Oi, Vizinho. Posso Entrar? Feliz Natal!

 

– Não acredito. Não posso acreditar. Se eu não visse com meus próprios olhos, não acreditaria. Como é que pode?  É muita desfaçatez. É muita cara-de-pau. É muita sem-vergonhice. Eu não sou nem fresca nem puritana. Mas tem certas coisas que não admito. Tem coisas que passam do limite e que são inadmissíveis. Todos nós temos defeitos. Todos nós damos mancadas. Todos nós temos falhas. Todos nós erramos. Mas a paciência se esgota. E a tolerância tem limites. Não sou perfeita. Longe disso. Mas tem uma coisa: eu não admito falta de respeito. Sou tempestiva. Temperamental. Deve ser o sangue espanhol do meu pai e o sangue italiano da minha mãe. Mas sou justa e me revolto com injustiça. E rodo a baiana quando é preciso. E coitado daquele ou daquela que me enfrentar. Porque não deixo barato. Sou uma mulher educada, compreensiva e carinhosa. Mas não cutuque a onça com vara curta. E eu sei muito bem o que estou falando. E como sei! Faz tempo que poderia ter dado um chute no meu marido. Que ele bem que merece. Mas não faço isso. Não por falta de coragem. Porque coragem tenho até de sobra. E sou muito decidida. Não penso duas vezes. Mas não o largo porque o amo. Se ele merece meu amor, é outra história. Nada me impede largá-lo. Nossas duas filhas já casaram. Estou sozinha com ele em casa. Às vezes me pergunto: por que fico com esse homem que… Deixa para lá. Fico com ele porque o amo. É meu marido, pai de minhas filhas e o amo. É claro que poderia apelar para algo mais cômodo que me permitisse gozar a vida sem abandoná-lo. Mas eu tenho princípios. Princípios muito sólidos que herdei dos meus pais. Não sou mulher de enganar ninguém. Menos ainda meu marido. Não sou mulher de vários homens. Quando estou com um homem, é só esse homem. Não interessa se já não transo mais com meu marido. Ele bebe. Bebe demais. E a bebida impede a ferramenta de funcionar. Paciência. Todos nós temos nossa cruz. Eu ainda tenho muito carinho e ternura por ele. Mas não sou santa nem heroína. E confesso que sinto falta de sexo. Que tenho muito desejo. Sou uma mulher fogosa que curte os prazeres da cama. Mas arranjar um amante é algo que não me passa pela cabeça. Embora ele, meu marido, tenha insinuado, sem falar abertamente, que posso arrumar outro homem, desde que não largue o companheiro de tantos anos. Pobrezinho do meu marido, nunca, jamais vou largá-lo. Não sei como iria me sentir nos braços de outro homem. Pensaria no meu marido e me sentiria culpada. Ah, meu Deus! O que eu não daria para que a ferramenta dele funcionasse. Já até rezei para santo Antônio para que ele realize esse milagre doméstico. Mas aparentemente santo Antônio deve ter coisas mais importantes para resolver. Mas deixemos minha história de lado. O que eu queria mesmo é falar de você, meu caro vizinho. E de tua tristeza. Uma tristeza mais do que justificada. Não me conformo com o que está te acontecendo. E, para falar a verdade, fico revoltada com o que você é obrigado a engolir. Sabe, vizinho, o que te ocorre me toca, me afeta, pois você é uma pessoa que apreço muito. Mas não vá pensar mal. Não estou te cantando. Apenas… Apenas bato no teu apartamento para te entregar um panetone para as crianças e uma garrafa de vinho para vocês e… E de repente você começa a chorar e me conta. Me conta algo que já sabia, pois ninguém é bobo e só uma parede separa meu apartamento do teu. Um homem tão bom. Tão trabalhador. Tão amante de sua família. E tão bonito. Porque você é um homem muito bonito. Se eu fosse tua mulher… Deixa para lá. Ela não sabe o que está perdendo – ou vai acabar perdendo. Ela vai se arrepender, essa biscate, essa vagabunda, essa vadia. Desculpe, meu querido, desculpe. Quando estou brava xingo para valer. Essa mulher não tem o mínimo respeito por você nem pelos teus filhos. Isso não é coisa que se faça com o pai dos filhos dessa vaca no cio. Tua mulher não te merece. Dá um chute nela. Mande-a para puta que pariu. Sabe de uma coisa? Ela merece uma surra. Tem que apanhar para aprender a respeitar o marido e os filhos ainda pequenos. Mas nem puta faz isso. Isso mesmo, pior do que marafona. Desculpe, meu querido, mas estou muito revoltada como o que essa rameira te aprontou. E não é a primeira vez. Sei lá quantos amantes ou casos ela já teve. Já a vi com vários homens. Uma vez no shopping, no cinema, à tarde, beijando um barbudo. E uma vez que você viajou com teus filhos para a casa dos teus pais, ela trouxe um macho careca para tua casa. E transaram a tarde toda na tua cama. Eu ouvia a putana gemer de prazer, de tão alto que ela gemia. Mas desta vez ela extrapolou. Muito filha da puta mesmo. Muito sacana, a lazarenta. Quer dizer que a safada da cadela, com furor uterino, com a boceta em chamas, provavelmente porque conheceu um novo macho hoje mesmo e não podia perder a oportunidade de meter (vai ver que o macho estava de passagem pela cidade e ia embora no dia seguinte), decide passar a véspera de Natal fodendo com o amante casual e larga marido e filhos esperando-a para a ceia de Natal! Mas nem puta rampeira faz isso! E você não fala nada?

– Eu amo minha esposa.

 

15-10-16

 

 

 

 

Zotão dos Divinos Bagos

novembro 1, 2016

Zotão dos Divinos Bagos

ou

Quando a Sagrada Berinjela Pulou a Cerca

 

 

 

Oh, vem com o velho Khayyam, e deixa os sábios!

Uma coisa é certa: a vida voa; uma coisa é certa,

o resto é mentira. A flor que nasce uma vez morre

para sempre.

Khayyam

 

 

Caríssimo amigo Marquis,

 

Num ataque (ou surto) de repentina veleidade literária ou, mais especificamente, cronista ou missivista, resolvi te contar como conheci meu atual amor. Algumas coisas que transcrevo não as presenciei, mas consegui costurá-las com pequenos detalhes que fui garimpando em conversas.

Como você sabe, eu era um marido fiel até conhecer a Zuzú (Zuleica), que era viúva fazia alguns anos. Mas primeiro faz-se necessário te relatar por que, sendo um marido fiel, amante de minha mulher, de minhas duas filhas e da vida familiar, pulei a cerca, como se costuma dizer. Acontece que minha esposa Lúcia, não sei se por depressão ou no fundo cansada de nossa relação, começou a frequentar uma igreja neopentecostal no intuito – acho eu – de salvar nosso casamento. Até aí, tudo bem. Respeitei sua decisão. Porém, ela queria que eu também frequentasse a igreja, mas eu me recusei. Ela insistiu. Mantive minha recusa. Mas um belo dia ela me veio com uma conversa que me deixou muito puto. Você é homem e vai entender.

– Jonas, eu queria te dizer uma coisa muito séria.

– Fala, Lúcia.

– É o seguinte, bem, não me leve a mal, mas…

– Mas o quê, Lúcia? Fala logo.

– Bem, eu gosto muito de você, meu bem. Você é      meu marido e pai de nossas filhas e…

– E daí?

– E daí que não posso mais… Por favor, não fique      bravo comigo.

– Lúcia, desembucha logo o que você tem a falar.      Não vai me dizer que você arrumou um amante.

– Credo, Jonas! Como você pode falar uma coisa       dessas! Você me ofende.

– Estou brincando, querida. Mas fala logo o que         está te incomodando.

– Jonas, meu querido marido, não vou poder fazer     mais sexo com você.

– O quê? Não estou entendendo.

– É isso mesmo. Não vou poder ter mais relações       sexuais com você.

– Você pretende ter sexo com outro homem? Você    se apaixonou por outro homem e pretende ter sexo com ele?

– Pelo amor de Deus, Jonas! Não fala assim! Você     sabe que sou uma mulher honesta, decente, fiel, que        respeita seu marido.

– Então continuo sem entender.

– Jonas, meu amado marido, nossas duas filhas já      se tornaram adultas e nós não vamos ter mais filhos.

– E daí?

– Que sexo é para procriar, senão é pecado.

– É isso o que você aprendeu na igreja?

– É o que está escrito na Bíblia.

Veio-me uma raiva súbita: minha mulher, em     questão de algumas semanas virara fundamentalista,    fanática. Deu-me vontade de gritar: enfia tua igreja    no cu porque eu vou cair fora desta casa. Mas         contive-me e disse, frio e radical:

– Você está me propondo o divórcio?

– Não, pelo amor de Deus! O casamento é indissolúvel.

– Você não espera que fique com você sem mulher,   né? Ou você acha que vou passar o resto da       minha      vida me masturbando?

E saí sem esperar resposta. Fui dar uma volta de        carro. Estava perplexo, revoltado. Sentia-me     rejeitado. Mesmo porque eu amava minha mulher. A       Lúcia me dera um banho de água gelada. Respeitei    sua decisão e não lhe pedi sexo, nem uma única vez.        Estava profundamente decepcionado. Meu casamento     ruíra depois de 25 anos. E após algumas semanas na     base do “cinco contra um”, resolvi caçar mulher.       Procurei de vários modos. Estava sempre de antena ligada, pressionado pela premente necessidade de       sexo. Afinal de contas, um homem de 51 anos não vai    ficar sublimando o sexo ou viver de fantasias     punheteiras. E acabei conhecendo a Zuzú pela    internet.

Mas eu saíra de uma relação estável com a Lúcia       e procurava uma relação séria. O que não era exatamente o que a Zuzú queria. Ela desejava um   relacionamento sem compromisso. Queria passar bem       na cama comigo e, para falar a verdade, também fora     da cama. A Zuzú é uma branca culta e gosta de curtir a arte. Passamos a ir ao cinema, ao teatro, a         musicais, a concertos e exposições. E fui-me      transformando. Não que eu seja ignorante. Como         advogado, tenho um certo grau de cultura e gosto    de ler, mas nunca fora muito ligado à arte. Isso, fora da cama. E na cama… Santo Deus! A mudança foi     radical. Zuzú é um vulcão. Tudo o que um    homem    pode querer entre quatro paredes. Passei a fazer com         ela coisas que         jamais fizera com minha mulher.        E ela me fez coisas que a Lúcia nem imagina que   possam ser feitas. E, incentivado por ela, que é boca       suja, bem escrachada na        cama, me acostumei a           falar palavrão quando metia.        A Zuzú me fazia rir na   cama. Fazia-me dar gargalhadas. Para começar,      deixou de me chamar de Jonas para me chamar de         Jotão, e, mais tarde, de Zotão – apelido que eu achava engraçado.      Isso além de uma lista de outros   nomes que não acabava         nunca, pois ela, criativa e      teatral, sempre a renovava. Atributos e definições,      que giravam em torno da minha genitália, tais como         “chourição da minha vida”, “PG, ou seja, pau     grosso”, “divinas bolas da Zuzú”, “divinas ameixas pretas da Zuzú”, “divinos bagos do Zotão”, “sagrada berinjela da minha         vida”, “santa pica de ébano da      Zuzú”, “cilindro negro do meu coração”. E quando        estávamos trepando, dizia: “fala que sou a puta       branquela do   negrão”, “fala que o negrão gosta da         boceta da        branquela”, “fala que o negrão quer irrigar         a racha da branquela”, “fala que a branquela é a      escrava do negrão e que o negrão faz com a        branquela tudo o que ele quiser na hora de meter”. E        eu, divertindo-me, repetia e ria.

Mas a Zuzú, viúva como disse, não era feliz       como       seus comentários e brincadeiras    esculachados poderiam deixar supor. Não era feliz e      não era livre. Tinha um amante fazia anos. Um         homem casado que ela amava. Mas sabe como é,    homem casado, via de   regra, não larga a mulher. Ou por conveniência, ou por falta de coragem ou por         preceitos religiosos. E ela passou a sair comigo como forma de compensar sua solidão de condição de         “a outra”, de coadjuvante que percebia que nunca        teria a chance de ser a protagonista. O amante, vira         e mexe, lhe dava o cano. E ela ficava em casa, esperando em vão. A família era      a prioridade dele.   Fosse para jantar fora, para ir ao   cinema, para visitar     amigos ou para cumprir com o dever conjugal. Uma vez ela deixou o amante esperando, ou seja, deu     cano, e quando ele lhe pediu         satisfação, ela         simplesmente respondeu que se ele tinha sua mulher,   ela podia ter outro homem. E ele teve de engolir.      Mas a relação com a Zuzú – embora    me fizesse       muito bem física e mentalmente – não me satisfazia   plenamente, não era o que eu queria. Eu almejava     uma mulher só para mim, uma relação fixa, estável.

Bem, introduzi a Zuzú para te contar como foi   que conheci, ou, melhor dito, como comecei a me relacionar com a Fina (Delfina). Aconteceu mais ou        menos assim, pelo que pude deduzir do que me foi         relatado.

F – Entre, querida. Que prazer recebê-la. Tudo bem   com você?

Z – Tudo bem, Fina. E você?

F – Tudo em ordem, Zuzú. Mas poderia estar melhor.

Z – Está te faltando algo para completar esse tudo em       ordem?

F – Está, Zuzú, está.

Z – O quê? Um homem? Você está apaixonada?

F – Acho que estou. Quer dizer, não sei. Bem…

Z – Fina, está ou não está apaixonada?

F – Querida não posso afirmar que esteja apaixonada        se mal falo com ele. Só bom dia, boa tarde e até logo.   E uns olhares significativos da parte dele. Acho que      ele é tímido. Não sei qual de nós dois é mais tímido.

Z – Fina, está esperando o quê? Dá uma dica para ele.       Algo que o faça entender. Nem sempre é o homem       que tem de dar o primeiro passo. Vai ficar com a      compadecida criando teia de aranha, sem fazer nada?

F – Ai, Zuzú, não comece com esse seu linguajar       chulo.

Z – Não falei nada demais. Disse a compadecida em vez de usar o termo boceta.

