Não. Não e não. Nunca mais. Jamais. Depois do que aconteceu sábado passado não quero mais saber de homens. Ai Clotilde não seja exagerada. Isso vai passar. O tempo resolve tudo. Não vai passar não. Estou traumatizada. E não é para menos. Deus nem quero pensar no que me fizeram. Isso não se faz com uma mulher. Com nenhum ser humano. Como pode haver gente tão… Tão… Nem sei como qualificar esse ato. Quero que esse cafajeste morra. Calma Clotilde. Para de pensar nisso. Ouça um pouco de música e relaxe. Você gosta tanto de músicas de filmes. “Love Story”. “Cinema Paradiso”. “Os Guarda-chuvas do Amor”. Você chora de emoção quando escuta essas músicas. Não quero ouvir música. Então vai ficar remoendo a noite toda o que te fizeram? Fique calma. Relaxe. Como posso relaxar se estou morrendo de ódio? Meu Deus o que eu fiz para merecer isso? Por que sou tão infeliz? Chega Clotilde chega. Tire esses pensamentos negativos de tua cabeça. Mas é difícil tirar esses pensamentos de minha cabeça. Estou farta de ser humilhada pelos homens. Estou cheia de  ser tratada como lixo. E estou saturada de ficar sozinha. Se eu tivesse um homem que me amasse de verdade não ia procurar homens na internet. Ou nos bares. Ou em festas de amigos. As raras festinhas de amigos. Minhas amigas estão todas casadas com filhos encaixadas em suas vidinhas. Eu sou a única azarada que não tem ninguém. A única amiga que vejo com alguma regularidade é a Cristina. A doida da Cristina. Para ela não falta homem. Solteirona como eu. Mas ela trata os homens a pontapés. Ela diz que é assim que a coisa funciona. Homem tratado a pontapé fica manso que nem cachorro. Ela diz que eu sou boba ingênua e que vou com muita sede ao pote. Acho que ela tem razão. Sou muito carente e os homens aproveitam. Deveria mudar meu modo de agir. Mas depois dos 50 é difícil mudar. Pois é Clotilde. A tua vida sempre foi solidão. Sempre cuidei dos meus pais. Principalmente da minha mãe doente sempre doente. É a sina da filha primogênita. Meu irmão mora nos EUA. Só falo com ele no Natal. Minha irmã mora na Inglaterra. Só falo com ela no Natal. Os dois estão casados e com filhos. E eu aqui. Sozinha. Mendigando um pouco de amor para amenizar a solidão. Pois é. Há pessoas que vivem para os outros e se esquecem de viver. E eu me esqueci de viver. E quando me dei conta já tinha mais de 40 anos. A gente tem que pensar um pouco na própria vida. Se a gente não der um pouco de atenção a si própria a gente passa a existência em branco. E quando a solidão aperta a gente embarca em aventuras ou melhor dito em desventuras. Encontros passageiros que mal aliviam o corpo. E deixam o coração faminto. É tanto exigir amar e ser amada? Clotilde para. Você tem um bom emprego. Um bom apartamento próprio. Está bem de saúde. Dê graças a Deus que você tem tudo isso. Mas eu não sou amada. E não é só sexo o que procuro mas amor. Sim amor. No fundo todos procuramos amor nesta vida. Vá com calma Clotilde. Quando menos você esperar aparece o homem de tua vida. O homem de minha vida. Que ironia. O antepenúltimo que conheci pela internet me deixou esperando numa cafeteria num shopping. Viu a mulher. Alegou que ia ao banheiro. E fiquei aguardando uma hora. Aí fui embora. No dia seguinte ele me ligou pedindo desculpas e querendo marcar um novo encontro. Recusei. O penúltimo que conheci também pela internet me convidou para irmos a um motel. Aceitei. Quando passou em casa me apanhar estava com outro homem no carro. Não entendi. Ele esclareceu que íamos fazer sexo a três. Recusei. Desci do carro. O que eles pensam esses homens? Será que não respeitam os sentimentos das mulheres? É muito azar. E o último… Meu Deus não quero nem pensar o que ele fez comigo. Mas talvez precise reviver a cena para ver se consigo exorcizar o trauma. Será? Conheci-o numa festinha. Amigo do amigo de uma amiga. Bem pelo menos não era mais um da internet. Cinquentão. Bonitão. Bem vestido. Educado. Advogado. Bom papo. Alguns drinques. E me convidou para irmos a um motel. Para variar aceitei. A boba. A carente. A solitária. Mas como ia eu saber se ele me parecia um cavalheiro? Fomos. Pediu um drinque e petiscos. Comemos e bebemos. E conversamos. E eu querendo outra coisa além de conversa. Num determinado momento ele foi ao banheiro com o prato dos petiscos vazio. Depois de uns minutos saiu do banheiro pelado. Com o prato cheio de merda numa mão e um revólver na outra.  E mandou que eu comesse. Recusei. Ameaçou-me. Come ou morre. Peguei um pouco com a mão e levei à boca. Senti ânsia de vômito. Continue mandou. E em pé começou a se masturbar. Peguei mais um pouco do exótico prato. Levei à boca. Engoli! Engoli sim. Senti ânsia de vômito. Ele gozou e ejaculou no chão. Não grite ou te mato! Limpou o membro na colcha. Colocou o revólver sobre o criado-mudo. Vestiu-se. Guardou o revólver. Eu estava paralisada. Ouvi o carro sair. Não ousava me mexer. Enfiei o dedo na boca e vomitei. E comecei a chorar. Como agora estou chorando. Meu Deus não é possível que entre milhões de homens neste mundo não haja um que me ame. O que há de errado comigo? Não sou feia. Não sou chata. Mas não sou jovem. Calma Clotildinha calma. O bom Deus vai te ajudar. Você é uma boa mulher e merece um homem bom que te ame. Ouça a “Serenata” de Schubert e acenda uma vela para santo Antônio. Passe um pouco de maquiagem e tome uma cervejinha. Você vai ver que as coisas vão melhorar.

