A Náusea e a Torre

janeiro 28, 2020

A Náusea e a Torre

 

          Há dias em que determinados fatos nos fazem mergulhar no passado. O dia que vou narrar é um deles.

Primeiro mergulho: morte

Foi cremada conforme seu desejo. Suas cinzas foram jogadas num rio. Não sobrou nada dela. Literalmente nada. Nem os ossos.

Família de imigrantes italianos. Casou-se. Teve dois filhos e dois abortos. O marido bebia e se tornava violento. Deixou-a surda depois de espancá-la. Saía com mulheres. Largou-a com os filhos na adolescência. Divorciaram-se. E a partir daí foi a solidão. Aposentada, vivia modestamente, perto da casa da filha – o filho sempre a ignorou e jamais a ajudou financeiramente. Tinha umas minguadas economias e com 80 anos ainda sonhava em comprar uma quitinete para não ter de pagar aluguel. E com 80 anos ainda sonhava encontrar um homem para dividir a velhice com ele. Morreu aos 91 anos. Sem quitinete nem homem. Partiu sem casa própria e sem companheiro. Sobraram as parcas economias para os netos.

Era minha sogra – ou ex-sogra, mãe de minha ex-mulher – com quem eu tinha boas relações. Acompanhava-a ao oftalmologista (sofria de glaucoma) e ao psiquiatra (sofria de mania persecutória) e quando ia visitá-la sempre levava compota de cidra ou peras ou lichias em calda. Sentia muita compaixão pela sua solidão. Em suma, uma existência como milhões de existências.

E partiu. Não deu trabalho a pobrezinha. Desmaiou e partiu. E não sobrou nada dela. Nem os ossos.

Como não sobra nada de ninguém. Mesmo porque não há nada. A não ser o Nada universal. Quanta ilusão. Quanta superstição. Quanto apego à ideia de que existe algo depois da morte. O ser humano é muito fraco nesse sentido e não admite que não haja nada. Na sua irracionalidade, não é capaz de entender que a única coisa que sobrevive (até um certo ponto) é a Arte. A Arte (sim, com maiúscula) que torna o ser humano superior. E que o Absoluto (o que seria o Absoluto?) só se atinge com a espiritualidade laica, com a paixão da ética e com o culto da Razão e, obviamente, a verdadeira Razão engloba o amor ao próximo.

Segundo mergulho: reencontro

Pois é, David Haize, você já não tem mais paciência para suportar imbecilidades.

O que prometia ser uma reunião agravável virou, se não um pesadelo, pelo menos uma náusea. Sim, uma náusea literalmente falando. E com certeza não se tratava de náusea existencial.

Aquela velha história de antigos colegas de trabalho que, após muitos anos, marcam encontro para jantar. Fomos a um restaurante vietnamita cujo dono, amigo de um dos meus colegas, nos recebeu amavelmente.

Sessentões e sessentonas. Carecas ou não. Gordos ou ainda magros. Aposentados. Ou no fim de carreira. Casados. Ou divorciados. Recasados. Com filhos e netos. Situação financeira mais ou menos estável. Culturalmente aposentados. Política e socialmente levemente (ou totalmente) alienados.

Eu não estava muito bem. E as frases (verdadeiras pérolas) que foram surgindo, de uns e de outros, me deixaram pior.

– Trump é um bom presidente. Com ele a economia melhorou muito nos EUA.

– Ainda bem que Bolsonaro foi eleito para salvar o Brasil do PT.

– O AI-5 é necessário para manter a ordem e a paz no País.

– A Amazônia é brasileira e o mundo não tem nada a ver com um território que pertence ao Brasil.

– A História, a Sociologia e a Antropologia são coisas de comunistas.

– Taxar as instituições religiosas é coisa de comunista.

– A luta contra a desigualdade social é coisa de comunista.

– A luta pelo meio ambiente é coisa de comunista.

– As crianças precisam ter educação religiosa e não de educação sexual.

– O homossexualismo deve ser erradicado do País.

– Os agnósticos e os ateus devem ser perseguidos como fomentadores do caos.

– Os direitos humanos devem ser subordinados à ordem do País.

– Deus está acima da Liberdade.

– Os intelectuais deveriam ser castrados.

Não queria me irritar com tanta besteira. Não queria replicar a tanta idiotice, pois sabia que ia acabar brigando – meu pavio sempre foi curto e não gosto mesmo de conservadores. Eram meus amigos – ou tinham sido. Passei bons momentos com eles, quando era jovem e menos seletivo. Percebi logo que não tinha mais nada em comum com eles. A amizade é como o amor: a maior parte das vezes não é para toda a vida. Notaram que estava muito calado, eu que, com a ajuda da cerveja, costumava me tornar loquaz. Assim, quando alguém me interpelou, aleguei cansaço e sono e permaneci quieto. Um mal-estar se apossava de mim. Eu queria ir embora. Não me sentia bem com essas pessoas que não me diziam mais nada. Teria preferido estar sozinho em vez de comparecer a essa reunião que, para mim, era um fiasco.

A sensação de deslocamento foi crescendo e, com ela, o mal-estar. No fundo era o mesmo mal-estar que me causava o governo Bolsonaro. Eu queria ir embora do Brasil. Teria ido embora se não fossem meus filhos e se eu fosse mais jovem. Havia algo nesse governo reacionário, fascista, hipócrita que me provocava, não só revolta, mas repugnância. Havia algo repulsivo, asqueroso, nojento nesse gabinete presidencial que fedia a ranço, a mofo, a bolor. A Inquisição. Havia algo repelente em ministros que primavam pela imbecilidade, pela incompetência, pela ignorância, pela falta absoluta de capacidade para preencher o cargo que ocupavam. Ministros que, como o Araújo, de Assuntos Exteriores, a Damares, dos Direitos Humanos, o Salles, do Meio Ambiente, o Guedes (que não era burro, mas perverso e fascista), da Economia, e o estúpido, nazista e arrogante do Alvim, secretário da Cultura e o escroto do Rasputin de Brasília, “o filósofo” (entre aspas) de periferia Olavo de Carvalho. Enfim, de presidência de merda, só podia sair um ministério de merda. Às vezes me perguntava se essa laia de seres inferiores não seria tão besta, imbecil, ignorante quanto aparentava, mas ostentava uma persona adequada para bajular e conseguir apoio da massa alienada e ignara. Talvez tudo não passasse de uma encenação perversa. Sim, não bastasse mais de cinco séculos de corrupção, mais de cinco séculos de espírito escravagista, mais de cinco séculos de impunidade, mais de cinco séculos de desigualdade social. Não bastasse mais de cinco séculos de privilégios vergonhosos das elites. Privilégios que foram se perpetuando com os salários exorbitantes de parlamentares e juízes. Um cinismo, uma desfaçatez, uma afronta ao povo brasileiro. Pois é, a Revolução Francesa de 1789 ainda (ainda!) não chegara ao Brasil. Esses carinhas, parlamentares e juízes não tinham vergonha na cara, não tinham consciência. Eles instituíram o roubo legal dos cofres públicos. Não bastasse uma proclamação da Independência que foi uma farsa, uma piada e não bastasse uma proclamação da República que basicamente não mudou nada no País, tradicionalmente reacionário, estagnado socialmente, agora tínhamos um pavoroso retrocesso medieval. Com, entre outras coisas, os milhares de pastores neopentecostais picaretas explorando a indústria de Cristo – céus, que avacalhação do cristianismo.

Senti náusea, ânsia de vômito. Levantei-me da mesa e fui ao banheiro. Passando na frente do caixa, reparei que a funcionária era muito parecida com a minha ex-mulher quando jovem. Entrei no banheiro. Entrei numa cabine. Vomitei. Defequei. Depois de evacuar pela boca e pelo ânus tudo o que sentia, limpei-me e dei descarga. Puxei cuecas e calça e sentei-me na privada. Adormeci.

Terceiro mergulho: fuga

Quando acordei, estava numa espécie de pequena cela circular, vazia, com uma diminuta janela por onde mal entrava a luz do sol. Havia uma porta estreita. Abri-a e deparei-me com uma escada de pedra. Comecei a subir. Após galgar alguns degraus, percebi que um menino negro de uns cinco ou seis anos me seguia. O guri me disse:

– No primeiro andar tem um homem com sorvetes.

– Ah, é?

– Outro dia minha mãe não tinha dinheiro pra comprar um sorvete pra mim. Ela falou que outro dia ela ia comprar. Outro dia quando ela chegou do trabalho, eu abri a bolsa dela pra ver se tinha sorvete.

– Mas sorvete derrete na bolsa.

– Derrete?

– Sim.

– Eu nunca chupei sorvete. Minha mãe falou que é caro.

– Você quer um sorvete?

– Quero.

– Vamos comprar um do sorveteiro.

Chegamos num patamar onde havia um homem asiático, provavelmente um imigrante do Vietnã, cuja fisionomia lembrava a do dono do restaurante vietnamita, com um carrinho de sorvetes. Como tinha feito o sorveteiro para subir a escada com o carrinho? E quem iria comprar sorvete naquele lugar pouco frequentado? Comprei um. Os olhos do garotinho brilharam. E ele desceu as escadas, chupado seu sorvete, feliz.

Continuei subindo. Ao que tudo indicava, aquela edificação era uma torre medieval. Chegando ao patamar seguinte, deparei-me com um adolescente negro muito parecido com o menino do sorvete. E, curiosamente, com o garçom que nos servira no restaurante. Ele estava encostado na janela – que era mais uma espécie de fresta no muro, uma brecha ou meurtrière, como se diz em francês – por onde entrava alguma claridade que lhe permitia ler um livro.

– O que você está lendo? perguntei.

O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, respondeu.

– Está gostando?

– Muito. O senhor já o leu?

– Sim. Muitos anos atrás. Quando tinha mais ou menos a sua idade.

Continuei subindo. No patamar seguinte encontrei um homem negro, maduro, de uns 50 anos. Lia um livro, em pé, perto da brecha à guisa de janela. Quando me viu, sorriu.

– O que está lendo? perguntei.

O Bárbaro Liberto, respondeu, e sorriu novamente.

– Está gostando?

– Muito. Um livro fascinante. Parabéns.

– Por que parabéns?

– Porque o senhor é o autor.

–  O senhor me conhece? estranhei.

– Sim. De fotos na internet.

– Muito obrigado pela leitura e por gostar do livro. O que o senhor faz na vida?

– Sou professor de literatura brasileira. E estava aqui, nesta torre, à sua espera para conhecê-lo pessoalmente. O senhor pode autografar meu exemplar?

– Claro.

– Muito obrigado.

– Diga-me, o senhor sabia que eu viria aqui hoje?

– Sim. Foi por esse motivo que eu vim. Tomei essa decisão depois de mergulhar nas aventuras do Bárbaro Liberto.

– Agradeço. Um dia poderemos nos encontrar para almoçar e falar sobre literatura.

– Tenho certeza de que vamos voltar a nos encontrar.

Continuei subindo. Cheguei no patamar seguinte. E deparei-me com minha ex-mulher. Estava em pé. Olhando pela brecha da parede. Ao ouvir meus passos, virou-se e perguntou:

– O que você quer?

– Nada, respondi surpreso.

– Você não me deixa em paz nem depois de morta.

– Eu não sabia que você estava aqui.

– Você invadiu minha vida e agora invade minha morte.

– Porra! Você continua a mesma. Histérica. Não melhorou nem depois de morta. Você me persegue como um fantasma. O que você quer de mim? Me atormentar pelo resto da minha vida?

Essa era a mulher que tanto amei. A mulher de minha vida.

Dei meia volta e continuei subindo. No patamar seguinte, havia uma cigana muito velha.

– Vai a boaventura? perguntou.

Estendi-lhe a mão. Leu.

– Menino sozinho, separado dos pais. Uma cidade antiga, exótica, cercada de fronteiras. Uma cidade com três línguas. O menino não sabe qual é a sua língua. Menino pobre. Trabalha desde a infância.

E ela parou. Como se estivesse admirada. Ou assustada.

– Vejo muita luz. Uma luz que ofusca. Que fere. Muitas brigas. Mas alguém vai saber quem você é.

E fechou minha mão.

– Quanto lhe devo?

– Nada.

Continuei subindo. No seguinte patamar surpreendi-me com uma jovem belíssima. Seu rosto misterioso lembrava a fascinante fisionomia de Marie Laforêt. Ostentava uma discreta elegância no vestir.

– A felação está em promoção, ofereceu.

– Como? perguntei rindo.

– É isso mesmo. Com direito a lambida nos testículos e nas virilhas.

– Você fala muito bem. Tem classe física e oral para uma garota de programa.