F – Credo! Que horror! Detesto essa palavra.

Z – Mas é graças à santa boceta que existe a       humanidade, ou não é?

F – Para, Zuzú. Senão não conto mais nada.

Z – Conta então. De onde você o conhece?

F – Do escritório. Ele vai frequentemente ao      escritório. É sempre muito educado e amável comigo.         Um dia ele me trouxe uma caixa de bombons.

Z – Porra, Fina! Ele já te deu sinal. Faça algo. O cara        está interessado em você. Saia com ele. Conheça-o   melhor. Não precisa disponibilizar a boceta logo no     primeiro encontro.

F – Zuzú, ou você para de falar palavrão ou eu não    conto mais nada.

Z – Tudo bem. A vagina. O que ele faz?

F – É advogado. Dr. Jonas.

Z – Negro? Bonitão? Cinquentão?

F – Sim. Você o conhece?

Z – Como o mundo é pequeno.  Sim, eu o conheço.

F – De onde?

Z – De… De alguns contatos profissionais.

F – O que você acha dele?

Z – Bonitão e muito gostoso.

F – Como você sabe que ele é gostoso?

Z – Bem… Eu… Basta olhar para ele para saber que é        gostoso. Deve ter um cacete bem grosso e um par de colhões enormes.

F – Credo, Zuzú! Como você fala! Parece mulher da vida.

Z – Ué, você não gosta de um pau bem grosso e de    duas bolas bem grandes? Negro é bem dotado de rola e de bagos. Você nunca transou com negro?

D – Eu não. Você sabe que só tive três homens na      minha vida. E todos brancos.

Z – Você não sabe como é bom um macho negro na cama.

F – Nem quero saber. Eu quero é amar e ser amada.   Não estou à procura de pênis e testículos avantajados,    sejam de negro, de branco ou de amarelo.

Z – Pois é, minha filha. É por isso que você ficou       solteirona. Você perde seu tempo. Você deixa a vida     escapar. Só se vive uma única vez. A gente tem de   agarrar a vida como ela se apresenta, sem exigir        demais. Que foi? Ficou triste pelo que falei?    Desculpa, minha amiga, não quis te magoar. Gosto        muito de você e quero que você aproveite a vida e     seja feliz.

F – Não é nada, Zuzú. Você tem razão, sou uma         boba.

Z – Você não é nenhuma boba, Fina. Você é uma       mulher inteligente e sensível. Uma cinquentona muito      bonita. Talvez um pouco à moda antiga. Diferente de       mim. Eu sou mais extrovertida, mais atirada. Mas         masculina no sentido de agir, de tomar a dianteira.    Depois que meu marido morreu, descontei o tempo       perdido e conheci biblicamente todos os homens que        quis. Nunca traí meu marido. E descobri com outros         homens, o quanto ele era comportado na cama. E       passei a gostar do sexo selvagem, como dizem. Agora     estou tendo um novo caso. Com um homem negro,        por sinal.

F – Mas e o Pedro? Você rompeu com ele?

Z – O Pedro é meu amante oficial, por assim dizer.    Mas de vez em quando preciso castigá-lo      um   pouco      para ele sentir como é dividir a pessoa     amada com     alguém. Pimenta no cu dos outros não         arde. Amo o     Pedro, mas estou cheia de ser “a   outra”. A amante,   que só recebe o que sobra de        tempo, de atenção, de compartilhamento da vida.

F – Eu entendo, querida, eu entendo.

Z – Por sinal, convidei meu… sei lá o que ele é. Digamos meu caso temporário, para vir aqui, jantar   conosco. Ele deve chegar daqui a pouco. Você não se    incomoda, né?

F – Não, minha querida, em absoluto. Será bem-        vindo.

Z – Se faltar comida, pedimos uma pizza ou comida chinesa.

F – Não se preocupe, Zuzú. Fiz bastante comida.        Preparei um couscous marroquino.

Z – Que delícia!

F – Estão chamando no interfone.

Z – Deve ser ele. O Zotão.

F – Zotão é o nome dele?

Z – Sim, Zotão das divinas ameixas. Porque tem uns formosos bagos que parecem ameixas pretas.

F – Zuzú, você não tem jeito.

Z – Os cilindros e as esferas masculinos me fizeram perder o jeito há bastante tempo. Graças a Deus,    passei a curtir intensamente as delícias da carne de macho bem apimentada. Quem se atém só ao papai-  mamãe não sabe o que está perdendo. Além do mais,     arroz e feijão todo santo dia cansa.

Subi ao apartamento. A Fina fez uma cara de     espanto   quando me viu. A Zuzú sorriu    maliciosamente e me piscou discretamente.         Abrimos uma garrafa de vinho. Passaram-se uns dez minutos. O celular da Zuzú   tocou. Ela atendeu. Falou pouco e        desligou.

– Gente, minha mãe não está passando bem. Preciso ir.    Não se preocupem comigo. Continuem com o        vinho. Ligo mais tarde.

E a Zuzú saiu. Continuamos bebendo, a Fina e   eu. Uma meia hora depois, Zuzú ligou:

– Fina, jantem vocês dois. Minha mãe está melhor,    mas não vou sair, não quero deixá-la sozinha. Um   outro dia programaremos um novo jantar para nós duas. Um beijo. Dê um beijo ao Zotão.

Jantamos. Conversamos muito. Fina é uma         mulher    adorável. Delicada, feminina, sensível,        inteligente e muito bonita. Um amor de branca, para    falar a verdade. Continuamos tomando vinho, que foi         deixando os corações e outras partes saltitantes.         Pintou um clima de sedução. A pomba-gira entrou no    apartamento. Afrodite, a safada, e os Exus        conspiraram – ou melhor, cooperaram. O mastro        começou a ficar inquieto – como animal que detecta    o odor sagrado – e ficou muito doido. E de repente,       os sinos do Zotão dobraram alegremente entre as         pernas enquanto o cilindro afundava prazerosamente         na santa caverna… E assim começou o nosso amor, quando eu menos esperava.

É só isso por enquanto.

Deu certo o novo emprego?  Espero que esteja           tudo bem com você e família.

Um abraço fraterno do Jonas.

P.S.: No próximo fim de semana estou livre. Vamos tomar uma cervejinha? Ligue-me.

 

18-09-2016

 

 

Uma Semana na Vida de Um Escritor

 

 

Segunda-feira

        Não sei o que deu em mim de querer escrever um diário. Para alguém de vida insípida, não faz sentido escrever um diário. Ou talvez faça justamente porque não tenha nada a dizer. O que me leva a indagar o motivo de não ter nada a dizer. Mesmo porque em literatura pode se extrair muita coisa do nada. Refiro-me aos nadas da vida, os nadas cotidianos. Nada a ver com o Nada. Esse Nada que converge com o Absoluto. Por outro lado, mesmo que seja para escrever apenas um parágrafo diário, o fato de sentar e redigir as pequenas ocorrências do dia a dia já significa estar escrevendo, estar ativo. E eu preciso absolutamente escrever para sobreviver. Não para sobreviver materialmente (como fazia Balzac, que escrevia compulsivamente para publicar e pagar as dívidas), porque meus livros não me rendem praticamente nada, mas para sobreviver mentalmente, intelectualmente, já que é a escrita que me energiza e me faz tocar o barco. É a escrita que constitui minha razão de continuar vivendo. Estou tão imbuído do absurdo universal, que só a escrita me tira desse absurdo e dá um norte a minha existência. Não creio em nada, a não ser no prazer. E a literatura é um prazer. Nesse sentido talvez eu seja mais epicurista que hedonista. Embora o hedonismo (sexo e comida) esteja presente em minha vida diária e em minha obra. Deste mundo nada se leva. Portanto, o que importa é gozar o que a existência nos oferece sem questionar em absoluto o apego ao prazer. Mesmo porque só se vive uma vez. Sempre digo e repito isso. E nada prova o contrário. Logo, não deixemos para amanhã o que podemos gozar hoje.

 

Terça-feira

        Como disse ontem, o importante é escrever algo, por pouco que seja, todo dia. E atualmente não tenho tempo para escrever um livro. Um livro, um romance, por exemplo, requer meses de anotações e de maturação. E depois, de um a três anos para ser redigido e lapidado. No caso, tratando-se de um romance médio, de umas 200 páginas. Isso sem contar que o romance exige uma assiduidade, por assim dizer, de trabalho. Em outras palavras, o escritor não pode ficar um longo período sem redigir o romance uma vez começado. Não pode, por exemplo, escrever hoje dez ou vinte páginas e passar duas ou três semanas sem retomar o trabalho. O romance requer uma continuidade de criação sem longos períodos de interrupção, senão o autor perde o fio da meada.

Hoje fiz faxina em casa. O que leva praticamente o dia todo. Faço eu mesmo porque não tenho como pagar uma faxineira. Ando mais duro do que pau de recém-casado. Para compensar a chatice de limpar a casa – não gosto mesmo de me ocupar da casa – coloco música. Blues (Buddy Guy, BBKing, Koko Taylor, Alberta Hunter, Janis Joplin), que adoro e que me transmitem muita energia. Ou determinadas árias de ópera (como Toreador, de Carmen, de Bizet, Libiamo, de La Traviata, de Verdi ou Lascia ch´io pianga, de Rinaldo, de Haendel) que também me passam energia. Ou oratórios como A Paixão de São Mateus, de Bach ou O Messias, de Haendel, igualmente muito energizantes. Nunca ouço o famoso adágio de Albinoni, durante a faxina, pois fico muito triste, muito mesmo e aí esse estado é negativo para executar a tarefa. Ouço esse adágio quando quero me preparar para escrever algo muito melancólico, muito nostálgico. Levo umas oito horas para limpar o apartamento. Às vezes paro para dançar um blues de Koko Taylor (deve ser engraçado, eu pelado, mas de tênis, dançando blues com a vassoura na mão), ou para sonhar um pouco com Libiamo ou para fazer alguma anotação de ideia surgida repentinamente na minha mente ou para tomar chá verde e fumar um cigarro, o que atrasa a faina caseira – e no fim do dia não tenho nenhuma disposição para escrever. No máximo participo de algum debate de escritores pela internet e dou meu ponto de vista de fucking angry old man. Não tenho muito saco para contemporizar nesses debates.

Hoje talvez assista a algum filme na TV a cabo. Não posso ficar muito tempo sem ver um bom filme. Mas não tenho paciência para ver esses blockbusters que deixam certos críticos (que não sabem o que é cinema) extasiados como cretinos. Por sinal, a semana passada revi Um Lugar ao Sol, de George Stevens. Grande filme. O tipo de obra perfeita: roteiro, fotografia, interpretações de Montgomery Clift e Shelley Winters mais o esplendor da beleza de Elizabeth Taylor. Sem contar, obviamente, a direção de Stevens, primorosa nos detalhes, no distanciamento, na contenção e na crítica social. George Eastman, o protagonista, é devorado pela engrenagem social, exatamente como o inesquecível Julien Sorel do emblemático O Vermelho e O Negro, de Stendhal. Ambos, pobres, mas ambiciosos, são destruídos pela aristocracia que não perdoa que alguém de classe social inferior ouse.

 

Quarta-feira

        Ontem à noite, depois de ver o filme (Fruitvale Station – Última Parada (muito bom, gosto muito do cinema independente norte-americano) na TV paga, dei-me conta de que só tinha uma lata de sardinhas, um pedaço de pão preto e uma banana para jantar. Estou farto de viver na pendura. Estou cheio de não poder encher a geladeira de tudo o que gosto de comer. Cheio de viver duro e de ter de controlar todas as despesas. Odeio ter de controlar, regular o dinheiro. Isso me deixa muito irritado. Não nasci para racionar nem para racionalizar o dinheiro. Até parece que ganho muito. Não é que eu seja consumista, mas sou um gourmet e gosto de comer bem.

Por falar em dinheiro, os aparelhos eletrodomésticos em casa estão num estado lastimável. A TV, que tem mais de vinte anos, funciona mal. O telefone, mais de vinte anos, funciona mal. O rádio-relógio já não funciona de tão velho. A geladeira (mais de trinta anos) está em péssimo estado. Uma das janelas quebrou e ameaça despencar na rua, portanto não posso abri-la. Sim, está certo, eu não me preocupei muito com os eletrodomésticos de casa, mas cheguei a um ponto em que preciso trocá-los. E agora não tenho dinheiro para isso. E não tenho mais cartão de crédito. Não tenho grana nem para comprar roupa. Antes eu doava a roupa velha. Agora a uso até rasgar. Que merda viver desse jeito.  Não estou mais dando aulas. Os livros que agora coloquei na Amazon não rendem nada. E com a aposentadoria só dá para comer e pagar as contas – às vezes atraso o pagamento do condomínio. Essa dureza me leva a sonhar que talvez eu encontre um editor que “veja” minha obra e que queira reeditá-la.

 

Quinta-feira

        Hoje fui à casa do meu filho caçula, deficiente físico (cadeirante depois de um acidente de moto). Na realidade vou quase todo dia depois que sua mãe (minha ex-mulher) morreu. Preciso ir buscar remédios no posto de saúde. Ou aprovar guia na Unimed. Ou marcar consulta pessoalmente com o médico. Preciso me ocupar também da avó (mãe de minha ex, que mora com meu filho), pois ela tem 88 anos e não pode ir sozinha ao médico. Bem, como estava dizendo, fui à casa do meu filho, peguei a receita e fui pegar os remédios. Passei mais de uma hora na fila do posto de saúde. Voltei para casa do meu filho, deixei os remédios e retornei a minha casa. Conclusão, lá se foi a manhã inteira. E é justamente de manhã que minha mente está melhor para escrever.

É difícil escrever aos trancos e barrancos – por mais que eu precise escrever para manter meu equilíbrio psicossomático. Primeiro, são os afazeres do dia a dia em casa e na casa do meu filho. Depois, é o sufoco da situação financeira que me tira o sossego. Já tive que pedir dinheiro emprestado a meu filho mais velho e a um amigo e não consigo devolver. E o pior é que não existe nenhuma perspectiva de melhora das finanças. A menos que surja um mecenas que se interesse em reeditar minha obra e eu ganhe algo, pelo menos para pagar as dividas. Sim, é difícil, nessas circunstâncias, escrever. Preciso de um pouco de paz de espírito e de mais tempo para mim. Logo, de mais dinheiro para comprar essa paz de espírito e esse tempo necessários para escrever.

