deus, que tristeza! Houve uma interrupção de energia elétrica. A rua ficou um breu. De repente vi uma luz dourada que me envolveu. Parecia um holofote. E então senti uma paz muito grande e uma incrível alegria em meu coração. Foi isso uma manifestação divina? Não sei. Mas sempre penso nisso. É algo que não esqueço. Essa luz repentina durou apenas uns segundos. Depois de dois ou três minutos a iluminação da rua voltou. E eu voltei para casa feliz. Sim, sem um centavo, mas feliz. Acho que naquele momento Deus estava comigo e me fazia sentir Sua presença. Deus tinha me olhado. Mas… Sim, estou cansada desta vida. Estressada. Não tenho nenhum divertimento. Nenhuma distração. Há anos que não leio nada. Não vejo TV (só aos domingos, que não trabalho), pois à noite estou na rua e durante o dia cuido da casa. Eu que gostava tanto de ler e de cinema. Eu que lia tanto. Escritora! Ilusão juvenil. Só se for para contar minha vida de puta pobre. Mas seria um livro sem graça. Quem iria se interessar pela vida de uma puta com um filho deficiente mental e um pai com Alzheimer? As pessoas gostam de ler histórias mais alegres, mais românticas. Histórias com final feliz. Mas quem vai se interessar por uma história triste, amarga, sem perspectiva? Uma história onde não acontece nada. Uma história onde todos os dias são iguais. Vou falar de que no livro? De lavar louça e roupa? De limpar a casa? De cozinhar? De fazer compras no supermercado? De dar banho no meu filho? De levar meu pai e meu filho ao médico? De ir buscar remédios para os dois? Do meu trabalho na rua com os clientes? Tudo é cinzento ao meu redor. Há apenas uma luzinha que brilha na minha vida. A luz de vela da fé em Deus. Mas essa vela pode se apagar a qualquer momento. Há putas que se dão bem na vida. Mas são poucas. Geralmente pertencem a famílias da classe média. Moças estudadas que têm meios de se produzir e que cobram caro. Algumas chegam a fazer um pé de meia e garantem a velhice. Outras, da mesma classe social, muito bonitas, casam e se tornam senhoras respeitáveis. E outras, muito espertas, encostam em alguma celebridade e se tornam figuras públicas. Não é meu caso. Sou uma puta velha e pobre. E nem tenho o direito de me matar. Não tenho o direito de me matar simplesmente porque amo meu filho e meu pai. Sim, apesar desta vida dura, ainda resta amor em mim.

– Pronto. Não precisa mais olhar para a câmera.

– Acabou?

– Sim. É só isso. Obrigado pelo depoimento. Pegue seu cachê.

– Mas você está me pagando muito.

– Você merece.

– Obrigada. Deus lhe pague.

10-06-2016

 

 

Se você não fosse tão ignorante (ou burro ou imbecil ou perverso) entenderia…

01[Absoluto]…que o Absoluto e o Nada convergem.

02[Afronta]…que os salários, privilégios e regalias dos parlamentares são uma afronta ao povo brasileiro, algo absolutamente inadmissível.

03[Amor]…que o amor talvez inclua jogar pérolas aos porcos, pois um deles pode apreciá-las.

04[Bancos]…que o despotismo dos bancos deve ser regulado.

05[Cobiça]…que o neoliberalismo incentiva a cobiça, o pior defeito humano.

06[Competir]…que competir é imoral.

07[Consumismo]…que o consumismo é fascista.

08[Corporações]…que o despotismo das corporações deve ser regulado.

09[Cultura]…que o achatamento, o raquitismo e a rarefação da cultura são decorrentes da política cultural do neoliberalismo, já que, segundo o neoliberalismo, a cultura não dá lucro.

10[Cultura]…que há uma certa barbárie no menosprezo do neoliberalismo pela cultura.

11[Democracia]…que o Brasil não é uma democracia, mas uma ditadura do capital – o impeachment de Dilma Rousseff é uma prova.

12[Deus]…que Deus é silêncio absoluto e não gritaria.

13[Deus]…que Deus não precisa de intermediários, portanto não tem nada a ver com a religião.

14[Deus]…que todo aquele que se arroga ser portador da palavra de Deus é um impostor, um charlatão e um picareta.

15[Deus]…que Deus vomita os mornos, segundo a Bíblia.

16[Deus]…que Deus ama os negros, os judeus, os ciganos, os agnósticos, os ateus, os homossexuais, os viciados, as prostitutas e todas as minorias.

17[Deus]…que Deus não ama os fanáticos, os intolerantes, os fundamentalistas, os sectários, os racistas e os homófobos.

18[Deus]…que Deus talvez não esteja morto, mas está estressado, gasto.

19[Deus]…que Deus deixou de ser um estereótipo.

20[Deus]…que Deus é inominável.

21[Dignidade]…que a dignidade começa pela ética, passa pelo desprendimento e termina pela Liberdade.

22[Economia]…que a economia prevalecer sobre o bem-estar social é um crime político.

23[Economia]…que o materialismo dialético do marxismo é um humanismo comparado com o degradante materialismo pragmático do neoliberalismo.

24[Economia]…que se os economistas fossem um pouco menos ignorantes, se tivessem um mínimo de conhecimento do ser humano, se conhecessem um pouco de história e de antropologia, perceberiam que a arte rupestre das grutas de Altamira e Lascaux diz muito mais – há milhões de anos – do que suas estúpidas teorias de sistema de governo.    

25[Educação]…que um país que não prioriza a educação e a saúde não é um país sério, é um país atrasado que não merece respeito.

26[Educação]…que as crianças deveriam ter aulas de ética, sexo, ecologia/meio ambiente, sociologia e antropologia no ensino fundamental.

27[Eternidade]…que a eternidade não existe.

28[Ética]…que a legalidade não pode prevalecer sobre a ética; que quando a legalidade fere a ética, a legalidade deve ser contestada, burlada, sabotada  e destruída por todos os meios; não se pode esquecer que a escravidão era legal assim como a segregação racial.

29[Ética]…que no Brasil a ética está mais abaixo do que anus de réptil.

30[Fé]…que a fé é acreditar no potencial de transformação do Homem.

31[Feminismo]…que o feminismo fora de um determinado contexto sociopolítico soa falso.

32[Fidelidade]…que aquele que não é fiel consigo nunca será fiel com os outros.

33[Finitude]…que a consciência da finitude reduz a prepotência.

34[Fome]…que o cidadão com fome tem o direito de saquear para comer.

35[Gozo]…que o gozo regula a existência.

36[Gozo]…que o gozo dá um sentido à vida.

37[Gozo]…que o sábio equilibra o gozo entre a existência e a vida.

38[Homofobia]… que a homofobia é uma característica dos seres inferiores.

39[Homófobo]…que o homófobo é um homossexual enrustido.

40[Ingenuidade]…que é o suprassumo da ingenuidade afirmar que, num país tradicionalmente corrupto como o Brasil, as privatizações do governo FHC se deram sem corrupção.

41[Justiça]…que todos os brasileiros não são iguais perante a Justiça (depende da conta que cada cidadão tem no banco).  

42[Justiça]…que a punição do infrator brasileiro depende de sua classe social e de sua conta no banco.

43[Justiça]…que um país se faz com justiça e não com a impunidade das classes privilegiadas.

44[Justiça]…que a omissão da Justiça acoberta o crime e o “legaliza”.

45[Justiça]…que a Justiça é tão retrógrada que ainda considera o crime sexual  mais grave do que o crime ecológico.

46[Justiça]…que a Justiça é tão retrógrada que ainda considera o assalto a um banco (uma instituição suspeita sob o ponto de vista ético) um crime mais grave que a corrupção.

47[Liberdade]…que nenhum ideal está acima do ideal supremo da Liberdade.

48[Liberdade]…que a Liberdade requer um desenvolvimento espiritual e intelectual para ser compreendida na acepção mais profunda do termo.

49[Liberdade]…que tudo aquilo que atentar contra a Liberdade, sejam crenças religiosas, ideológicas ou convenções sociais deve ser destruído, aniquilado, pulverizado por todos os meios.