– Não sou garota de programa. Não gosto de eufemismos.

– Você é o quê, então?

– Sou puta mesmo. Mas não preciso dizer: “bem, vamos fazer nenê” para convidar um cliente.

– E aparecem muitos clientes nesta torre?

– Às vezes aparece um perdido nesta torre. Um solitário carente.

– Você é uma prostituta diferente.

– Sou uma puta-escritora. Ou escritora-puta.

– Você é escritora?

– Sou. Mas não me prostituo com a literatura.

– Ainda bem.

– Ainda bem por quê?

– Porque tem muito escritor e escritora picaretas.

– Não é meu caso. Decidi investir, enquanto sou jovem, na minha vagina. Sou formada em Letras. Tinha um bom emprego. Mas o emprego preenchia todo o meu tempo. Larguei o emprego e comecei a vender sexo. E, claro, tinha tempo para escrever.

– Entendo. E o que você escreve?

– Romances de amor.

Estava excitado. Abri a braguilha. Ela se ajoelhou, pegou meu membro e iniciou a felação. Chupava divinamente. Gozei em sua boca. Ela engoliu meu esperma. Levantou-se. Fechei a braguilha.

– Quanto é?

– Nada.

– Como nada?

– Você é escritor. Portanto, colega de profissão. Para você faço de graça.

– Como você sabe que sou escritor?

– Pelo sabor do seu esperma.

– Meu esperma não tem o gosto do esperma de qualquer homem?

– Não. Tem um sabor especial. Conheço esperma.

– Você sempre engole?

– Não. Mas o seu, quis engolir. Seu esperma vai para meu intelecto.

– Agradeço o privilégio. Você é uma garota muito bonita e inteligente. Posso voltar a esta torre para te ver de novo?

– Venha quando quiser.

– Mas vou pagar.

– Não se preocupe.

– E se eu me apaixonar por você?

– A vida é feita de riscos.

– Posso te beijar?

– Pode.

Beijei-a. E ouvi em surdina Marie Laforêt cantando Aime-moi jusqu´à demain. Continuei a ascensão.

No patamar seguinte, uma senhora de bastante idade parecia me esperar. Vestia um elegante modelo – embora um tanto surrado – dos anos 1880. Estava excessivamente maquiada e abanava-se com um suntuoso leque, apesar de não fazer calor.

– Bom dia. Sou Marie-Louise-Joséphine-Charlotte-Marguerite de La Belle Chatte de Beaucourt. Muito prazer, e estendeu a mão – que beijei.

– Bom dia. David Haize, escritor.

– Ah, escritor! Eu adoro romances de amor. Pensei, ao ouvir seus passos subindo a escada, que o senhor fosse ele.

– Ele, quem?

– O príncipe.

– Que príncipe?

– O príncipe Rudolf von Habsburg, meu amado. O senhor não cruzou com ele na escada?

– Não.

– Ele está demorando muito.

– Deve estar na taverna da esquina.

– Ele não frequenta tavernas.

– Então deve estar no salão de chá da outra esquina.

– Ele não frequenta salões de chá. Ele não pode frequentar lugares públicos.

– Nem disfarçado de camponês?

– Não. É muito perigoso. Pode sofrer um atentado.

– Então deve estar em Mayerling.

– Credo! e fez o sinal da cruz.

– Que foi?

– Não pronuncie essa palavra fatídica. Ele quase morre nesse pavilhão de caça com a amaldiçoada baronesa Marie Vetsera.

– E então onde é que a senhora o encontra?

– Nesta torre medieval que é muito romântica. O senhor vem sempre aqui?

– Não. É a primeira vez.

– Ele mandou um bilhete pelo pombo-correio dizendo que viria hoje. Mas assuntos de Estado devem tê-lo impedido. Bom, acho que vou embora.

Despediu-se e foi descendo as escadas.

Continuei subindo. No patamar seguinte deparei-me com… Cristo copulando, em pé, com Maria Madalena. Ele estava com a túnica levantada que deixava ver suas nádegas brancas e algo peludas. Madalena, encostada contra a parede, também estava com a túnica arregaçada. E, entre gemidos e suspiros do célebre casal, ouvi a seguinte conversa que, além do ato sexual, me deixou excitado. Na realidade, era só Cristo que falava em meio à excitação. Madalena se limitava a dizer “aleluia”.

– E regarei teu ventre e te farei dez filhos. Pois eu te amo esposa minha.

– Aleluia!

– E meus dez filhos espalharão a minha verdade pelo mundo. A minha verdade. Não a que a lenda forjou.

– Aleluia!

– Pois não sou filho de Deus. Sou apenas um homem escolhido por Deus para falar aos homens.

– Aleluia!

– E desfarei vinte séculos de mentiras.

– Aleluia!

– E libertarei os homens de suas superstições.

– Aleluia!

– Pois sou o Amor e não o fanatismo e a intolerância.

– Aleluia!

– E conduzirei os homens à Razão para eles crescerem ética e moralmente.

– Aleluia!

– E amaldiçoarei aqueles que usam meu nome para se enriquecer.

– Aleluia!

– E glorificarei o Sexo como princípio sagrado.

– Aleluia!

– E darei início ao Homem Novo, inteligente, generoso e despojado.

– Aleluia!

– E… Ah!

– Ale… Ah!

E gozaram juntos. Depois do orgasmo e após uns minutos, Cristo e Madalena baixaram suas túnicas. E suspiraram, felizes, porque o intercurso fora decorrente de um grande amor. E então Cristo se virou. E me olhou. Arrepiei-me. Como se uma descarga elétrica tivesse me atingido. Era um belo homem negro. Um homem da Etiópia. Assim como Madalena era uma bela mulher da Etiópia. Senti vontade de beijar a mão desse homem tão superior. Mas retive-me. Provavelmente ele não teria gostado de meu ato de idolatria.

Prossegui com a minha ascensão. E cheguei num patamar onde encontrei um adolescente, extremamente parecido com Rimbaud, que, sentado no chão à moda oriental, lia um livro enquanto se masturbava. Esperei que ele gozasse e perguntei:

– O que você está lendo?

Não respondeu. Apenas me estendeu o livro, que peguei. O título era A Busca do Silêncio, de autor anônimo.

Durante um ou dois minutos folhei o livro. Quando o devolvi, constatei que aquele adolescente era um velhinho de cabelo branco. Um ancião que parecia esperar. Esperar o quê? A morte? E ele me sorriu. Um sorriso zen que pareceu me gelar o sangue nas veias. Talvez porque esse sorriso atestasse a tragicidade do tempo.

Continuei subindo. No patamar seguinte encontrei meu irmão. Céus, que emoção! Eu nem conseguia falar. Abracei-o com lágrimas nos olhos.

– Salam! disse ele em árabe.

– O que você está fazendo aqui, nesta torre?

– Vim te ver.

– Você sabia que eu estava aqui?

– Sim.

– E os pais, como estão?

– Estão bem.

– Não quiseram vir me ver?

– Estão cansados.

– Cansados?

– Sim. Os mortos, depois de um certo tempo, se cansam.

– Tem visto filmes?

– Sim, de vez em quando pego um cineminha. Hoje vou assistir a Dor e Glória, de Almodóvar, e Um Dia de Chuva em Nova York, o último Woody Allen.

– Vi os dois e gostei muito. E por falar em cinema, o outro dia me lembrei de dois filmes que marcaram a minha memória. Um foi Lili, de Charles Walters, que o pai contou para a mãe – que não pôde ir porque você era muito pequeno e não tinha com quem te deixar. Ouvi o pai contar e o filme ficou gravado na minha memória. Uns anos depois eu o vi. O outro foi Luzes da Ribalta, de Chaplin. A mãe não me deixou ir porque aquele dia houve distúrbios na cidade – era o começo da luta pela independência do Marrocos. Eu chorei porque queria muito ver esse filme. Vi-o uns anos depois. Lembro-me também de quando fomos, os quatro, assistir a Bambi, de Walt Disney, no cine Roxy. Você era muito pequeno e perdeu sua chupeta (o “popo”) durante a sessão. Foi seu primeiro filme.

– Sim. A mãe me contava que eu não ficava parado no colo dela durante o filme. E agora vou embora.

– Já?

– Sim. Quero ver os dois filmes hoje. Não perco nenhum filme de Almodóvar nem de Woody Allen.

– Gozado, assistir a filmes depois de morto.

– E por que não?

– Tem razão, mano. Os gostos não mudam depois da morte.

E foi descendo as escadas. Fiquei uns minutos parado, com o coração encolhido pela saudade e as lágrimas rolando pela minha face, antes de continuar subindo.

Chegando no patamar seguinte, deparei-me com madame Giraud. Que surpresa agradável, emocionante e totalmente inesperada. Sim, madame Marie Giraud, prenome e sobrenome bastante comuns na França. Ela era originária do sul da França, do Languedoc-Roussillon e falava o catalão e o occitano. Além do espanhol e do árabe. Fazia muito tempo que ela vivia no Marrocos. Era viúva. O filho único morrera na Segunda Guerra Mundial. Morava sozinha, com uma empregada marroquina que dormia em sua casa. Era culta, elegante, discreta e lia muito. Sua casa, relativamente simples, tinha um belo jardim – que ela cultivava – com várias árvores. Era muito amiga de umas primas de minha mãe, que a recomendaram a madame Giraud como costureira.  Quando minha mãe terminava a costura, eu levava a roupa pronta e recebia o dinheiro. Foi assim que conheci minha amiga idosa da adolescência. Ela dizia que eu falava francês sem sotaque e me chamava de jeune homme.

Ela enxergava mal e um dia me perguntou se eu poderia ler um pouco para ela. Estranhei, mas, é claro, aceitei, mesmo porque eu já era um leitor voraz. Passei, pois, a frequentar a sua casa duas vezes por semana. E fui descobrindo nomes, que eu não conhecia, da literatura francesa. E fui descobrindo pratos da gastronomia francesa que eu não conhecia. Pois depois da leitura, ela me convidava para jantar. E eu, que tinha fome, muita fome, aceitava o convite. Eram pratos comuns – ela era ótima cozinheira – que passei a adorar: ragoût, cassoulet, ratatouille e outros. De vez em quando a empregada fazia um couscous marroquino que eu também adorava. No intervalo da leitura tomávamos um chá verde com hortelã e comíamos um pedaço de chuparkia.

Com o passar do tempo, sua visão foi piorando. E ela decidiu voltar à França onde tinha um irmão e uma irmã e quatro sobrinhos. Sua partida me deixou muito triste. E até chorei. E certamente não era porque eu deixara de receber uma graninha semanal com a qual ia ao cinema e comprava livros no sebo. Nunca mais voltei a vê-la. Escrevi-lhe uma carta. Ela nunca respondeu. Talvez a carta tivesse se perdido. Ou ela, meio cega, não tivesse querido responder.

– Madame Giraud! Que esplêndida surpresa! exclamei, emocionado, em francês, abraçando-a.

– Meu caro jovem, como vai?

– Eu estou bem. Encantado por voltar a vê-la.

– Quanto tempo!

– Sim, madame Giraud, muito tempo. Fiquei velho.

– Que nada. Você tem um aspecto muito jovem.

– Muita gentileza sua.

– Estava à sua espera.

– É mesmo? A senhora sabia que eu estava aqui?

– Sim. É por isso que eu vim. Os mortos sabemos tudo sobre os seres que nos são caros.

– Ah, que saudade de minhas leituras e das comidas que a senhora fazia. Eu tinha muita fome. Eu era muito pobre. A sua casa, para mim, era um refúgio de literatura e de boa comida.

– Eu sei, meu querido, eu sei.

– Nunca vou esquecê-la. A senhora foi muito importante na minha adolescência. A senhora alimentava a minha mente e a minha barriga. Nunca vou esquecê-la.

– Eu sei, meu querido, eu sei. É por isso que vim te ver. Meu carinho por você continua o mesmo. Os mortos também amam.

– É mesmo, madame Giraud?

– Sem dúvida. E como vão seus livros?

– Tenho 37 livros publicados. Estou no 38°. Vou incluí-la neste que estou escrevendo.

– Eu sei. Os mortos sabemos tudo o que se refere às pessoas amadas.

– A senhora tem ido a Tânger?

– Já quase não vou. Tânger virou uma metrópole de mais de um milhão de habitantes. Não é mais a cidade que nós conhecemos.  O belo teatro Cervantes não existe mais, nem a casa onde eu morava na rua Jean Jaurès.