É por isso que não tenho paciência para aturar frescuras burguesas em geral e de escritores burgueses que não sabem o que é trampar para não passar fome, para sobreviver. Quanta babaquice. Quanta futilidade. Quanta superficialidade. Para não dizer quanta alienação e imbecilidade. Gosto de escritores viscerais. Daqueles que jorram o seu sangue nas páginas que escrevem. Gente como Bukowski, Genet ou Violette Leduc.

 

Sexta-feira

        Ontem à noite, antes de dormir, bati uma boa punheta salivada na cama. Embora sem fantasia, bati bem devagar, para retardar a chegada do gozo. Meu pau respondeu bem à chamada do prazer. Ainda bem. Eu me masturbo regularmente. Pelo menos uma vez por semana. Há períodos em que estou atacado e surto – por assim dizer. Aí toco bronha diariamente durante uma semana ou mais. Até apagar o tesão. Esses surtos são periódicos. Fazem bem ao coração, ao intestino e ao sistema nervoso.

Hoje almocei com Maya num restaurante popular, por quilo. Maya foi um amor da juventude. Casou. Eu Casei. Fez filhos. Eu fiz filhos. Descasou. Eu descasei. Mas seu ex continua vivo. Minha ex morreu. Continuamos amigos depois de tantos anos. Ela foi militante de esquerda e esteve presa. Atriz de teatro. Professora. Morou dois anos na França e um ano nos EUA. Agora ela está sozinha, como eu. Mas ela anda mal da cabeça. Apaga tudo da memória e é cansativo conversar com ela, pois esquece tudo e é necessário repetir quatro ou cinco vezes até ela guardar algo na memória, embora por pouco tempo. Mas ainda é uma pessoa cheia de vida, inteligente e de mente aberta. Gosto muito dela.

Minha filha me telefonou de Barcelona, onde ela mora há muitos anos. Está bem. Namorando um mauritano. Ultimamente anda na fase de namorar africanos. Sinto saudade dela e da maravilhosa e vibrante cidade de Barcelona. Uma coisa me deixa feliz: ultimamente ela está se interessando pelo que escrevo e anda me lendo.

No fim da tarde fui ao supermercado. Está tudo muito caro. Faz tempo que cortei queijos, geleias, chocolates amargos importados e frutas caras.

Kunta me ligou e convidou para uma pizza no sábado.

 

Sábado

Tive um pesadelo está noite. É um pesadelo recorrente. Sonhei que estava em casa, deitado, dormindo e que alguém entrava em meu apartamento. Alguém ameaçador que eu não via. Eu queria gritar para acordar os vizinhos e pedir socorro, mas não conseguia. Acordei. Às vezes sonho que estou numa trilha, à beira de um precipício, encostado num paredão rochoso, sem ousar me mexer. O medo de despencar no abismo me faz acordar. Outras vezes sonho que voltei a trabalhar na empresa onde trabalhava antes de largar tudo para me dedicar à literatura – esse é o pior de todos os pesadelos e, no próprio sonho, me digo que tudo isso é apenas um sonho, pois há anos que larguei esse emprego. E às vezes sonho que estou trepando com minha ex-mulher, já falecida.

De manhã lavei roupa e arrumei algumas coisas em casa. Depois iniciei dois debates num grupo de escritores, na internet. Um é A Alienação do Escritor Contemporâneo. O outro é Escritor, Por Que Você Escreve?. Acredito que o segundo dará mais interlocutores do que o primeiro, mesmo porque o escritor gosta de falar muito de si e de fazer o mundo girar em volta do seu umbigo e de falar pouco ou nada de sua alienação sociopolítica. Hoje em dia, os imbecis consideram que ter consciência sociopolítica é algo démodé. Os escritores engajados não estão mais na moda. O mesmo acontece com os cineastas. Sobrevivem Ken Loach e Robert Guédiguian. O neoliberalismo é um câncer que destrói a consciência.

E por falar em política e neoliberalismo, leio todo dia o jornal enquanto almoço num restaurante barato. Às vezes fico tão revoltado com as injustiças deste mundo, que a comida fica entalada na garganta. Essa revolta contra a injustiça me leva a escrever artigos virulentos num jornal, artigos que, depois de publicados, edito em meu blog. Recebo elogios, mas também há leitores que querem me ver morto. Alguns amigos dizem que é preciso muita coragem para escrever o que escrevo nessas matérias.

 

Domingo

Ontem à noite fui jantar pizza com Kunta. É um velho amigo, professor universitário de literatura brasileira. Militante dos direitos do homem negro. Pesquisador da influência dos escravos brasileiros no Benin. Gosto muito dele. Ele gosta de minha pessoa e aprecia muito minha obra. Já escreveu vários artigos, resenhas e ensaios sobre meus livros. Aliás, sua tese de mestrado foi Surrealismo e Realismo na Obra de David Haize, sobre minha obra. Sou-lhe muito agradecido por ter escolhido meu trabalho para sua tese. Bem, a conversa girou, para variar, em torno de literatura. Bebi bastante vinho e acabei meio bêbado, repetindo, com os olhos marejados, que ninguém lê meus livros. Kunta me disse – e não é a primeira vez – que o que escrevo não é para o grande público, porque não falo de crepúsculos, magos, bruxas e bruxos, nem de mensagens edificantes e autoajuda, que é o lixinho da vez que se vende hoje em dia. Fiquei muito contente em rever Kunta, que é um apelido, pois ele é negro. É um puta amigão, muito digno e inteligente.

Meu filho mais velho me convidou para almoçar – alegando que a mulher estava viajando e que fazia tempo que não me via. Fomos almoçar num restaurante japonês. Comi que nem hipopótamo. Tirei a barriga da miséria. Digamos que a semana foi boa em termos gastronômicos. Convidado a comer pizza no sábado e comida japonesa (que adoro) no domingo. Dois pequenos agitos – sem contar o almoço com Maya, mas aí cada um pagou o seu. Bem, vi meu filho mais velho e dois amigos íntimos. Para quem passa meses sem ver ninguém (a não ser meu filho caçula cadeirante), já é muito. A solidão vai aumentando conforme avançamos na idade.

E lá se foi a semana. Minha vida está mais para dono de casa do que para escritor. Não tenho uma vida de loucas aventuras como Rimbaud ou Hemingway. Nem de engajamento como Malraux ou Régis Debray. Nem de marginalidade como Villon, Genet ou Mohamed Choukri. Nem de mistério como Isidore Ducasse, conde de Lautréamont. Embora tenha viajando muito quando jovem (mas não tanto quanto o tangerino Ibn Batouta), minha vida está mais para Kafka. Sim, a agonia de não poder mudar o rumo de minha vida. A aflição de constatar que, por mais que lute, nem tudo depende de minhas ações para reverter o curso de minha existência. Que há algo que, até certo ponto, rege nossa trajetória. Algo que os gregos chamavam de Destino, benevolente ou generoso com alguns, cruel com outros. Sim, o enigma kafkiano, a trava, a não saída, o inexplicável, o ilógico, o absurdo. E o longo cortejo de perguntas que permanecem sem resposta, ou que, para os simplórios, encontram explicação em Deus, ou seja, na vontade de Deus. Explicação simplista e irracional que não me satisfaz. Porém, talvez essa perplexidade, essa impotência de não ser capaz de chegar a uma conclusão, esse racionalismo, essa racionalidade, ou essa racionalização de Deus nos levem (pelo menos àqueles que “pensam”) a fechar o círculo, ou seja, a voltar ao início, ao ponto zero primitivo e a concluir que somos incapazes de “saber”, o que pode nos conduzir a admitir honestamente nossa impossibilidade de estabelecer um critério – já que sempre estaríamos longe de uma convicção – e, perante nossa ignorância, a inclinar humildemente a cabeça e confessar que não sabemos, que se trata de algo além de nossa compreensão. No entanto, pergunto-me: a Razão pura leva (ou eleva) a Deus? Inútil frisar que é simplista tanto afirmar quanto negar a existência de Deus.

Enfim, deixando de lado esta pequena digressão filosófica e voltando a colocar os pés no chão duro da realidade tangível que as circunstâncias nos obrigam a pisar, atualmente sou apenas um escritor do vazio da vida cotidiana, que mistura fatos reais pessoais e fictícios, como fazia Bukowski. Como neste diário onde não acontece nada. Um diário sem importância que não merece ser continuado.

 

16-07-16

 

 

A Morte da Amada Mulher Odiada

 

Primeira Sequência – No Velório

        Se pudesse eu a estupraria depois de morta. Não por amor ou tesão. Mas por ódio. Assim ela iria para o outro mundo – se é que existe essa bosta do tão decantado outro mundo – com minha porra dentro da boceta como lembrança do meu caralho. Ela que consumiu metros do meu caralho e litros de minha porra ao longo dos anos de casados e de mais alguns anos de descasados amantes. Seria um tanto insólito um cadáver de fêmea com leite de macho na mítica bursa. Mas não seria possível comê-la depois de morta. Primeiro porque não vou poder ficar sozinho com o corpo. Segundo porque meu pau não iria levantar. Seria gozado enfiar o cacete na carne fria. Não gosto de necrofilia. Não me dá tesão. Então Beduíno, por que você está falando tanta besteira? Não me chame de Beduíno! Meu nome é David Haize. Mas todo mundo te conhece por Beduíno ou Bedú. Mas eu não sou beduíno. Você é beduíno, sim. Nasceu nos confins do Marrocos, quase no deserto do Saara. De mãe beduína e pai judeu. Um judeu malucão, aventureiro e ateu que raptou tua mãe. Mesmo porque a tribo não iria permitir que uma muçulmana casasse com um judeu. A minha mãe era berbere, não beduína. É a mesma coisa, tudo raça das areias escaldantes, que limpa o cu com areia depois de cagar. É a mesma coisa porra nenhuma. São duas etnias, duas línguas e duas culturas diferentes. Mas teu pai chamava tua mãe de Beduína. Ele a chamava de Beduína, mas era apenas um apelido carinhoso. E vê se me deixa em paz agora com essa história de família. Mas você amava profundamente teus pais e sempre falou deles em todos os teus livros. Sim, eu os amava profundamente, mas eles estão mortos. Mortos como meu irmão. Todos mortos. Caralho! Não é hora de pensar nisso. Por que não? Quando se vela um morto sempre aparece um ou outro flashback. Não estou pensando em nada. Vá chupar o pau de Zeus, porra! No caso não seria mais o pau de Hades, deus dos mortos? Ou então vá comer o cu de uma ema. Nossa, que delícia, deve ser bem quente. Me deixa em paz. Estou cansado. Com sono. Minha nora me acordou a uma hora da manhã para me comunicar o falecimento de minha ex-mulher. Não estou pensando em nada. Nem nos metros de pica que você enfiou na tua mulher ao longo de tantos anos? Agora é você que está falando besteira. Nem nos litros de porra que você soltou na boceta de tua mulher ao longo de tantos anos? Para de falar besteira, porra! A morte de um membro da família, de uma pessoa íntima, deixa atordoado. Com a cabeça confusa, embotada pelo impacto. É, David Beduíno, não é fácil, não. Estou cansado de tomar café e de fumar para espantar o sono. Cansado de receber abraços e pêsames. Quero ficar sozinho. Quero dormir. Isso mesmo. Não pensar em nada. Afundar no sono e dormir doze horas sem interrupção. E me vem uma náusea da vida. Uma náusea da existência. Porque tudo acaba em morte. Porque o fim de tudo é a morte. Porque para um animal como eu, a morte é suja. Que lassidão! Ainda mais que estou ficando velho. Perdendo as ilusões. O apetite de viver. Só o estômago que ainda não está saturado. Nem o pau, que ainda gosta muito de meter.  Sim, sexo e comida. Como bom hedonista, duas coisas que ainda me dão prazer. E quando não puder mais nem meter nem comer, é melhor morrer. E se a morte demorar a chegar, é melhor antecipá-la por conta própria. Viver sem ilusão, ainda vai. Mas sem o prazer do sexo e da comida não dá. É, Beduíno, as ilusões dão o fora com o passar dos anos e a pessoa vai ficando cada vez mais sozinha. Sim, você tem razão, estou cada vez mais sozinho. Perdi meu pai, minha mãe e meu irmão. E agora, minha ex-mulher, mãe de meus dois filhos. Isso sem contar tios, tias, primos, primas e muitos amigos. E aí a gente não tem mais nada para conversar. Não tem mais nada a dizer aos outros. É, David Haize, Beduíno do Saara, ainda bem que você escreve. Sim, realmente, ainda bem que eu escrevo, que é o que me retém neste mundo. Como muito e, de vez em quando, dou uma trepada circunstancial.

 

Segunda Sequência – Flashback

Eu a amei muito. Foi a mulher mais importante de minha vida. Ou, como se costuma dizer, a mulher de minha vida. Como era bonita quando jovem. Uma beleza diferente. Eu tinha ciúmes, mas nunca o demonstrei. Tinha um tesão louco por ela. Quando casei, era o homem mais feliz do mundo. Quando nasceu nosso primeiro filho, eu era o homem mais feliz do mundo. Quando nasceu nosso segundo filho, eu era o homem mais feliz do mundo.  Céus! Como a vida em família pode ser linda quando a gente ama e é amado. Como o mundo inteiro parece melhor. Como os horrores deste nosso mundo se tornam distantes. Eu era tão feliz que naquela época escrevia muito pouco. Será que a felicidade é prejudicial à escrita e à arte em geral? Será que o artista que é feliz produz menos que aquele que é infeliz? Não sei. Sempre afirmei que o desassossego – e até certo ponto o desespero – gera energia. A energia necessária para criar. Que a dinâmica da criação é o desejo, seja qual for. Aliás, o desejo, de modo mais abrangente, é o motor da existência. O desejo que nos impulsiona. O desejo que nos faz lutar. O desejo que mantém vivo o desejo de viver. O desejo que nos faz amar a vida. O desejo que torna a existência vida. O desejo que nos leva a continuar vivendo. O desejo que nos tira do absurdo. Desse absurdo universal de quem só acredita na Arte e no prazer. Sim, ela era o desejo de viver. E quando ela me largou, o mundo desmoronou. E aí todo o desejo se concentrou na literatura. Toda a força do amor que sentia por ela foi aos poucos incorporando a literatura como meio de sobreviver ao vazio. Ao vácuo sem nome daqueles que não desejam mais nada. Sim, doeu muito quando nos separamos. Doeu, essa ruptura que eu não queria. Doeu que eu não sabia viver sem ela. E chorei, chorei. É, Beduíno, é foda, né? Sim, é foda mesmo.

