Jet Fuck

março 10, 2021

Jet Fuck

        PanAm, voo… com destino a… portão…

        Apertem os cintos…

        A louca viagem. Rabat-Dacar-Beirute-Teerã-Cabul. Eu embarco em Dacar. Você embarca em Rabat. Três horas de conexão no aeroporto de Fiumicino. O suficiente para ir a um hotel e dar três metidas antes de prosseguir viagem para Beirute, onde você desce. Eu continuo para Teerã e, após uns dias, para Cabul. Como você se chama? Odile, acho.  Não me lembro bem. Mas me lembro muito bem de seu belo rosto, seus olhos azuis e seus cabelos bem curtinhos. Sim, é isso: Odile. Você era francesa. Je t´aime. Será?

        A louca viagem. São Paulo-Paris-Lisboa-Granada-Tânger. Voo noturno. As mãos buscam a intimidade quente e úmida. Chegando em Paris, um hotelzinho no boulevard Saint-Michel, o Boul´Mich. Loucos dias de metição a toda hora. Entre museus, monumentos e igrejas. Qual era seu nome? Aracy. Morena gostosa de bunda generosa. Brasileira. Amo-te? Não sei.

        A louca viagem. São Paulo-Nova York-Paris, onde você me aguarda no aeroporto de Orly. Pau esfolado de tanto trepar na capital francesa. Também um hotelzinho do boulevard Saint-Michel. E depois dessa lua de mel, será o grande amor. Blanca. Espanhola. L´amour fou.

        Doce Beverly. Americana de Detroit, em curso em Nova York. Me apaixono mesmo por ela. E no mesmo curso, Michèle, a fogosa francesa que se dizia cigana. E viva o pau socando!

        A louca viagem. Edith. Num hotel do aeroporto de Frankfurt. Embarcamos em São Paulo. Chegando em Frankfurt, metemos o dia inteiro. À noite, sem sair do aeroporto, volto ao Brasil. O curso dela na Alemanha começa no dia seguinte. Edith, brasileira linda, alta, esbelta, elegante, com um belo sorriso e charmosas covinhas. Santo pau que o bom Deus me deu!

         A louca viagem. Num Boeing  747, entre Rio de Janeiro e Nova York. Voo noturno. Desta vez com a legítima esposa. Socação num dos banheiros do avião. Metida coelhiática. Rapidinha. Para futuramente contar aos netos que vovô meteu com vovó numa aeronave Boeing 747 da PanAm entre Rio e Nova York.

        Aperitivo?…

        Mais um aperitivo?…

        Com Acia e Noeli não foi foda – ou quase – jet fuck. Foi foda rodoviária. Acia – a eterna Anastacia Lazarovna de minha vida e de meus livros  – me punhetou num ônibus entre Campinas e São Paulo, à noite. Como a minha porra fedia muito, ela despejou meio frasco de perfume francês em cima de nós para confundir o olfato dos passageiros. Quanto a Noeli, valquíria louríssima de olhos celestes, ela me chupou num ônibus entre São Paulo e Campinas, à noite, claro.

        C´era una volta la gioventù…che non torna mai più…

        Sim, como já disse. As papoulas dançando mambo ou calipso. E os lírios valsando. E os cravos dançando tango. Onde estás, juventude? Eram dias loucos, selvagens, urgentes. Amanhã posso estar morto. Aproveitemos ao máximo a existência. Os hormônios em flor. Os hormônios em ebulição. A testosterona pressionando. Agito dos grãos como bolas de pingue-pongue. Até um buraco na parede serve. E o pau, santa pica, vive entre bronhas, bocetas e cus. Só se vive uma única  vez. Não há nada, a não ser gozar a vida – e escrever, claro. Antes que seja demasiado tarde. E que ninguém me venha com discursos baratos de fé religiosa. Sexo para se sentir vivo.

        Carne, frango ou peixe?…

        E para beber?…

        Geralmente como peixe e bebo xerez.

        Dentro de alguns minutos pousaremos no aeroporto de…

        Céus! Tantos e tantos aeroportos…

        É isso aí. Hier encore j´avais vingt ans, canta Aznavour. Yesterday when I was young, canta Shirley Bassey. Those were the days, canta Mary Hopkin. Kak, molody my byli (Quão jovens nós éramos) canta Dmitri Hvorostovsky.

        – Oi, meu querido. Como vai?

        – Vou bem. E você?

        – Estou velha, mas a saúde está boa. E você? O que você me conta?

        – Estou bem de saúde. E velho, como você. E seus filhos e netos?

        – Estão todos bem, graças a Deus. E os seus?

        – Todos bem.

– A única coisa é que me sinto muito sozinha.

– Faz parte da velhice.

– Você não se sente sozinho?

– Eu tenho a literatura que me faz companhia. E vou sobrevivendo com a escrita. Emocionalmente, não  financeiramente, mas pelo menos não entro em depressão.

        – Feliz você.

        – Sim. Não posso me queixar.

         – Mas você não se sente sozinho?

         – Sim, mas fazer o quê?

        – Não tem namorada?

        – Não.

        – Não sente falta?

        – Sentir, sinto. Mas o que você quer que eu faça fora bater punheta? Você não bate siririca?

        – Credo! Que palavra feia. Isso é coisa que se pergunta a uma senhora idosa?

        – Ué, presumo que você ainda está viva.

        – Não quer vir me ver e passar um fim de semana em casa?

        – Não.

         – Eu faço harira ou couscous marroquino para você. Seus pratos favoritos.

        – Não tenho vontade de sair de casa.

        – Se você percorreu mais de 18 mil km de São Paulo a Tóquio, você pode fazer 100 km de Campinas a São Paulo.

– Não sei, não.

         – Venha e a gente recorda nossos tempos de mocidade. De amor. Nossas loucas viagens. Como diz Aznavour, on était jeunes, on était fous.

        – Meu pau não levanta mais.

         – Eu o faço levantar.

         –  Você chupava muito bem.

         – E ainda chupo. Isso a gente não esquece.

         – Tenho pouca porra agora. E rala.

         – Não faz mal. Sempre gostei de tua porra.

         – Velha safadinha. Você gostava de engolir a minha porra.

         – Uma delícia!

         – Você está muito assanhada.

         – Estou mesmo. E com muita vontade de lamber teus bagos.

         – Velha obscena, indecente. Não tem vergonha de falar essas coisas?

         – Eu não. Estou ficando taradinha.

        – Tudo bem. Vou te visitar, minha querida Mimi La Belle.

– Adorava quando você me chamava de Mimi La Belle. Só que já não sou mais La Belle.

 – Não faz mal.

        É isso aí.

        E Annie Girardot. O que tem a ver Annie Girardot com tudo isso? Nada. Era uma atriz maravilhosa. E Julien Sorel. O que tem a ver Julien Sorel com tudo isso? Nada. É um personagem fascinante de um dos maiores romances de toda a literatura mundial, O Vermelho e o Negro. Não sei aonde você quer chegar. Qual é a relação da Girardot e do Sorel com teu conto? Nenhuma. Apenas me lembrei deles. Fizeram parte de minha juventude. Assim como me vi  caminhando pelas praças desertas de Giorgio De Chirico. Estou zoando. Nonsense. Por quê? Para dissipar um eventual ranço de velho saudosista. Para desmistificar o romantismo e a busca do tempo perdido. Ou para mandar tomar no cu aquele ou aquela que me achar machista e falocêntrico ao relatar as fodas a jato de minha juventude.

31-01-2021        

Kashdar – Passaporte Inválido

Quarta Viagem

Tomar no cu/ Tomar no cu quem?/ Sei lá/ O mundo todo/ David David o que há?/ Amanheceu com a macaca?/ É período de lua cheia?/ Quero que o mundo se foda/ A começar pelo Brasil/ David Haize como é que um escritor sério consciente coerente um escritor humanista fala desse jeito?/ Falo porque não aguento mais/ A minha vida virou uma situação kafkiana/ Estou parecendo um inseto trancado numa caixa de vidro que bate a cabeça ou as antenas contra os quatro cantos da caixa na tentativa inútil de sair/ Calma David calma/ Calma uma ova/ Filhos da puta/ Lazarentos/ Escória/ Escrotos/ Ralé política/ Quem quem quem?/ O filho da puta do Trump e o filho da puta do Bolsonaro/ E o filho da puta do Araujo e o filho da puta do Salles e a filha da puta da Damares/ E o filho da puta do Malafaia/ Todos bastardos como se dizia antigamente/ Que coisa desprezível/ Que coisa nojenta/ Que coisa baixa eticamente/ Mas David o que esses políticos medíocres baratos de fim de feira têm a ver com a tua situação com a tua raiva?/ Tem a ver sim/ Eles estão arrastando o mundo para a merda/ Eles não só são inúteis corruptos irresponsáveis mafiosos incompetentes ridículos ignorantes estúpidos mas ainda por cima estão afundando o mundo no totalitarismo/ Pense em outra coisa David/ Pense em outra coisa para amenizar a viagem/ Pensar em quê?/ Na putaria da religião?/ Tomar no cu a religião e os pastores safados/ Pensar em quê?/ Estou voltando/ Estou voltando mas não para o ponto de partida/ Estou indo para essa faixa esse território chamado Kashdar espremido entre dois países/ Esse território autônomo mas não independente controlado pelas duas nações que o cercam/ Uma terra de ninguém abarrotada de refugiados/ O limbo de onde não sei como vou sair  depois de ser rejeitado na fronteira do país livre onde me disseram que meu passaporte era inválido e me mandaram de volta/

Primeira Viagem

        David pense na primeira viagem. Pense em algo mais ameno. Naquela época eu, adolescente, vendia ratoeiras nas cidades de Larache, Tétouan e Ksar el-kebir. Saía de manhã de Tânger e voltava à noite. Viajava de ônibus . Ou num trem velho. Sim, o apito do trem, o apito do navio (onde meesconderam quando era criança para viajar clandestinamente) estremece minha memória. E… aquela partida aperta o coração de menino longe de seu pai e de sua mãe e a ausência já se infiltra pelas fendas do silêncio. E futuramente desmembrarei o silêncio em busca do calado, na mítica engrenagem do não dito. Ali, onde a palavra se recolhe na semente e a esperança voga na probabilidade do porvir. Sonhos de adolescente tangerino voando sobre as asas das  águias. E agora estou num trem. Um trem antigo e velho. Indo para outro país. Fugindo da vida cinzenta. Do sufoco de se sentir preso. Escapando para conquistar o mundo com a glória literária. Sentada ao meu lado, uma mulher jovem, com aspecto de camponesa e com uma cesta de vime no colo me pergunta:

– Falta muito para chegarmos?

– Umas três horas mais ou menos, se o trem não atrasar, respondo.

– Tomara não atrase. Peço a Deus que me ampare e me deixe atravessar a fronteira sem problemas. Meu marido está me esperando do outro lado da fronteira. Meu bebê está aqui, nesta cesta com tampa. Mas eu não tenho  documentos do meu filhinho. Vamos ver se conseguimos passar. Você é refugiado?