50[Lei]…que toda lei que viole os direitos humanos deve ser destruída por todos os meios; que lei não é sinônimo de ética.

51[Mídia]…que a mídia que está nas mãos de grandes corporações é tendenciosa, parcial, e que, obviamente, favorece a classe social à qual pertence.

52[Nações]…que há nações que não são dignas do presidente que tem, como é o caso dos EUA e do presidente Barack Obama.

53[Nada]…que o Nada e o Absoluto convergem.

54[Nada]…que é o Nada que integra ao Todo.

55[Neoliberalismo]…que no lupanar do neoliberalismo se vende tudo, até a própria mãe.

56[Neoliberalismo]…que o totalitarismo do neoliberalismo ainda não entendeu que existe uma terceira via e que, para sobreviver, ele vai ter de ceder.

57[Opção]…que tudo na vida é uma questão de opção; que quando optamos estamos anulando automaticamente o lado rechaçado; que a não opção é sinônimo de acomodação, frouxidão, ou covardia.

58[Ousar]…que ousar, ato salutar, é sinônimo de caráter.

59[Padronização]…que a padronização –  ou massificação –  é um atentado contra o indivíduo, uma aberração característica do fascismo, do nazismo, do stalinismo, do maoismo e do neoliberalismo, já que o ser humano não é gado.

60[Parlamentares]…que os parlamentares não podem ter salários que ofendam a ética e a miséria do País; que esses salários são um abuso de poder que deve ser erradicado.

61[Parlamentares]…que os parlamentares, em sua grande maioria, são uma corja de safados medíocres, sem ideologia e sem ideal, que se vendem como meretrizes a quem pague mais.

62[Parlamentares]…que os parlamentares não podem de jeito nenhum ter imunidade; isso é antidemocrático, absurdo, inadmissível.

63[Parlamentares]…que todo parlamentar corrupto deve ser cassado pelo resto da vida.

64[Parlamentares]…que a função do parlamentar não pode comportar esse grau de desfaçatez, de arrogância e de estupidez a serviço do próprio bolso.

65[Parlamentar]…que o parlamentar não se candidata para o bem do País, mas para o bem do seu bolso.

66[PMDB]…que o PMDB é tão corrupto quanto o PT, sendo que a intenção de frear a Lava Jato é a prova mais evidente.

67[Ponderação]…que a ponderação, em certos casos, é frouxidão, omissão e covardia.

68[PT]…que esquerda não é sinônimo de PT.

69[PT]…que todos os males do Brasil não vêm do PT.

70[Questionar]…que questionar absolutamente tudo é um direito do cidadão.

71[Racismo]…que o racismo é uma característica dos seres inferiores.

72[Razão]…que a Razão é a marca registrada do Homem Superior.

73[Razão]…que se chega à espiritualidade pela Razão.

74[Religião]…que a função da religião é ajudar e prover as necessidades dos carentes e  conscientizá-los de seus direitos e não drogá-los com alienação, imbecilização, fanatismo e cegueira.

75[Religião]…que o fanatismo religioso deve ser erradicado com o incentivo de uma educação absolutamente laica baseada na Razão.

76[Religião]…Que a isenção tributária das instituições religiosas deve ser abolida já que a não taxação é medieval, reacionária e antidemocrática.

77[Religião]…que a lavagem cerebral, a extorsão, a promoção do fanatismo, do fundamentalismo, do obscurantismo, da segregação, do preconceito, da repressão sexual e  da imbecilização do cidadão que certas igrejas pentecostais (e por extensão outras religiões) promovem é um crime que deve ser punido por lei.

78[Religião]…que todas as religiões, sob o ponto filosófico, estão decadentes, o que atesta a pobreza espiritual da humanidade.

79[Religião]…que o Homem Superior prescinde de religião.

80[Saber]…que não devemos pedir perdão por saber.

81[Sagrado]…que só a vida humana, animal e vegetal é sagrada; o resto é  mito descartável.

82[Sexo]…que a vida sem sexo é insípida como comida de hospital.

83[Sexo]…que o sexo faz bem à saúde física e mental.

84[Sexo]…que a repressão sexual é um crime contra o corpo, logo, contra a natureza.

85[Sexo]…que a abstinência sexual pregada por fanáticos religiosos é uma aberração que instiga a violência.

86[Social]…que o Brasil é profundamente atrasado em termos sociais.

87[Social]…que o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão.

88[Social]…que o Brasil não lutou pela independência como todos os países do Continente Americano (e isso se reflete em seu lastro colonial), o que perpetua os vícios sociais inerentes à colônia.

89[Social]…que a desigualdade social do Brasil – e  sua consequente segregação –  é uma das piores do mundo.

90[Social]…que a divisão de classes é uma abominação que data da época dos faraós.

91[Social]…que o conservadorismo brasileiro é tão obtuso e reacionário que trava qualquer tentativa de progresso social.

92[Social]…que águas estagnadas fedem, assim como fede o conservadorismo, que é uma estagnação.

93[Superioridade]…que a superioridade inclui a ética, a Razão e o desprezo pelos bens materiais.

94[Transgressão]…que a transgressão tonifica os nervos, chacoalha os flácidos e ilumina verdades suspeitas.

95[Universal]…que o amor universal talvez requeira não pertencer a nada.

96[Vaidade]…que a vaidade é o ânus do orgulho.

97[Vandalismo]…que a reação violenta da miséria decorrente da exploração não é vandalismo.

98[Vandalismo]…que vandalismo é representantes da classe média destruindo obras de arte.

99[Venezuela]…que não se deve confundir a Venezuela de Maduro com o Brasil de Dilma Rouseff.

100[Violência]…que toda violência é social e determinada por fatores sociais como miséria e desigualdade social.

101[Violência]…que a miséria é a mais terrível violência social que existe.

102[Xenofobia]…que a xenofobia é uma característica dos seres inferiores.

01-06-2016

 

Negro, Pobre e Gay

maio 10, 2016

Negro, Pobre e Gay

 

         Não escolhi ser negro – fui engendrado por negros. Não escolhi ser pobre – nasci numa família extremamente pobre. Não escolhi ser homossexual – a natureza assim me fez. Não sou revoltado por causa da cor da minha pele, da minha pobreza de origem nem da minha homossexualidade. Não há ódio em mim. Mas convenhamos que o destino foi bastante irônico quando traçou as linhas da minha existência. E convenhamos também que a minha vida seria mais fácil se eu fosse branco – num país de maioria branca. Se eu não fosse de origem socialmente tão miserável.  E, principalmente, se eu fosse heterossexual. Porém, tento conviver com aquilo que sou e com o que tenho. Convivo bem com a minha condição de negro. Na realidade, em nosso País, a discriminação vem mais da classe social do que da etnia, já que temos uma das piores desigualdades sociais do mundo, e a sua consequente segregação. Não sou mais miserável, pois estudei e tenho um emprego bem remunerado. Todavia, às vezes é muito duro ser gay numa sociedade conservadora – logo machista – onde a ignorância começa por determinadas definições, tais como ‘opção sexual’, como se alguém optasse por ser hétero ou homo. Ninguém opta pelo caminho mais difícil. Por que ser gay se tudo é mais fácil sendo heterossexual? Quanta ignorância! A grande maioria ainda não percebeu que se nasce heterossexual ou homossexual.