De repente ouvi a Valsa N° 2, de Shostakovich. Olhei pela janela. Um bando de gaivotas dançava a valsa no céu azul. Aparentemente não estava mais numa torre medieval, mas num farol. A música cessou. As gaivotas sumiram. Um anjo negro de Chagall, de vestes coloridas, atravessou o firmamento, ao som da Sarabanda, de Haendel, e perdeu-se no horizonte. Depois, ouvi a Cantilena das Bachianas Brasileiras N° 5, de Villa-Lobos, e vi os cisnes em chamas – meus míticos cisnes em chamas da adolescência – atravessarem o céu crepuscular.

Quando saí da janela, percebi que madame Giraud tinha sumido. Reparei então que as paredes do farol – ou da torre? – eram cor de marfim. E vi meu rosto de adolescente de 16 ou 17 anos refletido na parede. Senti um aperto no coração e meus olhos marejaram.

28-12-2019

       

                                                                                  

 

 

 

 

Sex around the clock – Zob*

 

          Outra vez, David? David Haize, o que está acontecendo com você? Você está bem? Como outra vez? O que você quer dizer? Não está acontecendo nada. E estou muito bem. David, mais um título em inglês? Totalmente em inglês? Ah, então é isso. O subtítulo está em árabe – para compensar. Já te falei que estou modernoso ultimamente. Estou imitando os babacas dos publicitários e de alguns jornalistas que vivem usando palavras em inglês norte-americano quando existe o termo em português. Que coisa brega, jacu, cafona. E eles pensam que isso é chique. Que síndrome de imitação. Tudo o que vem dos EUA é bom, maravilhoso e deve ser imitado. Se pelo menos essa cambada de imitadores – em todos os sentidos – escolhesse um país digno e realmente democrático como os países escandinavos, a Nova Zelândia, a Austrália ou o Canadá… Mas não. Optam (a economia manda) pelos EUA, esse país de merda que se diz democrático e paladino da liberdade. Que engodo. Democrático com pena de morte, sem saúde pública e asquerosamente cristão fundamentalista. Caralho, que atraso de país. Pode ser (por enquanto) a maior potência econômica e militar do Planeta, mas é uma nação socialmente atrasada. Tudo bem, tudo bem David, não se exalte. E o que você me diz do teor pornográfico do seu conto, a começar pelo apelo do título e subtítulo? Pois é, já que sou rotulado de escritor pornográfico, vamos apelar abertamente para o pornô – que na realidade não é pornô, já que pornô é a hipocrisia do softcore para vender qualquer produto. Sexo é importante. Um dos aspectos mais importantes da vida do ser humano e de todos os seres vivos. Sexo é sagrado. Como a água e o alimento. Sexo é bom para a circulação, para o coração, para o aparelho digestivo, para a pele, e para o sistema nervoso. Não precisa ser médico para saber disso. E quem condena o sexo em todas as suas manifestações é um reprimido, um recalcado, um ignorante, um idiota, um perverso, um ser problemático que tende à violência. Dito isto, vamos trepar no meu conto.

*

– Que gostosura. Boceta de minha vida.

– É toda sua, meu querido.

– E é para ser. Você gosta do meu pau?

– Adoro teu pau. Garboso. Galhardo. Elegante. Sempre com disposição. E adoro teus colhões grandes, robustos e bem feitos.

–  Ah, querida, vou encher tua boceta de porra quentinha.

–  Enche sim, meu amor. Quero sentir tua meleca dentro da santa perdida.

– Você gosta de meu leite de macho, né?

– Adoro teu leite de macho. Reserve um pouco para eu beber.

– Mas antes vou irrigar teu cu.

– Sim, meu querido, enche meu cu de porra. Mas antes faça minha boceta gozar.

– Vou rasgar teu cu.

– Rasga, querido, rasga. Faça o que quiser comigo. Faça tudo o que te der vontade. Estou aqui para te servir na cama. Sou tua escrava sexual.

– Sou tarado pela minha escrava. Tarado por meter com minha escrava.

– Você é meu macho, senhor e dono. Eu te pertenço. Mesmo porque ninguém me deu o prazer que você me dá.

– Eu fico feliz em te dar prazer. Te dar prazer nessa boceta angelical. Te dar prazer nesse cu seráfico. Te dar prazer nessa boca celestial. Sou tarado por você. Queria meter com você todo dia. Querida, estou quase gozando. Não aguento mais.

– Meu amor, aguenta mais um pouquinho que eu estou chegando.

– Vou soltar o leite!

–  Querido, eu também estou quase gozando. Ai, ai, ai!…

– Ah! Ah! Ah!…

– Eu te amo.

– Eu te amo.

*

Primavera

A pele noturna do lago arrepia-se

sob os prenúncios da Lua

que mergulham na água

até o fundo onde germina o jasmim

perfumando o silêncio

denso de carne em vigília

para nascer

ame-me

sem falar

antes do amanhecer

*

– Não, querido. Hoje não.

– Por quê?

– Estou menstruada.

– Não seria a primeira vez que fazemos sexo com você menstruada.

– Mas não estou com disposição.

– E precisa de disposição para meter?

– Precisa sim, seu machista.

– E precisa me chamar de machista?

– Essa tua resposta é machista. Basta o pau endurecer e pronto, vamos fazer sexo. Mas não necessariamente amor. Você sabe muito bem que com a mulher é diferente.

– Tá bom. Não vamos discutir. A mulher não entende a necessidade premente que o homem tem de fazer sexo. Sexo é a coisa mais importante do mundo.

– A coisa mais importante do mundo não é o sexo, mas o amor.

– Tá bom. Chega.

– Você não aceita que, eventualmente, eu não tenha vontade de sexo.

– Chega! Você adora uma discussão. Como toda mulher. Vou embora.

–  Ah, é? Não tem sexo, você vai embora.

–  O que você quer que eu faça? Que bata uma punheta na tua frente?

– Quer dizer que se eu não trepar com você, não sou nada. Você vem me ver para trepar. Só isso?

– Ué, não faz sentido vir aqui te ver sem meter. Sexo é tudo para mim.

– Então você não me ama.

– Te amo, sim. Mas com sexo.

– Tá bom. Pode ir embora. E não volte mais.

– Não fale assim! Porque você nunca mais me vê na vida. Ouviu o que eu disse? Meça tuas palavras.

*

Verão

Eco longínquo de vulcões rugindo

o sangue já decodificou a mensagem da paixão

tremor do fundo dos séculos

a mesma

prolongando-se nos confins dos que ousam

ultrapassar o limite dos sentidos

brincando de eternidade

goze-me

gritando

até amanhecer

*

– Por que você não quer morar comigo?

– Querido, eu prefiro continuar com a relação que temos atualmente. Ou seja, cada um na sua casa.

– Mas quando as pessoas se amam elas querem estar juntas. Juntas o tempo todo. Eu tenho essa necessidade.

– Mas eu tenho necessidade de ficar em casa sozinha. Isso não quer dizer que eu não te ame. Que não precise de você. Eu não quero me sentir sufocada.

– E eu te sufoco?

– Não. Mas um dia pode vir a me sufocar. Os homens tendem a sufocar as companheiras. Eu sei, por experiência, o que estou dizendo. Passei quinze anos casada e me sentia sufocada. Não quero voltar a passar por isso.

– Não sei se quero continuar com esse tipo de relação.

– Querido, pelo amor de Deus, não fale assim comigo. Não desestruture minha vida outra vez. Eu te amo, meu homem. Meu homem bonito, gostoso, sensual. Meu homem de bem. E eu sou tua mulher, talvez mais que se morasse com você. O fato de querer morar sozinha não significa que não te ame profundamente.

– O que você está fazendo?

– Abrindo tua braguilha. Quero te chupar. Quero sentir teu membro na minha boca. Quero que você me possua pela boca como você gostar de fazer. Quero que você ejacule na minha boca. Quero engolir teu esperma, algo que me deixa terrivelmente excitada.

– Você é muito louca.

– Não tanto quanto você.

*

Outono

Com tua alma

jovem tornas meu falo maduro

jovem meu coração outra vez adolescente

e o vento outonal varre as folhas mortas

e as envolve em bruma

que a memória dissipa

para reaver o frescor primaveril

ame-me

antes

como sempre

*

– Oi, meu querido. Que saudade. Como é que você está? Quando você volta?

– Estou bem. Com muito tesão. Subindo as paredes. Volto sábado.

–  Não tem me traído?

– Chupei a boceta da camareira e ela me ordenhou.

– Filho da puta!

–  Brincadeira. Estou casto e puro. Guardando o leite para você.

– Não seria a primeira vez que você me trai.

– Isso foi no começo de nosso relacionamento. Ainda não me sentia seguro.

– Sei. Você nunca perdeu tempo.

– Querida, a produção de leite de macho é constante.

– Safado.

– Estou guardando todo esse leite para você. Leite grosso. Boa produção. Vou te encher a boceta, o cu e a boca desse leite chulamente chamado de porra. E você, tem me traído? O porteiro do prédio te come com os olhos.

– Até que ele é bonitão.

– Safada.

– Estou brincando, querido. Como você acaba de brincar. Só tenho olhos para você, meu macho tesudo. Para teu pau, teus colhões, tua boca, tua bunda peluda, teus olhos e teu sorriso. Eu te amo homem meu. Sou louca por você. Sou sua. Só sua.

– Ainda bem.

– Ainda bem o quê?

– Eu não quero te dividir com ninguém. Você é só minha, do meu caralho e dos meus ovos.

– Só sua, meu amor. Só sua, meu amado mouro de Veneza. Sou sua Desdêmona. Mas não me mate.

– Minha vaca sagrada.

– Meu touro.

– Estou de pau duro. Vamos transar pelo telefone? Você bate uma siririca e eu toco uma bronha. Estou com excesso de leite nos bagos.

– Meu amor, você me deixa molhadinha.

– Vou te chupar o grelo enquanto enfio o dedo na tua felpuda.

*

Inverno

Do furor de viver à fúria de existir

prolongas minha vida

e endureces meu desejo

e me empurras insaciável

para a voragem do gozo ancestral

antes que a existência acabe

e me ofereces a taça do orgasmo

brindando ao derradeiro licor do

goze-me

amém

*

Where do I begin (Love story), Shirley Bassey. Sim, ela    preenchia meu coração. Como nenhuma outra mulher o fizera anteriormente. Why she had to go, I don´t know, she wouldn´t say, Beatles. Por que ela foi embora? Ela não iria falar. Para onde ela foi? Não sei. Fiquei sabendo por uma amiga sua que ela viajou, sem saber quando voltaria. Para onde ela viajou? Não sei. Em diversas ocasiões ela manifestou vontade de morar no exterior. Ou de ficar um bom tempo viajando pelo mundo. Sem destino estabelecido. Ela gostava de aviões, de trens, de navios, de ônibus. O prazer de estar em permanente deslocamento. Alma cigana reprimida? Sei lá.

Teria ela se cansado de mim? Teria sido eu muito possessivo? Invasivo? Eu a teria sufocado? Eu não sei amar de outro jeito. É tudo ou nada. Não sou homem de meias medidas. Quando gosto de alguém ou de algo, vou com o ímpeto de um animal. Não, não sou controlado. Quando a paixão me invade, solto as rédeas. E onde fico eu nessa história? Teria ela conhecido outro homem? Antes de viajar? Ou durante a viagem? Ou depois de viajar? A ponto de não me querer mais? O que fiz eu de errado para merecer ser abandonado? Sem uma explicação. Sem uma palavra de despedida. Palavras. Ah, as belas palavras de amor ou tesão. Quão fúteis são. Curioso, que ela falava tanto em amor e eu, em sexo… Mas talvez estivéssemos invertendo os papéis. O que eu sentia mesmo era amor, embora sempre falasse em sexo. E ela, talvez, o que ela sentia era o sexo mais do que o amor, embora falasse, como toda mulher, mais de amor do que de sexo. Céus! Essas noites selvagens… E esses dias de furor… Como se o mundo fosse acabar de uma hora para outra. E de tudo isso não restou nada. Nem sequer a gratidão por ter vivido algo tão intenso. Em que acreditar?

E depois de um ano, peguei um avião e fui a Paris. Porque uma vez ela dissera que gostaria de morar em Paris. Sim, fui a Paris. Na vã tentativa de encontrá-la. Na vã tentativa de achá-la nas ruas do Quartier Latin ou nos Champs-Elysées. Que absurdo, encontrá-la entre milhares de pessoas. E de Paris fui a Barcelona. Porque numa ocasião ela dissera que gostaria de morar em Barcelona. E perambulei pelas Ramblas e pelo Barrio Gótico à procura de seu rosto, entre milhares de pessoas. E de Barcelona fui a Tânger. Porque certa vez ela dissera que gostaria de morar em Tânger. E fui caminhando pelo centro, pelo antigo boulevard Pasteur, pela avenue d´Espagne e pela casbá. Em busca da mulher perdida. Como um bobo. Como um tonto. Ou como um homem que ama, obcecado pelo amor de uma mulher. Que chance tinha eu de localizá-la? Uma entre um milhão. Viagem sem sentido. Viagem de sonhador. Viagem de romântico.