– Não. Tenho passaporte.

– Então não está fugindo como eu?

– Não. Tenho os documentos em ordem.

– Que sorte. Deus o proteja.

– Obrigado.

        Mas, quando cheguei ao posto de imigração da fronteira, fui informado de que meu passaporte era inválido. E me mandaram de volta ao ponto de partida.

Segunda Viagem

        O trem desta vez era melhor. Mas antigo, de compartimentos. No compartimento havia um homem de uns 40 anos que me perguntou algo que não entendi. Falava uma língua que eu não conhecia. Parecia, fisicamente, ser do Oriente Médio. Eu estava confiante de que desta vez não teria problemas para atravessar a fronteira e entrar no país onde pretendia morar. Tinha, naquela época, uns 30 anos e o vigor da esperança impregnava meus ossos e minha carne tanto quanto meu coração e minha mente. Mas, para minha decepção, chegando na fronteira, o funcionário da imigração recusou meu passaporte.

        – Seu passaporte é inválido.

        – Como assim inválido?

        – Seu passaporte é inválido.

        – Por que inválido? É um passaporte novo.

        – Seu passaporte é inválido.

        E encerrou a conversa. E me mandou de volta para meu ponto de partida. Sem dar mais explicações.

        Eu não entendia por que meu passaporte era inválido. Nunca entendi.

Terceira Viagem

        Era um trem confortável. Um homem, negro, de uns 50 anos, entrou no compartimento e se sentou à minha frente.

        – De carne é feito meu desejo// De letras minha paixão// De espera minha solidão// De acrílico o parque onde perambulo sem raiz, disse o homem.

        – Belos versos. São seus? comentei.

        – Não. São seus, respondeu.

        –  Meus? Não me lembro de ter escrito esses versos.

        – No entanto são seus, insistiu.

        – De onde você tirou essa ideia?

        – De sua fisionomia.

        – De minha fisionomia?

        – Sim.

        – Quem é você?

        – Um guarda-costas.

        – Um guarda-costas?

        – Sim. Um guarda-costas que te acompanha desde que você, criança, viajou clandestino, sem teu pai nem tua mãe, escondido num navio.

        Senti um arrepio. Falta de ar. E meus olhos marejaram.

        Percebendo a minha reação, explicou.

         – Um guarda-costas que te protege no exílio. O termo anjo da guarda está fora de uso neste novo mundo de onde a espiritualidade foi banida.

        Senti vontade de chorar. Contive-me.

        – Por que você faz isso?

        – No mundo sensorial a razão não entra.

        – O que você quer dizer?

        – Que há coisas que não têm explicação.

        – Qual é seu nome?

        – Joe Fields.

        E saiu do compartimento. Não o vi mais durante a viagem.

        Joe Fields… Esse nome me dizia algo.

        Respirei fundo. Tinha certeza de que desta vez atravessaria a fronteira e entraria no país de destino. Mas, para minha decepção, ouvi, mais uma vez, aos meus quase 50 anos, que meu passaporte era inválido. E achei que teria sido inútil perguntar por que meu passaporte era inválido. Mesmo porque não teria recebido uma resposta satisfatória. O curioso no caso era que nunca alegaram que meu passaporte era falso, mesmo porque não era falso. Por que então meu passaporte era inválido se a data de vencimento não tinha sido atingida? E me mandaram de volta para o país de onde saíra. Não entendia. Nunca entendi. O que havia de errado comigo, com meu documento de viagem? Inútil continuar indagando. Há coisas que fogem à lógica. Coisas que não fazem sentido. Situações que acorrentam a pessoa sem que ela saiba o motivo. Até que ponto o absurdo rege as nossas vidas?

        Minto. A memória me falha.

        Depois de alegar que meu passaporte era inválido, o funcionário da imigração carimbou todas as páginas do meu passaporte com o carimbo “inválido”.

        – Mas como vou voltar com o passaporte carimbado com o carimbo “inválido”?

        – Vá para o território de Kashdar onde aceitam os passaportes inválidos.

        – Que território é esse? Nunca ouvi falar.

        – Um território de refugiados.

Quarta Viagem

E aí David Haize?/ Aí o quê?/ Estou no limbo e não sei como sair/ Estou travado no limbo desse território do qual não consigo sair/ Nem para um país nem para o outro/ Preso nesse território de Kashdar entre dois países/ Estou cagando para tudo/ Quero que os conservadores os populistas os antiambientalistas morram arrastados pela covid-19/ Esses miseráveis têm de sumir do Planeta/ Não servem para nada a não ser para espalhar notícias falsas e destruir a Terra/ E quem espalha notícias falsas tem de morrer/ Calma David/ Calma David Haize/ Lembre-se de que o que trava o progresso está condenado a desaparecer/ É a marcha inexorável da História/ Mas a História é muito lenta/ Não, a História não é lenta/ Tem seu ritmo e avança por ciclos/ Céus que retrocesso/ Que absurdo em pleno século XXI exumar ideias nazistas/ Sem contar com o fundamentalismo religioso/ Religião só serve para cercear a liberdade de pensamento e para castrar o intelecto/ Abomino religião/ Calma David Haize calma/

21-11-20

Diálogo com Cristo

janeiro 1, 2021

Diálogo com Cristo

David Haize

Sétimo jequitibá à esquerda depois da entrada no parque, como você indicou.

Jesus Cristo

Seja bem-vindo.

DH

Por que você me chamou?

JC

Queria te ver.

DH

Me ver? A mim, um agnóstico?

JC

Sim. A você. Um agnóstico.

DH

Por quê? E para quê? Para me converter?

JC

Desarme-se. Não vim para te converter. Eu não converto ninguém.

DH

Ah, é? Você não converte ninguém? E esses milhões que te seguem?

JC

Eu não os converti. Eles mesmos se converteram a uma ideia.

DH

Como, assim?

JC

Criaram uma figura que não existiu. Ou seja, criaram um mito. E, com o passar dos séculos, foram me falsificando.

DH

Como falsificando?

JC

Eles me divinizaram. Como fazem todos os carentes de mito.

DH

Mas você…

JC

Eu fui apenas um homem. Um homem consciente de sua época e que sempre esteve ao lado dos rejeitados, dos deserdados, dos descartados, dos marginalizados. Um homem que, sem declará-lo, se insurgiu contra a classe dominante e contra o invasor. Eu não sou filho de Deus como propagaram após a minha morte. Aliás, a morte é sempre a base da criação do mito. É um tanto decepcionante ver-se mitificado e mistificado.

DH

E você não conseguiu se desfazer desse seu mito?

JC

Não. É um preço a pagar pelos lutadores que ousam desafiar o poder estabelecido e que acabam caindo no gosto da massa, depois de executados.

DH

Sabe, posso ser agnóstico, cético e cartesiano, mas sempre te admirei muito.

JC

É mesmo?

DH

Sim. Sempre admirei tua coragem. Teu ímpeto. Tuas ideias que rompiam com a tradição petrificada. Tua grandeza de lutar por algo, mesmo que se deva morrer para atingir o objetivo. São raros os seres humanos que ousam. Ousar é pôr a vida em movimento, é acionar a dinâmica da existência. Joana D´Arc e Guevara são exemplos dos que se entregaram à luta pelo bem dos oprimidos sem esperar louros em troca. Sim, admiro você profundamente como homem cabal, destemido, mas cheio de amor pelo próximo.

JC

É bom ouvir o que você está falando.

DH

E não gosto das baboseiras edificantes que cercam teu mito. Não gosto de tua figura submissa, edulcorada, quase afeminada, assexuada. Você era um rebelde com muita força e com uma percepção profunda do mundo e do ser humano. Que degradação divinizar um ser tão grande quanto você a ponto de te conceder o título de filho de Deus. São tantas as coisas que quero te dizer… Mesmo porque não sei se vou voltar a te ver outra vez.

JC

Que mais você queria me dizer? Sinta-se à vontade para falar.

DH

Sei lá. A apologia do dinheiro de determinados cristãos. Uma aberração, uma vergonha. Algo totalmente oposto ao que você pregava. A negação de tua vida sexual com Maria Madalena, uma mulher letrada, tua esposa. E os filhos que você teve antes de morrer, como bom judeu, casado e com prole. Céus, quanta deturpação, quanta mentira. O mito de Maria, tua mãe, que concebeu sem ser tocada pelo teu pai. E quando você se sentiu abandonado por Deus na cruz. Isso me dói, ver o teu abandono como recompensa pelo teu movimento que transformou o mundo. E há outra coisa.

JC

O quê?

DH

Aquela luz roxa, aquele facho de luz que desceu sobre mim, aquela sensação de bem-estar físico e de profunda alegria quando, no hospital, contemplava com lágrimas nos olhos,   submerso nas profundezas da tristeza, meu filho em coma havia meses.

JC

E…

DH

Era você?

JC

Sim. Ouvira as vibrações de teu desespero de pai.

DH

Eu não sei mais o que pensar.

JC

É por toda essa tua percepção, essa tua compreensão que vim te ver.

DH

Sinto-me muito honrado, agradecido, emocionado. Mas eu não sou nada. Apenas um escritor desconhecido. Um  nada insignificante no universo. Eu não possuo essa tua grandeza de entrega total. Eu me entreguei à literatura egoisticamente. Sempre me cobrei isso, mas me dei conta de que não tinha esse dom, por assim dizer, de entrega ao próximo.

JC

Você é um ser humano. E isso já basta. Não queira ser mais do que um ser humano.

DH

Que ego, querer ser algo.

JC

Exatamente. E agora preciso ir embora. Tenho muito a fazer.

DH

Vou voltar a te ver?

JC

É pouco provável.

DH

Sinto-me órfão.

JC

Órfão?

DH

Sim. Órfão de Deus.

JC

Deus é uma incógnita. Dificilmente ele poderia prover todas as necessidades dos filhos turbulentos da Terra.

DH

Mas, feliz você que acredita em Deus.

JC

Deus é uma espécie de gerenciador.

DH

Como assim, uma espécie de gerenciador?

JC

É provável que exista uma entidade com poder absoluto acima dele…

DH

Você acha?

JC

Acho. Mas não tenho certeza.

DH

Nem você, Cristo, tem certeza?

JC

Não.

29/30-10-2020

Emprego [Sexual Decente] na Pandemia

Ele

Ela

Ele

Isso e puta é a mesma coisa.

Ela

Não é a mesma coisa.

Ele

É a mesma coisa que dar para macho em troca de dinheiro.

Ela

Eu não vou dar para macho.

Ele

Serão centenas ou milhares de machos te vendo.

Ela

Tomara haja milhares de machos me vendo. Seria sinal de que estaria ganhando algo para remediar a situação.

Ele

Puta também quer bastantes clientes para ganhar grana.

Ela

Pare de me chamar de puta. Nenhum homem vai me tocar. Esses homens vão apenas me observar pela internet.