Há gays muito bem resolvidos que lidam tranquilamente com a sua condição de homossexuais. Talvez eu seja um deles, pois li muito a respeito do homossexualismo. Mas… Mas o problema sou eu, independentemente de ser homo. Ou talvez, no fundo, uma coisa esteja atrelada à outra. Em uma palavra: a minha carência afetiva. É mais fácil para um heterossexual amar e ser amado do que para um gay, pelo fato de haver mais oportunidades de relacionamento entre os heterossexuais. Mas isso não quer dizer que um gay seja necessariamente carente. Porém, eu sou carente desde criança. Desde que a minha mãe saía para trabalhar e me deixava no barraco da vizinha. Os meus pais davam um duro para ganhar a vida e não dispunham de muito tempo para mimar os filhos. Sim, eu já era sozinho – essa solidão que sempre me acompanhou. Não me entrosava com ninguém. Não me enturmava nem na escola nem na rua. Fechava-me num mundo de fantasias para sobreviver à solidão do mundo externo. E, naquela época da infância e da puberdade, tinha complexo de inferioridade por ser negro e pobre. E quando, na adolescência, tive consciência (embora obscura) de que me sentia atraído pelo mesmo sexo, fiquei profundamente perturbado. Já era um homem de 27 anos quando a minha timidez me permitiu tocar e ser tocado por um homem. Até então eu achava que teria de casar com uma mulher e ter filhos, como todo homem faz. Mesmo que eu não sentisse absolutamente nenhuma atração pelo sexo feminino. Depois foi uma longa busca. Não de sexo, mas de amor. Sim, procurava alguém que me amasse e a quem eu amasse. Um homem para mim. Um companheiro com quem dividir a vida. Mas a minha ingenuidade, a minha pureza e a minha timidez me reservavam mais de uma cilada. Dolorosas ciladas armadas por homens sem escrúpulos que se aproveitaram da minha boa fé e da minha carência afetiva. A última doeu não só no coração e na alma, mas no corpo todo. E me mandou ao pronto-socorro.

*

Eu o conhecia desde a adolescência e o achava muito atraente. Ele já era um homem maduro quando eu era garotão. A sua casa era uma das mais belas construções daquela cidade do interior. Lembrava um pouco as mansões inglesas do século XIX. Pouco se sabia sobre ele. Mesmo porque, embora muito educado com os vizinhos, não conversava praticamente com ninguém. Às vezes viajava. Mas ninguém sabia aonde ele ia. Aparentemente vivia de rendas, pois ele não saía de casa para trabalhar. Vivia quase recluso. Poucas pessoas frequentavam a sua casa. Com exceção de uma misteriosa mulher – de outra cidade – que o visitava mensalmente, passando o fim de semana com ele. O pouco que se sabia a seu respeito era através dos empregados da mansão. Tinha uma doméstica, uma cozinheira e um mordomo que cuidava um pouco de tudo, como uma governanta, e que fazia as compras e tudo o que requeria sair à rua. Mas, de acordo com esses empregados, ele não se abria com eles, apenas dava ordens, sempre de modo cortês. Corriam rumores de que era viúvo ou divorciado e que tinha três filhos, de várias esposas, que moravam no exterior. Um vivia em Singapura, outro na Austrália e outro na Finlândia. Como era muito reservado e nunca conversava, os empregados, intimidados, não ousavam perguntar nada a respeito de sua vida. Era chamado de doutor Wilson. Não se sabia se esse nome era prenome ou sobrenome. Uns diziam que era médico. Outros, advogado. Mas ele não exercia nenhuma profissão. Costuma se trancar, durante longas horas, em sua biblioteca, lendo ou ouvindo música erudita.

Um belo dia o seu mordomo morreu. Não sei por que me ocorreu que poderia pleitear o cargo do falecido. Uma manhã decidi bater à porta da mansão. A empregada – que pelo jeito filtrava as raras visitas – perguntou-me de que se tratava. Respondi que procurava um emprego de mordomo. A empregada me deixou na rua, do outro lado da grade, e pediu que esperasse. Voltou dizendo que o doutor Wilson não podia me atender, mas que eu poderia retornar à tarde, às 16 horas.

Confesso que a minha condição de negro me deixava inseguro. Muito branco que se diz não ser racista no fundo gosta de negros a uma certa distância. O falecido mordomo – já idoso – era branco. Bem, pensei, não custa tentar. O fato de ele ter aceitado me receber para uma eventual entrevista já era um passo que dava margem à esperança.

E ele me recebeu. Nunca esquecerei aquele primeiro contato com aquele senhor alto, esbelto, grisalho, de porte aristocrático. Antes de falar, olhou-me durante longos segundos, o que me perturbou bastante. Por que esse olhar inquisidor, sem palavras, me perturbou tanto? Era algo que eu arrastava inconscientemente havia muitas gerações? O homem negro que se sente intimidado perante o homem branco que vai eventualmente admiti-lo como empregado? Ou era algo mais perturbador do que isso? A possibilidade de morar com um homem cujo físico me atraía e cuja figura envolta em mistério me fascinava? Ou eram as duas coisas?

– Você gosta de ler? perguntou – mais tarde eu entenderia por que essa foi a sua primeira pergunta.

– Gosto, sim senhor. Leio muito.

– Você tem experiência como mordomo?

– Não senhor. Mas acredito que não haverá problema, pois sou garçom num restaurante, respondi ingenuamente.

– Em caso de admissão você teria de morar aqui. Alguma objeção?

– Não senhor. Sou solteiro. Posso morar em sua casa.

– Qual é a sua pretensão salarial?

– Fica a critério do senhor.

– Quando você estaria disponível?

O restaurante onde trabalhava me dispensou do aviso prévio e uns dias depois estava instalado na mansão do doutor Wilson, trabalhando como mordomo, profissão um tanto anacrônica em nossa época, diga-se de passagem. No fim do mês tive uma agradável surpresa: o salário era bem mais alto do que eu esperava.

Começou então a longa e lenta aproximação. Ele me tratava cordialmente, mas com um certo distanciamento. Esse distanciamento era o mesmo que ele mantinha com a empregada e com a cozinheira – que não moravam na casa. Eu atribuía essa recusa de uma maior intimidade ao seu caráter, à sua forma de ser. Ninguém o visitava a não ser a misteriosa dama que vinha mensalmente. Diziam que ela era casada. Ela vinha sempre numa sexta-feira, no fim do dia, e ia embora no domingo, após o almoço. O café da manhã lhes era servido na cama. Aliás, eles passavam a maior parte do tempo trancados no quarto.

Ele tinha um leve sotaque, indefinido, talvez proveniente de várias línguas. Diziam que era russo, mas criado na China – mas então de onde vinha o nome Wilson? No entanto, eu nunca perguntei sobre a sua origem. Nem sobre a sua família. Era um relacionamento estritamente profissional, sem a intimidade que poderia se supor entre duas pessoas que moram sob o mesmo teto.

Assim foram passando os meses e o fascínio deu lugar à paixão. E a paixão, reprimida, cedeu o lugar ao amor. Um amor silencioso, abafado, mas não infeliz. Eu não pedia nada. Eu não queria nada. Eu não esperava nada, mesmo porque ele gostava de mulher. Apenas queria estar – como estava – perto dele e cuidar dele. Eu o amava como o cão ama o seu dono. Como o escravo ama o seu amo. Mas seria reducionista pensar que eu enveredava pela submissão secular dos negros em relação aos brancos. Não. Eu era apenas um homem, negro, que amava um homem, branco. E que, por vias das circunstâncias sociais, esse homem branco era o patrão do homem negro. Poderia muito bem ter sido o inverso, ou seja, o negro num patamar social acima do branco.

Ele tinha idade para ser o meu pai. Era sessentão – calculava eu – quando eu, quase quarentão, comecei a trabalhar em sua casa. E assim foram passando os anos. A intimidade – uma intimidade muito peculiar, física sem ser sexual, levou tempo para brotar e foi crescendo progressivamente, bem devagar. Na realidade, a paixão, que é amor e desejo – ou talvez tudo isso seja redundância e se resuma apenas a amor no sentido mais profundo da palavra – passou a exigir a sua parte, tanto afetiva como sexual. Eu não saía com ninguém – anos a fio sem saber o que era o corpo de um homem – e me masturbava constantemente pensando no homem que amava. Às vezes tinha poluções noturnas sonhando com ele. Era muito difícil reprimir essa vontade convivendo o dia todo com o objeto do desejo. Contudo, eu acabava sublimando esse amor.