07-06-19

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Pau de 80 Anos

maio 17, 2019

Pau de 80 Anos

 

É foda velho sem foda. É triste demais. Punheta após punheta. E nada de um abraço, um beijo, uma carícia. Como se velho não tivesse tesão nem sentimentos. Como se velho não sentisse mais nada além de vontade de comer, dormir, mijar e cagar. E vêm aqueles imbecis açucarados com suas mensagens otimistas, edificantes, de uma hipocrisia que faz doer o fígado. A terceira idade (eufemismo para não dizer a velhice, a decrepitude) é a melhor idade do ser humano. Os filhos estão criados – estão? Curte-se os netos sem responsabilidade – curte-se? E usufrui-se a aposentadoria – usufrui-se? A aposentadoria com dor nas costas, ou nos joelhos, ou nas pernas, ou nos pés, ou na cabeça. Ou na carteira vazia. Só falta doer a boceta ou o caralho. Ainda bem que o meu caralho de 80 anos não dói e funciona. Graças a Afrodite. Ou aos exus. Ou a pomba gira. É, só exercito meu pau com punheta. Às vezes com a imaginação e um pouquinho de creme Nivea. Às vezes com vídeo pornô. Fazer o quê? Como. Mijo. Cago. E bato punheta. E, ainda bem, continuo escrevendo. Sim, escrevendo. O velho David Haize, o libertário, o pornógrafo, o panfletário, o velho libidinoso, o octogenário safado, o fucking angry old man continua escrevendo. Produz escrita como produz porra. Sim, a escrita jorra como porra: produção orgânica constante. O leite dos colhões transborda. Como transbordam as histórias de minha mente. Acabo trepando com as letras, já que não tenho outra coisa. Cada um encontra seus recursos para superar suas limitações. E não só as limitações da idade. Existem muitas outras ao longo da existência. Muitos apelam para Deus. Eu não sei o que é Deus.

Valha-me santa bronha. A punhetação cresceu depois que ela apareceu pela primeira vez em casa. Para fazer faxina. Ela me olhava de um jeito esquisito. Eu diria que bem convidativo. Ousei.

– Você tem namorado?

– Tenho.

– Faz tempo?

– Dois anos.

– Namoro sério?

–  Sério.

– Que idade você tem?

– Vou fazer 15 anos.

– Parece ter 20 anos.

– As pessoas falam isso. O senhor é viúvo, não é?

– Sou. Duas vezes divorciado e duas vezes viúvo. Sinto falta da companhia de uma mulher. Você faz sexo com seu namorado?

– Não posso.

– Por que não pode?

– Só depois de casar.

– Você é evangélica?

– Sou.

– Pena.

– Por que pena?

– Ia lhe pedir uma coisa. Mas sou muito velho.

– O senhor não é velho.

– Como não?

– O senhor ainda é bonitão.

– Você acha?

– Acho sim. O que o senhor ia me pedir?

– Uma coisa proibida.

– Um pecado?

– Sim. Um pecado bem gostoso.

– Pode falar.

É foda velho sem foda. A gente se expõe. Faz loucuras aos 80 anos. O pau inquieto é algo muito foda. Justamente porque quer foda e não tem. Caralho, quanta hipocrisia, esses neopentecostais, esses crentes fanáticos, recalcados, reprimidos. Sedentos de uma boa boceta ou de um bom caralho. E que não ousam. Quanta estupidez. E o pior é que o mundo está submergindo nas trevas do fundamentalismo religioso. Que nojo. Nojo, sim, pois isso fede a cadáver em decomposição. Um verdadeiro asco para quem ama a luz, a liberdade, o gozo da existência. Uma verdadeira repulsa para quem gosta de testar os extremos da paixão. Céus, quanta ignorância. Esses cretinos não percebem que só se vive uma única vez. E que não existe nada além do prazer de existir. Sou hedonista mesmo. Até os colhões, claro. O que não impede que ame a arte e que beba constantemente em suas fontes para dissipar a sensação de absurdo que me impregna. O que seria eu, David Haize, sem a arte e o sexo? Nada. Um animal castrado. Um vegetal com vagos sonhos estelares de tetas e paus voadores.

Sim, uma tentativa de broto de carvalho tratando de contornar a pedra que o sufoca para se tornar uma bela árvore. Céus! É foda navegar num mar de mediocridade com a sensação angustiante do deslocamento permanente no império da vulgaridade e da grossura. Há um raquitismo de sentimentos e de altruísmo que tritura a alma na prensa. O humanismo caiu em desuso. E os humanistas são apontados com o dedo como enviados do demônio pela massa ignorante. Hoje em dia, presidentes de grandes países governam infantilmente pelo Twitter. O suprassumo do ridículo. Logo, o que faço eu neste mundo decadente a não ser meter e escrever? O que faço eu, quixotesco David Haize, neste mundo de areias movediças que engolem a supremacia da salutar racionalidade?

Sim, o que faço eu? Escrever e vomitar o que corrói a alma. E meter. Aliás, nem meter. Apenas o alívio da masturbação. É foda ser velho sem foda. Escritor maldito ainda por cima. Não aguento ler babaquices debiloides de gente comportadinha. Ou delírios estilísticos de alienados que não têm nada a dizer, que nem sequer têm imaginação. É, meu caro, ou você entra no mainstream editorial ou se fode para o resto da vida. E é justamente porque estou fodido que quero foder.

Sim, fodê-la. Enfiar o pau até os bagos e soltar o leite armazenado. Ai, David, você só escreve palavrão. Escrevo palavrão, sim. Ouso chamar as coisas pelo nome: pau, boceta, cu, bronha. Quer que use o que: pênis, vagina, ânus, masturbação? Tomar na sua rosquinha. Não tenho saco para aguentar as frescuras vitorianas da sociedade deste país que é a quintessência do conservadorismo.

– Não posso fazer isso.

– Por quê?

– Já falei. Só depois de casar.

– E depois de casada vai dar para mim?

– Não. Vou ser uma esposa fiel. Só darei para meu marido. É ele que vai tirar minha virgindade.

– Mas eu posso fazer sexo com você sem tirar seu cabaço.

– O senhor está muito assanhado.

– Você está louquinha para dar para o velho.