E voltei para casa. Convencido de que não adiantava procurá-la tão longe. Mesmo porque ela poderia estar morando em São Paulo, onde eu morava. Sim, o amor, quando invade, com a violência de um tufão, o coração, a mente e o corpo, leva o apaixonado a fazer loucuras. O amor, essa força incontrolável da natureza…

E às vezes me pergunto: estaria ela morta? I will wait for you, Frank Sinatra

*Zob: pau em árabe magrebino

28-09-19

  

 

 

 

 

 

 

 

O Enigma do Black Angel

outubro 4, 2019

O Enigma do Black Angel

 

David, David, David Haize, o que é isso? Como assim, o que é isso? Você, David Haize, usando um título parcialmente em inglês? Bem, resolvi dar uma de modernoso e apelar para um título em inglês, bem ao gosto cafona da  periférica classe média que, se tivesse um pouco de bom gosto, em vez de se deixar invadir por vocábulos de inglês norte-americano, escolheria uma língua mais rica, mais elegante, mais bonita, como o grego por exemplo, ou o russo, ou mesmo o euskara (basco) que é uma das línguas vivas mais antigas do mundo. Afinal de contas, o inglês era, na Idade Média, o idioma da ralé. Isso sem contar o apelo ao anjo. Pois é, mais uma concessão modernosa, já que anjos, demônios, bruxos, magos e toda essa parafernália barata estão na moda. Um pouco de gozação não mata nenhum leitor.

Talvez ele viesse do Leste.

Primeiro Encontro

OUTDOOR: O JARDIM DAS DELÍCIAS, DE BOSCH

Já era noite. Escurecera cedo. Chovia lentamente, como se regasse a alma. Estava escrevendo na cafeteria que costumava frequentar. Um jovem, de uns 30 anos, mas com cara de menino, negro e bem-apessoado, se aproximou de minha mesa e me ofereceu dropes. Mergulhado no meu trabalho, recusei automaticamente. De repente, um garçom expulsou o rapaz em voa alta:

– Aqui não pode!

O jovem saiu. Senti pena dele. Levantei-me e fui atrás. Na rua, comprei-lhe a caixa inteira de dropes. Pegou o dinheiro e, durante alguns segundos, embaixo da marquise, me olhou fixamente antes de agradecer. Então disse:

– É o senhor mesmo.

– Como assim? perguntei. Você me conhece?

– Acabo de reconhecê-lo.

Deu meia volta, abriu o guarda-chuva e sumiu na noite.

Voltei à cafeteria. Sentei. Pedi mais um café. Mas não conseguia me concentrar na escrita. O vendedor ambulante tomara, inexplicavelmente, conta do meu pensamento.

Comecei a ouvir, mentalmente, a voz de Joan Baez cantando a Marcha de Sacco e Vanzetti (assassinados pela Justiça norte-americana), música de Morricone, do filme de Montaldo:

Here´s for you

Nicola and Bart

Rest for ever here in our hearts

The last and final moment is yours

That agony is your triumph

E logo depois, sem transição, o Stabat Mater Dolorosa, de Pergolesi. Na hora, claro, não percebi a razão dessas músicas – tão opostas uma da outra – me invadirem. Só bastante tempo depois me ocorreu que talvez ele já estivesse preparando a conexão.

Paguei. Deixei a caixa de dropes na mesa – não gosto de dropes – e saí.

Segundo Encontro

OUTDOOR: GERNIKA, DE PICASSO

Passaram-se meses. Esqueci-me do vendedor noturno de dropes. Mas numa noite chuvosa em que estava na mesma cafeteria escrevendo, apareceu. Reconheci-o. Alto, magro, olhar distante. Pensei que ele ia me vender dropes novamente ou qualquer outra coisa. Mas ele, sem dizer uma palavra, tirou umas papeletas da mochila e as foi colocando, uma após a outra, sobre a mesa. As papeletas tinham uma frase manuscrita cada uma. Uma frase que parecia saída da Bíblia ou do Alcorão, ou de um manifesto fragmentado. Mandamentos como:

e matarás aquele que atente contra o meio ambiente.

e matarás aquele que atente contra os direitos humanos.

e matarás aquele que levante falsos testemunhos.

e matarás aquele que espalhe notícias falsas.

e matarás aquele que atente contra o conhecimento, a cultura e a ciência.

e matarás aquele que manipule o povo com superstições religiosas em detrimento da História, da Antropologia e da Sociologia.

e matarás aquele que negue os fatos.

e matarás aquele que usurpe o poder.

e matarás o fanático religioso ou ideológico.

e matarás o empresário da indústria de Cristo.

Parou de colocar papeletas sobre a mesa. Convidei-o a sentar-se e tomar um café. Aceitou.

– Desse jeito não vai sobrar ninguém no mundo, comentei em tom irônico.

Sorriu. Mas para alguém que me parecia ser um radical de esquerda, seu sorriso era calmo e nada insolente.

– O que você faz na vida além de distribuir papeletas revolucionárias?

Não respondeu. Limitou-se a encolher os ombros. Não sabia o que pensar desse jovem. Talvez ele estivesse apenas blefando. Talvez ele quisesse me pedir dinheiro ou qualquer outra coisa e não ousasse. De qualquer modo não sentia antipatia e menos ainda irritação pelo rapaz. Mesmo porque eu já fora muito radical quando jovem. Radical como um bom soixante-huitard. Restou em mim, com o passar dos anos e o desencanto – ou a saturação – o desprezo. O desprezo não como arma, mas como reação instintiva, já que por mais intelectualizado que fosse, continuava com a visceralidade de um animal. Sim, o desprezo que concede a superioridade da Razão. O desprezo pelo conservadorismo. O desprezo pelo nacionalismo. O desprezo pelo populismo, fosse de direita ou de esquerda. O desprezo pelo imediatismo perverso do capitalismo. O desprezo pelo que não muda, pelo que não evolui. O desprezo pela estagnação social. O desprezo pela mediocridade reinante no mundo todo. O desprezo pelo achamento cultural. O desprezo pela vulgaridade da cultura de massa. O desprezo pelo raquitismo intelectual. O desprezo por tudo aquilo que me causava nojo, asco, repulsa. Náusea. Sim, restou apenas a superioridade do desprezo.

E claro, esse desprezo incluía esse cara fascista, boçal, prepotente e demagogo eleito presidente da República pela classe média histérica, paranoica (sim, com a histeria e paranoia anticomunista dos EUA dos anos 1950, da Guerra Fria, ou seja, com uma visão política defasada, de 70 anos atrás). Um cara ignorante, retrogrado, pobre de espírito, medíocre (como Hitler e Mussolini, que eram totalmente medíocres), moralista dado a arroubos de prima donna com TPM, sem postura diplomática, sem noção de política, incompetente, deslumbrado com o poder e, o que é pior, com tendência de ditador, como todo imbecil. O suprassumo do lixo político. Em suma, uma nulidade, uma inutilidade. Uma nulidade e uma inutilidade perigosas.

Terminou de beber seu café. Virou as papeletas sobre a mesa e constatei que eram cartas do tarô. Sim, o tarô de um lado e do outro os “mandamentos”. Qual era a relação do tarô com as suas ideias subversivas? Não sei, sou muito cartesiano para entender essa relação. Muito resistente quando não consigo explicar algo pela Razão.

Terceiro Encontro

OUTDOOR: A LIBERDADE CONDUZINDO O POVO, DE DELACROIX

Passaram-se alguns meses. Deixei de pensar no rapaz das papeletas. Para falar a verdade, esperei encontrá-lo na cafeteria. Mas ele não apareceu.

Por aquela época, um amigo me convidou a passar um fim de semana em sua fazenda. Era uma antiga fazenda centenária que fora loteada. Sobrou a casa-grande e um terreno razoável, uma espécie de sítio.

– É um ótimo lugar para você escrever, disse meu amigo.

Deixou-me na fazenda na sexta-feira e combinamos que ele me apanharia no domingo.

Era uma bela construção que fora restaurada. A maior parte dos cômodos estava vazia. Havia apenas dois dormitórios, a sala imensa, a copa e a cozinha mobiliados.

– Você acredita em fantasmas? perguntou o meu amigo.

– Não. Por quê?

– Aqui acontecem coisas estranhas durante a noite.

– Que coisas?

– Barulhos.

– Barulhos? Que barulhos?

– Passos. Às vezes risadas. Outras vezes choros. Você não se incomoda com isso?

– Não. Acho que vou me divertir. Os fantasmas me fascinam, embora não acredite neles.

– Então divirta-se com os fantasmas. Vou te apanhar domingo no fim do dia.

Jantei – comida da mulher do caseiro. E deitei. Fazia um pouco frio e havia nevoeiro. No meio da noite acordei com alguém respirando ao meu lado. Assustado, acendi a luz. Não havia ninguém, claro. Peguei novamente no sono e fui acordado pelo que me pareceu serem gemidos de prazer, como se um casal estivesse fazendo sexo. Acendi a luz, vesti-me, peguei um agasalho e saí da casa.

O nevoeiro era intenso. Não se via nada. Feliz – adoro névoa – sentei-me num banco. Daqui a pouco senti uma presença ao meu lado.

– Quem está aí? perguntei.

– Sou eu.

– Quem, você? Não consigo vê-lo.

– Nem poderia.

– Você é um fantasma?

– Não. Não sou um fantasma. O senhor não se lembra de mim?

– A sua voz não me é desconhecida, mas não consigo identificá-la.

– O homem dos dropes e das papeletas-tarô.

– Oi, rapaz! Agora me lembro. Mas o que você está fazendo aqui?

– Vim lhe fazer um pouco de companhia.

– Você não é mesmo um fantasma?

– Não.

– Mas eu ouvi gemidos de gente fazendo sexo.

– São os fantasmas.

– Que fantasmas?

– O da fazendeira e o do escravo negro. A fazendeira se apaixonou pelo escravo. O fazendeiro pegou os dois fazendo amor e matou o escravo. Uns dias depois, a fazendeira, para castigar o marido, se suicidou. Eles voltam a se encontrar para fazer amor nas noites frias de nevoeiro.

– Que história trágica. É um amor sem fim. Diga-me, você não é o escravo que amou a fazendeira?

Mas não houve resposta. Senti que a presença esvanecera.     Quem estava ao meu lado? O fantasma do jovem assassinado pelo fazendeiro? Ou era o vendedor de dropes? O anjo exterminador das papeletas-tarô? Como podia eu, um racionalista, digerir essa insólita história? Qual era a relação entre o fantasma e o jovem radical? E me larguei, deixando a Razão de lado, recolhido no nevoeiro que me oferecia um invólucro de proteção.

Quarto Encontro

OUTDOOR: MARIE LAFORÊT, ANOS 1960, SEU ROSTO FASCINANTE, SEUS OLHOS MÁGICOS

E então veio o drama. O imponderável. Fenda do destino? Irregularidade no desenvolver do Equilíbrio Superior? Pane no girar cósmico da existência humana?  Capricho dos deuses que distribuem bonança e desgraça a torto e direito? Não há explicação. Vai além da Razão.

Sim, o drama. O acidente de moto do meu filho caçula. Dois meses na UTI entre a vida e a morte. Três meses e meio em coma. A dor. O desespero. A angústia. Sim, o pior é a angústia: não saber se ele vai voltar do coma.

– Doutor, como está meu filho?

– O cérebro é um enigma. Pode voltar dentro de uma semana, de um mês, de um ano. Ou nunca mais voltar.

Sim, a angústia. Angústia que impede de respirar. Não saber para onde se virar. Para Deus? Tentar súplicas forçadas e repetitivas a um Deus no qual não acreditava. Tentar preces automáticas na vã ilusão de que talvez assim, implorando e implorando, eu conseguisse acreditar um pouco e chamasse a atenção de Deus, esse desconhecido. E cheguei a ponto de entrar na internet e procurar o Pai Nosso em francês. Por que em francês? Porque eu tinha sido educado na língua francesa. E por que o Pai Nosso, se eu, sem religião, poderia ter procurado uma prece islâmica ou judaica (já que fora criado entre muçulmanos e judeus) ou budista? Porque descendia de uma família católica, logo, era uma obscura referência, um atavismo racionalmente explicável. E recitava o Pai Nosso várias vezes por dia para meu filho – que sempre foi religioso – ouvir. E – céus! – meu filho ouvia e emitia um som gutural, como se entendesse que eu rezava por ele. Sim. Meu amado filho, do fundo do seu coma, ouvia e entendia e agradecia.