Ele

Milhares de machos olhando tuas tetas, tua bunda e tua boceta.

Ela

Eu não vou mostrar a xota. Estarei de tanga e não vou tirar a tanga.

Ele

Vão te oferecer mais dinheiro para você tirar.

Ela

Mas não vou tirar.

Ele

Puta com pudor.

Ela

Pare de me chamar de puta.

Ele

E eu, como fico?

Ela

Não é hora de bancar o ciumento. Já te falei que ninguém vai me tocar. Estou propondo uma solução de imediato.

Ele

Deve haver outra solução.

Ela

Qual? Diga-me, qual?

Ele

Não sei…

Ela

Ah, não sabe. Estamos os dois desempregados. As crianças não vão mais à escola privada. Vamos perder o carro e o apartamento por não pagarmos as prestações. Já cortaram o plano médico por falta de pagamento. Meu pai faz a compra do mês. Teu pai paga telefone, condomínio e luz. Até quando nossos pais vão nos ajudar? Hein, até quando? E você não encontra solução. Você não se mexe. Você não faz nada.

Ele

O que você quer que eu faça?

Ela

O que eu quero fazer.

Ele

O que você quer dizer?

Ela

Isso mesmo. Faça o que eu pretendo fazer.

Ele

Como, assim?

Ela

Fique pelado pela internet e faça-se pagar.

Ele

Você está louca.

Ela

Não estou louca, não. Estou tentando achar uma saída.

Ele

Eu não faço isso.

Ela

Por quê? Isso não vai te tornar puto, michê ou gigolô.

Ele

Isso é coisa de veado para ganhar grana com veado. E eu não sou veado. Homem que se preze não faz isso.

Ela

Pudor de macho?

Ele

Não é pudor. Só que não quero fazer isso.

Ela

Então vamos fazer o quê? Ir para o olho da rua? Ir morar com meus pais ou teus pais? Roubar? Assaltar? Ou eu virar puta mesmo e você gigolô?

Ele

Para!

Ela

Não vou parar, não. Não vou parar até você decidir o que vamos fazer.

Ele

Você é foda.

Ela

Eu não sou foda. Você é que é acomodado.

Ele

Como, acomodado? Por acaso parei de procurar emprego? Por acaso parei de mandar currículos?

Ela

Mas até agora não deu em nada. Como aconteceu com milhões de pessoas. Logo, tem de encontrar uma solução, uma saída para sair da merda em que estamos.

Ele

Você deveria ter um pouco mais de paciência.

Ela

Mais paciência? Há meses que estamos assim.

Ele

Às vezes é preciso deixar o destino nas mãos de Deus.

Ela

Não podemos deixar tudo nas mãos de Deus. É necessário tomar ação. Podemos chegar a um acordo.

Ele

Que acordo?

Ela

Eu me mostro pelada na internet e você faz a mesma coisa. Estamos, para o que der e vier, no mesmo barco.

Ele

Vai ser muito difícil, para mim, fazer isso.

Ela

Pense que não só gays vão te olhar. Há mulheres que gostam disso.

Ele

Você acha?

Ela

Claro.

Ele

Não sei se meu pau vai endurecer. Vou me sentir inibido.

Ela

E você acha que eu não vou me sentir constrangida?

Ele

Vai, né?

Ela

É obvio. Mas a gente vai se acostumando.

Ele

Bem… não sei.

Ela

Precisamos tentar. Sabe querido, eu não quero te perder.

Ele

Me perder?

Ela

Sim. Te perder.

Ele

Por que você fala isso?

Ela

Porque a pandemia está acabando com muitos casamentos.

Ele

Não fale assim.

Ela

Querido, não é que eu queira acabar com você. É que existem circunstâncias graves que acabam com casamentos. E deixo claro que não estou fazendo chantagem.

Ele

Eu sei.

Ela

Eu te amo, meu homem, meu marido, meu companheiro, pai dos meus dois filhos.

Ele

Eu também te amo, minha querida esposa. E não quero te perder.

Ela

Vamos então tentar essa saída provisória até encontrarmos emprego?

Ele

Vamos.

Ela

Me dá um beijo.

Ele

Quer fazer amor?

Ela

Quero.

29/30-10-2020

Desconstruindo o Apocalipse em Três Tempos

        David/ David Haize esse projeto de conto sobre a tragédia não vai dar certo/ Por quê?/ Porque é algo muito atual logo muito batido/ Todos os escritores vão querer abordar o assunto/ E daí?/ Daí que você tem poucas chances de ganhar/ Teria de ser algo muito original muito inédito/ Bem não existe nada novo sob o sol/ Vou tentar e ver o que dá/ David por que você não escolhe algo mais ameno mais ao gosto do público? / Mas o público vai se interessar com um tema da atualidade com essa tragédia global além do mais você não vai querer que eu escreva baboseiras alienadas tipo bruxos bruxas magos magas e crepúsculos/ Mas é o que vende/ Sim de fato é o lixo que vende/ Bem vou tentar esboçar meu projeto/ Vamos lá/

        Quando Aitor Haritz acordou às 7 horas da manhã, estranhou não ouvir o barulho do trânsito na avenida. Por uns segundos achou que fosse fim de semana. Que tivesse se confundido de dia. Mas logo percebeu que de fato era segunda-feira. Levantou-se e foi até a janela: a avenida estava totalmente deserta, sem veículos. Estranho, pensou.

        Tomou banho. Fez a barba. Tomou o café da manhã. Fechou a porta do apartamento. Pegou o elevador. Saiu do prédio. Gozado, a avenida estava completamente vazia: sem carros nem transeuntes. Encaminhou-se para o edifício do escritório onde trabalhava, a dois quarteirões. Foi então que ele viu, no meio da avenida…

        Não David/ Para/ Essa parte esse tempo do relato deve ficar para o fim/ Por quê?/ Porque você precisa criar uma certa dose de suspense de expectativa para interessar o leitor/ Mas eu não estou escrevendo um conto de terror/ Não?/ Tem certeza?/ Tudo bem/ Voltemos/

        Aitor Haritz acordou de madrugada com o uivo do vento na avenida. Acendeu a luz e foi até a janela para fechá-la e assim evitar o ruído da ventania. Foi então que constatou, com a iluminação da avenida, que se tratava de uma tempestade de areia. Como as que conheceu de criança no sul do Marrocos. Que esquisito, pensou. Será que os ventos trouxeram a tempestade do Saara até sua cidade? Ele nunca vira nada parecido em toda a sua vida. A areia atravessar o Atlântico… E cobrir a avenida como se fosse neve amarela… Voltou para a cama e conseguiu conciliar o sono.

        E agora David?/ O que você tem em mente?/ O que vai acontecer com Aitor Haritz?/ O que você pretende fazer com ele?/ Não vá matá-lo né?/ Não/ Não costumo matar meus personagens/ Deixo-os viver com sua angústia/ Com sua perplexidade/ Com esse ponto de interrogação quando a trajetória de vida não depende de suas ações/ Bem vamos lá/

        Ainda era noite quando Aitor Haritz acordou com um estranho gemido. Ergueu o corpo e prestou atenção. Sim, era um gemido. Parecia um gemido de animal. Parecido com o de um cachorro. Acendeu a luz. Levantou-se. Percebeu que o gemido vinha da porta de entrada do apartamento. Olhou pelo olho mágico. E, aterrorizado, retrocedeu. Imobilizado pelo que viu, não ousava se mexer. Céus! Estaria ele sonhando? Um pesadelo? Não. Ele estava acordado. Bem acordado. Aproximou-se da porta e olhou novamente. Mal conseguia respirar. Sentiu um suor frio na testa e nas mãos. O que estava vendo desafiava a imaginação. Era um gafanhoto. Um gafanhoto não como aqueles que ele pegava quando criança. Mas um gafanhoto gigante. Do tamanho de um bode. Algo horrível. Repelente e assustador. Como é que esse gafanhoto gigante tinha entrado no prédio? Como é que ele tinha subido até o quinto andar? E por que ele estava na frente de sua porta?

        A porta de entrada estava bem fechada. Com duas fechaduras. O bicho repulsivo não tinha condições de entrar no apartamento. Aitor Haritz foi se acalmando. Sentou-se numa poltrona. Sentiu o sono voltar. E voltou para a cama. Não sem antes ter tornado a olhar pelo olho mágico e constatar que a criatura – que parecia surgida de uma pintura de Hieronymus Bosch – ainda estava lá. Uma vez na cama lembrou-se da barata de Kafka e dos contos de Lovecraft. Mas pegou no sono.

        E agora David Haize prossiga com o final/ Mas será que Aitor Haritz sonhou ou teve uma alucinação?/ Isso não tem importância/ Ou melhor fica por conta do leitor/

        … foi então que viu, no meio da avenida deserta, sem areia, uma charrete carregada de cadáveres, puxada por um cavalo esquelético e conduzida por um velho em trajes medievais. Atrás da charrete caminhava, sobre pernas de pau, uma mulher de cabelos grisalhos desgrenhados que vendia morcegos comestíveis.

– Morcegos fresquinhos! Morcegos fresquinhos! apregoava a mulher, balançando sua cesta de vime contendo a mercadoria.

        A mulher interrompeu seu pregão para me alertar.

 – Moço! Você deveria andar sobre pernas de pau. O chão está coberto de vírus.

Para me alertar ou para alertá-lo? David Haize ou Aitor Haritz?

Julho/setembro de 2020

Conto(s) da Casbah de Tânger

Quando dei por mim, estava nas vielas da Casbah, em Tânger. Descia em direção ao Petit Socco quando cruzei com uma mulher.

– Menino, o que você está fazendo na casbah a altas horas da noite? perguntou.

– Passeando.

– Você vai se perder neste labirinto.

– Não me perco, não. Eu conheço muito bem a casbah. Sempre venho aqui.

– Você vem de noite?

– Não, sempre venho de dia. Esta é a primeira vez que venho à noite.

– A sua mãe vai ficar preocupada.

– Ela está dormindo. Eu saí pela janela para não acordá-la.

– Meu Deus! E seu pai?

– Ele está viajando. É maquinista. Ele foi para o deserto. Volta depois de amanhã.

– Mas o trem não vai até o deserto.

– Meu pai diz que vai.

– Credo! Nunca vi um garoto nasrani andar sozinho, de madrugada, na casbah. Você não está com frio?

– Não.

– Quer tomar um chá verde com hortelã e comer uma chuparkia? Eu moro aqui, e indicou uma porta.

– Quero.

        Entramos. Era uma espécie de sobrado minúsculo. Ela tirou o haik e deixou ver sua roupa ocidental.

– Você não fala como uma muçulmana.

– Sou espanhola.

– Então por que você veste haik?

– Porque sou casada com um muçulmano.

– Seu marido não está em casa?

– Não. Há dois anos que foi trabalhar na França e nunca me escreveu. Não sei se está vivo ou morto. Qual é seu nome?

– David.

– David o quê?