 

Terceira Sequência – Raiva e Ressentimento

– Por que você quis romper?

– […]

– Porque teu amor por mim tinha acabado?

– […]

– Porque você estava estressada por causa da tua família disfuncional, com pai violento, alcoólatra e mãe omissa?

– […]

– Porque você não aguentava mais cuidar de uma mãe com problemas mentais e de uma tia solteirona também com problemas mentais, que sobraram para você porque todos os outros membros da família também eram uns bostas e não queriam saber de ajudar nesse teu fardo tão pesado?

– […]

– Será que você não percebia que eu te ajudava nesse fardo da melhor forma possível?

– […]

– Por que você tinha tanto ciúme de minha filha, tua enteada?

– […]

– Por que você tinha tanto ciúme da literatura, ou seja, do fato de eu escrever?

– […]

 

– Por que você tinha tanto ciúme pelo fato de eu publicar (a ponto de sempre se exclamar com irritação: mais um livro!), como se eu estivesse fazendo algo errado? Ou era porque você teria gostado que o dinheiro que eu gastava na publicação fosse usado para qualquer outra coisa da casa menos para publicar livros? Por acaso eu deixava faltar algo em casa? Será que você se esquecia de que eu levava lanche de casa ao trabalho para economizar o dinheiro do almoço no restaurante?

– […]

– E depois da separação, por que essa sua frieza e essa agressividade? Por que você falava mal de mim aos nossos filhos dizendo que eu era machista (por que machista? Porque gostava muito de sexo? Machista eu, que sempre admirei mulheres livres como Joana D´Arc, Jeanne Hachette, Agustina de Aragón, George Sand, Anita Garibaldi, Florbela Spanca, Rosa Luxemburg, Olga Benário, Hannah Arendt, Jane Fonda e Susan Sontag, entre outras?) e egocêntrico (por que egocêntrico? Porque me dediquei toda a vida à literatura sem, no entanto, negligenciar minha família?)?

– […]

– Que foi que eu fiz para você me tratar como um filho da puta?

– […]

– Será que você se esqueceu de que eu te amava profundamente e que vivia exclusivamente para você e os meninos e que me matava de trabalhar para o sustento da família, dando aulas particulares depois do expediente na empresa?

– […]

– Será que você não percebia que, mesmo depois de separados, eu tinha o maior respeito por você, te ajudava em muitos sentidos e queria ter amizade com você?

– […]

– Será que você não notava que durante anos e anos te mandei flores para teu aniversário e você nem sequer se lembrava de mim ou fazia questão de me ignorar quando eu completava anos? Nem sequer um telefonema?

– […]

– Por que tanta indiferença (ou era ódio?) a ponto de mal me cumprimentar?

– […]

– Por que tanto ódio a ponto de jogar fora todos os livros de minha autoria que te ofertei, dedicados a você e aos meninos?

– […]

– Por que tanta falta de generosidade afetiva para com o homem que tanto te amou? Para com o pai dos teus filhos?

– […]

– Por que tanta amargura, tanto ressentimento?

– […]

– Será que você não percebeu que morreu envenenada de tanto amargor, de tanto rancor, de tanta mesquinhez?

– […]

– Não, você não percebeu. Você não percebeu nada. Você só percebia que era a maior vítima do mundo e fez desse seu complexo de vítima a razão de existir. Você estava seca e não era capaz de dar nada.

– [..]

– Pois então morra com tua morte. Exatamente como você me apagou totalmente de tua vida.

Calma, Beduíno, calma. Calma a puta que pariu! Vá tomar no cu! Me deixa em paz. Quero dar vazão à minha raiva. Calma, David Haize, calma, que você também não é flor que se cheire. Eu sou íntegro e leal, e ela nunca reconheceu isso. Você é muito susceptível, se queima por nada e é estourado demais. Juntar ego exacerbado e pavio curto dá o que você é. Eu sempre fui honesto com ela. Sempre a tratei com respeito. Eu não saía com outras mulheres. Eu não bebia. Não comprava nada para mim. Vivia para a minha família. Agora, que ninguém venha gritar comigo, me tratar com desrespeito, agressividade ou queira me impor algo ou desprezar meus valores, porque aí eu viro uma fera, grito mais alto e quebro coisas contra a parede. Ela era desequilibrada como a mãe e a tia. Era bipolar. E não me venha com essa desculpa de que ela foi muito maltratada pela vida, rejeitada pelo pai e pela mãe durante a infância e a adolescência. Eu também fui maltratado pela vida de modo muito duro. O que não impede que eu seja generoso afetivamente falando. Que eu seja amoroso. Que eu seja capaz de ternura e perdão depois da tempestade. Mas ela não. Ela não perdoava. Ela vivia armazenando raiva, rancor, ressentimento e não era capaz de reconhecer seus erros. Eu tenho defeitos, mas quando erro tenho a honestidade de admitir que errei. O que ela jamais fazia. Ela se achava perfeita. Só ela sabia fazer as coisas. Ninguém, a julgar pelas suas atitudes, fazia as coisas tão bem quanto ela. Era de uma arrogância insuportável. Era dura demais. Inflexível demais. Autoritária demais. E eu detesto que alguém mande em mim. Ela morreu de amargura e solidão – sim, ela era muito sozinha, não tinha nenhum amigo. E vivia falando mal de mim. Dizendo aos nossos filhos que perdeu os melhores anos de sua vida ao casar comigo, que nunca deveria ter casado. Eu nunca, jamais, falei isso nem para nossos filhos nem para ninguém. Casei com ela e ela me deu dois lindos filhos e a amei muito. Por que haveria eu de estar arrependido de ter casado? Beduíno, se você diz que sabe perdoar, perdoe-a. Sim, perdoe-a. Ela já morreu. Ela tinha qualidades: era honesta, trabalhadora, e cuidava muito bem dos filhos e da casa. Sim, é verdade, mas ela me tratava, depois da separação, como se eu fosse um filho da puta. Beduíno, ela estava querendo apagar você da vida dela. Foda-se a vida dela! Mas era a forma que ela encontrou para passar a borracha num capítulo que ela queria esquecer, o capítulo do fracasso do casamento. Custa-me entender isso. Mas você tem de entender, Beduíno. Você tem de entender que cada um é como é. E que não podemos esperar que o outro aja exatamente como queremos. Mas ela foi muito filha da puta comigo, principalmente depois do acidente que deixou nosso filho caçula de cadeira de rodas. Ela estava estressada, exausta. Mas nada justifica a atitude dela. Eu não tenho culpa pelo fato de nosso filho ter sofrido um acidente. Tudo bem, Beduíno, debite as atitudes agressivas dela no desequilíbrio emocional dela. Por outro lado, ocorre-me que talvez ela visse em você a figura do pai. Mas eu era todo o oposto do pai. Mas você representava o homem, o macho. Não faz sentido o que você diz. E pare de remoer essas lembranças. Estou remoendo essas lembranças porque ela não foi ainda enterrada (aliás, cremada), porque a coisa é recente e dói. Mas ela passou a vida inteira remoendo o que era ruim, sem jamais pensar no que lhe ocorreu de bom. Vira a página, Beduíno, vira a página. Não se vira a página de uma hora para outra. Ainda mais que o corpo dela ainda está na geladeira aguardando a cremação. O cadáver gelado na solidão gelada dos outros mortos. Chega, Beduíno, chega. Você está ficando mórbido. Eu, eu… Céus, que tristeza! Chora, Beduíno, chora. Chora, David Haize, chora. Chora a morte da amada mulher odiada. Eu não a odiava. Como poderia odiar a mulher que me deu dois filhos? Eu apenas sentia raiva. No fundo raiva de não ser amado pela mulher que tanto amei. Mas, Beduíno, nunca te ocorreu que talvez ela sentisse a mesma coisa? Ou seja, raiva de não ser amada pelo homem que ela, numa época já distante tanto amou? Mas eu nunca deixei de amá-la. Será que ela não percebia? Beduíno, talvez ela esperasse que você lhe dissesse isso, que você nunca deixou de amá-la. Mas você nunca falou nada. E você sabe que ela era muito orgulhosa. Tão orgulhosa quanto você. Sim, sim, tão orgulhosa quanto eu. Mas ela não me amava. No primeiro Natal depois da separação, nossos filhos armaram um complô para que nos reconciliássemos: inventaram que ela estava me convidando para a ceia de Natal. Era mentira. Era uma invenção dos meninos. Subi ao apartamento deles (eu me mudara para outro apartamento no mesmo prédio, não para estar perto dela, mas para estar perto dos nossos filhos, assim eles podiam me ver todos os dias – eu chorava cada vez que pensava nos meus meninos). Quando entrei, ela me disse que não tinha me convidado, mas que podia jantar com eles. Fiquei com cara de bobo, mas aceitei. Depois do jantar, convidei-a para ir ao meu apartamento. Ela aceitou. E fomos para a cama. E eu chorei de emoção quando a senti novamente em meus braços.

 

Quarta Sequência – Os Sonhos

        Sim, dias depois de termos jogado as cinzas num rio, ela invade poderosamente meu inconsciente. Não com ressentimento, rancor, ódio. Não, ela começa a povoar meus sonhos com amor. Ela sempre aparece em alturas. No alto de um monte, num dia ensolarado, acenando-me – e eu olhando-a, ao pé do monte. Ou então numa trilha, subindo uma montanha comigo e pegando minha mão e eu me dizendo: Nossa, ela está pegando minha mão, o que quer dizer que agora ela me aceita, que agora é minha amiga. Ou então num cômodo vazio, iluminado pela claridade vinda de grandes janelas, ela deitada no chão, nua, com as pernas em posição de parturiente, mostrando-me o mistério de seu sexo exposto e dizendo: vem, faz tempo que não fazemos. Ou então numa plataforma sideral, iluminada pela lua e cercada de estrelas, e nós dançando a Valsa Número Dois, de Shostakovich. Sim, ela me ama e não me rejeita mais. E eu a amava… Ah, que saudade de quando ela me amava…

01-07-16

 

 

 

Carta a Lola

agosto 1, 2016

Carta a Lola

 

        Oi, Lola. Tudo bem, minha querida?

Você deve estar estranhando esta carta, pois nunca te escrevi uma carta. Mas há sempre uma primeira vez. Por que estou te escrevendo? Porque não tenho ninguém com quem conversar. Porque dói de tanto ficar sozinha. Porque você sempre foi minha confidente. Sempre soube me ouvir sem me reprovar. Sempre me aceitou como sou. Acho que tudo o que me acontece é reflexo das minhas atitudes. Meu pai diz que eu só acho namorados nos guetos. Porque só me relaciono nos guetos. Deve ser verdade. Além do mais, eu sei que sou complicada. E que acabo espantando os homens. Sim, os homens acabam dando o fora. Quando não é por um motivo, é por outro. No fundo, não quero compromisso com ninguém. É uma contradição porque, como qualquer pessoa, sinto carência afetiva e preciso de alguém. E os namorados vão se sucedendo. Começa com atração, vira amor (ou será só paixão?) e depois vem o fracasso, a ruptura. E assim vai. Tem horas em que não quero ver mais homem na minha frente. E me isolo. Não vejo ninguém. E aí vem, depois da desintoxicação, a necessidade de afeto, de companhia masculina. E recomeço tudo de novo. Isso me cansa. Não faz sentido viver desse jeito. Sei que nunca vou casar. Não quero ter ninguém na minha casa. Não quero morar com ninguém. Não quero compartilhar minha vida com ninguém – há muitos anos que moro sozinha e tenho minhas manias. Aí só sobra sexo. Só. Meu pai diz que mulher mal-amada se torna agressiva e revoltada. Pode ser. Pena que ele more a nove mil quilômetros de distância. Ele diz também que o amor, de certa forma ou até certo ponto, é um exercício. Temos que ter não só a disponibilidade de amar, mas também a disposição de amar. E que mesmo sem estarmos deslumbrados com uma pessoa, podemos chegar a amar essa pessoa. Que às vezes é questão de tempo. Que começar pela paixão nem sempre garante o futuro da relação. É provável. Meu pai fala muito sobre meu modo de ser que acaba complicando minha vida. E ele acaba pegando no meu pé. Eu sei que ele quer minha felicidade, mas ele me cansa. Eu me torno agressiva e ele acaba estourando como só ele sabe. Ele também não é fácil. É tão arrogante quanto eu. Bem, Lola, chega de prólogo. Estou parecendo meu pai, que fala mais que a boca, como dizia meu tio, o irmão dele. Vamos lá extirpar o que me aflige o coração.