– O senhor é um velho safado.

– Safado e tarado por você.

– Vou embora.

– Mas você ainda não terminou a faxina.

– O senhor não me deixa terminar. Se minha mãe não estivesse doente, eu não estaria aqui no lugar dela.

– Quer ver meu pau?

– Não!

– Só dar uma olhada. Não precisa tocar.

Felação e sodomia. Ou, mais explicitamente, chupada e comida de cu. Mas aconteceu. Os deuses do amor (ou os deuses do cilindro e do santo orifício) permitiram que isso acontecesse com um pobre velho safado e tarado e punheteiro. A vida às vezes é bonita e generosa com o octogenário sedento de amor. David, vai bancar o hipócrita? Amor ou sexo? Começou pelo tesão. Mas depois que a conheci biblicamente (ou quase), a coisa mudou. O tesão virou uma imensa ternura, um imenso carinho por essa garota que me fez feliz. Ela apaziguou (temporariamente, claro) minha carência e me fez sentir vivo. Só me sinto vivo com o sexo e a escrita. A mãe dela se recuperou. E eu torço para que ela fique outra vez doente – mas não muito – para que a filha venha substitui-la na faxina de minha casa.

Não sou pedófilo não. Não gosto de sexo com criança. Não sinto nada. Mas a garota despertou em mim o que uma mulher de 20 anos desperta num macho. Sou um animal. O politicamente correto que se foda. Foi na boca na primeira vez e, na faxina seguinte, no cu. Uma delícia. Motivo para muitas punhetas futuras neste deserto de carência afetiva e sexual. Velho sem foda é foda. E se apaixona facilmente.

Em suma, Bukowski + Lolita + Nabokov + Kubrick + Polanski (fiz o que ele fez). Adoro arte. Moral? Foda-se a moral. Não tenho nada a perder. Sou livre. Vou morrer. Aliás, a única vantagem da velhice é a liberdade concedida pela proximidade da morte.

15-05-2019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sonho Salpicado de Pesadelos

 

Quando me vi, quando tomei consciência, no crepúsculo, estava sentado à beira da estrada.

À minha direita estava, sentado, um menino, meu irmão. A esquerda, sentado, meu pai, jovem. Eu folhava o original de um livro meu, num caderno de espiral. Quando cheguei ao meio do caderno, percebi que havia outro caderno menor – outro livro meu. Abri-o e, para minha surpresa, meu pai, sem tirar esse original das minhas mãos, começou a lê-lo, ele, que nunca lera um livro meu. Uma súbita emoção fez brotar duas lágrimas. Meu pai, sem uma palavra, secou-as com seu dedo indicador. A emoção cresceu. Fechei os olhos. Quando os abri, meu pai não estava mais ao meu lado. Nem meu irmão.

Durante alguns minutos permaneci sentado, quieto, entregue a uma doce sensação provocada pelo gesto de ternura de meu pai. Com um caderno dentro do outro embaixo do braço, com as mãos nos bolsos da calça, levantei-me e comecei a andar, pensando que, talvez, caminhando reencontrasse o meu pai e o meu irmão.

 

PRIMEIRA INTERRUPÇÃO/INTERVENÇÃO

Carnaval. Quadros de Uma Exposição – aliás, acompanhada da música homônima de Mussorgsky. Cores de Delacroix.

Quadro Um: Bolsonaro, como drag queen fantasiada de Lucrécia Bórgia, acompanhada de seus três filhos fantasiados de hienas deslumbradas, lambe, de olhos fechados, o ânus da drag queen Trump fantasiada de bobo da corte fantasiado de suíno chauvinista.

Quadro Dois: Ernesto Araújo, fantasiado de arcanjo caolho, cavalga o dragão de maldade, com uma bandeira enfiada no ânus, enquanto fela o longo pênis retorcido do dragão.

Quadro Três: Damares Alves, fantasiada de Messalina, copula com um bode enquanto 666 gladiadores contemplam o intercurso acariciando o membro, aguardando a sua vez de fornicar com ela.

Quadro Quatro: Ricardo Vélez Rodríguez, fantasiado de feto, dorme o sono dos justos dentro de um ovo de Hieronymus Bosch. À direita, Abraham Weintraub dorme dentro de um ovo de dinossauro decorado por Miró.

Quadro Cinco: Olavo Carvalho, fantasiado de Grande Pilantra, fantasiado de Rasputin, saudoso da czarina Alexandra Romanov, tenta seduzir a primeira-dama enquanto escreve escatologias de autoajuda.

Há um odor nauseabundo de vômitos e fezes congelados na exposição.

FIM DO PRIMEIRO FLASH

 

Era uma estrada de terra solitária, ladeada de choupos melancólicos. Não passava nenhum veículo, nenhum caminhante. O silêncio era total, apenas rompido por um ou outro crocitar de um corvo atrasado, o que adensava a atmosfera de melancolia que impregnava a paisagem. O sol declinava, quase desaparecendo no horizonte. Os álamos projetavam a sua sombra na estrada. Eu não pensava, não procurava, não esperava. Apenas caminhava.

Já era noite quando avistei uma chaumière à beira da estrada. Uma janela estava iluminada. Bati na porta. Uma mulher idosa, cuja fisionomia me lembrava a da minha mãe, abriu.

– A senhora por acaso viu o meu pai?

Ela sorriu, pensativa, e respondeu:

– Há tantos anos que não o vejo… Ah, o tempo. O tempo…

– O tempo?

– Sim. O tempo que varre tudo. Que destrói tudo como o vento de um temporal.

– Sei. O tempo… E o meu irmão, a senhora não o viu?

– O seu irmão, há uns anos, passou por aqui com a mulher e a filha.

– Há uns anos?

– Sim. Há uns anos. O tempo…

– Que tempo?

– Você está procurando o seu pai?

– Acho que sim. Sempre o procurei.

– Continue caminhando. Você encontrará a casa da cartomante. Talvez as cartas revelem o paradeiro do seu pai.