Um dia em que ele cortava as unhas das mãos, eu lhe disse que, se ele quisesse, eu poderia cortar as suas unhas. Ele aceitou e me estendeu a mão e a tesoura sem uma palavra. E cortei as suas unhas. E tive imenso prazer em tocar e segurar as suas mãos. Quando terminei, criei coragem e lhe disse que poderia cortar também as unhas dos seus pés, se assim ele o desejasse. E uns dias depois cortei as suas unhas dos pés, depois do banho. E toquei os seus pés, com imenso prazer. Ele estava só de roupão e eu podia ver as pernas e parte das coxas, o que me excitou, mas controlei a ereção. E passei a cuidar das suas mãos e dos seus pés com muita alegria. Isso me deu coragem para o que eu considerava mais uma ousadia para usufruir do contato físico do homem que amava. Sugeri-lhe que eu poderia lhe esfregar as costas quando ele estivesse tomando banho de imersão. Ele aceitou. Como aceitara que cuidasse de suas mãos e de seus pés. Ele apenas disse: tudo bem. Claro que eu pensava: será que ele sente algo quando o toco? Mas, para não criar expectativas, tentava me convencer de que ele gostava apenas de ser cuidado. De que ele, solitário, apreciava que alguém cuidasse de seu corpo regularmente.

Quando esfregava as suas costas, antes que a espuma turvasse a água, eu olhava o seu sexo, o que deixava o meu membro ereto. Mas não havia problema, pois ele não podia me ver, já que eu estava atrás dele. Porém, um dia, inesperadamente (e propositalmente), ele me pediu que esfregasse o seu peito. Na hora fiquei petrificado: o meu membro estava ereto. Fui à sua frente e ele percebeu.

– Você está excitado.

– Desculpe, doutor Wilson, desculpe, disse eu abaixando o olhar.

– Não há nada a desculpar. É uma reação natural. Não se preocupe.

Intuíra ele que eu me excitava quando esfregava as suas costas? Será que ele quis confirmar o que suspeitava, pedindo que esfregasse o seu peito? Talvez, porque ele nunca mais voltou a pedir que esfregasse o seu peito. Uma coisa é certa: nunca o vi com ereção enquanto eu esfregava as suas costas. O que significava que ele não se excitava. Ou ele conseguia se reprimir?

Uma noite – isso depois de mais de um ano após eu ter começado a trabalhar em sua casa – ele inquiriu:

– Você me disse que gosta de ler.

– Sim, doutor Wilson.

– Você não gostaria de ler comigo na biblioteca depois do jantar?

– Sim, doutor Wilson, gostaria.

E praticamente toda noite passamos a ler na biblioteca. Ele me sugeria livros, que eu devorava. Não conversávamos. Apenas líamos. E quando eu terminava um livro, ele perguntava:

– Gostou?

E eu respondia invariavelmente que sim. E assim a nossa intimidade ia se estreitando. E o meu amor crescendo. Entretanto, o seu rosto continuava impenetrável. Um rosto marmóreo que eu não conseguia decifrar. Um rosto onde eu tentava descobrir um sinal de amor, de desejo. E com o passar do tempo, passei a sentir ciúme da misteriosa mulher elegante que o visitava regularmente. Essa mulher com a qual ele fazia sexo durante todo um fim de semana, uma vez por mês. Uma vez a cozinheira – a mais velha de casa – comentou que essa mulher era, na realidade, a sua ex-mulher, que se casara novamente, mas que não o esquecia, que continuava gostando dele. Não sei de onde a cozinheira tirara essa informação. Ele nunca falava nada sobre a sua família e eu, obviamente, não indagava nada. Às vezes eu me perguntava qual era o enigma de sua vida. Teria ele algo a esconder? Um dia uma vizinha xereta me perguntou se o meu patrão era judeu, sobrevivente de um campo de concentração nazista. Ignoro de onde ela tirara essa história. Evidentemente respondi que não sabia. Curiosamente ou não, essa indagação da vizinha acabou se revestindo de uma inopinada conotação erótica. Se ele, o meu patrão – para usar o termo que empregara a vizinha – ou seja, o meu amado doutor Wilson era judeu, ele era circunciso. Portanto, caberia a mim observar o seu pênis enquanto eu lhe esfregava as costas. E desvendar o mistério de sua origem na sua glande era algo altamente estimulante, instigante.

Todavia, depois de anos, ventos funestos varreram as finanças da casa. Um dia ele me perguntou se eu sabia cozinhar. Respondi que sabia preparar alguns pratos.

– Você aceita cozinhar para mim?

– Aceito, doutor Wilson.

E pela primeira vez na vida ele se abriu comigo.

– Estou numa situação financeira muito difícil. Vou ter que demitir a cozinheira e a empregada.

– Pode contar comigo, doutor Wilson.

E ficamos os dois sozinhos naquela casa imensa. E passei a lhe preparar as refeições. Era tão grande o meu amor por ele, que me tornei criativo na cozinha. A partir do dia em que iniciei a minha nova tarefa, passamos a comer juntos na sala de jantar. Sim, café da manhã, almoço e jantar sentados à mesma mesa. Logo depois de assumir a minha nova função, ele me pediu que deixasse o meu quarto na água-furtada e me mudasse para um cômodo de hóspedes ao lado do seu dormitório. Estava cada vez mais perto dele. Será que um dia ele me convidaria a compartilhar a sua cama?

Por aquela época, a misteriosa dama deixou de visitá-lo – teria ela morrido, ou brigado ou se cansado da relação? Senti-me feliz por não ter mais rival. Talvez agora que não tinha mais parceira sexual, ele se aproximasse de mim, me quisesse, me amasse como eu o amava. Mas as suas finanças pioraram e uma noite, durante o jantar, ele me comunicou laconicamente a minha demissão.

– Lamento, mas não tenho mais meios de mantê-lo comigo.

O mundo pareceu desabar. Era o fim da minha vida. Longe dele a minha existência não fazia sentido. Tive muita dificuldade de conter as lágrimas. Tomei uma decisão instantânea, já que tudo parecia perdido.

– Doutor Wilson, pelo amor de Deus, não me mande embora. Eu fico aqui sem salário. Não quero sair desta casa. Há mais de dez anos que estou com o senhor. A minha vida é nesta casa. Não tenho mais nada a fazer fora desta casa a não ser morrer.

Teria gostado de acrescentar que o amava, que o amava desesperadamente. Que não queria ficar longe dele. Que não lhe pedia nada. Absolutamente nada senão que me deixasse morar com ele. Os meus olhos marejaram. Pedi desculpas e saí. Queria chorar sozinho em meu quarto. Subi as escadas correndo. Entrei em meu quarto. Sentei na poltrona e comecei a chorar como uma criança desamparada. Poucos minutos depois ele bateu à porta e entrou. Automaticamente me levantei. Parei de chorar. Sequei os olhos. Ele avançou em minha direção. Durante uns segundos olhou-me sem dizer nada. Então o seu semblante, abandonando a fleuma, esboçou um leve sorriso. E ele me abraçou. Ele me abraçou pela primeira vez na vida. Voltei a chorar. Ele me apertou bem forte em seus braços. Quanto tempo permanecemos abraçados? Não sei. Quando ele desfez o abraço, acariciou o meu rosto e disse:

– Pode ficar.

Peguei a sua mão e a beijei. Foi a maneira que encontrei de lhe agradecer. E esclareci:

– Não choro por perder o emprego, mas por perder o senhor.

– Eu sei, replicou ele, você é muito nobre.

Na realidade, o meu pranto foi uma catarse. O aviso de demissão foi um pretexto para os diques que represavam a paixão estourarem. Sim, em verdade eu estava chorando uma paixão reprimida durante mais de dez anos. E sabia que não havia esperança. Ou estaria eu enganado? Estaria ele reprimindo o desejo? Será que ele, heterossexual, não teria uma dose, uma porcentagem de homossexualidade? Algo lá no fundo que ele não deixava aflorar? Ou estaria eu fantasiando algo que não existia? Talvez ele tivesse apego, afeição por mim depois de tantos anos de convivência. O que não queria dizer necessariamente que ele tivesse vontade de deitar comigo. Sim, talvez fosse isso que o induzira a aceitar que eu permanecesse na casa sem ganhar nada. Ele estava muito acostumado com a minha presença. Com os meus cuidados. Eu sabia que ele apreciava os meus mimos, por assim dizer. Que ele gostava tanto que eu cuidasse dele (cortar as unhas, esfregar as costas e, uns tempos depois, aparar a sua barba e barbear o seu pescoço, isso sem contar os pratos exóticos que eu lhe preparava), que cuidasse do seu corpo (que tocasse o seu corpo?) que engoliu o eventual orgulho de patrão que se vê reduzido a aceitar a ajuda do empregado.