Você se lembra do Ion, o romeno? Ele esteve uma vez em casa, antes de você partir e gostou muito de você. Não quero parecer preconceituosa, mas me avisaram que esses imigrantes romenos não são nada confiáveis. Mas digamos que isso poderia ter acontecido com um ucraniano, um chileno ou um marroquino. Os imigrantes ilegais não são realmente muito confiáveis – sejam da Europa do Leste, da América Latina, do Magreb ou do resto da África – talvez pelas circunstâncias difíceis em que vivem. Quero dizer com isso que roubam sempre que podem quando estão sem trabalho – eu própria sou uma imigrante, mas legal, e nunca fui obrigada a roubar. Bem, o Ion, mas jovem que eu – que já sou quarentona – bonito, carinhoso e divertido me cativou logo de cara e me deixei levar pensando que desta vez ia dar certo. Mas ele era ilegal, estava desempregado, duro e, após umas semanas de relacionamento, me roubou todo o dinheiro que tinha na carteira, o cartão de crédito, o celular e os passes do metrô. E sumiu do mapa. Doeu, Lola, doeu muito. Doeu não pelo roubo em si, mas porque eu acreditei nele e estava me apegando e ele me usou. E o vento o levou…

O anterior, como você já sabe, foi Ahmed, o marroquino, oriundo de Tânger, mas a família era de Ksar el-Kebir. Também mais jovem que eu. Bonito, fogoso, muito viril. Era ilegal, mas trabalhava na cozinha de um restaurante. Era muito trabalhador. Muçulmano, sem ser fanático, brincava comigo (na realidade não sei se ele estava brincando comigo ou se ele falava sério) e me dizia que se eu me convertesse ao islamismo, ele casaria comigo. Mas um dia, sem mais nem menos, ele me disse que ia embora para o Marrocos. Que ia se casar com uma garota marroquina que ele conhecia desde a infância. Que fazia tempo que a família o pressionava. Que a família não queria de jeito nenhum que ele casasse com uma cristã. Que devia respeito a sua religião e a sua família. Que ele casaria comigo se eu quisesse, cada um seguindo sua crença religiosa, se não fosse pela família. Eu não tinha nada a dizer. Fiquei muda e não chorei na frente dele. Acho que ele me amava mesmo, mas… Fiquei muito machucada. Foi o homem que mais amei. Foi o homem que mais prazer me deu na cama. Um relacionamento muito bonito que durou mais de dois anos. Chorei muito, muito. E não o esqueço. Nem vou esquecê-lo. Pelo menos ele foi honesto e me avisou em vez de sumir sem dizer nada. E o vento o levou…

Antes dele houve Ali, o paquistanês. Esse era imigrante legal. Trabalhava no mercadinho dos pais onde eu fazia compras. Mais jovem que eu – meu pai diz que só arrumo namorados que cheiram a fraldas molhadas. Não era propriamente bonito, mas era atraente. Ele sempre me olhava de maneira significativa quando eu ia comprar no mercadinho. Aos poucos fui me interessando. Um dia ele me convidou para sair. Aceitei. E começamos a namorar. A relação durou uns meses. Até o dia em que o pai dele veio conversar comigo, educadamente, dizendo que eu era velha demais para ele e que eu era cristã e ele muçulmano. E ele pedia que eu me afastasse dele. Aí ele pegou um envelope e me entregou. Curiosa, sem imaginar qual seria o conteúdo, abri o envelope e vi que continha dinheiro. Dinheiro para eu me afastar do seu filho, como se eu fosse uma garota de programa. Peguei o dinheiro e o joguei, literalmente, na cara dele. E nunca mais voltei ao mercadinho. Mais um que o vento levou. Embora esse aí eu o veja de vez em quando na rua. Quero dizer, cruzo com ele. Mas não o cumprimento. Ele tentou várias vezes falar comigo, mas eu não quis saber.

Antes do paquistanês houve… Chega, Lola, chega. Não vou mais falar dos meus casos. Dos meus tristes casos que não dão em nada. Estou me sentindo mais aliviada depois de te escrever esta carta que vou colocar embaixo da caixinha com tuas cinzas. Talvez você sinta as vibrações de minhas palavras através de tuas cinzas.

Sinto muito tua falta. Meu Deus, que saudade de minha Lolinha, minha gata tão querida. Você era tão meiga. Uma gatinha tão bonita e tão carinhosa. Lembra-se de quando eu colocava um pedacinho de peito de peru entre meus lábios e você o pegava delicadamente e o comia? Lembra-se de que toda manhã você me acordava massageando alguma parte do meu corpo? Lembra-se de quando você subia no meu colo e esfregava tua cabecinha em meu rosto? Você era minha melhor amiga e eu te contava tudo o que acontecia comigo.

Um beijo, meu amorzinho.

04-06-2016

14-06-2016

19-06-2016

 

 

Depoimento de Uma Prostituta

 

 

… às vezes penso em me matar. Sim. O suicídio como solução. Como solução para uma vida… Uma vida que não aguento mais. A barra está muito pesada. Mas não tenho coragem de me matar. Não por medo. Ou por convicções religiosas. Mas porque não posso deixá-los sozinhos. Quem vai cuidar deles? Quem vai cuidar da minha família? Se Deus me deu essa cruz, é meu dever carregá-la até o fim da vida. Depois da minha vida, está tudo nas mãos de Deus. Tenho muita fé em Deus. Rezo toda manhã e toda noite. Depois da oração sinto paz e força para continuar lutando. É o que peço a Deus todo dia: força para continuar lutando. Às vezes, quando estou muito aflita, peço a Deus que Ele faça um milagre. Um pequeno milagre. Pouca coisa para Ele. Muito para mim. Para dizer a verdade, esse milagre que imploro fervorosamente me dá energia e esperança para não desistir de tudo. Há muitos anos que espero por esse milagre. Há muitos anos que espero por esse homem. Um homem suficientemente generoso que me aceite com meu filho e meu pai – mesmo porque não posso abandoná-los. Mas que homem vai querer uma puta cinquentona com um filho deficiente mental e um pai com Alzheimer? Esse homem teria de me amar muito para querer ficar comigo. Eu sempre explico a Deus que quero esse homem não só para me tirar da vida de puta – que não é nada fácil. Posso até continuar na profissão, só meio período, para ajudar no orçamento da casa, se ele me pedir. Quero esse homem para ter alguém que me ame. E a quem eu ame. Ah, meu Deus, eu que faço sexo com tantos homens não sei o que é fazer sexo com amor! Um homem bom, trabalhador, que me respeite. Pode ser branco, negro ou amarelo. Pouco importa a raça. Também não me importo com a religião. Pode ser até ateu, que eu rezaria por ele. Pode ser gordo ou magro. Alto ou baixo. Pode ser pobre. Pode ser feio. Não procuro um macho – de machos estou cheia. Procuro um homem. Não quero um corpo. Quero um coração. Um coração que alivie minha solidão acolhendo meu coração. Esse meu coração tão machucado e tão sedento de amor. Seria uma boa companheira para ele. Cuidaria desse homem com amor e devoção. Não sou feia, embora esteja envelhecendo. Sou carinhosa e sei muito bem cozinhar. E não sou burra nem ignorante. Terminei o segundo grau e entrei na faculdade. Fiz um ano de Letras. Queria ser escritora – que ingenuidade. Lia muito naquela época, muito mesmo. Aí fiquei grávida de um estudante de medicina. Ele sumiu e minha vida desandou. E me ferrei para o resto da vida. Fui obrigada a sair da casa dos meus pais. Não encontrava emprego – não tinha com quem deixar meu filho. Nem como empregada doméstica – desde que me aceitassem com meu bebê. Aí entrei na profissão. Prometi a mim mesma que seria só por um tempo. Até meu filho crescer e eu encontrar emprego. Mas fui me acomodando na rotina de mulher da vida, como se dizia antigamente. Para falar a verdade, eu não tenho, e nunca tive, vocação para ser puta. Não é nada fácil aguentar esses corpos em cima da gente. Alguns fedem, pois tem homem porco. Há homens educados e generosos. Mas a maioria é grossa e se esquece de que sou uma mulher, um ser humano. Alguns são violentos. Uma vez, um desses cafajestes me estuprou antes mesmo de me pagar – e não me pagou, claro. Outro me bateu porque queria sexo anal e eu só faço pelo dobro do preço. Outro queria transar sem camisinha e também me bateu e foi embora sem transar e sem me pagar, claro. Outro me ameaçou com uma navalha e me roubou todo o dinheiro que tinha ganhado aquela noite. E assim por diante. Tive um cliente, durante vários anos, que era muito bom para mim. Carinhoso, conversava bastante, me pagava muito bem e sempre me trazia bombons. Até pensei ingenuamente que ele quisesse ficar comigo. Mas ele sumiu e nunca mais o vi. Talvez tenha morrido. Com o passar do tempo, os clientes foram diminuindo. Tive que baixar o preço. Desci de categoria na profissão. E, claro, o nível dos clientes caiu. O tempo passa e cobra seu imposto. Homem, a menos que esteja duro, não quer puta velha. Homem quer garotas. Carne fresquinha, seios durinhos. Para puta velha só sobra a ralé. E com o que ganho mal dá para comer, pagar aluguel, luz e água e comprar remédios – alguns remédios não são fornecidos pelo posto de saúde. Sim, estou cansada desta vida. Por que Deus me deu um filho deficiente mental?  Ele já está com 30 anos. Se fosse normal poderia estar me ajudando. E aí não teria de ser puta. Já teria deixado essa vida. Às vezes converso com Deus e imploro perdão pelas coisas que peço. Porque Deus pode achar que estou exigindo muito e pode me castigar para me tornar humilde. Penso que nossa situação poderia piorar. Como seria se eu ficasse doente e não pudesse trabalhar? Não dá para viver com o salário mínimo que é o que meu pai recebe de aposentadoria. Outras vezes fico um pouco revoltada com o peso da vida. E então me pergunto se Deus me vê. Se Deus me olha. Se eu sou alguma coisa neste mundo que mereça a atenção Dele. Uma noite fria de garoa, comecei a chorar na rua, pois não aparecia nenhum cliente – a chuva e o frio espantam os clientes. Embora homem não goste de puta chorona, eu chorava, chorava em silêncio numa esquina, embaixo da marquise. Meu Deus, que tristeza! Houve uma interrupção de energia elétrica. A rua ficou um breu. De repente vi uma luz dourada que me envolveu. Parecia um holofote. E então senti uma paz muito grande e uma incrível alegria em meu coração. Foi isso uma manifestação divina? Não sei. Mas sempre penso nisso. É algo que não esqueço. Essa luz repentina durou apenas uns segundos. Depois de dois ou três minutos a iluminação da rua voltou. E eu voltei para casa feliz. Sim, sem um centavo, mas feliz. Acho que naquele momento Deus estava comigo e me fazia sentir Sua presença. Deus tinha me olhado. Mas… Sim, estou cansada desta vida. Estressada. Não tenho nenhum divertimento. Nenhuma distração. Há anos que não leio nada. Não vejo TV (só aos domingos, que não trabalho), pois à noite estou na rua e durante o dia cuido da casa. Eu que gostava tanto de ler e de cinema. Eu que lia tanto. Escritora! Ilusão juvenil. Só se for para contar minha vida de puta pobre. Mas seria um livro sem graça. Quem iria se interessar pela vida de uma puta com um filho deficiente mental e um pai com Alzheimer? As pessoas gostam de ler histórias mais alegres, mais românticas. Histórias com final feliz. Mas quem vai se interessar por uma história triste, amarga, sem perspectiva? Uma história onde não acontece nada. Uma história onde todos os dias são iguais. Vou falar de que no livro? De lavar louça e roupa? De limpar a casa? De cozinhar? De fazer compras no supermercado? De dar banho no meu filho? De levar meu pai e meu filho ao médico? De ir buscar remédios para os dois? Do meu trabalho na rua com os clientes? Tudo é cinzento ao meu redor. Há apenas uma luzinha que brilha na minha vida. A luz de vela da fé em Deus. Mas essa vela pode se apagar a qualquer momento. Há putas que se dão bem na vida. Mas são poucas. Geralmente pertencem a famílias da classe média. Moças estudadas que têm meios de se produzir e que cobram caro. Algumas chegam a fazer um pé de meia e garantem a velhice. Outras, da mesma classe social, muito bonitas, casam e se tornam senhoras respeitáveis. E outras, muito espertas, encostam em alguma celebridade e se tornam figuras públicas. Não é meu caso. Sou uma puta velha e pobre. E nem tenho o direito de me matar. Não tenho o direito de me matar simplesmente porque amo meu filho e meu pai. Sim, apesar desta vida dura, ainda resta amor em mim.

– Pronto. Não precisa mais olhar para a câmera.

– Acabou?

– Sim. É só isso. Obrigado pelo depoimento. Pegue seu cachê.

– Mas você está me pagando muito.

– Você merece.

– Obrigada. Deus lhe pague.

10-06-2016

 

 

Se você não fosse tão ignorante (ou burro ou imbecil ou perverso) entenderia…

01[Absoluto]…que o Absoluto e o Nada convergem.

02[Afronta]…que os salários, privilégios e regalias dos parlamentares são uma afronta ao povo brasileiro, algo absolutamente inadmissível.

03[Amor]…que o amor talvez inclua jogar pérolas aos porcos, pois um deles pode apreciá-las.

04[Bancos]…que o despotismo dos bancos deve ser regulado.

05[Cobiça]…que o neoliberalismo incentiva a cobiça, o pior defeito humano.

06[Competir]…que competir é imoral.

07[Consumismo]…que o consumismo é fascista.

08[Corporações]…que o despotismo das corporações deve ser regulado.

09[Cultura]…que o achatamento, o raquitismo e a rarefação da cultura são decorrentes da política cultural do neoliberalismo, já que, segundo o neoliberalismo, a cultura não dá lucro.

10[Cultura]…que há uma certa barbárie no menosprezo do neoliberalismo pela cultura.

11[Democracia]…que o Brasil não é uma democracia, mas uma ditadura do capital – o impeachment de Dilma Rousseff é uma prova.

12[Deus]…que Deus é silêncio absoluto e não gritaria.

13[Deus]…que Deus não precisa de intermediários, portanto não tem nada a ver com a religião.

14[Deus]…que todo aquele que se arroga ser portador da palavra de Deus é um impostor, um charlatão e um picareta.

15[Deus]…que Deus vomita os mornos, segundo a Bíblia.

16[Deus]…que Deus ama os negros, os judeus, os ciganos, os agnósticos, os ateus, os homossexuais, os viciados, as prostitutas e todas as minorias.

17[Deus]…que Deus não ama os fanáticos, os intolerantes, os fundamentalistas, os sectários, os racistas e os homófobos.

18[Deus]…que Deus talvez não esteja morto, mas está estressado, gasto.

19[Deus]…que Deus deixou de ser um estereótipo.

20[Deus]…que Deus é inominável.

21[Dignidade]…que a dignidade começa pela ética, passa pelo desprendimento e termina pela Liberdade.

22[Economia]…que a economia prevalecer sobre o bem-estar social é um crime político.

23[Economia]…que o materialismo dialético do marxismo é um humanismo comparado com o degradante materialismo pragmático do neoliberalismo.