 

SEGUNDA INTERRUPÇÃO/INTERVENÇÃO

Coroação da Imperatriz Mediocridade do Brazil (sic). Séquito da nobreza bastarda: A Imbecilidade, A Mentira, A Ignorância, A Intolerância, A Corrupção, O Retrocesso. Luxo, fulgor, opulência. Mediocridade, em trajes de Josefina de Beauharnais, brilha como uma deusa suburbana. Lá fora, a massa ignara grita: Viva a Imperatriz Mediocridade! Longa vida à Imperatriz Mediocridade.  A “Marcha Triunfal” de “Aida”, de Verdi, impede que se ouça uma indiscreta flatulência da Imperatriz Mediocridade. Cores de Jacques-Louis David. Já é noite. Festa. A Divina Sacerdotisa, Marafona Mor do Templo Universal, em trajes de Salomé, executa a dança dos sete véus e pede a cabeça da Inteligência. Escuridão. Fogo de artifício. Apoteose.

FIM DO SEGUNDO FLASH

 

 

 

Fechei a porta. Continuei andando. Depois de uma centena de metros, vi luz na janela de uma casinha, uma outra chaumière. Bati na porta.

– A senhora é cartomante?

– Sim. Entre. Tem como pagar?

– Não.

– Não faz mal. Você é um homem de bem. Sente-se.

Era um ambiente só, mal iluminado por um lampião. Uma vez sentados, ela disse enquanto embaralhava as cartas e as colocava sobre a mesa:

– Você olha demais para o passado. Você precisa se afastar desse peso. O passado só lhe trava a vida. A vida não é como nós queremos, mas como determinam os astros. Há coisas que não podemos mudar. Coisas que temos de aceitar. O que você quer saber especificamente?

– Meu pai.

– Seu pai partiu há muito tempo. Deixe-o em paz. Ele foi duro com você, mas foi um bom pai.

– Ele estava comigo há pouco, na estrada, e leu um pouco de um dos meus livros. E me senti muito feliz.

– Ele sempre te amou muito. Embora não o demonstrasse.

– E meus livros? Qual será o destino dos meus livros?

– A glória literária virá. Mas demorará. Você tem Saturno no seu itinerário. Conte sete estrelas durante sete noites e faça o seu pedido, antes de dormir, depois de colocar um espelho debaixo do travesseiro.

– E se eu não tiver mais nada a pedir?

– Então siga caminhando que você encontrará a casa das Três Feladoras, onde você poderá se divertir até esgotar o seu tempo.

– O meu tempo?

Saí e continuei caminhando.

 

TERCEIRA INTERRUPÇÃO/INTERVENÇÃO

Preto e branco. Como as gravuras de Oswaldo Goeldi.  Edifícios públicos em chamas. Residências dos parlamentares em chamas. Bancos em chamas. Multidão nas avenidas arrastando os corpos dos políticos e empresários corruptos, dos criminosos do meio ambiente e dos forjadores de mentiras. Clima dantesco. Ouve-se Aleluia do Messias, de Handel. Depois, noite, corpos sem sepultura. Cinzas. Devastação. Desolação. Ouve-se Trenodia Para as Vítimas de Hiroshima, de Penderecki. Apocalipse. Silêncio.

FIM DO TERCEIRO FLASH

 

Depois de uma boa caminhada no escuro, vi mais uma casinha à beira da estrada. Bati à porta. A porta se abriu e vi, mal iluminadas, três mulheres idosas que lembravam as figuras das velhas grotescas de Goya. Uma fiava. Outra tecia. A terceira cortava o fio. Quando elas me viram, começaram a rir sem parar. Teria eu entendido mal a palavra da cartomante? Seriam essas três anciãs as Fiandeiras (ou fiadoras da existência?) em vez de as Feladoras?

14-04-19

 

 

 

 

 

 

O Gigolô Honesto

março 12, 2019

O Gigolô Honesto

 

        Preciso escrever sobre o assunto. Mas num tom cool. Sem investidas contra a tísica moral vigente. Sim, devo-lhes um livro. À generosidade de minha amante e à compreensão de minha esposa.

Talvez deva intitular o relato de ‘Os Cínicos”. Ou “Os Blasés” (não tem tradução). Ou simplesmente “A Felicidade”. Sim, a felicidade. A felicidade de gente que não tem preconceitos. De gente intelectualmente superior? Sim, talvez.  Ou deveria ser o título “Os Imorais” (muito usado)? Não tenho nada a provar neste relato (“baseado em fatos reais” ou numa “história verídica” como diz a publicidade de livros e filmes) Nada a provar e menos ainda a justificar. Não devo satisfação a ninguém a não ser a minha consciência. E minha consciência está tranquila. Sou, como todo escritor que se preze, livre. Não faço concessões. Não tenho explicação a dar a ninguém. Nas sou hipócrita. Não minto.

O começo.

– Você é muito bom escritor. Mas deveria produzir mais.

– Tenho um emprego e não tenho como escrever com mais assiduidade.

– Largue o emprego.

– Como, largar o emprego? Vou viver de quê? Tenho mulher e dois filhos.

– Posso te ajudar.

– Como, me ajudar? Preciso de um salário.

– Eu te daria um salário.

– Em troca de quê?

– De companhia.

– A senhora…

– Já te falei para não me tratar de senhora.

– Você quer dizer de sexo?

– Sim. De sexo.

Silêncio.

– Preciso falar com minha mulher.

– Você acha necessário?

– Sim, claro. Como vou justificar a origem desse salário?

– Você é muito honesto.

– Gosto de fazer as coisas às claras.

– Bem. Não há pressa. Mas não creio que sua mulher aceite a proposta do marido. Ela é ciumenta?

– Ela me ama e eu a amo. Teria de ser um jogo limpo.

– Entendo. Mas acho que a prioridade é sua literatura.

– A literatura é muito importante para mim. Mas eu amo minha mulher.

Conheci-a num jantar de amigos. Conversamos muito. Viúva, sem filhos, era culta, inteligente e franca. Dava a impressão de que tinha bastante dinheiro. Mas não o ostentava. Era fina e elegante. E, digamos, bonita, levando em consideração seus 70 anos que eu calculava que ela tinha. Nuns minutos em que nos encontrávamos sozinhos no jardim, ela me fez a proposta. Uma proposta perturbadora e excitante. Voltei para casa com minha mulher. Não parava de pensar nisso. Abria-se uma perspectiva que me eletrizava.