– David Haize.

– Você é judeu? Haize parece sobrenome judeu.

– Meu pai diz que Haize quer dizer vento em língua basca. Não é judeu.

– E você, como você se chama?

– Pepita.

– Você é tangerina?

– Sou. Meus pais são de Granada.

– Você se converteu ao islamismo?

– Sim. Mas não sou uma boa muçulmana. Como porco. Tomo vinho. E fumo. E alguns dias como durante o Ramadã. Também não sou uma boa católica.

– Meus pais são de Pamplona, na Navarra, onde se fala basco. Pamplona se diz Iruñea em basco. Meu pai não quis que eu tivesse religião.

– Por quê?

 – Porque disse que religião não é coisa boa. Disse que o homem tem que ser livre.

– Você tem irmãos?

– Tenho um irmão pequeninho.

        Trouxe o chá e várias chuparkias. Como e bebi. Senti sono. E adormeci sobre as almofadas da salinha.

        Quando acordei, estava na cama com Pepita. Estranhei. E estranhei mais ainda quando percebi que meu corpo, nu, tinha mudado. Sim, meu corpo não era mais o mesmo. Era… era um corpo de homem adulto. Senti vontade de urinar. Levantei-me e fui ao banheiro. E notei que meu membro não era mais pequeno, de menino, mas grande, de homem. Depois de aliviar a bexiga, voltei ao quarto. Pepita acordara. E sorria.

– Bom dia. Gostou?

– De quê?

– Do que você fez comigo.

– O que eu fiz com você?

– Amor.

– Amor?

– Sim. Sexo. Não se lembra?

– Não.

– Mas você fez sexo muito bem. Nem parecia que era a primeira vez. Agora você já é um homem.

– Sou um homem?

– Sim. O que você tem entre as pernas é de homem, não de criança. E você ejaculou.

– Eu ejaculei?

– Sim. Você soltou aquele líquido que parece creme.

– Foi?

        E sorri, satisfeito. Eu agora era um homem. E nem me lembrava de como isso acontecera.

        E foi assim que perdi a virgindade e me tornei homem nos braços de Pepita, a tangerina espanhola casada com um muçulmano que mais ou menos a largara para ir trabalhar na França. Eu não a esqueceria.

        Alguns anos depois, – já era um jovem de vinte e tantos anos – voltei  a Tânger e quis rever Pepita, a mulher que me tornou homem. E, num crepúsculo chuvoso, fui ao seu endereço na casbah. Bati na porta. Uma mulher, que não era Pepita, abriu.

– Pepita mora aqui?

– Não, não mora mais aqui. Foi embora para a França.

– Você a conhecia?

– Sim. Éramos muito amigas. Desde a época da escola.

– E você, a conhecia?

– Sim. Só a vi uma única vez. E queria revê-la. Bom, desculpe incomodá-la. Obrigado.

– Você está molhado. Entre e seque-se. Vai ficar resfriado.

– Não vou incomodá-la?

– Não, em absoluto. Estou sozinha. Ia jantar. Quer comer uma sopa? Fiz uma harira.

        Entrei. Ela me deu uma toalha e sequei-me a cabeça.

– Mora sozinha? perguntei.

– Moro. Meu marido foi embora para Israel. Estou esperando que ele me chame para partir.

– Você é judia?

– Sou. Meu nome é Esther. Muito prazer.

– Prazer. Eu sou David.

– Judeu?

– Não. Sou tangerino espanhol. E por que você, judia, mora na casbah?

– Depois que Pepita partiu – meu marido já tinha ido embora – vim morar aqui, pois eu gostava desta casa e o aluguel era barato. Já faz quatro  anos que espero meu marido me  chamar para eu viajar. Estou desconfiada que ele arrumou uma sabra.

– Entendo.

– Quer comer a harira com chuparkia?

– Quero.

– Você mora onde?

– Agora moro no Brasil.

– “Brasil, País do Futuro”! Fale-me do Brasil.

        Comemos e bebemos – ela abriu uma garrafa de vinho. Fomos bebendo enquanto eu falava do “país do futuro”. E acabamos na cama. Pois é, não encontrei Pepita, mas encontrei Esther, que me deu muito prazer. Noite de amor na casbah tangerina. Noite para relembrar toda a vida.

        Uns anos depois, já com uns 30 anos, voltei a Tânger e fui à casbah no intuito de rever Esther, que nunca esquecera. Era noite. Bati na porta.

        A porta se abriu. Sozinha. A salinha estava no escuro, mas entrava uma luz fraca, pela pequena janela, da rua.

– Entre, disse uma voz de mulher.

        Era a minha mãe!

– Mãe, o que você faz aqui? Não consigo te ver.

        Quando consegui ver sua silhueta, em pé na penumbra da pequena sala, totalmente vazia, dei-lhe um abraço e, emocionado, perguntei novamente:

– Mãe, o que você faz aqui em Tânger, nesta casa vazia?

– Vim te ver, meu filho. Sabia que você estava aqui, em Tânger, como quando eu cuidava de você menino, adolescente e jovem. Para os mortos não existe espaço nem tempo. Você será meu garotinho, esteja eu onde estiver. Você ficará velho e continuará sendo meu garoto. Além do mais, sempre gostei muito de Tânger. A nossa vida foi muito dura em Tânger, como refugiados apátridas e pobres. Mas, ah! eu era jovem, batalhadora e cheia de energia para lutar pelo dia a dia. Para lutar pela vida com muita fé. E tinha meu marido que amava muito. E tinha meus dois filhos que amava muito. Sim, às vezes, diante da dureza da vida, chorava, mas jamais amaldiçoei a minha sorte.

– Eu sei, mãe. Eu sei. Por isso sempre te admirei, além de te amar.

– Você foi um bom filho que ajudou muito seus pais.

– Fiz o que podia. Eu me sentia muito feliz ajudando vocês.

– Você fez muito. Meu menino que começou a trabalhar aos 12 anos e que me entregava tudo o que ganhava. Nunca vou esquecer isso. Sabe, filho, a extrema pobreza desagrega as famílias ou as une muito.

– Sim, mãe. Eu tenho muito orgulho dos meus pais. E por falar em família, como estão meu pai e meu irmão?

– Estão bem. Meio acomodados.

– Como assim, acomodados?

– Eles não querem sair de onde estão. Os mortos também ficam velhos e cansados. Sem vontade de rever os vivos.

 – É um tanto melancólico.

– É a vida. Ou, melhor, a morte.

– Meu irmão nem sequer vai ao cinema?

– Muito raramente. Só quando tem um filme muito importante em cartaz. E agora vou embora. Cuide-se. Esse mundo dos vivos está muito louco.

        Abraçou-me. Fez-me brotar as lágrimas e sumiu. Durante uns minutos, permaneci na penumbra da salinha. Daquela salinha onde conhecera Pepita e Esther que moraram nesta casa e cujos paradeiros eu desconhecia.

        Ouvi então a música do filme Lili, de Charles Walters, que vira em Tânger em 1953.

        De repente, antes que eu saísse, a luz se acendeu, a salinha estava mobiliada e havia um homem na minha frente.

– Pois não? perguntou o homem.

        Surpreso, embaraçado, respondi:

– Desculpe. Não sou ladrão. Bati na porta. A porta se abriu sozinha – ou alguém a abriu. E eu entrei.

– Você está procurando alguém? indagou um tanto desconfiado.

– Sim. Procuro Esther, uma amiga.

– Esther não mora mais aqui. Foi embora para Israel para se juntar ao marido.

– Ah, entendo. Desculpe a invasão de sua casa.

– Tudo bem. Esther era sua amiga?

– Sim. Eu sou tangerino. Mas não moro mais aqui. Embora sempre gostei de voltar a Tânger.

– Onde você mora?

– No Brasil.

– Brasil! Que legal.

– Nem tanto. A coisa está muito feia no Brasil.

– Sim. Tenho lido a respeito.

Reparando seu sotaque – tanto em francês quanto em espanhol, já que ele passava de uma língua para a outra – inqueri:

– Você não é daqui, é?

– Não. Sou do Senegal.  Quer dizer, moro no Senegal, em Dakar.

 – Conheço Dakar. Estive lá há alguns anos.

– Gostou de Dakar?

– Sim.

– A minha família é da Martinica.

– Martinica. Que legal.

        Aos poucos algo começou a agitar a minha memória. Tinha a impressão de que eu já vira esse homem. Era negro, alto, bem apessoado e tinha um belo sorriso que não me era desconhecido, mas que não conseguia identificar.

– E o que você faz em Tânger?

– É uma longa história. Na realidade  estou no Marrocos por acaso. Eu ia para a França. Mas um amigo me indicou um emprego no palácio da Barbara Hutton, aqui pertinho, na casbah.

– No palácio da Barbara Hutton! exclamei surpreso. E em que consiste seu trabalho no palácio?

– Sou uma espécie de encarregado de zelar pelo palácio durante a ausência da Barbara – ela só vem aqui na temporada de verão. Inclusive sou também vigia. Passo todas as noites no palácio. Com a governanta. Mas não com ela, e riu.

– Que interessante.

– Não posso me queixar. Sou relativamente bem pago. E na temporada tenho meus bicos.

– Bicos?

        Ele sorriu. Pareceu hesitar.

– Bem, a Barbara tem bastantes amigas que apreciam uma aventura sexual com um africano. E como não tenho namorada e minha mulher mora em Dakar, uno o útil ao agradável. Ganho praticamente nos três meses da temporada o que ganho durante o resto do ano. Tenho três filhos e quero dar um certo conforto à minha família. Pretendo construir uma boa casa em Dakar e voltar para lá.

        A minha memória pareceu se desanuviar com essas confissões de atividades extraprofissionais.

– Qual é seu nome?

– Youssouf. E você é David Haize, o escritor.

– Você me conhece?

– Eu o reconheci. E sou quem você está pensando.

– Joseph Deschamps?

– O mesmo.

– Joseph! Jojo! exclamei, emocionado.

        Abraçamo-nos. Que belíssima surpresa! Nunca teria pensado encontrar com ele em Tânger. A vida é tão gozada…

– E aí, meu caro amigo, o que você anda fazendo?

– Continuo escrevendo. Estou no meu 39° livro. E continuo embaralhando tempo, espaço e personagens.

– Tem visto Anastacia Lazarovna?

– Não. Faz tempo que não a vejo. A minha filha Alexandra de Kabul esteve com ela em Barcelona. E minha amiga Alice Raskin se encontrou com ela em São Petersburgo.

– Quer visitar o palácio da Barbara?

– É possível?

– Sim, claro.

        E assim, consegui realizar um sonho que tinha desde criança: visitar o palácio tangerino da famosa bilionária Barbara Hutton.

        Voltamos para casa de Joseph. Jantamos. Couscous marroquino, tâmaras e chá verde com hortelã. Com a promessa de voltar a nos encontrar. Saí com um aperto no coração: quando o veria novamente?