E uma noite, no hospital, uma noite insone e por sinal de nevoeiro, sentado no sofá do quarto de meu filho em coma, a porta se abriu. E ele apareceu. Olhou o meu filho e depois se sentou ao meu lado. Eu estava tão passado, tão esgotado e tão insensibilizado (por assim dizer), que não esbocei nenhuma reação. Na minha mente e nos meus sentidos embotados pareceu-me absolutamente natural que ele aparecesse de repente, sem mais nem menos, para visitar o meu filho. E nem sequer me perguntei como ele ficou sabendo do acidente e do estado do meu amado garotão. Limitei-me a dizer:

– Obrigado por vir ver meu filho.

Pensei que ele não iria responder. Mas ele, sempre tão lacônico, respondeu:

– Seu filho está bem. Ele vai se recuperar e sair do coma.

– Vai?

– Vai, sim. Eu vim ver você e aliviar a sua angústia.

Na hora reagi, e senti que poderia formular uma série de perguntas. Quem era esse homem misterioso? O que ele realmente queria de mim? De onde ele vinha? Para onde ele ia? O que fazia ele na vida? Mas não inquiri nada. Não queria saber. Por quê? Por indiferença? Devido ao estado letárgico em que me encontrava? Não. Não era exatamente isso. Era a necessidade de saber que alguém estava ao meu lado. Era a necessidade de deixar a Razão de lado e acreditar, mesmo obscuramente, que havia um canto não explorado onde eu podia ter fé e aguardar um milagre.

No entanto quis elucidar algo que não se coadunava com a ideia que eu me fazia desse homem.

– Por que você me mostrou aquelas papeletas tão agressivas?  Você parece um ser de bem, de amor.

– Queria identificar a sua pessoa.

– A minha pessoa? Como assim? Você sabe quem eu sou?

– David Haize, o escritor.

– E você? Quem é você?

– Alguém que sempre estará ao seu lado.

E de repente algo desmoronou em mim. E comecei a chorar convulsivamente. Ele colocou o seu braço sobre meus ombros. E senti o seu calor. O calor de um corpo. Era uma pessoa de carne e osso, e não um suposto fantasma. Era o primeiro contato físico entre os dois.

Permanecemos assim durante uns breves minutos. Fui me acalmando. Parei de chorar. Ele se levantou e foi embora. Sem uma palavra. Fiquei sentado no sofá. Então, sem querer mistificar, foi a epifania. Ou já fora minutos antes? Na penumbra do quarto, uma luz roxa, intensa, desceu, caiu de cima e me iluminou como um holofote. Era como se alguém estivesse vertendo uma cascata luminosa em cima de mim. E uma súbita sensação de bem-estar, uma repentina alegria, invadiram o meu corpo e a minha mente. Sentia-me leve, limpo de angústia, feliz. E adormeci.

Quinto Encontro

OUTDOOR: JEAN SEBERG, ANOS 1960, E SEU MARAVILHOSO ROSTO DE ANJO

Depois de três meses e meio, o meu filho voltou do coma. Inesperadamente. De uma hora para outra. Foi uma explosão. Ou, melhor dito, uma implosão de alegria. Um júbilo que eu não conseguia expressar e que se manifestava por um silêncio total. Sim, silêncio. Um silêncio que, sem eu querer, sufocava o riso e as lágrimas. A felicidade, quando é muito intensa, também esmaga.

Poderia, para comemorar, ter enchido a cara de cerveja ou vinho com os amigos. Mas preferi uma comemoração na intimidade. Sim, na mais íntima privacidade. Eu e a minha alma. Assim, no dia seguinte, no dia seguinte do grande dia da volta de meu filho, saí para caminhar no mato ao alvorecer. Havia neblina. Neblina da qual tanto gosto. Fui caminhando por trilhas que conhecia muito bem. Aos poucos a neblina foi se dissipando e árvores e arbustos foram aparecendo.

E então começou a celebração. Os meus passos lentos foram entrando em harmonia com o palpitar do mato. E o meu corpo e a minha mente foram se entregando ao entorno. Senti as raízes das árvores penetrando minha carne e a folhagem acariciando minha pele. E no silêncio, salpicado pelo canto de um ou outro pássaro que acordava, fui me dissolvendo na terra antes de me integrar no Absoluto.

Saí da trilha para desembocar numa estrada de terra. Dei-me então conta de que ele, o anjo negro, estava lá me esperando, sentado na encruzilhada. Sim, o rapaz dos dropes, o jovem das papeletas, (o fantasma?) estava me aguardando. Quando me viu, levantou-se e me deu a mão. E achei perfeitamente natural que ele estivesse ali. Não questionei a sua presença. Não quis saber mais nada além do fato de ele estar presente. Não falou nada. Apenas me sorriu.

Começamos a caminhar de mãos dadas. O sol se levantara. Batia em nossas costas. Vi então as nossas sombras projetadas na estrada. E constatei, por essas sombras, que eu era apenas um menino e ele um homem muito alto. E o júbilo da humildade me encheu o coração. Existia algo além da Razão ou a Razão em si já era o Todo?

07-09-2019

 

 

A Idosa e o Adolescente Deficiente Físico

 

          Estou confusa. Não sei o que fazer. Se devo continuar fazendo o que já fiz ou se devo parar. Estranha é a vida. Sim, estranha e surpreendente. E nada previsível. Quem iria me dizer. Eu, uma octogenária, metida numa coisa inconcebível, pelo menos para mim. E sem conseguir chegar a um consenso comigo mesma. Talvez toda essa confusão seja derivada de um condicionamento social, cultural. Social ou cultural? Acho que as duas coisas estão entrelaçadas. Gozado, eu estava tão tranquila, tão serena. Depois da morte do meu marido, há três anos, tive um período de depressão. É normal, já que é muito duro perder o companheiro de toda uma vida. Uma vida muito feliz em todos os sentidos, pois nos entendíamos muito bem e tivemos uma vida sexual ativa até pouco antes da morte dele. Reagi para não afundar. Yoga. Cursos de pintura e desenho. Muita leitura. Cinema. Passeios. A ferida foi se fechando. E fui tocando a vida, em paz. Sem pensar na morte dele nem na minha. Até que a coisa aconteceu. A coisa mais inesperada do mundo.

Sou um homem feliz. Nunca pensei que isso iria acontecer, mas aconteceu. Foda-se o mundo: estou feliz mesmo, como nunca anteriormente estive. Tenho tudo a ganhar. Aliás, por que não teria eu tudo a ganhar? Gozada, a vida. As coisas acontecem quando menos se espera. Claro, às vezes a gente tem de dar um empurrãozinho no destino. Mas nem tudo é feito pelo destino. A gente tem que ajudar – ou provocar – o destino. A gente tem de criar coragem e ousar. Eu posso ter só 16 anos, mas acho que sou mais maduro que a média dos jovens de minha idade. Talvez seja pela minha própria deficiência física e porque leio muito.

– Menino, o que é isso? O que você pensa que eu sou? Sou uma idosa respeitável.

– Dona Lourdes, a senhora é a mulher que eu amo.

– Mas Marcos, isso é um absurdo. Eu poderia ser sua avó.

– O amor não tem idade.

– Não é bem assim. O amor tem idade, sim.

– Se a senhora me acha feio e mesmo repulsivo como deficiente físico, fale e eu não insisto. Mas sou um homem, dona Lourdes. Um homem que quer amar e ser amado.

Sim, fiquei atônita com a declaração de amor. Como iria eu esperar que um adolescente se apaixonasse por mim, uma velha? E, perante mim mesma, como ficava a imagem de uma velha libidinosa, safada, obscena? A velha dama indigna. A viúva sem-vergonha. Tão tarada que apela até para um adolescente deficiente físico. Mas a confissão do rapaz mexeu profundamente comigo. Foi como se… Lourdes, ouse falar o que você está sentido. Não se reprima. Bem, suas palavras despertaram a mulher em mim. Sim, a mulher. Ou devo dizer a fêmea? Para dizer a verdade, todas as minhas ocupações para preencher o tempo e afastar o estado depressivo, nada mais eram do que tentativas de mascarar a solidão. Aos 81 anos, não se pode esperar muito da existência, mesmo porque as ilusões são minguadas. A solidão aperta com a morte de amigos de longa data que frequentávamos regularmente. Os meses passam sem uma única visita. Apenas um ou outro telefonema inquirindo sobre a saúde. E… Bem, ele me olhava com olhos esquisitos. Sentia muita compaixão por esse rapaz que mora com os pais no andar de cima e com quem cruzo, de vez em quando, no elevador. Um dia convidei-o a tomar lanche em casa, à tarde – claro que sem segundas intenções. Sei lá, eu o achava muito solitário. Ou seria eu que andava muito solitária?

Nunca comi uma garota. Só uma puta que me meu pai me arrumou. Pedi a ele. E ele foi legal e me arrumou uma. Foi uma foda meio sem graça. Mas eu, como todo rapaz, queria muito ter uma namorada. Na escola, me apaixonei por uma colega – e acho que eu não lhe era indiferente – mas meu complexo por causa da deficiência acabou por reprimir meu amor. Só não reprimiu a masturbação. Era punheta atrás de punheta. E… Bem, a dona Lourdes era tão doce. Uma velha tão bonita. E tão solitária. E quando me convidou para um lanche à tarde, eu, faminto de amor, interpretei como um convite para… como um passo para algo mais… E passei a fantasiar sexo com ela. E a me masturbar pensando nela.

Por que não haveria de fazer amor com ele? Por que deveria eu reprimir esse desejo que, a verdade seja dita, me assustava? Eu não estava fazendo nada errado. Eu era viúva e ele solteiro. E então, Lourdes? Então que eu achava esquisito uma velha de 81 anos ter uma aventura, ou mesmo um caso, com um garoto deficiente físico de 16 anos. Um menor de idade ainda por cima. Por outro lado, achava maravilhoso eu sentir desejo como uma jovem. O despertar do desejo soterrado havia muito tempo. Por sinal, o tempo… O tempo era outro fator que me empurrava para os braços do garoto. Quanto tempo tinha eu de vida? Quanto tempo antes de eu desaparecer? Sim, não menosprezemos o tempo que varre tudo, que anula tudo. Logo, eu não tinha nada a perder. E decidi que juntaríamos nossos corpos pouco atraentes. Mas o amor está acima da aparência física. Ou não?

Foi no quarto dela. No fim da tarde. Ela se trocou no banheiro, de onde saiu de camisola. Eu já fiquei pelado de cara, com a ferramenta pronta, mais dura do que as muletas.

– Por que a senhora se trocou no banheiro?

– Porque não quero que você veja minhas pelancas.

– Mas meu corpo não é nada bonito. Meus quadris, minha bunda e minhas pernas parecem de criança. Mas a ferramenta é de homem, como a senhora pode ver.

– Você é um rapaz muito bonito.

– Sou mesmo, dona Lourdes? Nunca me falaram isso. A senhora é a primeira mulher a gostar de mim. Estou emocionado. Ame-me, dona Lourdes, ame-me.

E meus olhos marejaram. E seus olhos marejaram.

03-09-19

 

 

Súplica do Escritor Maldito

 

Senhor,

Eu, David Haize, aliás, O Beduíno, aliás, O Tangerino, aliás, O Basco, lhe escrevo esta carta. Não para louvar a sua grandeza ou a sua onipotência – porque cansado estou dos grandes e onipotentes.

Eu, Haize, David, o perseguido, o desterrado, o exilado, o apátrida, o deslocado, o não pertencente, o outsider, o de alma cética de tanto ter lavado a alma, o de coração fechado de tanto ter esperado, o sem-país, o sem-língua, o sem-nome, lhe escrevo esta missiva. Não para implorar saúde, riqueza ou poder – porque caolho como Camões e surdo com Goya, velho estou e sem forças e agora pouco importa a riqueza e o poder.

Eu, David, O Beduíno, que tanto mundo percorreu, do Afeganistão ao Japão, de São Paulo a Istambul a Atenas, de Nova York a Paris a Barcelona a Granada, de Tânger a Tânger (cidade-obsessão, cidade-fetiche), eu, de impossível raiz fincada, ajoelho-me e imploro – não o eterno retorno, já que não tenho mais para onde retornar – mas um improvável milagre, além do milagre de existir, pois profunda gratidão tenho pelo meu pai e pela minha mãe por eles me terem feito com amor.

Eu, Haize, O Basco, Haize como vento em euskara, o libertário que amou desmesuradamente mulheres, homens e Arte sem medir as consequências, que se entregou irracionalmente (claro) sem muito esperar em troca a não ser um ninho onde esconder e acalentar a carência, escrevo esta epístola. Não para me redimir dos pecados, pois a minha racionalidade os elimina.