24[Economia]…que se os economistas fossem um pouco menos ignorantes, se tivessem um mínimo de conhecimento do ser humano, se conhecessem um pouco de história e de antropologia, perceberiam que a arte rupestre das grutas de Altamira e Lascaux diz muito mais – há milhões de anos – do que suas estúpidas teorias de sistema de governo.    

25[Educação]…que um país que não prioriza a educação e a saúde não é um país sério, é um país atrasado que não merece respeito.

26[Educação]…que as crianças deveriam ter aulas de ética, sexo, ecologia/meio ambiente, sociologia e antropologia no ensino fundamental.

27[Eternidade]…que a eternidade não existe.

28[Ética]…que a legalidade não pode prevalecer sobre a ética; que quando a legalidade fere a ética, a legalidade deve ser contestada, burlada, sabotada  e destruída por todos os meios; não se pode esquecer que a escravidão era legal assim como a segregação racial.

29[Ética]…que no Brasil a ética está mais abaixo do que anus de réptil.

30[Fé]…que a fé é acreditar no potencial de transformação do Homem.

31[Feminismo]…que o feminismo fora de um determinado contexto sociopolítico soa falso.

32[Fidelidade]…que aquele que não é fiel consigo nunca será fiel com os outros.

33[Finitude]…que a consciência da finitude reduz a prepotência.

34[Fome]…que o cidadão com fome tem o direito de saquear para comer.

35[Gozo]…que o gozo regula a existência.

36[Gozo]…que o gozo dá um sentido à vida.

37[Gozo]…que o sábio equilibra o gozo entre a existência e a vida.

38[Homofobia]… que a homofobia é uma característica dos seres inferiores.

39[Homófobo]…que o homófobo é um homossexual enrustido.

40[Ingenuidade]…que é o suprassumo da ingenuidade afirmar que, num país tradicionalmente corrupto como o Brasil, as privatizações do governo FHC se deram sem corrupção.

41[Justiça]…que todos os brasileiros não são iguais perante a Justiça (depende da conta que cada cidadão tem no banco).  

42[Justiça]…que a punição do infrator brasileiro depende de sua classe social e de sua conta no banco.

43[Justiça]…que um país se faz com justiça e não com a impunidade das classes privilegiadas.

44[Justiça]…que a omissão da Justiça acoberta o crime e o “legaliza”.

45[Justiça]…que a Justiça é tão retrógrada que ainda considera o crime sexual  mais grave do que o crime ecológico.

46[Justiça]…que a Justiça é tão retrógrada que ainda considera o assalto a um banco (uma instituição suspeita sob o ponto de vista ético) um crime mais grave que a corrupção.

47[Liberdade]…que nenhum ideal está acima do ideal supremo da Liberdade.

48[Liberdade]…que a Liberdade requer um desenvolvimento espiritual e intelectual para ser compreendida na acepção mais profunda do termo.

49[Liberdade]…que tudo aquilo que atentar contra a Liberdade, sejam crenças religiosas, ideológicas ou convenções sociais deve ser destruído, aniquilado, pulverizado por todos os meios.

50[Lei]…que toda lei que viole os direitos humanos deve ser destruída por todos os meios; que lei não é sinônimo de ética.

51[Mídia]…que a mídia que está nas mãos de grandes corporações é tendenciosa, parcial, e que, obviamente, favorece a classe social à qual pertence.

52[Nações]…que há nações que não são dignas do presidente que tem, como é o caso dos EUA e do presidente Barack Obama.

53[Nada]…que o Nada e o Absoluto convergem.

54[Nada]…que é o Nada que integra ao Todo.

55[Neoliberalismo]…que no lupanar do neoliberalismo se vende tudo, até a própria mãe.

56[Neoliberalismo]…que o totalitarismo do neoliberalismo ainda não entendeu que existe uma terceira via e que, para sobreviver, ele vai ter de ceder.

57[Opção]…que tudo na vida é uma questão de opção; que quando optamos estamos anulando automaticamente o lado rechaçado; que a não opção é sinônimo de acomodação, frouxidão, ou covardia.

58[Ousar]…que ousar, ato salutar, é sinônimo de caráter.

59[Padronização]…que a padronização –  ou massificação –  é um atentado contra o indivíduo, uma aberração característica do fascismo, do nazismo, do stalinismo, do maoismo e do neoliberalismo, já que o ser humano não é gado.

60[Parlamentares]…que os parlamentares não podem ter salários que ofendam a ética e a miséria do País; que esses salários são um abuso de poder que deve ser erradicado.

61[Parlamentares]…que os parlamentares, em sua grande maioria, são uma corja de safados medíocres, sem ideologia e sem ideal, que se vendem como meretrizes a quem pague mais.

62[Parlamentares]…que os parlamentares não podem de jeito nenhum ter imunidade; isso é antidemocrático, absurdo, inadmissível.

63[Parlamentares]…que todo parlamentar corrupto deve ser cassado pelo resto da vida.

64[Parlamentares]…que a função do parlamentar não pode comportar esse grau de desfaçatez, de arrogância e de estupidez a serviço do próprio bolso.

65[Parlamentar]…que o parlamentar não se candidata para o bem do País, mas para o bem do seu bolso.

66[PMDB]…que o PMDB é tão corrupto quanto o PT, sendo que a intenção de frear a Lava Jato é a prova mais evidente.

67[Ponderação]…que a ponderação, em certos casos, é frouxidão, omissão e covardia.

68[PT]…que esquerda não é sinônimo de PT.

69[PT]…que todos os males do Brasil não vêm do PT.

70[Questionar]…que questionar absolutamente tudo é um direito do cidadão.

71[Racismo]…que o racismo é uma característica dos seres inferiores.

72[Razão]…que a Razão é a marca registrada do Homem Superior.

73[Razão]…que se chega à espiritualidade pela Razão.

74[Religião]…que a função da religião é ajudar e prover as necessidades dos carentes e  conscientizá-los de seus direitos e não drogá-los com alienação, imbecilização, fanatismo e cegueira.

75[Religião]…que o fanatismo religioso deve ser erradicado com o incentivo de uma educação absolutamente laica baseada na Razão.

76[Religião]…Que a isenção tributária das instituições religiosas deve ser abolida já que a não taxação é medieval, reacionária e antidemocrática.

77[Religião]…que a lavagem cerebral, a extorsão, a promoção do fanatismo, do fundamentalismo, do obscurantismo, da segregação, do preconceito, da repressão sexual e  da imbecilização do cidadão que certas igrejas pentecostais (e por extensão outras religiões) promovem é um crime que deve ser punido por lei.

78[Religião]…que todas as religiões, sob o ponto filosófico, estão decadentes, o que atesta a pobreza espiritual da humanidade.

79[Religião]…que o Homem Superior prescinde de religião.

80[Saber]…que não devemos pedir perdão por saber.

81[Sagrado]…que só a vida humana, animal e vegetal é sagrada; o resto é  mito descartável.

82[Sexo]…que a vida sem sexo é insípida como comida de hospital.

83[Sexo]…que o sexo faz bem à saúde física e mental.

84[Sexo]…que a repressão sexual é um crime contra o corpo, logo, contra a natureza.

85[Sexo]…que a abstinência sexual pregada por fanáticos religiosos é uma aberração que instiga a violência.

86[Social]…que o Brasil é profundamente atrasado em termos sociais.

87[Social]…que o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão.

88[Social]…que o Brasil não lutou pela independência como todos os países do Continente Americano (e isso se reflete em seu lastro colonial), o que perpetua os vícios sociais inerentes à colônia.

89[Social]…que a desigualdade social do Brasil – e  sua consequente segregação –  é uma das piores do mundo.

90[Social]…que a divisão de classes é uma abominação que data da época dos faraós.

91[Social]…que o conservadorismo brasileiro é tão obtuso e reacionário que trava qualquer tentativa de progresso social.

92[Social]…que águas estagnadas fedem, assim como fede o conservadorismo, que é uma estagnação.

93[Superioridade]…que a superioridade inclui a ética, a Razão e o desprezo pelos bens materiais.

94[Transgressão]…que a transgressão tonifica os nervos, chacoalha os flácidos e ilumina verdades suspeitas.

95[Universal]…que o amor universal talvez requeira não pertencer a nada.

96[Vaidade]…que a vaidade é o ânus do orgulho.

97[Vandalismo]…que a reação violenta da miséria decorrente da exploração não é vandalismo.

98[Vandalismo]…que vandalismo é representantes da classe média destruindo obras de arte.

99[Venezuela]…que não se deve confundir a Venezuela de Maduro com o Brasil de Dilma Rouseff.

100[Violência]…que toda violência é social e determinada por fatores sociais como miséria e desigualdade social.

101[Violência]…que a miséria é a mais terrível violência social que existe.

102[Xenofobia]…que a xenofobia é uma característica dos seres inferiores.

01-06-2016

 

Negro, Pobre e Gay

maio 10, 2016

Negro, Pobre e Gay

 

         Não escolhi ser negro – fui engendrado por negros. Não escolhi ser pobre – nasci numa família extremamente pobre. Não escolhi ser homossexual – a natureza assim me fez. Não sou revoltado por causa da cor da minha pele, da minha pobreza de origem nem da minha homossexualidade. Não há ódio em mim. Mas convenhamos que o destino foi bastante irônico quando traçou as linhas da minha existência. E convenhamos também que a minha vida seria mais fácil se eu fosse branco – num país de maioria branca. Se eu não fosse de origem socialmente tão miserável.  E, principalmente, se eu fosse heterossexual. Porém, tento conviver com aquilo que sou e com o que tenho. Convivo bem com a minha condição de negro. Na realidade, em nosso País, a discriminação vem mais da classe social do que da etnia, já que temos uma das piores desigualdades sociais do mundo, e a sua consequente segregação. Não sou mais miserável, pois estudei e tenho um emprego bem remunerado. Todavia, às vezes é muito duro ser gay numa sociedade conservadora – logo machista – onde a ignorância começa por determinadas definições, tais como ‘opção sexual’, como se alguém optasse por ser hétero ou homo. Ninguém opta pelo caminho mais difícil. Por que ser gay se tudo é mais fácil sendo heterossexual? Quanta ignorância! A grande maioria ainda não percebeu que se nasce heterossexual ou homossexual.

Há gays muito bem resolvidos que lidam tranquilamente com a sua condição de homossexuais. Talvez eu seja um deles, pois li muito a respeito do homossexualismo. Mas… Mas o problema sou eu, independentemente de ser homo. Ou talvez, no fundo, uma coisa esteja atrelada à outra. Em uma palavra: a minha carência afetiva. É mais fácil para um heterossexual amar e ser amado do que para um gay, pelo fato de haver mais oportunidades de relacionamento entre os heterossexuais. Mas isso não quer dizer que um gay seja necessariamente carente. Porém, eu sou carente desde criança. Desde que a minha mãe saía para trabalhar e me deixava no barraco da vizinha. Os meus pais davam um duro para ganhar a vida e não dispunham de muito tempo para mimar os filhos. Sim, eu já era sozinho – essa solidão que sempre me acompanhou. Não me entrosava com ninguém. Não me enturmava nem na escola nem na rua. Fechava-me num mundo de fantasias para sobreviver à solidão do mundo externo. E, naquela época da infância e da puberdade, tinha complexo de inferioridade por ser negro e pobre. E quando, na adolescência, tive consciência (embora obscura) de que me sentia atraído pelo mesmo sexo, fiquei profundamente perturbado. Já era um homem de 27 anos quando a minha timidez me permitiu tocar e ser tocado por um homem. Até então eu achava que teria de casar com uma mulher e ter filhos, como todo homem faz. Mesmo que eu não sentisse absolutamente nenhuma atração pelo sexo feminino. Depois foi uma longa busca. Não de sexo, mas de amor. Sim, procurava alguém que me amasse e a quem eu amasse. Um homem para mim. Um companheiro com quem dividir a vida. Mas a minha ingenuidade, a minha pureza e a minha timidez me reservavam mais de uma cilada. Dolorosas ciladas armadas por homens sem escrúpulos que se aproveitaram da minha boa fé e da minha carência afetiva. A última doeu não só no coração e na alma, mas no corpo todo. E me mandou ao pronto-socorro.

*

Eu o conhecia desde a adolescência e o achava muito atraente. Ele já era um homem maduro quando eu era garotão. A sua casa era uma das mais belas construções daquela cidade do interior. Lembrava um pouco as mansões inglesas do século XIX. Pouco se sabia sobre ele. Mesmo porque, embora muito educado com os vizinhos, não conversava praticamente com ninguém. Às vezes viajava. Mas ninguém sabia aonde ele ia. Aparentemente vivia de rendas, pois ele não saía de casa para trabalhar. Vivia quase recluso. Poucas pessoas frequentavam a sua casa. Com exceção de uma misteriosa mulher – de outra cidade – que o visitava mensalmente, passando o fim de semana com ele. O pouco que se sabia a seu respeito era através dos empregados da mansão. Tinha uma doméstica, uma cozinheira e um mordomo que cuidava um pouco de tudo, como uma governanta, e que fazia as compras e tudo o que requeria sair à rua. Mas, de acordo com esses empregados, ele não se abria com eles, apenas dava ordens, sempre de modo cortês. Corriam rumores de que era viúvo ou divorciado e que tinha três filhos, de várias esposas, que moravam no exterior. Um vivia em Singapura, outro na Austrália e outro na Finlândia. Como era muito reservado e nunca conversava, os empregados, intimidados, não ousavam perguntar nada a respeito de sua vida. Era chamado de doutor Wilson. Não se sabia se esse nome era prenome ou sobrenome. Uns diziam que era médico. Outros, advogado. Mas ele não exercia nenhuma profissão. Costuma se trancar, durante longas horas, em sua biblioteca, lendo ou ouvindo música erudita.

Um belo dia o seu mordomo morreu. Não sei por que me ocorreu que poderia pleitear o cargo do falecido. Uma manhã decidi bater à porta da mansão. A empregada – que pelo jeito filtrava as raras visitas – perguntou-me de que se tratava. Respondi que procurava um emprego de mordomo. A empregada me deixou na rua, do outro lado da grade, e pediu que esperasse. Voltou dizendo que o doutor Wilson não podia me atender, mas que eu poderia retornar à tarde, às 16 horas.