E a vida continuou naquela casa que ninguém frequentava. Embora ele tivesse contratado uma faxineira uma vez por semana, eu tinha muito trabalho a fazer. Mas fazia tudo com entusiasmo e alegria. O prazer de servir o homem que amava loucamente. O deleite de cuidar de um homem que para mim era um pai, um irmão, um filho. Um homem solitário que era a minha única família. O fato é que éramos tão sozinhos um quanto o outro.

Uma manhã ele se sentiu mal. Chamei a ambulância. Fomos ao hospital. Ele saiu no dia seguinte: não era nada grave. Senti-me muito feliz, pois ficara apavorado com a ideia de perdê-lo. Uma semana depois fui ao banco para ver o meu saldo, pois às vezes eu comprava mantimentos para a casa do meu bolso, já que eu, com o passar dos anos, tinha feito um pequeno pé de meia. Constatei então que alguém (que só poderia ser ele) depositara uma soma – respeitável para mim – na minha conta. Indaguei:

– Doutor Wilson, o senhor depositou dinheiro na minha conta?

– Depositei.

– Mas é muito dinheiro e o senhor está tão apertado.

– Vendi um terreno.

– Mas…

– Se eu não faço isso por você, por quem o faria?

– Doutor Wilson…

– Você faz coisas por mim que ninguém jamais fez. Além do mais você está pondo dinheiro do seu bolso na casa. Digamos que o que depositei é uma pequena recompensa pelos seus serviços, pela sua devoção, pela sua lealdade.

Eu estava profundamente emocionado com as suas palavras. Era a segunda vez que ele me elogiava – e desta vez de modo mais extenso. Teria ele pensado na morte e querido deixar algo para mim antes de partir? Ah, meu Deus, como o amava! Amava-o tanto que em vez de dinheiro teria preferido que ele passasse uma noite comigo. Sim, teria preferido sentir o seu corpo fazendo amor com o meu.

Uma noite acordei de madrugada com alguém – que só poderia ser ele – batendo à porta do meu quarto. Estaria ele se sentindo mal ou ele queria…

*

Nunca consigo dar um fecho à minha fantasia. Por um estranho mecanismo do meu inconsciente, talvez não queira lhe dar um final. Ou talvez não queira consumar o ato tão esperado para não romper o encantamento. Às vezes crio variantes da história. Mas é basicamente o mesmo relato que nunca acaba. O doutor Wilson é sempre o mesmo, assim como o seu mordomo. Esses dois personagens fazem parte da minha vida. Deixam de ser virtuais para se tornarem quase tangíveis. Presumo que é um pouco o que acontece com o romancista e os seus personagens durante a criação do romance. Aliás, talvez um dia eu escreva O Doutor Wilson e Seu Fiel Mordomo. A ficção é sempre mais bonita que a realidade. Sou formado em biologia, mas sempre gostei de literatura e de escrever. Além do mais, essa história, essa projeção, me mantém vivo, por assim dizer. Dá-me esperança. Dá-me esperança depois das enroscadas da vida. Na vida de um homem negro, de origem paupérrima e gay. De um homem que acredita – ingenuamente? – no amor.

Sim, essa história me ajuda a superar os fracassos amorosos. E sempre que sofro uma decepção amorosa, apelo para essa fantasia para sobreviver. Como aconteceu com a minha última relação. Deveria ter desconfiado. Um branco bonito, sensual, fogoso, carinhoso e…  aproveitador, cafajeste e violento.  Aproveitou-se da minha carência afetiva. Um gigolô. Pediu-me dinheiro três vezes. Não devolveu. Na quarta, neguei e apanhei. Apanhei feio. Lábios e nariz sangrando. Tive que ir ao pronto-socorro. A única reação que tive foi dizer:

– Se você voltar à minha casa, os meus irmãos te matam. Eu sei onde você mora. Eu sei onde te encontrar.

Deu-me mais um tapa e saiu. E nunca mais voltou.

Os meus quatro irmãos se afastaram de mim quando souberam que eu era gay. Não tenho nenhum contato com eles. Sou o caçula, o único que estudou. Os meus pais já são falecidos. Não tenho família.

Eu não aprendo. Não aprendo a desconfiar dos homens. E vivo me ferrando. Porque sou sozinho e quero ser amado como todo ser humano. Um homo tem as mesmas necessidades afetivas que um hétero, claro. Sim, vivo me ferrando. É por isso que apelo para a minha fantasia. O doutor Wilson, embora muito fechado (será que ele não consegue sair do armário?), é um homem branco bom, honesto, respeitável e respeitador. Gosto muito dele. E ele gosta de mim. Em última instância, só tenho ele.

10-05-2016

Alguns dos 31 livros publicados em papel de R.Roldan-Roldan estão agora na Amazon.

 

 

 

 

O Diário dos Escritores entrevista R.Roldan-Roldan

  

R.Roldan-Roldan, cidadão brasileiro, nascido na Espanha, criado no Marrocos, formação francesa. Romancista, contista, dramaturgo, poeta, pensador e articulista (seus artigos publicados num jornal estão editados no blog http://www.davidhaize.wordpress.com). Autor de 31 livros publicados fisicamente.

Diário – Quando começou a escrever?

Roldan – Comecei a escrever aos sete anos de idade. Compulsivamente.

Diário – Como encara a situação das editoras em relação aos livros digitais, acredita que todas se renderão e fecharão as portas por não poderem acompanhar as edições por conta própria?

Roldan – Sempre haverá leitores de livros de papel, mas a tendência e o futuro são os livros digitais.

Diário – Tem obra(s) publicada(s)? Cite-a(s).

Roldan – 31 livros publicados em papel. A obra inclui romances, contos, teatro e poesia. Poderia mencionar os romances Litterata ou O Doce Sorriso do Macho Satisfeito, Boa Viagem Sheherazade ou A Balada dos Malditos e Rapsódia Para um Viajante Solitário. No teatro, O Ato – Foder É Vermelho e As Papoulas de Constantinopla. Nos contos Juiz, Casado, com Filhos, Procura Homem Para Sexo Casual e Ao Sul do Desejo. Na poesia, Inidentidade (escrito em quatro línguas: português, inglês, espanhol e francês) e A Dor da Identidade, Khayyam, Tânger. E no epistolar, Cartas a um Filho em Coma. Estes livros estão agora disponíveis para download na Amazon.

Diário – Como encara a situação do escritor no Brasil?     

Roldan – Num país que não lê, se comparado com outros, a situação do escritor no Brasil só pode ser ruim.

Diário – O que acha que deveria mudar nos planos da cultura no Brasil?

Roldan – Pouco ou nada pode se esperar de um país que não prioriza a cultura, mesmo porque, no conceito do neoliberalismo e seu pragmatismo, a cultura não dá lucro, portanto é algo que não interessa ao sistema vigente.

Diário – Qual foi o livro nacional que mais marcou sua vida?

Roldan – Há vários livros nacionais que me marcaram. Poderia citar Avalovara, de Osman Lins, Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Diário – Acredita que os brasileiros estão perdendo o hábito da leitura?

Roldan – Sim, o brasileiro está perdendo o hábito da leitura. É um longo processo de há décadas que vem se acentuando com o descaso do sistema em relação à cultura de modo geral. Mas, obviamente, não podemos esquecer que há um fator, a nível mundial, que é a expansão da cultura da imagem, que acaba se desdobrando na crescente ausência de raciocínio. Em outras palavras, cada vez existe menos espaço para pensar. Pede-se ao cidadão que compre cultura barata, superficial, de fácil digestão e que a degluta rapidamente para prosseguir com o consumo idiota e sem sentido. O seja, o absurdo de consumir por consumir. Logo, a cultura de massa é lixo descartável que não serve para nada, a não ser para alienar o consumidor. Qualquer escritor sério, que se preze, vai rejeitar esses montes de best-sellers – e aí incluo os famigerados livros de autoajuda – que assolam o mercado editorial e que não acrescentam nada à inteligência.