Eu, David, O Tangerino, em quem cravaram a identidade de uma cidade internacional sem identidade, ou, melhor, construída de inidentidades, eu que, criança, catei e vendi pedaços de ferro velho, jornais velhos e pedaços de paus para o forno de uma padaria, eu, de sapatos furados e olhar de menino sonhador, escrevo, sem muita ordem e raciocínio estas linhas, não para me redimir de minha arrogância, porque essa arrogância nasceu da miséria, das humilhações e da revolta, mas para pedir o que nunca ousei lhe pedir, por coerência.

Eu, estranho e inclassificável David Haize, que ousei, desafiei, transgredi e choquei para reafirmar a minha identidade que, com a sagrada Razão, coloquei acima de tudo, escrevo – meio a torto e a direito, levado pelo impulso, exatamente como soltei esperma em todas as cavidades que me apareceram pela frente – estas palavras que brotam de minhas entranhas, como brota toda a minha escrita, visceral.

Eu, D.H., judeu errante, muçulmano, beduíno, que fugiu da repressão escondido num navio, passageiro clandestino, e que, apátrida, morou num galpão de teto esburacado, que comeu as frutas que os outros não queriam, que comeu os doces que os outros não queriam, escrevo esta carta. Não para pedir perdão pelas minhas transgressões, mas para pedir perdão por estar pedindo. Por trair a minha coerência por estar pedindo.

Eu, D.H., pied-noir, estrangeiro sem pátria, puro como o gelo eterno dos grandes cumes, que roubou, contrabandeou e conheceu as drogas sem macular a sua pureza, redijo estas palavras de minhas vísceras. E imploro – perdão por implorar – o que nunca fiz, no furor de viver, na voragem da existência. E menino surpreso, me ajoelho, humilde.

Eu, D.H., O Magrebino, O Camponês Granadino, rebelde, cosmopolita, eclético, filho de pai anarquista, com muito orgulho, apaixonado por

Andersen/H.C. Anouilh Arrabal Baudelaire Bukowski Buzzati/Dino Calvino/Italo Camus Chekhov Chomsky Eurípides Fontela/Orides GarcíaLorca/F Grimm/irmãos Hernández/Miguel Hesse/Hermann Kafka Khayyam La Rochefoucauld Lautréamont Mendes/Murilo Miller/Arthur Miller/Henry Nassar/Raduan Neruda Nietzsche Perrault Pessoa Pirandello Potocki/Jan Pushkin Quental/Antero Rimbaud Sá-Carneiro Saramago Shakespeare Sontag/Susan Spinoza Stendhal Tolstói Trakl Turgueniev Villon Williams/Tennessee Yeats Ungaretti e outros

Allen/Woody Almodóvar Angelopoulos Antonioni Arcand/Denys Bergman Bertolucci Bolognini Buñuel Cassavetes Ceylan/NuriBilge Costa-Gavras Demy Deville/Michel Dreyer/Carl Fellini Ford/John Guédiguian/Robert Has/Wojciech Herzog/Werner Kawalerovicz/Jerzy Kazan/Elia Kurosawa Loach/Ken Mankievicz Montaldo Oliveira/Manoelde Olmi Pasolini Pontecorvo Resnais Ritt/Martin Rohmer/Eric Saura Scola Shindo/Kaneto Sokurov Tarkovsky Tarr/Béla Taviani/irmãos Tornatore Visconti Von Trier Welles Wilder/Billy Zurlini e outros

Beksinski/Zdzislaw Blake/William Bosch/Hieronymus Bruegel/OVelho Bruegel/OJovem Caravaggio Colville/Alex De Chirico Delacroix Delvaux El Greco Ensor/James Foujita Géricault Giotto Goeldi/Oswaldo Goya Hokusai Hopper/Edward Kokoschka Magritte Modigliani Munch Murillo Orozco Panzetti Portinari Rembrandt Renoir Rivera Rouault Segall Siqueiros Sisley  Toulouse-Lautrec Van Gogh Van Ostade Utrillo Vermeer Vlaminck Zurbarán e outros

Albinoni Aznavour Bach Baez/Joan Bassey/Shirley Barbara Beethoven Berio/Luciano Bizet Boccherini Brasens Brel Buarque/Chico Clapton/Eric Cohen/Leonard Dalida Elomar/FigueiraMello Ferré/Léo Guy/Buddy Haendel Hvorostovski/Dmitri Ibañez/Paco Janequin/Clément Jara/Victor Jopling/Janis King/B.B. Llach/Lluís Montand/Yves Monteverdi Mozart Penderecki Pergolesi Piaf Scarlatti Sosa/Mercedes Stockhausen Taylor/Koko Vandré/Geraldo Verdi Viglietti/Daniel Vivaldi Waits/Tom e outros

Aimée/Anouk Auteuil/Daniel Bardem/Javier Bates/Alan Binoche/Juliette Cardinale/Claudia Chaplin/Geraldine Dench/Judi Fabian/Françoise Falconetti/Marie Fonda/Jane Freeman/Morgan Garbo/Greta Gardner/Ava Girardot/Annie Hackman/Gene Hayworth/Rita Hepburn/Katharine Hoffman/PhilipS. Hurt/William Kietel/Harvey Laforêt/Marie Lancaster/Burt Leigh/Vivien Lualdi/Antonella Magnani/Anna Mangano/Silvana Masina/Giulietta Mastroianni/Marcello Monroe/Marilyn Montenegro/Fernanda Moreau/Jeanne Newman/Paul Noiret/Philippe Otowa/Nobuko Papas/Irene Penn/Sean Piccoli/Michel Podestà/Rossana Redgrave/Vanessa Reed/Oliver Ritter/Thelma Riva/Emmanuelle Rowlands/Gena Salvatore/Renato Schneider/Romy Seberg/Jean Seyrig/Delphine Sfat/Dina Signoret/Simone Smith/Maggie Streep/Meryl Tierney/Gene Ullmann/Liv Valli/Alida  Volontè/GianM. e outros

Bourdelle/Antoine Bourgeois/Louise Claudel/Camille Duncan/Isadora Fídias Gades/Antonio Gaudi Gehry/Frank Krajcberg/Frans Míron Nijinsky Nureyev Pavlova/Anna Praxíteles Rodin Ulanova/Galina

E fascinado por

Árvores

Mar

Animais

Cerejeiras em flor

Amendoeiras em flor

Jardins de areia

Tempestade

Ásia Central

Saara

Liberdade ejaculando papoulas em céu azul

Vísceras da escrita explodindo em ouro astral

Vida de outsider turbulenta passional múltipla sem retorno

Eu, David Haize, O Saariano, escritor maldito, ao longo de décadas falei de tempo, de identidade, de exílio, de pobreza, de solidão, de marginalidade, de liberdade, de transgressão, de sexo, de amor, de paixão, de loucura, dos descartados, dos deficientes, da perplexidade perante o existir, da condição humana e do silêncio (sim, do sagrado Silêncio), no momento em que já não espero mais nada, no instante em que, ciente de minha eventual partida, num derradeiro sobressalto de esperança, com o coração na mão e lágrimas nos olhos, escrevo esta carta tão patética quanto sincera, para lhe pedir que rompa o seu silêncio, que interceda, que me olhe e que me envie um demiurgo para me ajudar a ser reconhecido como escritor antes de morrer. Não peço dinheiro. Nem fama. Apenas o reconhecimento de mais de 50 anos de luta e dezenas de livros publicados, incluindo os que destruí depois de editados. Para que me tire do limbo. Desse limbo ao qual sou relegado porque sou essencialmente um escritor humanista, e o humanismo caiu em desuso. Mas ninguém me acusa de humanismo, mas de pornografia, de cinismo, de deboche, de panfletarismo, de petulância. E o limbo é um dos destinos daqueles que incomodam o entorno.

Eu, David Haize, O Beduíno, O Tangerino, O Basco, O Estrangeiro conto com a sua generosidade e fico no aguardo de sua resposta, entre as últimas papoulas, os últimos gemidos, os últimos gozos, os últimos coutos da não rejeição, as últimas expectativas, e o último sangue quente onde ainda flui o amor.

Vai me responder? Não demore. Pode ser por e-mail, Facebook, Linkedin, telefone ou correio.

Eu… nada. Sim, nada. Mesmo porque a eternidade não existe. Mas existe a Arte, sem a qual a vida não faz sentido.

Um abraço

10-08-2019

 

 

Não. Não e não. Nunca mais. Jamais. Depois do que aconteceu sábado passado não quero mais saber de homens. Ai Clotilde não seja exagerada. Isso vai passar. O tempo resolve tudo. Não vai passar não. Estou traumatizada. E não é para menos. Deus nem quero pensar no que me fizeram. Isso não se faz com uma mulher. Com nenhum ser humano. Como pode haver gente tão… Tão… Nem sei como qualificar esse ato. Quero que esse cafajeste morra. Calma Clotilde. Para de pensar nisso. Ouça um pouco de música e relaxe. Você gosta tanto de músicas de filmes. “Love Story”. “Cinema Paradiso”. “Os Guarda-chuvas do Amor”. Você chora de emoção quando escuta essas músicas. Não quero ouvir música. Então vai ficar remoendo a noite toda o que te fizeram? Fique calma. Relaxe. Como posso relaxar se estou morrendo de ódio? Meu Deus o que eu fiz para merecer isso? Por que sou tão infeliz? Chega Clotilde chega. Tire esses pensamentos negativos de tua cabeça. Mas é difícil tirar esses pensamentos de minha cabeça. Estou farta de ser humilhada pelos homens. Estou cheia de  ser tratada como lixo. E estou saturada de ficar sozinha. Se eu tivesse um homem que me amasse de verdade não ia procurar homens na internet. Ou nos bares. Ou em festas de amigos. As raras festinhas de amigos. Minhas amigas estão todas casadas com filhos encaixadas em suas vidinhas. Eu sou a única azarada que não tem ninguém. A única amiga que vejo com alguma regularidade é a Cristina. A doida da Cristina. Para ela não falta homem. Solteirona como eu. Mas ela trata os homens a pontapés. Ela diz que é assim que a coisa funciona. Homem tratado a pontapé fica manso que nem cachorro. Ela diz que eu sou boba ingênua e que vou com muita sede ao pote. Acho que ela tem razão. Sou muito carente e os homens aproveitam. Deveria mudar meu modo de agir. Mas depois dos 50 é difícil mudar. Pois é Clotilde. A tua vida sempre foi solidão. Sempre cuidei dos meus pais. Principalmente da minha mãe doente sempre doente. É a sina da filha primogênita. Meu irmão mora nos EUA. Só falo com ele no Natal. Minha irmã mora na Inglaterra. Só falo com ela no Natal. Os dois estão casados e com filhos. E eu aqui. Sozinha. Mendigando um pouco de amor para amenizar a solidão. Pois é. Há pessoas que vivem para os outros e se esquecem de viver. E eu me esqueci de viver. E quando me dei conta já tinha mais de 40 anos. A gente tem que pensar um pouco na própria vida. Se a gente não der um pouco de atenção a si própria a gente passa a existência em branco. E quando a solidão aperta a gente embarca em aventuras ou melhor dito em desventuras. Encontros passageiros que mal aliviam o corpo. E deixam o coração faminto. É tanto exigir amar e ser amada? Clotilde para. Você tem um bom emprego. Um bom apartamento próprio. Está bem de saúde. Dê graças a Deus que você tem tudo isso. Mas eu não sou amada. E não é só sexo o que procuro mas amor. Sim amor. No fundo todos procuramos amor nesta vida. Vá com calma Clotilde. Quando menos você esperar aparece o homem de tua vida. O homem de minha vida. Que ironia. O antepenúltimo que conheci pela internet me deixou esperando numa cafeteria num shopping. Viu a mulher. Alegou que ia ao banheiro. E fiquei aguardando uma hora. Aí fui embora. No dia seguinte ele me ligou pedindo desculpas e querendo marcar um novo encontro. Recusei. O penúltimo que conheci também pela internet me convidou para irmos a um motel. Aceitei. Quando passou em casa me apanhar estava com outro homem no carro. Não entendi. Ele esclareceu que íamos fazer sexo a três. Recusei. Desci do carro. O que eles pensam esses homens? Será que não respeitam os sentimentos das mulheres? É muito azar. E o último… Meu Deus não quero nem pensar o que ele fez comigo. Mas talvez precise reviver a cena para ver se consigo exorcizar o trauma. Será? Conheci-o numa festinha. Amigo do amigo de uma amiga. Bem pelo menos não era mais um da internet. Cinquentão. Bonitão. Bem vestido. Educado. Advogado. Bom papo. Alguns drinques. E me convidou para irmos a um motel. Para variar aceitei. A boba. A carente. A solitária. Mas como ia eu saber se ele me parecia um cavalheiro? Fomos. Pediu um drinque e petiscos. Comemos e bebemos. E conversamos. E eu querendo outra coisa além de conversa. Num determinado momento ele foi ao banheiro com o prato dos petiscos vazio. Depois de uns minutos saiu do banheiro pelado. Com o prato cheio de merda numa mão e um revólver na outra.  E mandou que eu comesse. Recusei. Ameaçou-me. Come ou morre. Peguei um pouco com a mão e levei à boca. Senti ânsia de vômito. Continue mandou. E em pé começou a se masturbar. Peguei mais um pouco do exótico prato. Levei à boca. Engoli! Engoli sim. Senti ânsia de vômito. Ele gozou e ejaculou no chão. Não grite ou te mato! Limpou o membro na colcha. Colocou o revólver sobre o criado-mudo. Vestiu-se. Guardou o revólver. Eu estava paralisada. Ouvi o carro sair. Não ousava me mexer. Enfiei o dedo na boca e vomitei. E comecei a chorar. Como agora estou chorando. Meu Deus não é possível que entre milhões de homens neste mundo não haja um que me ame. O que há de errado comigo? Não sou feia. Não sou chata. Mas não sou jovem. Calma Clotildinha calma. O bom Deus vai te ajudar. Você é uma boa mulher e merece um homem bom que te ame. Ouça a “Serenata” de Schubert e acenda uma vela para santo Antônio. Passe um pouco de maquiagem e tome uma cervejinha. Você vai ver que as coisas vão melhorar.