Pensei durante dias. Meu pensamento, mesmo sem eu querer, ia parar na proposta. Claro que estava disposto a aceitar. Não tinha absolutamente nenhum escrúpulo em me fazer pagar por sexo. Tem mais, confesso que desde muito jovem – adolescente – sonhava em me fazer pagar por sexo. Era algo que, obscuramente, me fascinava. Verdadeira vocação de puta. Ou, melhor dito, de puto. Puto, literalmente, profissional. Era algo muito obscuro que eu não sabia de onde vinha. Logo, eu iria unir a paixão pela escrita com o desejo de ser pago por sexo. O útil ao agradável. Que mais poderia eu pedir? Era a fusão da mente com a sexualidade. É óbvio que sempre fui suficientemente lúcido e evoluído para conscientizar-me de que, no fundo, numa sociedade absolutamente hipócrita e mercenária voltada apenas para o dinheiro, todos, com raríssimas exceções, eram putos e putas, já que todos trabalhavam por dinheiro. Só não era puta ou puto quem trabalhava por amor. Aí poderia incluir os escritores (não todos, claro) e os verdadeiros artistas. Ou seja, aqueles que fazem tudo pela arte. E que são capazes de morrer por ela.

Falei com minha mulher. Ela chorou.

– Vou ganhar o dobro.

– Você vai me largar.

– Nunca. Jamais faria isso. Eu te amo e te desejo.

– Não quero te dividir com ninguém. Não se divide com ninguém quando se ama.

– Não estou te dividindo com ninguém.

– Como não?

– É apenas uma questão profissional.

– Que seja. Mas a literatura é mais importante para você do que nosso amor.

– Não fale assim. Você sabe que vivo para você e nossos dois filhos.

– Não sei. Não sei. Só sei que não quero te perder.

– Juro pelo mais sagrado que você nunca vai me perder. E não vai te faltar sexo.

Ela acabou aceitando. Com restrições. Eu teria um tempo limitado para passar com minha… benfeitora. Uma vez por semana. Com o tempo ela foi aceitando o acordo como algo natural. Pois era de fato algo natural. Passei a transar mais frequentemente com ela, já que me sentia menos cansado sem emprego. Nosso nível de vida melhorou muito. E minha produção literária foi aumentando. Sentia-me satisfeito ao ver que ganhava a vida com meu membro – com os livros ganhava muito pouco – que felizmente cumpria com seu dever conjugal e com o compromisso profissional. Meu membro, que nunca me decepcionara, que nunca me traíra. Meu membro, do qual eu gostava muito e que me dava muito prazer e satisfação. E que estava sempre com disposição, pois, graças a Deus, eu tinha um excelente apetite sexual – que aumentara quando larguei o emprego. Meu membro, do qual eu tinha muito orgulho. Falocentrismo? Sei lá. Machismo? Sei lá. Estava pouco me lixando para as feministas de carteirinha. Mesmo porque sempre fui a favor da igualdade de gêneros. É claro, é óbvio que preferia ser o puto, e não minha mulher a puta.

Com o tempo, esposa e mecenas se tornaram amigas. Jantávamos em restaurantes, íamos ao cinema, teatro, concertos e exposições sempre os três juntos. E ela (minha benfeitora) promovia meus livros entre suas numerosas amizades. Ela era discreta, mas não escondia que era minha amante. Amoral? Não. Apenas eu aproveitara uma oportunidade na vida sem enganar ninguém. Além do mais, a moral é algo muito relativo.

Minha protetora morreu há um ano. Aos 85. Passei 15 anos com ela. Fui-lhe fiel. Fi-la feliz. Deixou-me dois apartamentos de alto padrão, uma chácara e uma casa na praia, além de uma boa quantia de dinheiro. Que mais posso desejar? Continuo escrevendo – que é o mais importante e não preciso de emprego para manter a minha família.  Em suma, mais vale se prostituir com uma mulher do que com um emprego. É mais honesto prostituir o membro do que prostituir a mente. Quanto à moral burguesa, que se dane. Estou acima dela. Jactância? Sim, e daí?

22-02-2019

 

 

 

 

 

Prece do Libertário

janeiro 7, 2019

Prece do Libertário

Deus,

Liberte-me da massificação da mentira, da negação do fato, da ignorância da maioria manipulada pelo poder, do próprio poder estabelecido.

Liberte-me da normalidade sufocante, massacrante, que demoniza a suposta anormalidade.

Liberte-me da submissão ao radicalismo totalitário, seja religioso ou ideológico, que restringe meu pensamento e o cerceia.

Liberte-me do modelo padrão que elimina a possibilidade de escolha de um modelo diferente.

Liberte-me da afirmação da tua existência, pois é na dúvida que me elevo a alturas sem limites.

Liberte-me do que não muda, do que não evolui, pois a estagnação de ideias e sistemas leva à degradação e à morte.

Liberte-me da aberração das superstições religiosas que ofendem a inteligência, a lógica e a Razão.

Liberte-me da obediência para que possa me manter íntegro perante a minha consciência.

Liberte-me das amarras que prendem a rebeldia que sustenta a minha dignidade.

Liberte-me de minha omissão e faça meu grito de revolta me tornar superior.

Liberte-me da violência de não ser eu mesmo, de não me respeitar.

Liberte-me de subordinar a Liberdade a interesses mesquinhos.

E liberte-me da arrogância de acreditar, para poder crer.

16-10-2018

 

 

 

 

Ostentação, Despojamento, #MeToo e Brasília

 

A Ostentação

A ostentação é um aspecto da vulgaridade. E, ao contrário do que comumente se pensa – tão em voga neste século XXI que prima pela vulgaridade – chega a ser grotesca em todas as mídias. Para seres exigentes e lúcidos, vira uma aversão física: a náusea do brilho. Esse brilho barato de fim de feira. Competir para ver quem brilha mais é típico de cérebro de galinácea. Ou seja, de seres intelectualmente inferiores. Em outras palavras, a ostentação, ou vaidade, é um traço de pobres de espírito.