Diário – Além de escrever, pratica algum outro tipo de arte?

Roldan – Se não fosse escritor seria cineasta. Sou cinéfilo, mas não filmo. Tenho uma verdadeira paixão pelo cinema. Mas certamente não por aqueles blockbusters insuportáveis que parecem dirigidos a débeis mentais.

Diário – Com qual livro você se presentearia hoje?

Roldan – Com qualquer clássico. Desde os clássicos gregos aos clássicos modernos.

Diário – Cite três autores que gostaria de homenagear.

Roldan – Citarei três autores que admiro e que me marcaram: Rimbaud, Khayyam e Nietzsche.  Identifico-me totalmente com o visionário francês, com o hedonista persa e com o niilista alemão.

Diário – O que acha dos jogos interativos? Acredita que podem ajudar crianças a aprenderem a ter gosto por leitura logo cedo?

Roldan – Sou bastante cético a respeito.

Diário – Se fosse para reescrever uma obra já consagrada, qual seria?

Roldan – Das obras consagradas que amo não reescreveria nenhuma, embora eu seja muito exigente. Todavia, é bom frisar que nem toda obra consagrada é realmente uma grande obra. E isso ocorre em todas as manifestações da arte em geral. Às vezes se convenciona consagrar uma obra que deixa a desejar sob certos aspectos. Mas, por temor de parece ignorante, ninguém é capaz de contestar a qualidade dessa obra.

Diário – O que tem a dizer sobre a alfabetização de adultos?

Roldan – A alfabetização de adultos é louvável, mas o fato de um cidadão saber escrever seu nome e ler (mal) não indica que o País tenha elevado seu nível cultural.

Diário – Fale em poucas linhas quem é Roldan-Roldan.

Roldan – Como sou um animal literário – ou um animal intelectual, por assim dizer – apaixonado pela literatura, acho que a primeira das três melhores coisas da vida é escrever. Como sou sanguíneo e voraz, acho que a segunda melhor coisa da vida é copular. E como sou hedonista e gourmet, acho que a terceira melhor coisa da vida é comer. O exercício da escrita me proporciona um prazer que me eleva não só mentalmente, mas espiritualmente. O sexo me faz sentir vivo e me torna mais generoso, humilde e tolerante. A repressão sexual é uma violência contra o corpo e o espírito e é uma aberração. E o alimento encerra o que considero a divina trindade do hedonismo.

Sou, por linhagem da qual me orgulho muito, livre-pensador e libertário. E não tolero o achatamento do conhecimento humano em nome da religião ou de qualquer doutrina política. O cidadão é livre e tem por missão destruir tudo aquilo que atente contra sua liberdade. É de pasmar como, durante séculos, a classe dominante, fosse civil ou religiosa, esmagou todos aqueles que contestavam a verdade oficial, em nome da qual tudo o que a ela se opunha era eliminado. Os exemplos históricos estão aí para prová-lo. E frisemos que o homem honesto se atém apenas ao factual. Assim como um governo honesto deve se ater só ao factual e disseminar o conceito de verdade provada entre seus cidadãos. E para finalizar, é o suprassumo da ignorância achar que a Razão, ou racionalismo, elimina a espiritualidade, que, diga-se de passagem, pode ser laica.

02-03-2016

 

Addio, Ettore Scola

janeiro 25, 2016

Addio, Ettore Scola

Quando um grande artista que admiramos morre, sentimo-nos tristes como si tivéssemos perdido um amigo. Um amigo com o qual nos identificamos, com o qual temos muito em comum. É o caso de Ettore Scola, que faleceu dia 19 de janeiro em Roma, aos 84 anos. E certamente não há cinéfilo que não lamente sua morte. Com ele desaparece o último dos grandes cineastas italianos das décadas de 1960 e 70. Scola tem um lugar privilegiado não só no cinema italiano, mas na cinematografia mundial, ao lado de Visconti, Antonioni, Fellini, Zurlini, Montaldo, Pontecorvo e outros (para citar só seus conterrâneos) que iluminaram a sétima arte. Nessas duas décadas, nenhum outro cinema resplandecia no mundo como o italiano.
Grande cineasta humanista. Grandes filmes. Inesquecíveis. Não só porque nos faziam pensar, sem serem áridos, mas porque nos emocionavam, sem serem edulcorados. Não há em sua filmografia uma única obra que o desprestigie. Eu mencionaria quatro grandes filmes que me envolveram, intelectual e emocionalmente e que me marcaram.
“Nós Que Nos Amávamos Tanto (C´eravamo tanto amati)”, de 1974, que, para um “soixante-huitard” como eu, é um prato cheio, e que retrata a trajetória de três amigos que lutaram na resistência contra o nazismo e o fascismo e que sonharam em transformar o mundo para torná-lo mais humano, mas que foram transformados por ele, por esse mundo que virava uma página da História. O desencanto com a vida privada e com a política. Comédia amarga e melancólica que muitos críticos consideram o melhor trabalho do diretor.
“Casanova e a Revolução (La nuit de Varennes)”, de 1982, belíssima exposição, com acentos viscontianos (a desagregação que o tempo traz), de um mundo que ruiu com a Revolução Francesa de 1789. Nessa esplêndida obra, os personagens – alguns históricos, como Giacomo Casanova, o escritor Restif de La Bretonne e o revolucionário Tom Paine e outros fictícios – viajam numa diligência, o que nos reporta ao clássico No Tempo das Diligências, de John Ford. Mas fora o meio de transporte, um filme não tem nada a ver com o outro. E, diga-se de passagem, o filme de Scola não deixa nada a desejar se comparado com o de Ford. Pessoalmente, prefiro a diligência francesa à do western.
“O Baile (Le bal)”, de 1983. Um assombro. Um verdadeiro “tour de force”. O exemplo de como com num único cenário um diretor pode ser extremamente criativo e seduzir o espectador. Num salão de baile desfilam, pelas músicas tocadas e dançadas, mais de seis décadas da história da França. Dos anos 1920 aos 80. E assim, através das músicas, temos a Segunda Guerra Mundial, a ocupação nazista, a Resistência, a libertação, a chegada dos norte-americanos. Filme mundo. Sim, tudo sem uma palavra. Apenas as músicas e as danças que vão mudando conforme passa o tempo. Os mesmos intérpretes. Mudam apenas as roupas, os penteados e a maquiagem. Uma obra-prima.
“A Viagem do Capitão Tornado (Il viaggio di capitan Fracassa)”, de 1990, baseado no romance de Théophile Gautier. No século XVIII, uma trupe de teatro ambulante, surpreendida por uma tempestade, se refugia no castelo de um nobre arruinado. Encantador. Feérico. Puro lirismo digno do melhor Fellini.
Citei apenas os meus favoritos. Merecedores de destaque, temos, entre outros, “Um Dia Muito Especial” (1977), profundamente humano, e “Feios, Sujos e Malvados” (1976) que, de certo modo, dialoga com “Viridiana”, de Buñuel, além de “A Família” (1987), “O Jantar” (1998), e “Splendor” (1989), cuja trama se assemelha à de “Cinema Paradiso”, de Tornatore.
Adeus, querido grande maestro. Addio, Ettore Scola. Grazzie mille. Sim, obrigado pelas muitas horas de prazer inteligente que você nos proporcionou. Sem você, o cinema mundial encolheu.
23-01-2016
R.Roldan-Roldan é escritor
http://www.davidhaize.wordpress.com

Source: Sexo, Deus, Liberdade, Ética, Amor e Outros Tópicos

Sexo, Deus, Liberdade, Ética, Amor e Outros Tópicos
(Máximas)