        E fui descendo, nostálgico, pensando na ação corrosiva do tempo, as vielas da casbah em direção ao Petit Socco. E me lembrei, não sei por que, de Juanita Narboni caminhando pelas ruas de Tânger…

Junho/setembro de 2020

“Black Angel: O vírus e o poder da persistência

Texto de J. Campos

  1. Roldan-Roldan é o tipo de escritor que escreve compulsivamente e a cada publicação, sempre fiel ao seu estilo, nos brinda com textos inteligentes, irreverentes, reflexivos e imersos na alma humana.

Foi neste contexto de início do ano de 2020, além dos desafios e as incertezas trazidas pela pandemia da Covid-19, dos desvarios e incompetência de um pseudo líder e da crise econômica, que Roldan-Roldan nos apresentou o seu mais novo lançamento: “O Enigma do Black Angel”.

Os contos de seu 38º livro não retratam a pandemia, mas retratam a maioria de suas vítimas, aquelas pessoas quase sempre ignoradas, esnobadas e à margem da sociedade. Os personagens de “O Enigma do Black Angel”, são aqueles seres bem resolvidos consigo mesmos ou os excluídos, seja economicamente, seja culturalmente. Por serem o que são, ferem a falsa moralidade de certas camadas sociais preocupadas com o dinheiro, não com a vida. Difícil não traçar um paralelo entre as histórias do livro e a nossa realidade, pois, esperava-se que o novo coronavírus proporcionasse mais demonstrações (e elas existem!) de solidariedade, de empatia. Entretanto, nos entristece perceber a existência de pessoas as quais se dedicam, de forma gratuita, a provocar e a desprezar o ser humano.

Na definição do autor, seus contos representariam “narrativas onde o surrealismo invade o registro realista. Bukowski dialogando com Fellini”. Desta fusão, aliada ao estilo roldaniano (a busca da identidade, o erotismo, a metalinguagem e o surrealismo), surge a força de “O Enigma do Black Angel”.

No conto “O Gigolô Honesto”, um escritor recebe uma espécie de proposta indecente. Uma senhora de grandes posses oferece-lhe ajuda financeira, a fim de que ele possa se dedicar com afinco ao seu trabalho literário. Em troca, ela quer a sua companhia. “Quanto à moral burguesa, que se dane. Estou acima dela. Jactância? Sim, e daí?”

Em “Sonho Salpicado de Pesadelos”, o escritor, numa caminhada onírica, revê entes queridos, como também seres grotescos que povoam e infernizam o atual panorama brasileiro. Há uma mistura de passado e presente, de impressões trazidas por uma viagem existencial e a construção de uma crítica lúcida dos acontecimentos recentes.

Em “Pau de 80 anos”, David Haize, o alter ego de Roldan-Roldan, em tom desbocado, descontraído e, às vezes, chocante, no melhor estilo roldaniano, relata o seu amor por uma garota. Ao longo do texto, ele nos fala da velhice irrequieta e cheia de desejos de um homem, em contraposição à mediocridade e falsa moralidade que tem tornado as nossas vidas mais frias e sombrias. “Ainda bem que o meu caralho de 80 anos não dói e funciona. Graças a Afrodite. Ou aos exus”.

Fortemente autobiográfico, em “A Náusea e a Torre”, David Haize depara-se com morte, reencontros e com a fuga.

“Entrei numa cabine. Vomitei. Defequei. Depois de evacuar pela boca e pelo ânus tudo o que sentia, limpei-me e dei descarga”.

O reencontro com velhos amigos não trouxera a alegria e o prazer desejados. As pessoas mudam ou, talvez, o distanciamento e o tempo nos beneficiem com a vivência e a lucidez necessárias para enxergarmos o que não víamos durante a juventude.

Daí veio a fuga para Haize. Para uma torre? Ou seria um farol? Lembranças e saudades de pessoas e lugares que verdadeiramente foram importantes. E, assim, o autor define a sua viagem: “Quando mentes e corações envelhecem, nada melhor do que refugiar-se numa torre onde a imaginação solta as amarras e voa em direção ao âmago do ser”.

Desta forma, a narrativa de R. Roldan-Roldan flui ao longo dos outros contos, mostrando-nos personagens fortes, reais e questionadores, longe dos clichês romantizados e das mensagens edificantes.

 

  1. Campos

Barueri, 23-05-2020

Obra literária de R.Roldan-Roldan

 

Talvez eu próprio seja apenas uma ficção vogando no limbo. Talvez eu tenha traçado a minha existência na vida da minha ficção.

 

Contos

1– Carta de Uma Mulher Separada, Pontes Editores, 1990

2 – Kabul Antes, Depois, Pontes Editores, 1991

3 – Ao Sul do Desejo, Editora Komedi, 1997

4 – Juiz, Casado, com Filhos, Procura Homem Para Sexo Casual, Scortecci Editora, 2012 e Amazon, 2019

5 – Negro, Pobre e Gay, Amazon, 2019

6 – O Enigma do Black Angel, Amazon, 2020

 

 

Epistolar

1 – E-mails – Confissões Íntimas de Uma Socialite, Editora Komedi, 2011 e Amazon, 2015

2 – Cartas a um Filho em Coma, Editora Komedi, 2013 e Amazon, 2015

 

 

Poesia

1 – O Exílio do Silêncio, Editora Iluminuras, 1995

2 – Os Úberes do Infinito, Editora Komedi, 1998

3 – A Dor da Identidade – Khayyam Tânger, Editora Komedi, 1998

4 – Inidentidade, Editora Komedi, 2001 e Amazon, 2019

Medalha de prata, Prêmio Internacional Marengo d´Oro, Centro Culturale Maestrale di Sestri Levante, Gênova, Itália.

5 – Caminho, Insólito Caminho, Editora Komedi, 2002

6 – O Deslizar das Horas, Komedi, 2009 e Amazon, 2019

7 – Engel – Sinfonia Inacabada Para Anjo e Poeta, Amazon, 2016

8 – O Pó da Ausência, Amazon, 2019

9 – La ballade de David Haize (em francês), Amazon, 2019

10 – Petit léxique poétique (em francês), Amazon, 2018

11 – Knight of Silence (em inglês), Amazon, 2018

12 – O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo, Amazon, 2018

13 – La soledad del retorno (em espanhol), Amazon, 2020

 

 

 

Romances

1 – Azeviche ou Nossa Senhora do Sagrado Sexo, Editora Iluminuras, 1993

2 – O Bárbaro Liberto – Mnaloah, Lemos Editorial, 1999

Medalha de prata, Prêmio Internacional Marengo d´Oro, Centro Culturale Maestrale di Sestri Levante, Gênova, Itália.

3 – Boa Viagem, Sheherazade ou A Balada dos Malditos, Editora Komedi, 2003 e Amazon, 2018

Medalha de ouro, Prêmio Internacional Marengo d´Oro, Centro Culturale Maestrale di Sestri Levante, Gênova, Itália.

4 – Litterata ou O Doce Sorriso do Homem Satisfeito, Editora Komedi, 2003 e Amazon 2018

5 – Matriochka, Editora Komedi, 2006

6 – Rapsódia Para um Viajante Solitário, Editora Komedi, 2010 e Amazon, 2015

7 – As Três Viagens de David Haize, Amazon, 2018

8 – Zirpiak, Última Fronteira, Amazon, 2018

 

 

Teatro

1 – As Loucas Gaivotas Morrem na Fronteira ou O Trem do Delírio, Editora Komedi, 2004 e Amazon, 2019

2 – Jaulas (Subsolo), Editora Komedi, 2004 e Amazon, 2019

3 – As Papoulas de Constantinopla, Editora Komedi, 2005 e Amazon, 2019

4 – O Ato – Foder É Vermelho, Editora Komedi, 2013 e Amazon, 2019

 

Total de 38 livros publicados. Os cinco primeiros livros (três na França e dois no Brasil) do autor foram destruídos – por ele mesmo – depois de publicados.

 

Temas recorrentes na obra do autor:

Absurdo: só a Arte liberta do absurdo da existência.

Arte: torna o ser humano superior.

Busca: à procura de um sentido na vida.

Deslocamento: a não identificação com nada.

Exílio: homem sem pátria.

Identidade: raízes perdidas, perda de norte existencial, dor da inidentidade.

Infância: obsessão por Tânger, cidade-fetiche.

Ironia: não se levar muito a sério é uma sabedoria.

Liberdade: superior a tudo, acima de tudo.

Metalinguagem: a ficção e a vida se confundem na existência do escritor.

Pai e mãe: admiração e amor irrestrito, presentes em quase todos os romances.

Sexo: sagração da vida, sua ausência cheira a morte.

Silêncio: em busca do diálogo com a alma, irmão do despojamento.

Tempo: inexorável, destrói tudo, sem retorno.

Viagens: à procura de si mesmo, não importa o destino.

 

Escritor essencialmente humanista cuja narrativa oscila entre o surrealismo e o realismo.

 

04-05-2020

 

 

 

 

 

 

O Escritor Roldan-Roldan Entrevista o Escritor David Haize

 

 

RR

Como você se sente com 37 livros publicados?

DH

Sinto-me satisfeito por ter construído uma obra, embora, como todo escritor que se preze, não estou satisfeito (pelo menos totalmente) com meus livros. Por outro lado, sinto-me frustrado por não ser reconhecido.

RR

Ao que você atribui o fato de não ter sido reconhecido até agora?

DH

Não estou na mídia, nem no meio acadêmico. E não escrevo livros comerciais. Estou remando contra a maré.

RR

O que você considera um livro comercial?

DH

Aquele escrito com o único intuito de agradar ao grande público – se é que existe um grande público de leitores.

RR

Sua obra, embora de teor surrealista, aborda temas e situações que não podem ser qualificados de populares. Em suas páginas encontramos a margem da sociedade. São seres excluídos por causa da etnia, de deficiência física ou mental, de opção ideológica ou sexual.

DH

Sim. Sempre senti, desde muito jovem, uma profunda compaixão pelos marginalizados. Fossem negros, índios, ciganos, judeus, imigrantes, deficientes físicos ou mentais, homossexuais e prostitutas. E, de modo geral, por artistas que, de certa forma, são discriminados.

RR

Isso o torna um escritor humanista?

DH

Sem dúvida.

RR

A sua compaixão pelos marginalizados tem algo a ver com a sua vida particular? Seu filho deficiente físico, sua cegueira do olho direito, sua surdez, sua condição de refugiado político e de imigrante?

DH

A deficiência física do meu filho, a minha cegueira do olho direito, e a minha surdez parcial, são fatos relativamente recentes. Eu já sentia muita compaixão pelos cadeirantes e pelos cegos bem antes de experimentar isso na própria carne. Quanto à minha condição de refugiado apátrida preso durante dez anos numa cidade-estado e, posteriormente, à minha condição de imigrante, assim como a extrema pobreza, isso são fatos que marcaram a minha vida, portanto a minha obra.

RR

Isso tem algo a ver com a sua opção ideológica?