 

O Despojamento

Não existe elevação espiritual sem despojamento. O despojamento liberta dos trastes inúteis da nossa vida cotidiana – física e mental. Física porque ocupam o nosso espaço. Mental porque obstruem a mente que não consegue enxergar horizontes mais altos e distantes.  O ser superior não precisa desse monte de superficialidades que lhe tolhem a liberdade de ser e de pensar. Que lhe impedem de focar o que realmente é importante. Em suma, o consumismo e seu cortejo de superficialidades é tóxico. Assim como o engarrafamento de informações inúteis.

 

#MeToo

O #MeToo, com todo o respeito pelos direitos da mulher, passou de edificante a abusivo e a ser um instrumento de vingança, em muitos casos suspeito. Não é esse o caminho: apenas denunciar a torto e a direito, só porque está na moda – sempre a imbecilidade de estar na moda, e modismo é coisa de gente limitada. Não ao feminismo fascista. É a mesma coisa que um país sair de uma ditadura de direita para entrar numa ditadura de esquerda. Em certos casos, o politicamente correto se torna ridículo e hipócrita. As atrizes Judi Dench, Catherine Deneuve e Cate Blanchett fizeram declaração pertinentes e lógicas sobre o assunto.

 

Brasília

Mas deixemos as digressões ascéticas. Apelemos ao “fucking old angry man” que dispara em todas as direções como bom ser consciente e coerente. Ou brinquemos de “épater le bourgeois” que, como estamos atrasados, aqui, no Brasil, ainda funciona.  Voemos para a Sodoma e Gomorra brasileira. Ou seja, Brasília, onde ao odor nauseabundo da carniça dos abutres (e não se trata só da corrupção descarada, mas do abuso salarial e dos privilégios dos parlamentares e do judiciário, uma afronta, um verdadeiro roubo instituído que é a vergonha do País) veio se juntar a urina ácida do anjo armado, exterminador – supostamente purificador – que exala um insuportável cheiro de recalcado sexual nos templos da repressão medievalista, um odor igualmente nauseabundo de mofo e ranço de conservadorismo em estado de decomposição, encabeçado pelos famigerados  caciques neopentecostais, impostores da indústria de Cristo, que anulam qualquer esperança salutar de progresso social. Esses caciques neopentecostais deveriam ser presos por lavagem cerebral, extorsão, indução à alienação social e ao fanatismo.  E nem falemos das pérolas de alguns “salvadores da pátria” do futuro governo, como a do ministro de relações exteriores que teve a petulância (perdão, petulância não, estupidez) de alegar ser admirador de um lixo chamado Trump. Os países sérios e democráticos devem estar rindo da palhaçada de sua declaração. Ah, ia me esquecendo. O que dizer da paranoia comunista? O Brasil regrediu setenta anos para mergulhar na Guerra Fria dos anos 1950? É a quintessência da cretinice. Claro, sabemos que é uma estratégia para aglutinar débeis mentais.

Meus caros amigos Baudelaire, Rimbaud, Nietzsche, Bukowsky e Chomsky, pelo sagrado esperma do deus da Razão, poupem-me de todos esses brilhantes cérebros onde cintilam os excrementos a serem bastardamente instaurados.  

 

30-11-18

 

        

O Sublime Absurdo

setembro 9, 2018

O Sublime Absurdo

 

        Costuma-se dizer, não sem certa lógica, que o ser humano precisa de uma força superior, ou seja, divina, para dar um sentido ao absurdo da existência. E aí entra a religião com sua repressão, castração intelectual, superstições e sede desmesurada de poder – no caso das instituições religiosas – e promessas mirabolantes de uma vida melhor após a morte.

Mas deixemos a religião sob o ponto de vista das instituições. Atenhamo-nos a Deus – que nada tem a ver com a religião. Perante a dúvida sobre Deus (o que é Deus, o Inominável?), não podemos deixar de constatar que a verdadeira elevação espiritual, ética e moral é laica. Ou seja, quanto menos apoiada em Deus, mais elevada, mesmo porque essa elevação não espera nenhum benefício de Deus. Em outras palavras, elevar-se sem as muletas de Deus, eis a grandeza espiritual. Mas e o absurdo? Bem, o absurdo pode ser sublime quando partimos da premissa de que a vida em si é um milagre e que não é necessário dar um sentido à existência a não ser o próprio milagre de ser. Nem mais nem menos. Para que mistificar? Em suma, qual é o valor do respeito ao Bem se só agimos movidos pelo temor de Deus, e não de livre e espontânea vontade, partindo de princípios éticos e morais? Qual é o mérito? Sim, são os princípios – tão raquíticos, tão atrofiados hoje em dia, tão subordinados a interesses materiais – a base sólida da meta de tornar-se superior como ser humano. Enfim, parafraseando Sartre que disse que o existencialismo é um humanismo, poderíamos afirmar que o sublime absurdo também é um humanismo.

Para finalizar, o que talvez pareça subjetivo e paradoxal, pode-se acrescentar que as oscilações entre Espinoza e o Homem Superior de Nietzsche (que nos enriquecem com dúvidas – dúvida, sinal de inteligência) são certamente menos contraditórias do que a espantosa defesa da pena de morte de terminados cristãos.

Em tempo: relacionado com o acima exposto, uma pitada de nada-querer não mata ninguém e torna a alma mais leve e a paz interior mais próxima.