Amor O tardio é sempre mais intenso
Amor O lúdico abraça o lúbrico
Amor Tudo lhe é permitido
Amor É generosidade antes de tudo
Amor Não faz concessões
Amor Além das convenções
Amor Sem extremos se torna insípido

Cultura (de massa) Vulgarização global
Cultura (de massa) Causa náuseas
Cultura (de massa) Lixo reciclável
Cultura (de massa) Não acrescenta nada
Cultural (de massa) Imbeciliza o ser

Consumo Fascismo em doses homeopáticas
Consumo Fascismo edulcorado para cretinos
Consumo Estimula o lucro logo a violência
Consumo Entorpecimento social
Consumo Para os pobres de espírito

Deus “Deus vomita os mornos”
Deus O Absoluto dispensa a religião
Deus Dispensa intermediários
Deus Quem O tem não necessita de religião
Deus O seu contato requer inteligência
Deus Ama o Silêncio e despreza a histeria
Deus Magnanimidade é uma das condições

Espiritualidade Está acima dos credos
Espiritualidade Exige despojamento
Espiritualidade Não vem de fora
Espiritualidade Pode caminhar com o hedonismo
Espiritualidade Desprender-se

Ética Não faz concessões
Ética Desconhece a leniência
Ética É sim ou não
Ética Prefere a morte à mácula
Ética Sem ela a alma se torna bastarda

Ganância Traço dos seres intelectualmente inferiores
Ganância Traço dos que não tem estofo para elevar-se
Ganância Pobreza interior
Ganância Avidez de puta
Ganância Cobiça de marafona

Liberdade Cresce conforme a vida diminui.
Liberdade Espanta os frouxos e os covardes
Liberdade Só aquele que é superior a atinge
Liberdade Prioridade absoluta
Liberdade Tudo lhe é subordinado
Liberdade Exige valentia de seus adeptos
Liberdade Plenitude da ousadia

Pureza Desconhece as convenções
Pureza Desconhece as concessões
Pureza Desconhece os dogmas
Pureza Desconhece o lucro
Pureza Desconhece o conceito de Bem e de Mal

Raízes Faca de dois gumes
Raízes Bebê-las sem embriagar-se
Raízes Referências que não devem cegar
Raízes Saudáveis quando não entopem a mente
Raízes Sem elas a memória morre

Razão Característica do ser superior
Razão Próxima do divino
Razão Seu despojamento é sua elevação
Razão Arma fundamental contra o fanatismo
Razão Sinal de inteligência

Religião Morbidez
Religião Exala odor de morte
Religião Ninho de superstições
Religião Atenta contra a inteligência
Religião Aliada da estagnação
Religião Meretriz do poder
Religião Comercialização de Deus

Revolução Esta para o social como o banho para o corpo
Revolução Faxina política e social permanente
Revolução Água viva não se corrompe
Revolução “Si jeunesse savait si vieillesse pouvait”
Revolução Movimento logo vida

Ser Transbordar
Ser Abrangência
Ser Multiplicidade
Ser Vastidão
Ser O Uno enlaça o Todo
Sexo Sagrado
Sexo A abstinência sexual é uma aberração
Sexo Retarda a velhice
Sexo Mantém a saúde
Sexo Rejuvenesce
Sexo Torna o ser mais generoso
Sexo Amaldiçoado seja aquele que o reprime

Solidão A perda do sagrado
Solidão A queda do divino
Solidão O deslocamento entre imbecis
Solidão O exílio entre picaretas
Solidão A sabedoria
Solidão A inteligência
Solidão A elegância interior

Utopia Basta sonhar e abrir mão do conforto
Utopia Sonho ousadia e coragem
Utopia Menospreza os pobres de espírito
Utopia Matiz da esperança
Utopia Orgasmo do universal

Violência O neoliberalismo
Violência A cobiça
Violência A desigualdade social
Violência A indústria bélica
Violência A Miséria

Vulgaridade Ostentar
Vulgaridade Exibir-se
Vulgaridade O apego aos bens materiais
Vulgaridade O apego às aparências
Vulgaridade Seguir o rebanho
Vulgaridade A imitação
Vulgaridade Não ousar ser si próprio
Apêndice
O fulgor: Luchino Visconti
O gozo: Omar Khayyam
A instigação: Hieronymus Bosch
O olhar: Greta Garbo
A ousadia: Arthur Rimbaud
O pensamento: Friedrich Nietzsche
O sublime: Ludwig van Beethoven

7 de janeiro de 2016

Juiz Viado não, Juiz Homossexual
(Olha o Respeito!)