07-06-19

Pau de 80 Anos

maio 17, 2019

Pau de 80 Anos

 

É foda velho sem foda. É triste demais. Punheta após punheta. E nada de um abraço, um beijo, uma carícia. Como se velho não tivesse tesão nem sentimentos. Como se velho não sentisse mais nada além de vontade de comer, dormir, mijar e cagar. E vêm aqueles imbecis açucarados com suas mensagens otimistas, edificantes, de uma hipocrisia que faz doer o fígado. A terceira idade (eufemismo para não dizer a velhice, a decrepitude) é a melhor idade do ser humano. Os filhos estão criados – estão? Curte-se os netos sem responsabilidade – curte-se? E usufrui-se a aposentadoria – usufrui-se? A aposentadoria com dor nas costas, ou nos joelhos, ou nas pernas, ou nos pés, ou na cabeça. Ou na carteira vazia. Só falta doer a boceta ou o caralho. Ainda bem que o meu caralho de 80 anos não dói e funciona. Graças a Afrodite. Ou aos exus. Ou a pomba gira. É, só exercito meu pau com punheta. Às vezes com a imaginação e um pouquinho de creme Nivea. Às vezes com vídeo pornô. Fazer o quê? Como. Mijo. Cago. E bato punheta. E, ainda bem, continuo escrevendo. Sim, escrevendo. O velho David Haize, o libertário, o pornógrafo, o panfletário, o velho libidinoso, o octogenário safado, o fucking angry old man continua escrevendo. Produz escrita como produz porra. Sim, a escrita jorra como porra: produção orgânica constante. O leite dos colhões transborda. Como transbordam as histórias de minha mente. Acabo trepando com as letras, já que não tenho outra coisa. Cada um encontra seus recursos para superar suas limitações. E não só as limitações da idade. Existem muitas outras ao longo da existência. Muitos apelam para Deus. Eu não sei o que é Deus.

Valha-me santa bronha. A punhetação cresceu depois que ela apareceu pela primeira vez em casa. Para fazer faxina. Ela me olhava de um jeito esquisito. Eu diria que bem convidativo. Ousei.

– Você tem namorado?

– Tenho.

– Faz tempo?

– Dois anos.

– Namoro sério?

–  Sério.

– Que idade você tem?

– Vou fazer 15 anos.

– Parece ter 20 anos.

– As pessoas falam isso. O senhor é viúvo, não é?

– Sou. Duas vezes divorciado e duas vezes viúvo. Sinto falta da companhia de uma mulher. Você faz sexo com seu namorado?

– Não posso.

– Por que não pode?

– Só depois de casar.

– Você é evangélica?

– Sou.

– Pena.

– Por que pena?

– Ia lhe pedir uma coisa. Mas sou muito velho.

– O senhor não é velho.

– Como não?

– O senhor ainda é bonitão.

– Você acha?

– Acho sim. O que o senhor ia me pedir?

– Uma coisa proibida.

– Um pecado?

– Sim. Um pecado bem gostoso.

– Pode falar.

É foda velho sem foda. A gente se expõe. Faz loucuras aos 80 anos. O pau inquieto é algo muito foda. Justamente porque quer foda e não tem. Caralho, quanta hipocrisia, esses neopentecostais, esses crentes fanáticos, recalcados, reprimidos. Sedentos de uma boa boceta ou de um bom caralho. E que não ousam. Quanta estupidez. E o pior é que o mundo está submergindo nas trevas do fundamentalismo religioso. Que nojo. Nojo, sim, pois isso fede a cadáver em decomposição. Um verdadeiro asco para quem ama a luz, a liberdade, o gozo da existência. Uma verdadeira repulsa para quem gosta de testar os extremos da paixão. Céus, quanta ignorância. Esses cretinos não percebem que só se vive uma única vez. E que não existe nada além do prazer de existir. Sou hedonista mesmo. Até os colhões, claro. O que não impede que ame a arte e que beba constantemente em suas fontes para dissipar a sensação de absurdo que me impregna. O que seria eu, David Haize, sem a arte e o sexo? Nada. Um animal castrado. Um vegetal com vagos sonhos estelares de tetas e paus voadores.

Sim, uma tentativa de broto de carvalho tratando de contornar a pedra que o sufoca para se tornar uma bela árvore. Céus! É foda navegar num mar de mediocridade com a sensação angustiante do deslocamento permanente no império da vulgaridade e da grossura. Há um raquitismo de sentimentos e de altruísmo que tritura a alma na prensa. O humanismo caiu em desuso. E os humanistas são apontados com o dedo como enviados do demônio pela massa ignorante. Hoje em dia, presidentes de grandes países governam infantilmente pelo Twitter. O suprassumo do ridículo. Logo, o que faço eu neste mundo decadente a não ser meter e escrever? O que faço eu, quixotesco David Haize, neste mundo de areias movediças que engolem a supremacia da salutar racionalidade?

Sim, o que faço eu? Escrever e vomitar o que corrói a alma. E meter. Aliás, nem meter. Apenas o alívio da masturbação. É foda ser velho sem foda. Escritor maldito ainda por cima. Não aguento ler babaquices debiloides de gente comportadinha. Ou delírios estilísticos de alienados que não têm nada a dizer, que nem sequer têm imaginação. É, meu caro, ou você entra no mainstream editorial ou se fode para o resto da vida. E é justamente porque estou fodido que quero foder.

Sim, fodê-la. Enfiar o pau até os bagos e soltar o leite armazenado. Ai, David, você só escreve palavrão. Escrevo palavrão, sim. Ouso chamar as coisas pelo nome: pau, boceta, cu, bronha. Quer que use o que: pênis, vagina, ânus, masturbação? Tomar na sua rosquinha. Não tenho saco para aguentar as frescuras vitorianas da sociedade deste país que é a quintessência do conservadorismo.

– Não posso fazer isso.

– Por quê?

– Já falei. Só depois de casar.

– E depois de casada vai dar para mim?

– Não. Vou ser uma esposa fiel. Só darei para meu marido. É ele que vai tirar minha virgindade.

– Mas eu posso fazer sexo com você sem tirar seu cabaço.

– O senhor está muito assanhado.

– Você está louquinha para dar para o velho.

– O senhor é um velho safado.

– Safado e tarado por você.

– Vou embora.

– Mas você ainda não terminou a faxina.

– O senhor não me deixa terminar. Se minha mãe não estivesse doente, eu não estaria aqui no lugar dela.

– Quer ver meu pau?

– Não!

– Só dar uma olhada. Não precisa tocar.

Felação e sodomia. Ou, mais explicitamente, chupada e comida de cu. Mas aconteceu. Os deuses do amor (ou os deuses do cilindro e do santo orifício) permitiram que isso acontecesse com um pobre velho safado e tarado e punheteiro. A vida às vezes é bonita e generosa com o octogenário sedento de amor. David, vai bancar o hipócrita? Amor ou sexo? Começou pelo tesão. Mas depois que a conheci biblicamente (ou quase), a coisa mudou. O tesão virou uma imensa ternura, um imenso carinho por essa garota que me fez feliz. Ela apaziguou (temporariamente, claro) minha carência e me fez sentir vivo. Só me sinto vivo com o sexo e a escrita. A mãe dela se recuperou. E eu torço para que ela fique outra vez doente – mas não muito – para que a filha venha substitui-la na faxina de minha casa.

Não sou pedófilo não. Não gosto de sexo com criança. Não sinto nada. Mas a garota despertou em mim o que uma mulher de 20 anos desperta num macho. Sou um animal. O politicamente correto que se foda. Foi na boca na primeira vez e, na faxina seguinte, no cu. Uma delícia. Motivo para muitas punhetas futuras neste deserto de carência afetiva e sexual. Velho sem foda é foda. E se apaixona facilmente.

Em suma, Bukowski + Lolita + Nabokov + Kubrick + Polanski (fiz o que ele fez). Adoro arte. Moral? Foda-se a moral. Não tenho nada a perder. Sou livre. Vou morrer. Aliás, a única vantagem da velhice é a liberdade concedida pela proximidade da morte.

15-05-2019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sonho Salpicado de Pesadelos

 

Quando me vi, quando tomei consciência, no crepúsculo, estava sentado à beira da estrada.

À minha direita estava, sentado, um menino, meu irmão. A esquerda, sentado, meu pai, jovem. Eu folhava o original de um livro meu, num caderno de espiral. Quando cheguei ao meio do caderno, percebi que havia outro caderno menor – outro livro meu. Abri-o e, para minha surpresa, meu pai, sem tirar esse original das minhas mãos, começou a lê-lo, ele, que nunca lera um livro meu. Uma súbita emoção fez brotar duas lágrimas. Meu pai, sem uma palavra, secou-as com seu dedo indicador. A emoção cresceu. Fechei os olhos. Quando os abri, meu pai não estava mais ao meu lado. Nem meu irmão.

Durante alguns minutos permaneci sentado, quieto, entregue a uma doce sensação provocada pelo gesto de ternura de meu pai. Com um caderno dentro do outro embaixo do braço, com as mãos nos bolsos da calça, levantei-me e comecei a andar, pensando que, talvez, caminhando reencontrasse o meu pai e o meu irmão.

 

PRIMEIRA INTERRUPÇÃO/INTERVENÇÃO

Carnaval. Quadros de Uma Exposição – aliás, acompanhada da música homônima de Mussorgsky. Cores de Delacroix.

Quadro Um: Bolsonaro, como drag queen fantasiada de Lucrécia Bórgia, acompanhada de seus três filhos fantasiados de hienas deslumbradas, lambe, de olhos fechados, o ânus da drag queen Trump fantasiada de bobo da corte fantasiado de suíno chauvinista.

Quadro Dois: Ernesto Araújo, fantasiado de arcanjo caolho, cavalga o dragão de maldade, com uma bandeira enfiada no ânus, enquanto fela o longo pênis retorcido do dragão.

Quadro Três: Damares Alves, fantasiada de Messalina, copula com um bode enquanto 666 gladiadores contemplam o intercurso acariciando o membro, aguardando a sua vez de fornicar com ela.

Quadro Quatro: Ricardo Vélez Rodríguez, fantasiado de feto, dorme o sono dos justos dentro de um ovo de Hieronymus Bosch. À direita, Abraham Weintraub dorme dentro de um ovo de dinossauro decorado por Miró.

Quadro Cinco: Olavo Carvalho, fantasiado de Grande Pilantra, fantasiado de Rasputin, saudoso da czarina Alexandra Romanov, tenta seduzir a primeira-dama enquanto escreve escatologias de autoajuda.

Há um odor nauseabundo de vômitos e fezes congelados na exposição.

FIM DO PRIMEIRO FLASH

 

Era uma estrada de terra solitária, ladeada de choupos melancólicos. Não passava nenhum veículo, nenhum caminhante. O silêncio era total, apenas rompido por um ou outro crocitar de um corvo atrasado, o que adensava a atmosfera de melancolia que impregnava a paisagem. O sol declinava, quase desaparecendo no horizonte. Os álamos projetavam a sua sombra na estrada. Eu não pensava, não procurava, não esperava. Apenas caminhava.