Confesso que a minha condição de negro me deixava inseguro. Muito branco que se diz não ser racista no fundo gosta de negros a uma certa distância. O falecido mordomo – já idoso – era branco. Bem, pensei, não custa tentar. O fato de ele ter aceitado me receber para uma eventual entrevista já era um passo que dava margem à esperança.

E ele me recebeu. Nunca esquecerei aquele primeiro contato com aquele senhor alto, esbelto, grisalho, de porte aristocrático. Antes de falar, olhou-me durante longos segundos, o que me perturbou bastante. Por que esse olhar inquisidor, sem palavras, me perturbou tanto? Era algo que eu arrastava inconscientemente havia muitas gerações? O homem negro que se sente intimidado perante o homem branco que vai eventualmente admiti-lo como empregado? Ou era algo mais perturbador do que isso? A possibilidade de morar com um homem cujo físico me atraía e cuja figura envolta em mistério me fascinava? Ou eram as duas coisas?

– Você gosta de ler? perguntou – mais tarde eu entenderia por que essa foi a sua primeira pergunta.

– Gosto, sim senhor. Leio muito.

– Você tem experiência como mordomo?

– Não senhor. Mas acredito que não haverá problema, pois sou garçom num restaurante, respondi ingenuamente.

– Em caso de admissão você teria de morar aqui. Alguma objeção?

– Não senhor. Sou solteiro. Posso morar em sua casa.

– Qual é a sua pretensão salarial?

– Fica a critério do senhor.

– Quando você estaria disponível?

O restaurante onde trabalhava me dispensou do aviso prévio e uns dias depois estava instalado na mansão do doutor Wilson, trabalhando como mordomo, profissão um tanto anacrônica em nossa época, diga-se de passagem. No fim do mês tive uma agradável surpresa: o salário era bem mais alto do que eu esperava.

Começou então a longa e lenta aproximação. Ele me tratava cordialmente, mas com um certo distanciamento. Esse distanciamento era o mesmo que ele mantinha com a empregada e com a cozinheira – que não moravam na casa. Eu atribuía essa recusa de uma maior intimidade ao seu caráter, à sua forma de ser. Ninguém o visitava a não ser a misteriosa dama que vinha mensalmente. Diziam que ela era casada. Ela vinha sempre numa sexta-feira, no fim do dia, e ia embora no domingo, após o almoço. O café da manhã lhes era servido na cama. Aliás, eles passavam a maior parte do tempo trancados no quarto.

Ele tinha um leve sotaque, indefinido, talvez proveniente de várias línguas. Diziam que era russo, mas criado na China – mas então de onde vinha o nome Wilson? No entanto, eu nunca perguntei sobre a sua origem. Nem sobre a sua família. Era um relacionamento estritamente profissional, sem a intimidade que poderia se supor entre duas pessoas que moram sob o mesmo teto.

Assim foram passando os meses e o fascínio deu lugar à paixão. E a paixão, reprimida, cedeu o lugar ao amor. Um amor silencioso, abafado, mas não infeliz. Eu não pedia nada. Eu não queria nada. Eu não esperava nada, mesmo porque ele gostava de mulher. Apenas queria estar – como estava – perto dele e cuidar dele. Eu o amava como o cão ama o seu dono. Como o escravo ama o seu amo. Mas seria reducionista pensar que eu enveredava pela submissão secular dos negros em relação aos brancos. Não. Eu era apenas um homem, negro, que amava um homem, branco. E que, por vias das circunstâncias sociais, esse homem branco era o patrão do homem negro. Poderia muito bem ter sido o inverso, ou seja, o negro num patamar social acima do branco.

Ele tinha idade para ser o meu pai. Era sessentão – calculava eu – quando eu, quase quarentão, comecei a trabalhar em sua casa. E assim foram passando os anos. A intimidade – uma intimidade muito peculiar, física sem ser sexual, levou tempo para brotar e foi crescendo progressivamente, bem devagar. Na realidade, a paixão, que é amor e desejo – ou talvez tudo isso seja redundância e se resuma apenas a amor no sentido mais profundo da palavra – passou a exigir a sua parte, tanto afetiva como sexual. Eu não saía com ninguém – anos a fio sem saber o que era o corpo de um homem – e me masturbava constantemente pensando no homem que amava. Às vezes tinha poluções noturnas sonhando com ele. Era muito difícil reprimir essa vontade convivendo o dia todo com o objeto do desejo. Contudo, eu acabava sublimando esse amor.

Um dia em que ele cortava as unhas das mãos, eu lhe disse que, se ele quisesse, eu poderia cortar as suas unhas. Ele aceitou e me estendeu a mão e a tesoura sem uma palavra. E cortei as suas unhas. E tive imenso prazer em tocar e segurar as suas mãos. Quando terminei, criei coragem e lhe disse que poderia cortar também as unhas dos seus pés, se assim ele o desejasse. E uns dias depois cortei as suas unhas dos pés, depois do banho. E toquei os seus pés, com imenso prazer. Ele estava só de roupão e eu podia ver as pernas e parte das coxas, o que me excitou, mas controlei a ereção. E passei a cuidar das suas mãos e dos seus pés com muita alegria. Isso me deu coragem para o que eu considerava mais uma ousadia para usufruir do contato físico do homem que amava. Sugeri-lhe que eu poderia lhe esfregar as costas quando ele estivesse tomando banho de imersão. Ele aceitou. Como aceitara que cuidasse de suas mãos e de seus pés. Ele apenas disse: tudo bem. Claro que eu pensava: será que ele sente algo quando o toco? Mas, para não criar expectativas, tentava me convencer de que ele gostava apenas de ser cuidado. De que ele, solitário, apreciava que alguém cuidasse de seu corpo regularmente.

Quando esfregava as suas costas, antes que a espuma turvasse a água, eu olhava o seu sexo, o que deixava o meu membro ereto. Mas não havia problema, pois ele não podia me ver, já que eu estava atrás dele. Porém, um dia, inesperadamente (e propositalmente), ele me pediu que esfregasse o seu peito. Na hora fiquei petrificado: o meu membro estava ereto. Fui à sua frente e ele percebeu.

– Você está excitado.

– Desculpe, doutor Wilson, desculpe, disse eu abaixando o olhar.

– Não há nada a desculpar. É uma reação natural. Não se preocupe.

Intuíra ele que eu me excitava quando esfregava as suas costas? Será que ele quis confirmar o que suspeitava, pedindo que esfregasse o seu peito? Talvez, porque ele nunca mais voltou a pedir que esfregasse o seu peito. Uma coisa é certa: nunca o vi com ereção enquanto eu esfregava as suas costas. O que significava que ele não se excitava. Ou ele conseguia se reprimir?

Uma noite – isso depois de mais de um ano após eu ter começado a trabalhar em sua casa – ele inquiriu:

– Você me disse que gosta de ler.

– Sim, doutor Wilson.

– Você não gostaria de ler comigo na biblioteca depois do jantar?

– Sim, doutor Wilson, gostaria.

E praticamente toda noite passamos a ler na biblioteca. Ele me sugeria livros, que eu devorava. Não conversávamos. Apenas líamos. E quando eu terminava um livro, ele perguntava:

– Gostou?

E eu respondia invariavelmente que sim. E assim a nossa intimidade ia se estreitando. E o meu amor crescendo. Entretanto, o seu rosto continuava impenetrável. Um rosto marmóreo que eu não conseguia decifrar. Um rosto onde eu tentava descobrir um sinal de amor, de desejo. E com o passar do tempo, passei a sentir ciúme da misteriosa mulher elegante que o visitava regularmente. Essa mulher com a qual ele fazia sexo durante todo um fim de semana, uma vez por mês. Uma vez a cozinheira – a mais velha de casa – comentou que essa mulher era, na realidade, a sua ex-mulher, que se casara novamente, mas que não o esquecia, que continuava gostando dele. Não sei de onde a cozinheira tirara essa informação. Ele nunca falava nada sobre a sua família e eu, obviamente, não indagava nada. Às vezes eu me perguntava qual era o enigma de sua vida. Teria ele algo a esconder? Um dia uma vizinha xereta me perguntou se o meu patrão era judeu, sobrevivente de um campo de concentração nazista. Ignoro de onde ela tirara essa história. Evidentemente respondi que não sabia. Curiosamente ou não, essa indagação da vizinha acabou se revestindo de uma inopinada conotação erótica. Se ele, o meu patrão – para usar o termo que empregara a vizinha – ou seja, o meu amado doutor Wilson era judeu, ele era circunciso. Portanto, caberia a mim observar o seu pênis enquanto eu lhe esfregava as costas. E desvendar o mistério de sua origem na sua glande era algo altamente estimulante, instigante.

Todavia, depois de anos, ventos funestos varreram as finanças da casa. Um dia ele me perguntou se eu sabia cozinhar. Respondi que sabia preparar alguns pratos.

– Você aceita cozinhar para mim?

– Aceito, doutor Wilson.

E pela primeira vez na vida ele se abriu comigo.

– Estou numa situação financeira muito difícil. Vou ter que demitir a cozinheira e a empregada.

– Pode contar comigo, doutor Wilson.

E ficamos os dois sozinhos naquela casa imensa. E passei a lhe preparar as refeições. Era tão grande o meu amor por ele, que me tornei criativo na cozinha. A partir do dia em que iniciei a minha nova tarefa, passamos a comer juntos na sala de jantar. Sim, café da manhã, almoço e jantar sentados à mesma mesa. Logo depois de assumir a minha nova função, ele me pediu que deixasse o meu quarto na água-furtada e me mudasse para um cômodo de hóspedes ao lado do seu dormitório. Estava cada vez mais perto dele. Será que um dia ele me convidaria a compartilhar a sua cama?

Por aquela época, a misteriosa dama deixou de visitá-lo – teria ela morrido, ou brigado ou se cansado da relação? Senti-me feliz por não ter mais rival. Talvez agora que não tinha mais parceira sexual, ele se aproximasse de mim, me quisesse, me amasse como eu o amava. Mas as suas finanças pioraram e uma noite, durante o jantar, ele me comunicou laconicamente a minha demissão.

– Lamento, mas não tenho mais meios de mantê-lo comigo.

O mundo pareceu desabar. Era o fim da minha vida. Longe dele a minha existência não fazia sentido. Tive muita dificuldade de conter as lágrimas. Tomei uma decisão instantânea, já que tudo parecia perdido.

– Doutor Wilson, pelo amor de Deus, não me mande embora. Eu fico aqui sem salário. Não quero sair desta casa. Há mais de dez anos que estou com o senhor. A minha vida é nesta casa. Não tenho mais nada a fazer fora desta casa a não ser morrer.

Teria gostado de acrescentar que o amava, que o amava desesperadamente. Que não queria ficar longe dele. Que não lhe pedia nada. Absolutamente nada senão que me deixasse morar com ele. Os meus olhos marejaram. Pedi desculpas e saí. Queria chorar sozinho em meu quarto. Subi as escadas correndo. Entrei em meu quarto. Sentei na poltrona e comecei a chorar como uma criança desamparada. Poucos minutos depois ele bateu à porta e entrou. Automaticamente me levantei. Parei de chorar. Sequei os olhos. Ele avançou em minha direção. Durante uns segundos olhou-me sem dizer nada. Então o seu semblante, abandonando a fleuma, esboçou um leve sorriso. E ele me abraçou. Ele me abraçou pela primeira vez na vida. Voltei a chorar. Ele me apertou bem forte em seus braços. Quanto tempo permanecemos abraçados? Não sei. Quando ele desfez o abraço, acariciou o meu rosto e disse:

– Pode ficar.

Peguei a sua mão e a beijei. Foi a maneira que encontrei de lhe agradecer. E esclareci:

– Não choro por perder o emprego, mas por perder o senhor.

– Eu sei, replicou ele, você é muito nobre.

Na realidade, o meu pranto foi uma catarse. O aviso de demissão foi um pretexto para os diques que represavam a paixão estourarem. Sim, em verdade eu estava chorando uma paixão reprimida durante mais de dez anos. E sabia que não havia esperança. Ou estaria eu enganado? Estaria ele reprimindo o desejo? Será que ele, heterossexual, não teria uma dose, uma porcentagem de homossexualidade? Algo lá no fundo que ele não deixava aflorar? Ou estaria eu fantasiando algo que não existia? Talvez ele tivesse apego, afeição por mim depois de tantos anos de convivência. O que não queria dizer necessariamente que ele tivesse vontade de deitar comigo. Sim, talvez fosse isso que o induzira a aceitar que eu permanecesse na casa sem ganhar nada. Ele estava muito acostumado com a minha presença. Com os meus cuidados. Eu sabia que ele apreciava os meus mimos, por assim dizer. Que ele gostava tanto que eu cuidasse dele (cortar as unhas, esfregar as costas e, uns tempos depois, aparar a sua barba e barbear o seu pescoço, isso sem contar os pratos exóticos que eu lhe preparava), que cuidasse do seu corpo (que tocasse o seu corpo?) que engoliu o eventual orgulho de patrão que se vê reduzido a aceitar a ajuda do empregado.

E a vida continuou naquela casa que ninguém frequentava. Embora ele tivesse contratado uma faxineira uma vez por semana, eu tinha muito trabalho a fazer. Mas fazia tudo com entusiasmo e alegria. O prazer de servir o homem que amava loucamente. O deleite de cuidar de um homem que para mim era um pai, um irmão, um filho. Um homem solitário que era a minha única família. O fato é que éramos tão sozinhos um quanto o outro.

Uma manhã ele se sentiu mal. Chamei a ambulância. Fomos ao hospital. Ele saiu no dia seguinte: não era nada grave. Senti-me muito feliz, pois ficara apavorado com a ideia de perdê-lo. Uma semana depois fui ao banco para ver o meu saldo, pois às vezes eu comprava mantimentos para a casa do meu bolso, já que eu, com o passar dos anos, tinha feito um pequeno pé de meia. Constatei então que alguém (que só poderia ser ele) depositara uma soma – respeitável para mim – na minha conta. Indaguei:

– Doutor Wilson, o senhor depositou dinheiro na minha conta?