07-09-2018

 

Entre Exílios

julho 31, 2018

Entre Exílios

 

1-Às vezes o passado abre suas asas sobre o mar

E me cobre de sombras angustiantes

Reage o sangue colhendo flocos solares

Evitando a alma soçobrar

Entre os arrecifes de exílios

Perdas e desamor cravados nos sentidos

Irreversibilidade

*

 

 

 

 

 

2-Como bala jamais retirada da carne

Carrego o exílio

Sem poder extirpá-lo

Entre vida e existência

Empurro a dicotomia

De estar sem ser

De ser sem estar

*

 

 

 

 

 

 

 

3-A alma tontinha de vida

Ainda sobe no carrossel colorido

Onde brinca de sentir o pulsar

Sem os espinhos do existir

Onde se deixa levar pela onda musical

De amar

E de ser amada

*

 

 

 

 

 

 

 

4-Cego voa o pássaro no exílio  

Cego voa o pássaro sem retorno

Cego diz amém ao irreversível

Apenas guiado pelo tilintar de seu coração      

Que parece chacoalhar uma moeda sem valor

Numa lata enferrujada de leite em pó

Cego e intrépido segue o pássaro pela trilha celeste

*

 

 

 

 

 

 

 

5-Livre e despojado pega o ermitão a estrada

O sol seca seus farrapos

Molhados pela chuva da noite

Aonde vai ele

Manca tosse e balbucia uma prece capenga

Peregrino sem romaria que esperas da vida

– Nada a não ser deixar de existir

*

 

 

 

    

 

 

 

6-No exílio tórrido do deserto

O pássaro azul das neves se esconde

E ali nos ergs calcinados oculta sua identidade

Sem distinguir o cheiro da língua que falará

No futuro de fugas sem perdão

De paixões e solidão

De sendas sem retorno

*

 

 

 

 

 

 

 

7-Como verso desgarrado do poema

Como poema desgarrado da Poesia

O poeta desgarrado de seu solo

É arrastado pela enxurrada da existência

Perdendo nome e identidade

Nas águas turbulentas do não ser

Nomeado

*

Do livro “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo”

 

O Rimbaud Negro

ou

A Lua do desejo

 

 