DH

Claro. Sou coerente e fiel a minha origem.

RR

Você é filiado a algum partido?

DH

Não. Sou libertário.

RR

Por falar em origem, como você se sente depois de ter morado em vários países? De ter assimilado várias culturas?

DH

Pertenço a quatro países – sem, no fundo, pertencer totalmente a nenhum deles. Sou um cidadão do mundo. O que às vezes incomoda.

RR

Por que incomoda?

DH

Porque como neto de camponeses gostaria de pertencer a um lugar só. Sinto-me constantemente deslocado, exilado em meu adorado cosmopolitismo.

RR

Esse seu cosmopolitismo não vai ao encontro de sua ideologia?

DH

Sim. Vai. Mas repare que as elites são cosmopolitas.

RR

O que quer dizer?

DH

Que posso me identificar com os valores estéticos das elites, mas não com a sua ideologia. Por outro lado, identifico-me com a ideologia do povo, mas não com a sua estética. Como já disse, sou coerente e fiel a mim mesmo sem fazer concessões de rótulos.

RR

Falando de ideologia, como você vê o governo Bolsonaro?

DH

Um nojo. Um asco. Algo repelente. Desprezível. Uma classe inferior subiu ao poder. A degradação da democracia. Esse desequilibrado que está na presidência tem estofo de ditador, como todo imbecil. É uma nulidade – independentemente de qualquer ideologia – que está prejudicando o País.

RR

Como, uma classe inferior?

DH

Tudo aquilo que não prioriza o ser humano é, ética e moralmente, inferior.

RR

Você fala muito em ética e moral. Você se considera um filósofo?

DH

Não. Não me considero um filósofo.

RR

Um moralista como no século XVII francês?

DH

Li os moralistas franceses. Gosto de Pascal e de La Rochefoucauld – cito bastante este último que acho muito atual. Mas não sei se a influência é direta. Tive, por parte do meu pai, uma educação bastante filosófica, ética e moral.

RR

Seu pai, sua mãe e, em parte, seu irmão. Você fala muito deles em seus livros onde eles surgem como fantasmas. Isso é xintoísmo?

DH

Não sei se é xintoísmo. Não professo nenhuma religião. Mas se cultuar a memória dos meus queridos antepassados é xintoísmo, então que seja. Tenho um amor irrestrito por aqueles que me transmitiram a vida: pais, avós, bisavós. O meu avô paterno morou em vários países da América do Sul, à procura do Eldorado. Não o encontrou. E voltou com uma mão na frente e outra atrás. O meu bisavô materno esteve na Guerra Hispano-Americana. Era a minha mãe que me contava essas histórias da família. E eu lhe sou muito grato. Tive uns pais maravilhosos.

RR

Já falaram que, no fundo, você é um místico.

DH

Talvez. Um místico primitivo, selvagem. Um pouco como Rimbaud. Sem querer me comparar com o autor de Iluminuras.

RR

Você é um grande admirador de Rimbaud.

DH

Sim. E não só de sua obra, mas também da vida turbulenta que ele levou.

RR

Vida turbulenta… Você teve uma vida conturbada. Separado do pai, depois da mãe – por perseguição política – refugiado apátrida numa cidade-estado de onde você não podia sair por falta de documentos, pobreza, tendo começado a trabalhar aos 12 anos. Sem contar as suas rupturas, as suas paixões, as suas decisões radicais, como, por exemplo, destruir seus primeiros cinco livros depois de publicados, três na França e dois no Brasil. Por que você destruiu esses seus primeiros cinco livros?

DH

Porque eram ruins. Eram apenas meros exercícios sem valor literário e eu sou exigente.

RR

É algo espantoso, um escritor fazer isso.

DH

Meu gesto foi natural. Tudo o que faço é natural e espontâneo, mesmo que choque os outros. Como acabo de lhe dizer, sou exigente. E eu ainda não tinha encontrado meu caminho literário.

RR

Outro autor pelo qual você é fascinado é Khayyam.

DH

Sim, Khayyam me fascina. Era um sábio hedonista em plena Idade Média. Teve muita coragem em dizer o que ele dizia. Antecipou-se seis séculos ao existencialismo cristão de Kierkegaard e sete séculos ao existencialismo ateu de Sartre. Que visão lúcida do mundo. Identifico-me muito com ele. Sexo, rosas, vinho e o Nada.

RR

E o que você me diz daqueles que você define como escritores viscerais?

DH

Gosto dos escritores que chamo de viscerais porque eu mesmo sou visceral. Bukowski, Violette Leduc, Lautréamont, Rimbaud (um visceral visionário), Baudelaire (um visceral aristocrático) entre outros. Via de regra os escritores viscerais são escritores malditos.

RR

O que é um escritor maldito?

DH

Aquele que desafia, que contesta, que subverte, que transgride – o que, aliás, é o dever do escritor – e que fica na margem.

RR

A Arte é, de modo geral, uma constante em suas páginas. Literatura, cinema, teatro, música, pintura. Alguns grandes nomes da Arte parecem ser uma obsessão em seus escritos. De Stendhal, a Hieronymus Bosch e De Chirico, a Visconti e Resnais, passando por Beethoven e Bach.

DH

A Arte enobrece o ser humano. Sem Arte o ser humano se embrutece. Sim, de fato. Meus livros são “plásticos”, “visuais”, “musicais” e isso é influência do cinema. O meu pai me levava ao cinema quando eu era criança. Levava-me a assistir filmes para adultos que eu não entendia muito bem, mas ele me explicava na saída do cinema.

RR

Às vezes encontramos em seus romances um clima de sonho como nos filmes de Fellini. É proposital?

DH

Não exatamente. Em meus livros o sonho convive com uma realidade muito crua. Meus personagens nunca desistem de viver e de esperar algo da existência.

RR

Isso seria uma pitada de otimismo?

DH

Não. Apenas de resistência.

RR

Tânger, sua cidade-fetiche, permeia obsessivamente as páginas de seus romances, novelas, contos, teatro e poesia. O que representa, o que significa Tânger para você?

DH

Tânger foi a cidade da minha infância e da minha adolescência, ou seja, o período mais importante da minha vida. Além disso, era uma cidade, literalmente, única no mundo. Cidade-estado, cidade de estatuto internacional, ícone da beat generation norte-americana e do jet set internacional. Uma cidade extremamente cosmopolita onde conviviam em harmonia muçulmanos, cristãos e judeus. Tânger impregnou o meu ser para o resto da existência.            |

RR

Você está escrevendo seu 38° livro?

DH

Sim.

RR

Muito sexo? Muita política? Como em todos os seus livros?

DH

Sim. Sexo, política e literatura.

RR

Sai quando esse livro?

DH

Não sei. Sou um escritor maldito.

22-03-20

 

 

 

 

 

       

                                                                                  

 

 

 

 

A Náusea e a Torre

janeiro 28, 2020

A Náusea e a Torre

 

          Há dias em que determinados fatos nos fazem mergulhar no passado. O dia que vou narrar é um deles.

Primeiro mergulho: morte

Foi cremada conforme seu desejo. Suas cinzas foram jogadas num rio. Não sobrou nada dela. Literalmente nada. Nem os ossos.

Família de imigrantes italianos. Casou-se. Teve dois filhos e dois abortos. O marido bebia e se tornava violento. Deixou-a surda depois de espancá-la. Saía com mulheres. Largou-a com os filhos na adolescência. Divorciaram-se. E a partir daí foi a solidão. Aposentada, vivia modestamente, perto da casa da filha – o filho sempre a ignorou e jamais a ajudou financeiramente. Tinha umas minguadas economias e com 80 anos ainda sonhava em comprar uma quitinete para não ter de pagar aluguel. E com 80 anos ainda sonhava encontrar um homem para dividir a velhice com ele. Morreu aos 91 anos. Sem quitinete nem homem. Partiu sem casa própria e sem companheiro. Sobraram as parcas economias para os netos.

Era minha sogra – ou ex-sogra, mãe de minha ex-mulher – com quem eu tinha boas relações. Acompanhava-a ao oftalmologista (sofria de glaucoma) e ao psiquiatra (sofria de mania persecutória) e quando ia visitá-la sempre levava compota de cidra ou peras ou lichias em calda. Sentia muita compaixão pela sua solidão. Em suma, uma existência como milhões de existências.

E partiu. Não deu trabalho a pobrezinha. Desmaiou e partiu. E não sobrou nada dela. Nem os ossos.

Como não sobra nada de ninguém. Mesmo porque não há nada. A não ser o Nada universal. Quanta ilusão. Quanta superstição. Quanto apego à ideia de que existe algo depois da morte. O ser humano é muito fraco nesse sentido e não admite que não haja nada. Na sua irracionalidade, não é capaz de entender que a única coisa que sobrevive (até um certo ponto) é a Arte. A Arte (sim, com maiúscula) que torna o ser humano superior. E que o Absoluto (o que seria o Absoluto?) só se atinge com a espiritualidade laica, com a paixão da ética e com o culto da Razão e, obviamente, a verdadeira Razão engloba o amor ao próximo.

Segundo mergulho: reencontro

Pois é, David Haize, você já não tem mais paciência para suportar imbecilidades.

O que prometia ser uma reunião agravável virou, se não um pesadelo, pelo menos uma náusea. Sim, uma náusea literalmente falando. E com certeza não se tratava de náusea existencial.

Aquela velha história de antigos colegas de trabalho que, após muitos anos, marcam encontro para jantar. Fomos a um restaurante vietnamita cujo dono, amigo de um dos meus colegas, nos recebeu amavelmente.

Sessentões e sessentonas. Carecas ou não. Gordos ou ainda magros. Aposentados. Ou no fim de carreira. Casados. Ou divorciados. Recasados. Com filhos e netos. Situação financeira mais ou menos estável. Culturalmente aposentados. Política e socialmente levemente (ou totalmente) alienados.

Eu não estava muito bem. E as frases (verdadeiras pérolas) que foram surgindo, de uns e de outros, me deixaram pior.

– Trump é um bom presidente. Com ele a economia melhorou muito nos EUA.

– Ainda bem que Bolsonaro foi eleito para salvar o Brasil do PT.

– O AI-5 é necessário para manter a ordem e a paz no País.

– A Amazônia é brasileira e o mundo não tem nada a ver com um território que pertence ao Brasil.

– A História, a Sociologia e a Antropologia são coisas de comunistas.

– Taxar as instituições religiosas é coisa de comunista.

– A luta contra a desigualdade social é coisa de comunista.

– A luta pelo meio ambiente é coisa de comunista.

– As crianças precisam ter educação religiosa e não de educação sexual.

– O homossexualismo deve ser erradicado do País.

– Os agnósticos e os ateus devem ser perseguidos como fomentadores do caos.

– Os direitos humanos devem ser subordinados à ordem do País.

– Deus está acima da Liberdade.

– Os intelectuais deveriam ser castrados.