O professor J. Campos entrevista o escritor R.Roldan-Roldan sobre seu polêmico livro “Juiz, Casado, com Filhos, Procura Homem Para Sexo Casual”, à venda na Amazon (impresso e e-book).
JC – No conto “Juiz, Casado, com Filhos, Procura Homem Para Sexo Casual” você aborda a homossexualidade camuflada de um juiz, pai de família, e usa um tom sarcástico, cínico, debochado, falando do magistrado. Você não estaria sendo preconceituoso em relação ao homossexualismo? Por que um juiz? Por que os amantes negros?
RRR – Não estou sendo preconceituoso. Absolutamente não. O tom sarcástico é empregado para satirizar a hipocrisia do juiz e, por extensão, da sociedade. Em nome das normas da sociedade o juiz não assume a sua homossexualidade. É um frouxo. E dos frouxos não se pode esperar nada a não ser a covardia. Logo, o conto é, antes de tudo, um libelo contra a hipocrisia da sociedade e não contra o homossexualismo.
JC – E por que a preferência por amantes negros?
RRR – Trata-se, propositalmente, de um clichê: o mito do homem negro como supermacho, sexualmente falando.
JC – E por que um juiz?
RRR – Porque os juízes, via de regra, se acham acima de qualquer suspeita, seja do ponto de vista ético, moral, político ou sexual. Logo, por que não satirizá-los? E, diga-se de passagem, eu ri muito na criação do conto, mesmo porque o enfoque da história é cômico. Um juiz, como ser humano, está no mesmo nível de um varredor de rua. Exatamente como um político corrupto está no mesmo nível de um assaltante de banco. Farinha do mesmo saco.
JC – Em “Vó, Teu Amante É Gostoso?” você descreve uma quase octogenária que mantém relações sexuais com um jovem que poderia ser seu neto. O que você pretende com esse relacionamento?
RRR – Eu não pretendo nada. Apenas quis mostrar com bom humor uma mulher inteligente, com filhos, netos e bisnetos, que assume a sua sexualidade na velhice em vez de reprimi-la. O que é extremamente sadio para a mente e para o corpo. Os velhos, se não estão doentes, sentem tesão. Só os mortos não sentem tesão. É absurdo e fascista negar a sexualidade dos idosos. Os filhos deveriam incentivar os pais idosos a manter relações sexuais regulares, dentro ou fora do casamento, quando um dos cônjuges está impossibilitado de consumar o ato.
JC – Isso não seria imoral?
RRR – Cuidar da saúde é imoral?
JC – E por que mais uma vez um amante negro?
RRR – E por que uma respeitável senhora branca, idosa, não poderia ter um amante negro e lixeiro? Não vejo nada de excepcional nesse comportamento.
JC – Em “Comida Caseira”, um engenheiro agrônomo acaba vivendo maritalmente com a esposa e as duas cunhadas, irmãs dela. Você também acha isso natural?
RRR – Por que não? Desde que não haja mentira… Por que devemos nos limitar a achar que a família é composta de papai, mamãe, filhinho e filhinha? No conto, a esposa, estressada, não tem muita vontade de sexo, mas ama o marido e não quer perdê-lo. Nada mais lógico que, para mantê-lo em casa, ela lhe empurre as duas irmãs (uma ex-freira virgem e uma evangélica viúva). E o marido, que gosta muito de sexo, não acha ruim. E passam a viver os quatro juntos, mais o filho e a filha adolescentes do casal, em harmonia. Qual é o problema, se ninguém mente para ninguém? O que é desprezível, coisa de fracos ou perversos, é a mentira.
JC – Uma ex-freira e uma evangélica. Não há aí uma vontade explícita de chocar certas comunidades?
RRR – Estou pouco me lixando para o que possam pensar. Não escrevo para chocar, mas também não costumo pisar em ovos. Além do mais, as freiras e as evangélicas não leem o que eu escrevo. Isso sem contar que freiras e evangélicas têm entre as pernas o que todas as mulheres têm. E se não a usam convenientemente, é porque são ignorantes. A abertura não é só para urinar, mas para ter prazer. E o prazer sexual aproxima de Deus. E não do Diabo, como pregam os imbecis. Talvez as minhas duas personagens sejam suficientemente inteligentes para perceber isso.
JC – Esse conto poderia ser tachado de machista.
RRR – Sim, talvez seja um conto machista. Poderia ter imaginado uma família formada por três homens e uma mulher. Mas, como sou homem, me diverti muito com a situação que criei. Além do mais, fui criado num país islâmico; será que sofri alguma influência poligâmica? (risadas). Mas não sou machista, não. Porém, se alguma feminista radical (não tenho muita paciência com feministas burguesas, o que é um paradoxo, e não sei se Simone de Beauvoir teria) achar ruim, eu a aconselharia a ler mais história e antropologia e a se convencer de que para mudar o macho é necessário mudar, previamente, a sociedade mediante uma revolução.
JC – “Pai, Quero Ser Mãe” é o conto mais ousado. Pode até chocar o leitor mais sensível, mesmo que não seja conservador.
RRR – Nesse conto quis dizer que quando amamos, fazemos concessões e pulamos preconceitos e tabus. Um pai heterossexual que deita com um homossexual para que o gay tenha ereção e penetre e fecunde sua (do hetero) filha deficiente física que quer engravidar, é um ato de amor.
JC – Mas há um sentimento incestuoso entre pai e filha, embora sem consumar o ato.
RRR – Sim, de fato. Mas o incesto é algo bastante praticado em todas as camadas sociais.
JC – Em suma, os sete contos do livro giram em torno do sexo em suas mais variadas manifestações.
RRR – Sim. Além dos contos já citados, temos “Pau na Horizontal”, sobre escritor sexagenário que tem relações sexuais com uma jovem estudante que poderia ser sua neta, “Maitezaitut/Anee ohev otakh” (“eu te amo” em basco e em hebraico) sobre pintor anarquista que mantém uma relação tórrida com uma psicóloga burguesa casada e o melancólico “Jazz” sobre músico maduro que se prostitui. Os sete contos compõem um painel sexual, por assim dizer, da sociedade.
JC – No entanto, não se pode afirmar que esse painel represente a sexualidade da grande maioria.
RRR – Do ponto de vista literário, não estou interessando na normalidade. A normalidade é enfadonha, chata, rasa, insípida.
JC – O jornalista Pierre-Auguste Lanord vê ecos de Maupassant em seu livro. Você se sente influenciado por Maupassant?
RRR – Maupassant é o maior contista da literatura francesa e um dos maiores do mundo. Gosto muito do seu universo. Mas não me parece que eu seja influenciado por ele. Estou, pelo menos em alguns contos deste livro, mais para Bukowski e para Andreas Nora, um excelente escritor brasileiro contemporâneo que admiro e com quem tenho muitos pontos em comum. Mas é mestre Khayyam, que se antecipou séculos a Kierkegaard e Sartre, com seu hedonismo, seu ceticismo, seu existencialismo (em plena Idade Média!) e sua indagação filosófica (e, para alguns, até metafísica) com quem me identifico totalmente. O grande Khayyam, com a lucidez da sabedoria, dizia, em outras palavras: carpe diem, pois após a morte não há nada, não resta nada, apenas o pó. De certo modo, não diretamente, ele dava a entender que a alma está entre as pernas.
JC – Isso não seria uma apologia do sexo?
RRR – Não. Apenas admitir que o sexo é sagrado. E que é graças ao sexo que a humanidade existe.
10-11-2015

 

A “Puta” e a “Santa”

O conceito de puta é muito relativo. Assim como o de santa – por isso coloquei os dois substantivos do título entre aspas. Há putas santas. E há santas putas. Sim, tudo é relativo. Como o conceito da moral judaico-cristã-islâmica que varia com a bolsa. Há umas décadas se dizia que mulher proletária que dava era puta enquanto mulher burguesa que dava era mulher emancipada.
Pois agora estou com a minha adorável (adorável porque é autêntica e deliciosamente cínica) puta e a minha respeitável (respeitável porque é humilde e sincera) santa na Amazon e-book no livro E-mails – Confissões Íntimas de Uma Socialite. Para dizer a verdade, não se trata realmente de uma puta e de uma santa. Mas apenas de duas mulheres. Mas, como a sociedade em que vivemos é, além de hipócrita, burra e bastarda e se alimenta como boa cretina de rótulos, para facilitar o marketing decidi assim chamar as duas protagonistas deste romance epistolar (sim, leitor, ainda existe o gênero romance epistolar, você nunca leu um?) – só que em vez de cartas, temos e-mails como indica o título, sinal dos tempos. Sinal dos tempos quando o livro foi escrito, porque hoje em dia se usa mais a futilidade massacrante do Facebook.
Duas amigas, que na juventude disputaram o mesmo homem, se encontram eletronicamente depois de muitos anos e reatam, já cinquentonas, a velha amizade interrompida pela rivalidade. O novo contato se dá em circunstâncias dramáticas, após elas terem se defrontado com a morte, cada uma de modo diferente.
Anna K. é inteligente, fina, elegante, culta. Bela e sensual. Impulsiva, passional, extrovertida e cínica. E, livre, totalmente emancipada, devora machos de todas as etnias, nacionalidades, classes sociais e idades, anotando em seu diário o formato, tamanho e cor dos múltiplos membros genitais masculinos que já teve oportunidade de apreciar em suas viagens. Casada com um homem rico, nada esconde do marido, que tem uma amante. Ela, porém, não quer um amante, quer muitos homens sem se prender a nenhum deles. Ninfomaníaca? Não exatamente. Mas sua vida é um turbilhão. Até que um dia…
Dahlia, classe media, inteligente, discreta, sutil, sensível e racional, vive reclusa, sem nenhuma companhia masculina, com a libido anestesiada por um longo drama familiar. Para sobreviver, ela se vira para a espiritualidade, sem ser propriamente uma pessoa religiosa. Mas é justamente a sua racionalidade que a empurra para algo que lhe torne a existência mais sofrível, para algo superior que alivie o pesado fardo que o destino lhe designou.
À medida que se desenvolve a correspondência entre ambas, percebemos que a personalidade de cada uma vai se modificando, vai sendo lentamente alterada, influenciada reciprocamente, a ponto de as duas questionarem o próprio modo de viver. Sempre sofremos alguma influência das pessoas que amamos. Quis neste livro desenvolver, em linguagem coloquial (mas não avacalhada), a metáfora do eterno embate entre o corpo e a mente, entre a matéria e o espírito. E isso sem discurso nem proselitismo. Sem tomar partido. Com um certo distanciamento – na medida em que isso é possível num escritor visceral como eu.
Pretendia editar o romance (já publicado em papel) sob um pseudônimo feminino, não porque me parecesse mais adequado por se tratar de um livro de mulheres, mas, talvez, para dar mais veracidade a uma história em que os personagens masculinos têm apenas um papel de coadjuvantes. E, claro, pelo fato de se tratar de uma história na qual o autor não é o narrador. Mas um amigo, que leu o original, me disse que se percebia claramente que era um homem que tinha escrito a obra. Decidi, então, publicar o livro sob meu nome de autor. Quem fizer o download na Amazon e-book poderá julgar se é perceptível o toque do homem no romance. Pessoalmente, eu não acredito que haja uma literatura masculina e outra feminina. Existe apenas literatura.
Por outro lado, quis prestar uma homenagem a um dos mais belos livros da literatura universal, As Mil e Uma Noites, onde Sheherazade conta histórias ao sultão Shariar para, assim, postergar a morte à qual o soberano a condenara. Exatamente como faz Anna K. relatando suas aventuras eróticas a Dahlia para conjurar a morte.
22-09-2015

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