BLACK RIMBAUD OR THE MOON OF DESIRE

ROCK OPERA BIO

FLASHBACK

DESAPARECE COM SEU AMIGO NO BUTÃO

O mundo é muito pequeno para minha sede

teu vômito faz tua grandeza

POETA PROFESSOR ATIVISTA POLÍTICO

Não vim ao mundo para escrever frouxidões edulcoradas

tua luz me faz com os estilhaços do teu corpo

DIONISÍACO HEDONISTA PRIÁPICO LIBERTÁRIO

A poesia como a alma tem músculos sangue e esperma

tua lua me coagula o esperma de tua mente

IRREVERENTE INSOLENTE TEMPESTIVO PASSIONAL GENEROSO CALOROSO SACRALIZA O SEXO

A poesia também é ação

teu urro injeta loucura criativa em meu cérebro

ALTO ESBELTO BONITO OLHAR PERTURBADOR

Meu sangue é quente meu esperma lírico

injetas-me paixão nas artérias do meu intelecto

POESIA VULCÂNICA VISCERAL ORGÂNICA DELIRANTE E

Ser si próprio mais que ousadia é dignidade

respeitas o que és para não te desintegrar

EXISTENCIAL E METAFÍSICA

Não existe dignidade sem fidelidade a si próprio

és essência estado bruto de integridade

NASCE EM COTONOU/BENIM

A poesia não se escreve se vive

quem és tu Rimbaud Negro

DE PAI FRANCÊS E MÃE AFRICANA

A poesia é indomável não se submete

 teu voo perfaz teu sangue

COM NOVE MESES É RETIRADO DA MÃE E LEVADO PARA A FRANÇA

A poesia como o sexo é uma força da natureza

quem és tu Rimbaud Noir entre a África e a Europa

A MÃE FICA NO BENIM E MORRE POUCO DEPOIS

A poesia me eleva a mais alta espiritualidade laica

em lascívias vespertinas extrais os espinhos da minha alma

TRÊS ANOS DEPOIS MORRE O PAI

O poeta que se alia ao poder é mercenário

do leopardo cravando os dentes em carne fresca

ÓRFÃO É CRIADO PELOS AVÓS PATERNOS

O poeta deve colocar a poesia acima de sua vida

às insolências parisienses

ESTUDA LETRAS E VARIAS LÍNGUAS AFRICANAS YORUBÁ WOLOF E AMÁRICO

O poeta que não vai a extremos não sabe o que é poesia

passando pela milenar Etiópia

APAIXONA-SE POR RIMBAUD

Sou instinto um animal africano que escreve poesia em francês

fincas em mim o gozo da criação

PEREGRINAÇÃO RIMBALDIANA

Gozem que amanhã vocês podem estar mortos

e alças voo em direção aos paraísos baudelairianos

CHARLEVILLE BRUXELAS LONDRES HARAR ÁDEN

Só se vive uma única vez o resto é baboseira

de tua mente em ebulição/evolução/revolução

PARTICIPA DE MAIO DE 68

A normalidade é inimiga da criação artística

e tua carne e asas me tornam outro eu

COM A CONSCIENTIZAÇÃO POLÍTICA

Viver é ousar transgredir desafiar

que em ti reencontro

VEM A CONSCIENTIZAÇÃO DE SUA NEGRITUDE

Quem não ousa não goza

selvagem na lucidez da paixão

RETORNA AO BENIM ÀS ORIGENS

A vida sem prazer não faz sentido

quem és tu Black Rimbaud

CHORA A MÃE AGUDÁ QUE NÃO CONHECEU

As minorias são superiores já que elas sobrevivem

que me redimes do desassossego de viver

VOLTA ÀS ORIGENS DAS ORIGENS À BAHIA

A afirmação da identidade é o respeito a si próprio

para me mergulhar no frenesi de existir

AMA A BAHIA MAS

O fato de abominar as religiões não significa que eu seja ateu

quebro-me em teus arrecifes

DECEPCIONA-SE COM A ALIENAÇÃO DO NEGRO BRASILEIRO

A censura à arte é um crime cultural

e peço perdão por não te ser em horas demoníacas

VIAJA A NOVA ORLEANS

Escrever é como fazer sexo um ato sagrado

sondo teus não-ditos subterrâneos

É DEPORTADO DOS EUA POR PARTICIPAR DAS MANIFESTAÇÕES PELOS DIREITOS CIVIS

Conhecer tudo fazer tudo viver tudo antes de que tudo acabe

de fervor e sublimação submundos

TRÊS CASAMENTOS COM BRANCAS

Deus vomita os mornos diz a Bíblia

e me arrastas na correnteza de teu sangue

PRIMEIRO TRÊS FILHOS

Não diga amem diga não

para me fazer transparecer

SEGUNDO DOIS FILHOS

Nunca compreendi o sentido da palavra eternidade

pavio esgotando o existir no fio da navalha

TERCEIRO DOIS FILHOS

O nada me faz nadar mais livremente

antes de chegar à pólvora explosão

AO LONGO DESSES TRÊS CASAMENTOS

Não nasci para seguir o rebanho

quem és tu Schwartz Rimbaud

RELACIONA-SE COM PROFESSOR NEGRO DE LITERATURA NA SORBONNE

A leveza excessiva pesa demais

explodo em ti para me serenar para me semear

É SEU AMIGO ÍNTIMO E CONFIDENTE

As convenções atrofiam os sentimentos

e busco altares rebeldes

PUBLICA SETE LIVROS DE POESIA

Não preexisto apenas existo

altares que a miséria do dia a dia me nega

TRÊS ENSAIOS SOBRE A NEGRITUDE

Os europeus e os árabes cometeram genocídios na África

e floresces em meus atos outrora esboços

SUAS PALESTRAS INCENDEIAM OS JOVENS

Os cristãos e os islâmicos cometeram etnocídios na África

agora paixão e afirmação da negação

COM SUA MISTURA DE POESIA SEXO PAIXÃO E REVOLUÇÃO

Os cristãos e os islâmicos impuseram o horror da repressão religiosa na África

dessa negação superior que só poupa o amor

CANTA BLUES E TOCA SAXOFONE PARA OS AMIGOS

Tolerância zero com o racismo

vem meu Rimbaud Negro vem

AMIZADE COM LÉO FERRÉ SERGE REGGIANI

Não se deve negociar com o racismo mas destruí-lo

que ousar é feitio dos fortes

PACO IBAÑEZ JOAN BAEZ E MERCEDES SOSA

O ativista não pode ignorar que a melhor defesa é o ataque

vem correr pelas savanas ou pelos bulevares de Paris

SUA ÚLTIMA OBRA POÉTICA REFLETE O SENTIMENTO DE DESLOCAMENTO E ORFANDADE

Uma sociedade presa às superstições da religião é uma sociedade retrógrada estagnada e deve ser revolucionada 

antes de tomar o absinto abismo

O TEMA DO SILÊNCIO SE TORNA OBSESSIVO E SEUS ÚLTIMOS POEMAS ESTÃO IMPREGNADOS DA MELANCOLIA DA NOSTALGIA

O barulho suja o silêncio limpa

vem largar os lúgubres corredores do bem-estar

NOVAS VIAGENS DESTA VEZ COM O AMIGO

O totalitarismo do capital é um atentado à dignidade humana

e deitar em misteriosas mansardas

AO BENIM ETIÓPIA BAHIA

 Sou despojado embora seja barroco na cama e na mesa

onde nosso sangue e nosso esperma são um só pó

VIAGEM AO NEPAL E AO TIBETE COM O AMIGO

A ousadia nos fortalece a máscara nos debilita

e nossa iluminação a dualidade entre efêmeras papoulas

DESAPARECE NO BUTÃO COM O AMIGO

Ser ou estar eis a questão

mo ni fe yorubá Rimbaud Negro

DESAPARECE (?) MAS ANOS DEPOIS DIZEM TÊ-LO VISTO EM ULAN BATOR E EM SAMARCANDA

É na plenitude do silêncio que a alma reencontra o seu diálogo

e o eco do teu silêncio perpetua meu estrondo

E EM VLADIVOSTOK

O verdadeiro intelectual só pode ser cosmopolita

sempre e todo estarás no vasto mundo respirando o não dito  

E NA BAHIA

Senhor livrai-nos da imbecilidade da maioria

recolho-me em ti atos universais sem palavras   

10-06-18

 

Maio de 68: 50 anos

maio 1, 2018

O Cavaleiro Errante volta a…

III

Maio de 68: 50 anos

 

1-Glória

Aurora vermelha céu azul a alma veste branco

O comportamento entra em erupção

Abala vinte séculos de repressão judaico-cristã

As barricadas exalam odor de esperma juvenil

O sonho adolescente ergue seu falo em flor

O demiurgo Rimbaud volta vibra e ejacula

*

  

2-Aleluia

Os lilases dançam a java

Bakunin também volta e sorri benevolente

Ecos da sagrada Comuna estremecem o firmamento

Os lírios gauleses se agitam os jovens exultam

Os bem-pensantes tremem

A vulgar estabilidade cede ao orgasmo da rebelião

*

 

3-O ímpeto arrebenta supostas verdades

As ideias turbinam as artérias

O gozo principia o pensamento

As malvas dançam a bourrée

Ter vinte anos desnorteia deuses cartesianos

E desvela impossíveis horizontes

Despertados pelo sonho soixante-huitard

*

 

4-Comichão frenesi paixão

Alegria visceral da revolução

Tal tambor dispara o coração

É festa da transgressão coroando subversão

Da revolta da nova vibração

Do conformismo à exaltação

Santo Maio da renovação

*

 

5-Descrente está Descartes

E La Rochefoucauld mais ainda

Sorriso cínico de Voltaire riso safado de Khayyam

Pouco importa há paixão

Os jovens vibram exultam gozam

Com a sacrossanta estabilidade

Virada de ponta-cabeça

*

  

6-Abriremos nossa mente tanto quanto nossa braguilha

Os slogans fustigam o século

Nunca uma rebelião foi tão romântica

Talvez Nietzsche desconfie

A Liberdade copula em praça pública

É proibido proibir os miosótis dançarem a giga

Iluminação sejamos realistas exijamos o impossível

*

 

 7-Gloriosa barricada pavor do mesquinho burguês

Os asfódelos desabrocham em Maio de 68

Ao som do rondó dos gladíolos

Esqueceremos tudo o que aprendemos

A Primavera Francesa impacta o mundo e o faz tremer

Perfume de cravos mas hélas um sorriso à Mona Lisa

Desconfia malgrado o entusiasmo

*

02-04-18

Do livro “O Rimbaud Negro”