Não queria me irritar com tanta besteira. Não queria replicar a tanta idiotice, pois sabia que ia acabar brigando – meu pavio sempre foi curto e não gosto mesmo de conservadores. Eram meus amigos – ou tinham sido. Passei bons momentos com eles, quando era jovem e menos seletivo. Percebi logo que não tinha mais nada em comum com eles. A amizade é como o amor: a maior parte das vezes não é para toda a vida. Notaram que estava muito calado, eu que, com a ajuda da cerveja, costumava me tornar loquaz. Assim, quando alguém me interpelou, aleguei cansaço e sono e permaneci quieto. Um mal-estar se apossava de mim. Eu queria ir embora. Não me sentia bem com essas pessoas que não me diziam mais nada. Teria preferido estar sozinho em vez de comparecer a essa reunião que, para mim, era um fiasco.

A sensação de deslocamento foi crescendo e, com ela, o mal-estar. No fundo era o mesmo mal-estar que me causava o governo Bolsonaro. Eu queria ir embora do Brasil. Teria ido embora se não fossem meus filhos e se eu fosse mais jovem. Havia algo nesse governo reacionário, fascista, hipócrita que me provocava, não só revolta, mas repugnância. Havia algo repulsivo, asqueroso, nojento nesse gabinete presidencial que fedia a ranço, a mofo, a bolor. A Inquisição. Havia algo repelente em ministros que primavam pela imbecilidade, pela incompetência, pela ignorância, pela falta absoluta de capacidade para preencher o cargo que ocupavam. Ministros que, como o Araújo, de Assuntos Exteriores, a Damares, dos Direitos Humanos, o Salles, do Meio Ambiente, o Guedes (que não era burro, mas perverso e fascista), da Economia, e o estúpido, nazista e arrogante do Alvim, secretário da Cultura e o escroto do Rasputin de Brasília, “o filósofo” (entre aspas) de periferia Olavo de Carvalho. Enfim, de presidência de merda, só podia sair um ministério de merda. Às vezes me perguntava se essa laia de seres inferiores não seria tão besta, imbecil, ignorante quanto aparentava, mas ostentava uma persona adequada para bajular e conseguir apoio da massa alienada e ignara. Talvez tudo não passasse de uma encenação perversa. Sim, não bastasse mais de cinco séculos de corrupção, mais de cinco séculos de espírito escravagista, mais de cinco séculos de impunidade, mais de cinco séculos de desigualdade social. Não bastasse mais de cinco séculos de privilégios vergonhosos das elites. Privilégios que foram se perpetuando com os salários exorbitantes de parlamentares e juízes. Um cinismo, uma desfaçatez, uma afronta ao povo brasileiro. Pois é, a Revolução Francesa de 1789 ainda (ainda!) não chegara ao Brasil. Esses carinhas, parlamentares e juízes não tinham vergonha na cara, não tinham consciência. Eles instituíram o roubo legal dos cofres públicos. Não bastasse uma proclamação da Independência que foi uma farsa, uma piada e não bastasse uma proclamação da República que basicamente não mudou nada no País, tradicionalmente reacionário, estagnado socialmente, agora tínhamos um pavoroso retrocesso medieval. Com, entre outras coisas, os milhares de pastores neopentecostais picaretas explorando a indústria de Cristo – céus, que avacalhação do cristianismo.

Senti náusea, ânsia de vômito. Levantei-me da mesa e fui ao banheiro. Passando na frente do caixa, reparei que a funcionária era muito parecida com a minha ex-mulher quando jovem. Entrei no banheiro. Entrei numa cabine. Vomitei. Defequei. Depois de evacuar pela boca e pelo ânus tudo o que sentia, limpei-me e dei descarga. Puxei cuecas e calça e sentei-me na privada. Adormeci.

Terceiro mergulho: fuga

Quando acordei, estava numa espécie de pequena cela circular, vazia, com uma diminuta janela por onde mal entrava a luz do sol. Havia uma porta estreita. Abri-a e deparei-me com uma escada de pedra. Comecei a subir. Após galgar alguns degraus, percebi que um menino negro de uns cinco ou seis anos me seguia. O guri me disse:

– No primeiro andar tem um homem com sorvetes.

– Ah, é?

– Outro dia minha mãe não tinha dinheiro pra comprar um sorvete pra mim. Ela falou que outro dia ela ia comprar. Outro dia quando ela chegou do trabalho, eu abri a bolsa dela pra ver se tinha sorvete.

– Mas sorvete derrete na bolsa.

– Derrete?

– Sim.

– Eu nunca chupei sorvete. Minha mãe falou que é caro.

– Você quer um sorvete?

– Quero.

– Vamos comprar um do sorveteiro.

Chegamos num patamar onde havia um homem asiático, provavelmente um imigrante do Vietnã, cuja fisionomia lembrava a do dono do restaurante vietnamita, com um carrinho de sorvetes. Como tinha feito o sorveteiro para subir a escada com o carrinho? E quem iria comprar sorvete naquele lugar pouco frequentado? Comprei um. Os olhos do garotinho brilharam. E ele desceu as escadas, chupado seu sorvete, feliz.

Continuei subindo. Ao que tudo indicava, aquela edificação era uma torre medieval. Chegando ao patamar seguinte, deparei-me com um adolescente negro muito parecido com o menino do sorvete. E, curiosamente, com o garçom que nos servira no restaurante. Ele estava encostado na janela – que era mais uma espécie de fresta no muro, uma brecha ou meurtrière, como se diz em francês – por onde entrava alguma claridade que lhe permitia ler um livro.

– O que você está lendo? perguntei.

O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, respondeu.

– Está gostando?

– Muito. O senhor já o leu?

– Sim. Muitos anos atrás. Quando tinha mais ou menos a sua idade.

Continuei subindo. No patamar seguinte encontrei um homem negro, maduro, de uns 50 anos. Lia um livro, em pé, perto da brecha à guisa de janela. Quando me viu, sorriu.

– O que está lendo? perguntei.

O Bárbaro Liberto, respondeu, e sorriu novamente.

– Está gostando?

– Muito. Um livro fascinante. Parabéns.

– Por que parabéns?

– Porque o senhor é o autor.

–  O senhor me conhece? estranhei.

– Sim. De fotos na internet.

– Muito obrigado pela leitura e por gostar do livro. O que o senhor faz na vida?

– Sou professor de literatura brasileira. E estava aqui, nesta torre, à sua espera para conhecê-lo pessoalmente. O senhor pode autografar meu exemplar?

– Claro.

– Muito obrigado.

– Diga-me, o senhor sabia que eu viria aqui hoje?

– Sim. Foi por esse motivo que eu vim. Tomei essa decisão depois de mergulhar nas aventuras do Bárbaro Liberto.

– Agradeço. Um dia poderemos nos encontrar para almoçar e falar sobre literatura.

– Tenho certeza de que vamos voltar a nos encontrar.

Continuei subindo. Cheguei no patamar seguinte. E deparei-me com minha ex-mulher. Estava em pé. Olhando pela brecha da parede. Ao ouvir meus passos, virou-se e perguntou:

– O que você quer?

– Nada, respondi surpreso.

– Você não me deixa em paz nem depois de morta.

– Eu não sabia que você estava aqui.

– Você invadiu minha vida e agora invade minha morte.

– Porra! Você continua a mesma. Histérica. Não melhorou nem depois de morta. Você me persegue como um fantasma. O que você quer de mim? Me atormentar pelo resto da minha vida?

Essa era a mulher que tanto amei. A mulher de minha vida.

Dei meia volta e continuei subindo. No patamar seguinte, havia uma cigana muito velha.

– Vai a boaventura? perguntou.

Estendi-lhe a mão. Leu.

– Menino sozinho, separado dos pais. Uma cidade antiga, exótica, cercada de fronteiras. Uma cidade com três línguas. O menino não sabe qual é a sua língua. Menino pobre. Trabalha desde a infância.

E ela parou. Como se estivesse admirada. Ou assustada.

– Vejo muita luz. Uma luz que ofusca. Que fere. Muitas brigas. Mas alguém vai saber quem você é.

E fechou minha mão.

– Quanto lhe devo?

– Nada.

Continuei subindo. No seguinte patamar surpreendi-me com uma jovem belíssima. Seu rosto misterioso lembrava a fascinante fisionomia de Marie Laforêt. Ostentava uma discreta elegância no vestir.

– A felação está em promoção, ofereceu.

– Como? perguntei rindo.

– É isso mesmo. Com direito a lambida nos testículos e nas virilhas.

– Você fala muito bem. Tem classe física e oral para uma garota de programa.

– Não sou garota de programa. Não gosto de eufemismos.

– Você é o quê, então?

– Sou puta mesmo. Mas não preciso dizer: “bem, vamos fazer nenê” para convidar um cliente.

– E aparecem muitos clientes nesta torre?

– Às vezes aparece um perdido nesta torre. Um solitário carente.

– Você é uma prostituta diferente.

– Sou uma puta-escritora. Ou escritora-puta.

– Você é escritora?

– Sou. Mas não me prostituo com a literatura.

– Ainda bem.

– Ainda bem por quê?

– Porque tem muito escritor e escritora picaretas.

– Não é meu caso. Decidi investir, enquanto sou jovem, na minha vagina. Sou formada em Letras. Tinha um bom emprego. Mas o emprego preenchia todo o meu tempo. Larguei o emprego e comecei a vender sexo. E, claro, tinha tempo para escrever.

– Entendo. E o que você escreve?

– Romances de amor.

Estava excitado. Abri a braguilha. Ela se ajoelhou, pegou meu membro e iniciou a felação. Chupava divinamente. Gozei em sua boca. Ela engoliu meu esperma. Levantou-se. Fechei a braguilha.

– Quanto é?

– Nada.

– Como nada?

– Você é escritor. Portanto, colega de profissão. Para você faço de graça.

– Como você sabe que sou escritor?

– Pelo sabor do seu esperma.

– Meu esperma não tem o gosto do esperma de qualquer homem?

– Não. Tem um sabor especial. Conheço esperma.

– Você sempre engole?

– Não. Mas o seu, quis engolir. Seu esperma vai para meu intelecto.

– Agradeço o privilégio. Você é uma garota muito bonita e inteligente. Posso voltar a esta torre para te ver de novo?

– Venha quando quiser.

– Mas vou pagar.

– Não se preocupe.

– E se eu me apaixonar por você?

– A vida é feita de riscos.

– Posso te beijar?

– Pode.

Beijei-a. E ouvi em surdina Marie Laforêt cantando Aime-moi jusqu´à demain. Continuei a ascensão.

No patamar seguinte, uma senhora de bastante idade parecia me esperar. Vestia um elegante modelo – embora um tanto surrado – dos anos 1880. Estava excessivamente maquiada e abanava-se com um suntuoso leque, apesar de não fazer calor.

– Bom dia. Sou Marie-Louise-Joséphine-Charlotte-Marguerite de La Belle Chatte de Beaucourt. Muito prazer, e estendeu a mão – que beijei.