– Depositei.

– Mas é muito dinheiro e o senhor está tão apertado.

– Vendi um terreno.

– Mas…

– Se eu não faço isso por você, por quem o faria?

– Doutor Wilson…

– Você faz coisas por mim que ninguém jamais fez. Além do mais você está pondo dinheiro do seu bolso na casa. Digamos que o que depositei é uma pequena recompensa pelos seus serviços, pela sua devoção, pela sua lealdade.

Eu estava profundamente emocionado com as suas palavras. Era a segunda vez que ele me elogiava – e desta vez de modo mais extenso. Teria ele pensado na morte e querido deixar algo para mim antes de partir? Ah, meu Deus, como o amava! Amava-o tanto que em vez de dinheiro teria preferido que ele passasse uma noite comigo. Sim, teria preferido sentir o seu corpo fazendo amor com o meu.

Uma noite acordei de madrugada com alguém – que só poderia ser ele – batendo à porta do meu quarto. Estaria ele se sentindo mal ou ele queria…

*

Nunca consigo dar um fecho à minha fantasia. Por um estranho mecanismo do meu inconsciente, talvez não queira lhe dar um final. Ou talvez não queira consumar o ato tão esperado para não romper o encantamento. Às vezes crio variantes da história. Mas é basicamente o mesmo relato que nunca acaba. O doutor Wilson é sempre o mesmo, assim como o seu mordomo. Esses dois personagens fazem parte da minha vida. Deixam de ser virtuais para se tornarem quase tangíveis. Presumo que é um pouco o que acontece com o romancista e os seus personagens durante a criação do romance. Aliás, talvez um dia eu escreva O Doutor Wilson e Seu Fiel Mordomo. A ficção é sempre mais bonita que a realidade. Sou formado em biologia, mas sempre gostei de literatura e de escrever. Além do mais, essa história, essa projeção, me mantém vivo, por assim dizer. Dá-me esperança. Dá-me esperança depois das enroscadas da vida. Na vida de um homem negro, de origem paupérrima e gay. De um homem que acredita – ingenuamente? – no amor.

Sim, essa história me ajuda a superar os fracassos amorosos. E sempre que sofro uma decepção amorosa, apelo para essa fantasia para sobreviver. Como aconteceu com a minha última relação. Deveria ter desconfiado. Um branco bonito, sensual, fogoso, carinhoso e…  aproveitador, cafajeste e violento.  Aproveitou-se da minha carência afetiva. Um gigolô. Pediu-me dinheiro três vezes. Não devolveu. Na quarta, neguei e apanhei. Apanhei feio. Lábios e nariz sangrando. Tive que ir ao pronto-socorro. A única reação que tive foi dizer:

– Se você voltar à minha casa, os meus irmãos te matam. Eu sei onde você mora. Eu sei onde te encontrar.

Deu-me mais um tapa e saiu. E nunca mais voltou.

Os meus quatro irmãos se afastaram de mim quando souberam que eu era gay. Não tenho nenhum contato com eles. Sou o caçula, o único que estudou. Os meus pais já são falecidos. Não tenho família.

Eu não aprendo. Não aprendo a desconfiar dos homens. E vivo me ferrando. Porque sou sozinho e quero ser amado como todo ser humano. Um homo tem as mesmas necessidades afetivas que um hétero, claro. Sim, vivo me ferrando. É por isso que apelo para a minha fantasia. O doutor Wilson, embora muito fechado (será que ele não consegue sair do armário?), é um homem branco bom, honesto, respeitável e respeitador. Gosto muito dele. E ele gosta de mim. Em última instância, só tenho ele.

10-05-2016

Alguns dos 31 livros publicados em papel de R.Roldan-Roldan estão agora na Amazon.

 

 

 

 

O Diário dos Escritores entrevista R.Roldan-Roldan

  

R.Roldan-Roldan, cidadão brasileiro, nascido na Espanha, criado no Marrocos, formação francesa. Romancista, contista, dramaturgo, poeta, pensador e articulista (seus artigos publicados num jornal estão editados no blog http://www.davidhaize.wordpress.com). Autor de 31 livros publicados fisicamente.

Diário – Quando começou a escrever?

Roldan – Comecei a escrever aos sete anos de idade. Compulsivamente.

Diário – Como encara a situação das editoras em relação aos livros digitais, acredita que todas se renderão e fecharão as portas por não poderem acompanhar as edições por conta própria?

Roldan – Sempre haverá leitores de livros de papel, mas a tendência e o futuro são os livros digitais.

Diário – Tem obra(s) publicada(s)? Cite-a(s).

Roldan – 31 livros publicados em papel. A obra inclui romances, contos, teatro e poesia. Poderia mencionar os romances Litterata ou O Doce Sorriso do Macho Satisfeito, Boa Viagem Sheherazade ou A Balada dos Malditos e Rapsódia Para um Viajante Solitário. No teatro, O Ato – Foder É Vermelho e As Papoulas de Constantinopla. Nos contos Juiz, Casado, com Filhos, Procura Homem Para Sexo Casual e Ao Sul do Desejo. Na poesia, Inidentidade (escrito em quatro línguas: português, inglês, espanhol e francês) e A Dor da Identidade, Khayyam, Tânger. E no epistolar, Cartas a um Filho em Coma. Estes livros estão agora disponíveis para download na Amazon.

Diário – Como encara a situação do escritor no Brasil?     

Roldan – Num país que não lê, se comparado com outros, a situação do escritor no Brasil só pode ser ruim.

Diário – O que acha que deveria mudar nos planos da cultura no Brasil?

Roldan – Pouco ou nada pode se esperar de um país que não prioriza a cultura, mesmo porque, no conceito do neoliberalismo e seu pragmatismo, a cultura não dá lucro, portanto é algo que não interessa ao sistema vigente.

Diário – Qual foi o livro nacional que mais marcou sua vida?

Roldan – Há vários livros nacionais que me marcaram. Poderia citar Avalovara, de Osman Lins, Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Diário – Acredita que os brasileiros estão perdendo o hábito da leitura?

Roldan – Sim, o brasileiro está perdendo o hábito da leitura. É um longo processo de há décadas que vem se acentuando com o descaso do sistema em relação à cultura de modo geral. Mas, obviamente, não podemos esquecer que há um fator, a nível mundial, que é a expansão da cultura da imagem, que acaba se desdobrando na crescente ausência de raciocínio. Em outras palavras, cada vez existe menos espaço para pensar. Pede-se ao cidadão que compre cultura barata, superficial, de fácil digestão e que a degluta rapidamente para prosseguir com o consumo idiota e sem sentido. O seja, o absurdo de consumir por consumir. Logo, a cultura de massa é lixo descartável que não serve para nada, a não ser para alienar o consumidor. Qualquer escritor sério, que se preze, vai rejeitar esses montes de best-sellers – e aí incluo os famigerados livros de autoajuda – que assolam o mercado editorial e que não acrescentam nada à inteligência.

Diário – Além de escrever, pratica algum outro tipo de arte?

Roldan – Se não fosse escritor seria cineasta. Sou cinéfilo, mas não filmo. Tenho uma verdadeira paixão pelo cinema. Mas certamente não por aqueles blockbusters insuportáveis que parecem dirigidos a débeis mentais.

Diário – Com qual livro você se presentearia hoje?

Roldan – Com qualquer clássico. Desde os clássicos gregos aos clássicos modernos.

Diário – Cite três autores que gostaria de homenagear.

Roldan – Citarei três autores que admiro e que me marcaram: Rimbaud, Khayyam e Nietzsche.  Identifico-me totalmente com o visionário francês, com o hedonista persa e com o niilista alemão.

Diário – O que acha dos jogos interativos? Acredita que podem ajudar crianças a aprenderem a ter gosto por leitura logo cedo?

Roldan – Sou bastante cético a respeito.

Diário – Se fosse para reescrever uma obra já consagrada, qual seria?

Roldan – Das obras consagradas que amo não reescreveria nenhuma, embora eu seja muito exigente. Todavia, é bom frisar que nem toda obra consagrada é realmente uma grande obra. E isso ocorre em todas as manifestações da arte em geral. Às vezes se convenciona consagrar uma obra que deixa a desejar sob certos aspectos. Mas, por temor de parece ignorante, ninguém é capaz de contestar a qualidade dessa obra.

Diário – O que tem a dizer sobre a alfabetização de adultos?

Roldan – A alfabetização de adultos é louvável, mas o fato de um cidadão saber escrever seu nome e ler (mal) não indica que o País tenha elevado seu nível cultural.

Diário – Fale em poucas linhas quem é Roldan-Roldan.

Roldan – Como sou um animal literário – ou um animal intelectual, por assim dizer – apaixonado pela literatura, acho que a primeira das três melhores coisas da vida é escrever. Como sou sanguíneo e voraz, acho que a segunda melhor coisa da vida é copular. E como sou hedonista e gourmet, acho que a terceira melhor coisa da vida é comer. O exercício da escrita me proporciona um prazer que me eleva não só mentalmente, mas espiritualmente. O sexo me faz sentir vivo e me torna mais generoso, humilde e tolerante. A repressão sexual é uma violência contra o corpo e o espírito e é uma aberração. E o alimento encerra o que considero a divina trindade do hedonismo.

Sou, por linhagem da qual me orgulho muito, livre-pensador e libertário. E não tolero o achatamento do conhecimento humano em nome da religião ou de qualquer doutrina política. O cidadão é livre e tem por missão destruir tudo aquilo que atente contra sua liberdade. É de pasmar como, durante séculos, a classe dominante, fosse civil ou religiosa, esmagou todos aqueles que contestavam a verdade oficial, em nome da qual tudo o que a ela se opunha era eliminado. Os exemplos históricos estão aí para prová-lo. E frisemos que o homem honesto se atém apenas ao factual. Assim como um governo honesto deve se ater só ao factual e disseminar o conceito de verdade provada entre seus cidadãos. E para finalizar, é o suprassumo da ignorância achar que a Razão, ou racionalismo, elimina a espiritualidade, que, diga-se de passagem, pode ser laica.

02-03-2016

 

Addio, Ettore Scola

janeiro 25, 2016

Addio, Ettore Scola

Quando um grande artista que admiramos morre, sentimo-nos tristes como si tivéssemos perdido um amigo. Um amigo com o qual nos identificamos, com o qual temos muito em comum. É o caso de Ettore Scola, que faleceu dia 19 de janeiro em Roma, aos 84 anos. E certamente não há cinéfilo que não lamente sua morte. Com ele desaparece o último dos grandes cineastas italianos das décadas de 1960 e 70. Scola tem um lugar privilegiado não só no cinema italiano, mas na cinematografia mundial, ao lado de Visconti, Antonioni, Fellini, Zurlini, Montaldo, Pontecorvo e outros (para citar só seus conterrâneos) que iluminaram a sétima arte. Nessas duas décadas, nenhum outro cinema resplandecia no mundo como o italiano.
Grande cineasta humanista. Grandes filmes. Inesquecíveis. Não só porque nos faziam pensar, sem serem áridos, mas porque nos emocionavam, sem serem edulcorados. Não há em sua filmografia uma única obra que o desprestigie. Eu mencionaria quatro grandes filmes que me envolveram, intelectual e emocionalmente e que me marcaram.
“Nós Que Nos Amávamos Tanto (C´eravamo tanto amati)”, de 1974, que, para um “soixante-huitard” como eu, é um prato cheio, e que retrata a trajetória de três amigos que lutaram na resistência contra o nazismo e o fascismo e que sonharam em transformar o mundo para torná-lo mais humano, mas que foram transformados por ele, por esse mundo que virava uma página da História. O desencanto com a vida privada e com a política. Comédia amarga e melancólica que muitos críticos consideram o melhor trabalho do diretor.
“Casanova e a Revolução (La nuit de Varennes)”, de 1982, belíssima exposição, com acentos viscontianos (a desagregação que o tempo traz), de um mundo que ruiu com a Revolução Francesa de 1789. Nessa esplêndida obra, os personagens – alguns históricos, como Giacomo Casanova, o escritor Restif de La Bretonne e o revolucionário Tom Paine e outros fictícios – viajam numa diligência, o que nos reporta ao clássico No Tempo das Diligências, de John Ford. Mas fora o meio de transporte, um filme não tem nada a ver com o outro. E, diga-se de passagem, o filme de Scola não deixa nada a desejar se comparado com o de Ford. Pessoalmente, prefiro a diligência francesa à do western.
“O Baile (Le bal)”, de 1983. Um assombro. Um verdadeiro “tour de force”. O exemplo de como com num único cenário um diretor pode ser extremamente criativo e seduzir o espectador. Num salão de baile desfilam, pelas músicas tocadas e dançadas, mais de seis décadas da história da França. Dos anos 1920 aos 80. E assim, através das músicas, temos a Segunda Guerra Mundial, a ocupação nazista, a Resistência, a libertação, a chegada dos norte-americanos. Filme mundo. Sim, tudo sem uma palavra. Apenas as músicas e as danças que vão mudando conforme passa o tempo. Os mesmos intérpretes. Mudam apenas as roupas, os penteados e a maquiagem. Uma obra-prima.
“A Viagem do Capitão Tornado (Il viaggio di capitan Fracassa)”, de 1990, baseado no romance de Théophile Gautier. No século XVIII, uma trupe de teatro ambulante, surpreendida por uma tempestade, se refugia no castelo de um nobre arruinado. Encantador. Feérico. Puro lirismo digno do melhor Fellini.
Citei apenas os meus favoritos. Merecedores de destaque, temos, entre outros, “Um Dia Muito Especial” (1977), profundamente humano, e “Feios, Sujos e Malvados” (1976) que, de certo modo, dialoga com “Viridiana”, de Buñuel, além de “A Família” (1987), “O Jantar” (1998), e “Splendor” (1989), cuja trama se assemelha à de “Cinema Paradiso”, de Tornatore.
Adeus, querido grande maestro. Addio, Ettore Scola. Grazzie mille. Sim, obrigado pelas muitas horas de prazer inteligente que você nos proporcionou. Sem você, o cinema mundial encolheu.
23-01-2016
R.Roldan-Roldan é escritor
http://www.davidhaize.wordpress.com