Já era noite quando avistei uma chaumière à beira da estrada. Uma janela estava iluminada. Bati na porta. Uma mulher idosa, cuja fisionomia me lembrava a da minha mãe, abriu.

– A senhora por acaso viu o meu pai?

Ela sorriu, pensativa, e respondeu:

– Há tantos anos que não o vejo… Ah, o tempo. O tempo…

– O tempo?

– Sim. O tempo que varre tudo. Que destrói tudo como o vento de um temporal.

– Sei. O tempo… E o meu irmão, a senhora não o viu?

– O seu irmão, há uns anos, passou por aqui com a mulher e a filha.

– Há uns anos?

– Sim. Há uns anos. O tempo…

– Que tempo?

– Você está procurando o seu pai?

– Acho que sim. Sempre o procurei.

– Continue caminhando. Você encontrará a casa da cartomante. Talvez as cartas revelem o paradeiro do seu pai.

 

SEGUNDA INTERRUPÇÃO/INTERVENÇÃO

Coroação da Imperatriz Mediocridade do Brazil (sic). Séquito da nobreza bastarda: A Imbecilidade, A Mentira, A Ignorância, A Intolerância, A Corrupção, O Retrocesso. Luxo, fulgor, opulência. Mediocridade, em trajes de Josefina de Beauharnais, brilha como uma deusa suburbana. Lá fora, a massa ignara grita: Viva a Imperatriz Mediocridade! Longa vida à Imperatriz Mediocridade.  A “Marcha Triunfal” de “Aida”, de Verdi, impede que se ouça uma indiscreta flatulência da Imperatriz Mediocridade. Cores de Jacques-Louis David. Já é noite. Festa. A Divina Sacerdotisa, Marafona Mor do Templo Universal, em trajes de Salomé, executa a dança dos sete véus e pede a cabeça da Inteligência. Escuridão. Fogo de artifício. Apoteose.

FIM DO SEGUNDO FLASH

 

 

 

Fechei a porta. Continuei andando. Depois de uma centena de metros, vi luz na janela de uma casinha, uma outra chaumière. Bati na porta.

– A senhora é cartomante?

– Sim. Entre. Tem como pagar?

– Não.

– Não faz mal. Você é um homem de bem. Sente-se.

Era um ambiente só, mal iluminado por um lampião. Uma vez sentados, ela disse enquanto embaralhava as cartas e as colocava sobre a mesa:

– Você olha demais para o passado. Você precisa se afastar desse peso. O passado só lhe trava a vida. A vida não é como nós queremos, mas como determinam os astros. Há coisas que não podemos mudar. Coisas que temos de aceitar. O que você quer saber especificamente?

– Meu pai.

– Seu pai partiu há muito tempo. Deixe-o em paz. Ele foi duro com você, mas foi um bom pai.

– Ele estava comigo há pouco, na estrada, e leu um pouco de um dos meus livros. E me senti muito feliz.

– Ele sempre te amou muito. Embora não o demonstrasse.

– E meus livros? Qual será o destino dos meus livros?

– A glória literária virá. Mas demorará. Você tem Saturno no seu itinerário. Conte sete estrelas durante sete noites e faça o seu pedido, antes de dormir, depois de colocar um espelho debaixo do travesseiro.

– E se eu não tiver mais nada a pedir?

– Então siga caminhando que você encontrará a casa das Três Feladoras, onde você poderá se divertir até esgotar o seu tempo.

– O meu tempo?

Saí e continuei caminhando.

 

TERCEIRA INTERRUPÇÃO/INTERVENÇÃO

Preto e branco. Como as gravuras de Oswaldo Goeldi.  Edifícios públicos em chamas. Residências dos parlamentares em chamas. Bancos em chamas. Multidão nas avenidas arrastando os corpos dos políticos e empresários corruptos, dos criminosos do meio ambiente e dos forjadores de mentiras. Clima dantesco. Ouve-se Aleluia do Messias, de Handel. Depois, noite, corpos sem sepultura. Cinzas. Devastação. Desolação. Ouve-se Trenodia Para as Vítimas de Hiroshima, de Penderecki. Apocalipse. Silêncio.

FIM DO TERCEIRO FLASH

 

Depois de uma boa caminhada no escuro, vi mais uma casinha à beira da estrada. Bati à porta. A porta se abriu e vi, mal iluminadas, três mulheres idosas que lembravam as figuras das velhas grotescas de Goya. Uma fiava. Outra tecia. A terceira cortava o fio. Quando elas me viram, começaram a rir sem parar. Teria eu entendido mal a palavra da cartomante? Seriam essas três anciãs as Fiandeiras (ou fiadoras da existência?) em vez de as Feladoras?

14-04-19

 

 

 

 

 

 

O Gigolô Honesto

março 12, 2019

O Gigolô Honesto

 

        Preciso escrever sobre o assunto. Mas num tom cool. Sem investidas contra a tísica moral vigente. Sim, devo-lhes um livro. À generosidade de minha amante e à compreensão de minha esposa.

Talvez deva intitular o relato de ‘Os Cínicos”. Ou “Os Blasés” (não tem tradução). Ou simplesmente “A Felicidade”. Sim, a felicidade. A felicidade de gente que não tem preconceitos. De gente intelectualmente superior? Sim, talvez.  Ou deveria ser o título “Os Imorais” (muito usado)? Não tenho nada a provar neste relato (“baseado em fatos reais” ou numa “história verídica” como diz a publicidade de livros e filmes) Nada a provar e menos ainda a justificar. Não devo satisfação a ninguém a não ser a minha consciência. E minha consciência está tranquila. Sou, como todo escritor que se preze, livre. Não faço concessões. Não tenho explicação a dar a ninguém. Nas sou hipócrita. Não minto.

O começo.

– Você é muito bom escritor. Mas deveria produzir mais.

– Tenho um emprego e não tenho como escrever com mais assiduidade.

– Largue o emprego.

– Como, largar o emprego? Vou viver de quê? Tenho mulher e dois filhos.

– Posso te ajudar.

– Como, me ajudar? Preciso de um salário.

– Eu te daria um salário.

– Em troca de quê?

– De companhia.

– A senhora…

– Já te falei para não me tratar de senhora.

– Você quer dizer de sexo?

– Sim. De sexo.

Silêncio.

– Preciso falar com minha mulher.

– Você acha necessário?

– Sim, claro. Como vou justificar a origem desse salário?

– Você é muito honesto.

– Gosto de fazer as coisas às claras.

– Bem. Não há pressa. Mas não creio que sua mulher aceite a proposta do marido. Ela é ciumenta?

– Ela me ama e eu a amo. Teria de ser um jogo limpo.

– Entendo. Mas acho que a prioridade é sua literatura.

– A literatura é muito importante para mim. Mas eu amo minha mulher.

Conheci-a num jantar de amigos. Conversamos muito. Viúva, sem filhos, era culta, inteligente e franca. Dava a impressão de que tinha bastante dinheiro. Mas não o ostentava. Era fina e elegante. E, digamos, bonita, levando em consideração seus 70 anos que eu calculava que ela tinha. Nuns minutos em que nos encontrávamos sozinhos no jardim, ela me fez a proposta. Uma proposta perturbadora e excitante. Voltei para casa com minha mulher. Não parava de pensar nisso. Abria-se uma perspectiva que me eletrizava.

Pensei durante dias. Meu pensamento, mesmo sem eu querer, ia parar na proposta. Claro que estava disposto a aceitar. Não tinha absolutamente nenhum escrúpulo em me fazer pagar por sexo. Tem mais, confesso que desde muito jovem – adolescente – sonhava em me fazer pagar por sexo. Era algo que, obscuramente, me fascinava. Verdadeira vocação de puta. Ou, melhor dito, de puto. Puto, literalmente, profissional. Era algo muito obscuro que eu não sabia de onde vinha. Logo, eu iria unir a paixão pela escrita com o desejo de ser pago por sexo. O útil ao agradável. Que mais poderia eu pedir? Era a fusão da mente com a sexualidade. É óbvio que sempre fui suficientemente lúcido e evoluído para conscientizar-me de que, no fundo, numa sociedade absolutamente hipócrita e mercenária voltada apenas para o dinheiro, todos, com raríssimas exceções, eram putos e putas, já que todos trabalhavam por dinheiro. Só não era puta ou puto quem trabalhava por amor. Aí poderia incluir os escritores (não todos, claro) e os verdadeiros artistas. Ou seja, aqueles que fazem tudo pela arte. E que são capazes de morrer por ela.

Falei com minha mulher. Ela chorou.

– Vou ganhar o dobro.

– Você vai me largar.

– Nunca. Jamais faria isso. Eu te amo e te desejo.

– Não quero te dividir com ninguém. Não se divide com ninguém quando se ama.

– Não estou te dividindo com ninguém.

– Como não?

– É apenas uma questão profissional.

– Que seja. Mas a literatura é mais importante para você do que nosso amor.

– Não fale assim. Você sabe que vivo para você e nossos dois filhos.

– Não sei. Não sei. Só sei que não quero te perder.

– Juro pelo mais sagrado que você nunca vai me perder. E não vai te faltar sexo.

Ela acabou aceitando. Com restrições. Eu teria um tempo limitado para passar com minha… benfeitora. Uma vez por semana. Com o tempo ela foi aceitando o acordo como algo natural. Pois era de fato algo natural. Passei a transar mais frequentemente com ela, já que me sentia menos cansado sem emprego. Nosso nível de vida melhorou muito. E minha produção literária foi aumentando. Sentia-me satisfeito ao ver que ganhava a vida com meu membro – com os livros ganhava muito pouco – que felizmente cumpria com seu dever conjugal e com o compromisso profissional. Meu membro, que nunca me decepcionara, que nunca me traíra. Meu membro, do qual eu gostava muito e que me dava muito prazer e satisfação. E que estava sempre com disposição, pois, graças a Deus, eu tinha um excelente apetite sexual – que aumentara quando larguei o emprego. Meu membro, do qual eu tinha muito orgulho. Falocentrismo? Sei lá. Machismo? Sei lá. Estava pouco me lixando para as feministas de carteirinha. Mesmo porque sempre fui a favor da igualdade de gêneros. É claro, é óbvio que preferia ser o puto, e não minha mulher a puta.

Com o tempo, esposa e mecenas se tornaram amigas. Jantávamos em restaurantes, íamos ao cinema, teatro, concertos e exposições sempre os três juntos. E ela (minha benfeitora) promovia meus livros entre suas numerosas amizades. Ela era discreta, mas não escondia que era minha amante. Amoral? Não. Apenas eu aproveitara uma oportunidade na vida sem enganar ninguém. Além do mais, a moral é algo muito relativo.

Minha protetora morreu há um ano. Aos 85. Passei 15 anos com ela. Fui-lhe fiel. Fi-la feliz. Deixou-me dois apartamentos de alto padrão, uma chácara e uma casa na praia, além de uma boa quantia de dinheiro. Que mais posso desejar? Continuo escrevendo – que é o mais importante e não preciso de emprego para manter a minha família.  Em suma, mais vale se prostituir com uma mulher do que com um emprego. É mais honesto prostituir o membro do que prostituir a mente. Quanto à moral burguesa, que se dane. Estou acima dela. Jactância? Sim, e daí?

22-02-2019

 

 

 

 

 

Prece do Libertário

janeiro 7, 2019

Prece do Libertário

Deus,

Liberte-me da massificação da mentira, da negação do fato, da ignorância da maioria manipulada pelo poder, do próprio poder estabelecido.

Liberte-me da normalidade sufocante, massacrante, que demoniza a suposta anormalidade.

Liberte-me da submissão ao radicalismo totalitário, seja religioso ou ideológico, que restringe meu pensamento e o cerceia.

Liberte-me do modelo padrão que elimina a possibilidade de escolha de um modelo diferente.

Liberte-me da afirmação da tua existência, pois é na dúvida que me elevo a alturas sem limites.

Liberte-me do que não muda, do que não evolui, pois a estagnação de ideias e sistemas leva à degradação e à morte.

Liberte-me da aberração das superstições religiosas que ofendem a inteligência, a lógica e a Razão.

Liberte-me da obediência para que possa me manter íntegro perante a minha consciência.

Liberte-me das amarras que prendem a rebeldia que sustenta a minha dignidade.

Liberte-me de minha omissão e faça meu grito de revolta me tornar superior.

Liberte-me da violência de não ser eu mesmo, de não me respeitar.

Liberte-me de subordinar a Liberdade a interesses mesquinhos.

E liberte-me da arrogância de acreditar, para poder crer.

16-10-2018