– Bom dia. David Haize, escritor.

– Ah, escritor! Eu adoro romances de amor. Pensei, ao ouvir seus passos subindo a escada, que o senhor fosse ele.

– Ele, quem?

– O príncipe.

– Que príncipe?

– O príncipe Rudolf von Habsburg, meu amado. O senhor não cruzou com ele na escada?

– Não.

– Ele está demorando muito.

– Deve estar na taverna da esquina.

– Ele não frequenta tavernas.

– Então deve estar no salão de chá da outra esquina.

– Ele não frequenta salões de chá. Ele não pode frequentar lugares públicos.

– Nem disfarçado de camponês?

– Não. É muito perigoso. Pode sofrer um atentado.

– Então deve estar em Mayerling.

– Credo! e fez o sinal da cruz.

– Que foi?

– Não pronuncie essa palavra fatídica. Ele quase morre nesse pavilhão de caça com a amaldiçoada baronesa Marie Vetsera.

– E então onde é que a senhora o encontra?

– Nesta torre medieval que é muito romântica. O senhor vem sempre aqui?

– Não. É a primeira vez.

– Ele mandou um bilhete pelo pombo-correio dizendo que viria hoje. Mas assuntos de Estado devem tê-lo impedido. Bom, acho que vou embora.

Despediu-se e foi descendo as escadas.

Continuei subindo. No patamar seguinte deparei-me com… Cristo copulando, em pé, com Maria Madalena. Ele estava com a túnica levantada que deixava ver suas nádegas brancas e algo peludas. Madalena, encostada contra a parede, também estava com a túnica arregaçada. E, entre gemidos e suspiros do célebre casal, ouvi a seguinte conversa que, além do ato sexual, me deixou excitado. Na realidade, era só Cristo que falava em meio à excitação. Madalena se limitava a dizer “aleluia”.

– E regarei teu ventre e te farei dez filhos. Pois eu te amo esposa minha.

– Aleluia!

– E meus dez filhos espalharão a minha verdade pelo mundo. A minha verdade. Não a que a lenda forjou.

– Aleluia!

– Pois não sou filho de Deus. Sou apenas um homem escolhido por Deus para falar aos homens.

– Aleluia!

– E desfarei vinte séculos de mentiras.

– Aleluia!

– E libertarei os homens de suas superstições.

– Aleluia!

– Pois sou o Amor e não o fanatismo e a intolerância.

– Aleluia!

– E conduzirei os homens à Razão para eles crescerem ética e moralmente.

– Aleluia!

– E amaldiçoarei aqueles que usam meu nome para se enriquecer.

– Aleluia!

– E glorificarei o Sexo como princípio sagrado.

– Aleluia!

– E darei início ao Homem Novo, inteligente, generoso e despojado.

– Aleluia!

– E… Ah!

– Ale… Ah!

E gozaram juntos. Depois do orgasmo e após uns minutos, Cristo e Madalena baixaram suas túnicas. E suspiraram, felizes, porque o intercurso fora decorrente de um grande amor. E então Cristo se virou. E me olhou. Arrepiei-me. Como se uma descarga elétrica tivesse me atingido. Era um belo homem negro. Um homem da Etiópia. Assim como Madalena era uma bela mulher da Etiópia. Senti vontade de beijar a mão desse homem tão superior. Mas retive-me. Provavelmente ele não teria gostado de meu ato de idolatria.

Prossegui com a minha ascensão. E cheguei num patamar onde encontrei um adolescente, extremamente parecido com Rimbaud, que, sentado no chão à moda oriental, lia um livro enquanto se masturbava. Esperei que ele gozasse e perguntei:

– O que você está lendo?

Não respondeu. Apenas me estendeu o livro, que peguei. O título era A Busca do Silêncio, de autor anônimo.

Durante um ou dois minutos folhei o livro. Quando o devolvi, constatei que aquele adolescente era um velhinho de cabelo branco. Um ancião que parecia esperar. Esperar o quê? A morte? E ele me sorriu. Um sorriso zen que pareceu me gelar o sangue nas veias. Talvez porque esse sorriso atestasse a tragicidade do tempo.

Continuei subindo. No patamar seguinte encontrei meu irmão. Céus, que emoção! Eu nem conseguia falar. Abracei-o com lágrimas nos olhos.

– Salam! disse ele em árabe.

– O que você está fazendo aqui, nesta torre?

– Vim te ver.

– Você sabia que eu estava aqui?

– Sim.

– E os pais, como estão?

– Estão bem.

– Não quiseram vir me ver?

– Estão cansados.

– Cansados?

– Sim. Os mortos, depois de um certo tempo, se cansam.

– Tem visto filmes?

– Sim, de vez em quando pego um cineminha. Hoje vou assistir a Dor e Glória, de Almodóvar, e Um Dia de Chuva em Nova York, o último Woody Allen.

– Vi os dois e gostei muito. E por falar em cinema, o outro dia me lembrei de dois filmes que marcaram a minha memória. Um foi Lili, de Charles Walters, que o pai contou para a mãe – que não pôde ir porque você era muito pequeno e não tinha com quem te deixar. Ouvi o pai contar e o filme ficou gravado na minha memória. Uns anos depois eu o vi. O outro foi Luzes da Ribalta, de Chaplin. A mãe não me deixou ir porque aquele dia houve distúrbios na cidade – era o começo da luta pela independência do Marrocos. Eu chorei porque queria muito ver esse filme. Vi-o uns anos depois. Lembro-me também de quando fomos, os quatro, assistir a Bambi, de Walt Disney, no cine Roxy. Você era muito pequeno e perdeu sua chupeta (o “popo”) durante a sessão. Foi seu primeiro filme.

– Sim. A mãe me contava que eu não ficava parado no colo dela durante o filme. E agora vou embora.

– Já?

– Sim. Quero ver os dois filmes hoje. Não perco nenhum filme de Almodóvar nem de Woody Allen.

– Gozado, assistir a filmes depois de morto.

– E por que não?

– Tem razão, mano. Os gostos não mudam depois da morte.

E foi descendo as escadas. Fiquei uns minutos parado, com o coração encolhido pela saudade e as lágrimas rolando pela minha face, antes de continuar subindo.

Chegando no patamar seguinte, deparei-me com madame Giraud. Que surpresa agradável, emocionante e totalmente inesperada. Sim, madame Marie Giraud, prenome e sobrenome bastante comuns na França. Ela era originária do sul da França, do Languedoc-Roussillon e falava o catalão e o occitano. Além do espanhol e do árabe. Fazia muito tempo que ela vivia no Marrocos. Era viúva. O filho único morrera na Segunda Guerra Mundial. Morava sozinha, com uma empregada marroquina que dormia em sua casa. Era culta, elegante, discreta e lia muito. Sua casa, relativamente simples, tinha um belo jardim – que ela cultivava – com várias árvores. Era muito amiga de umas primas de minha mãe, que a recomendaram a madame Giraud como costureira.  Quando minha mãe terminava a costura, eu levava a roupa pronta e recebia o dinheiro. Foi assim que conheci minha amiga idosa da adolescência. Ela dizia que eu falava francês sem sotaque e me chamava de jeune homme.

Ela enxergava mal e um dia me perguntou se eu poderia ler um pouco para ela. Estranhei, mas, é claro, aceitei, mesmo porque eu já era um leitor voraz. Passei, pois, a frequentar a sua casa duas vezes por semana. E fui descobrindo nomes, que eu não conhecia, da literatura francesa. E fui descobrindo pratos da gastronomia francesa que eu não conhecia. Pois depois da leitura, ela me convidava para jantar. E eu, que tinha fome, muita fome, aceitava o convite. Eram pratos comuns – ela era ótima cozinheira – que passei a adorar: ragoût, cassoulet, ratatouille e outros. De vez em quando a empregada fazia um couscous marroquino que eu também adorava. No intervalo da leitura tomávamos um chá verde com hortelã e comíamos um pedaço de chuparkia.

Com o passar do tempo, sua visão foi piorando. E ela decidiu voltar à França onde tinha um irmão e uma irmã e quatro sobrinhos. Sua partida me deixou muito triste. E até chorei. E certamente não era porque eu deixara de receber uma graninha semanal com a qual ia ao cinema e comprava livros no sebo. Nunca mais voltei a vê-la. Escrevi-lhe uma carta. Ela nunca respondeu. Talvez a carta tivesse se perdido. Ou ela, meio cega, não tivesse querido responder.

– Madame Giraud! Que esplêndida surpresa! exclamei, emocionado, em francês, abraçando-a.

– Meu caro jovem, como vai?

– Eu estou bem. Encantado por voltar a vê-la.

– Quanto tempo!

– Sim, madame Giraud, muito tempo. Fiquei velho.

– Que nada. Você tem um aspecto muito jovem.

– Muita gentileza sua.

– Estava à sua espera.

– É mesmo? A senhora sabia que eu estava aqui?

– Sim. É por isso que eu vim. Os mortos sabemos tudo sobre os seres que nos são caros.

– Ah, que saudade de minhas leituras e das comidas que a senhora fazia. Eu tinha muita fome. Eu era muito pobre. A sua casa, para mim, era um refúgio de literatura e de boa comida.

– Eu sei, meu querido, eu sei.

– Nunca vou esquecê-la. A senhora foi muito importante na minha adolescência. A senhora alimentava a minha mente e a minha barriga. Nunca vou esquecê-la.

– Eu sei, meu querido, eu sei. É por isso que vim te ver. Meu carinho por você continua o mesmo. Os mortos também amam.

– É mesmo, madame Giraud?

– Sem dúvida. E como vão seus livros?

– Tenho 37 livros publicados. Estou no 38°. Vou incluí-la neste que estou escrevendo.

– Eu sei. Os mortos sabemos tudo o que se refere às pessoas amadas.

– A senhora tem ido a Tânger?

– Já quase não vou. Tânger virou uma metrópole de mais de um milhão de habitantes. Não é mais a cidade que nós conhecemos.  O belo teatro Cervantes não existe mais, nem a casa onde eu morava na rua Jean Jaurès.

De repente ouvi a Valsa N° 2, de Shostakovich. Olhei pela janela. Um bando de gaivotas dançava a valsa no céu azul. Aparentemente não estava mais numa torre medieval, mas num farol. A música cessou. As gaivotas sumiram. Um anjo negro de Chagall, de vestes coloridas, atravessou o firmamento, ao som da Sarabanda, de Haendel, e perdeu-se no horizonte. Depois, ouvi a Cantilena das Bachianas Brasileiras N° 5, de Villa-Lobos, e vi os cisnes em chamas – meus míticos cisnes em chamas da adolescência – atravessarem o céu crepuscular.

Quando saí da janela, percebi que madame Giraud tinha sumido. Reparei então que as paredes do farol – ou da torre? – eram cor de marfim. E vi meu rosto de adolescente de 16 ou 17 anos refletido na parede. Senti um aperto no coração e meus olhos marejaram.

28-12-2019