A Mercantilização de Deus
Durante séculos convencionou-se que Deus faz parte da religião. Está, sim, inserido na religião. Mas no fundo, Deus nada tem a ver com a religião. Deus (o que é Deus? O inominável, o inominado, o absoluto da harmonia cósmica?) está muito além de regras de comportamento individual e social. Em outras palavras, Deus existe desde que existe o mundo. E a religião foi criada pelo Homem, variando conforme a latitude e a longitude. Foi criada e estabelecida em épocas remotas em que o ser humano, totalmente ignorante, precisava ser guiado e ter alguns limites de ética impostos como regra de conduta. E isso em religiões tanto “primitivas” como “sofisticadas”, por assim dizer.
Com o passar do tempo, a essência das religiões foi se transformando. O que é lógico e natural. Já que todo poder se degrada. Com o passar dos séculos, a religião se tornou instrumento de repressão (social e sexual – já que o sexo é libertação) e de intolerância, com tudo o que isso acarreta de invasões, guerras e massacres, bastando folhar a História – atualmente 75% dos conflitos mundiais são causados pela religião. E para se manter no poder, a religião sempre se alinhou com os poderosos, com a classe dominante, com aqueles que detinham o poder e controlavam o país. Refiro-me a fatos históricos – e nada como basear a verdade focando o factual. Convém também assinalar que a repressão inclui, obviamente, o controle da liberdade mental do individuo e seu consequente achatamento intelectual. Esse raquitismo intelectual induzido abrange, entre outras restrições, a proibição da leitura de determinadas obras. Que direito tem um líder religioso fanático (logo, imbecil), de dizer a seus fieis que não podem ler tal ou tal livro? Nenhum. A religião, como todo poder fascista, entendeu logo que o melhor modo de dominar as massas era mantê-las sob o jugo da ignorância e do medo.
Tudo leva a crer que o presente artigo seja uma apologia do ateísmo. Não é o caso. Em absoluto. Trata-se de separar o joio do trigo. Ateísmo, que os fariseus, pobres cretinos desertados pela Razão, ainda consideram coisa de demônio (o que é o demônio senão o próprio Homem?) e o agnosticismo são coisas totalmente diferentes. Do mesmo modo que muitos obtusos ligam a espiritualidade obrigatoriamente a Deus. A espiritualidade e a transcendência podem ser laicas, o que eleva a um nível superior aqueles que não precisam se apoiar nas muletas de Deus para atingir um alto grau de elevação espiritual. Tenho em casa a Bíblia, o Alcorão, o Talmude e o Dhammapada. Livros que devem ser lidos com distanciamento, filtrando seus ensinamentos para eliminar as escórias. Agora, como cidadão humanista e livre pensador (termo que já não se usa) não posso admitir os abusos, a desfaçatez e o cinismo de determinadas instituições religiosas tão coniventes com as injustiças do pragmatismo neoliberal do sistema mundial. Ou seja, a pouca vergonha da apologia do dinheiro em detrimento dos valores humanistas e éticos. Cabe aqui ressaltar, novamente separando o joio do trigo, que religião é uma coisa e instituição religiosa é outra.
A construção em São Paulo do (novo) templo de Salomão, da Igreja Universal, é um eloqüente exemplo dessa impostura. Em outras palavras, nada mais repelente do que essa ostentação (do Diabo, será?) faraônica. A comercialização de Deus e de Cristo pelas igrejas neopentecostais é uma aberração, uma degradação da essência do cristianismo. A mercantilização que promovem essas igrejas é a profanação de Cristo e de Deus. Isso sem contar que, socialmente, é uma afronta aos milhões de miseráveis do País. Será que esses pilantras, safados, charlatães, impostores, detentores dos lucros estratosféricos da indústria de Cristo, se esquecem de que Cristo era pobre e de que ele expulsou os mercadores do Templo?
Infelizmente o governo, que deveria taxar as instituições religiosas como taxa as outras corporações, que deveria promover a laicidade absoluta no País, vive, à cata de votos, bajulando algo que poderia muito bem ser erradicado com a educação. Quanto mais educação menos obscurantismo e menos manipulação do povo. E por falar em obscurantismo, o que forçosamente leva a superstição, não deixa de ser evidente o fato de os mitos religiosos terem seu tempo de vida. Em outras palavras, as religiões, como tudo, também declinam e desaparecem. A História o demonstra. Consequentemente, quando a religião passa de moda, seus mitos são mitologia. Mas quando a religião ainda está viva, seus mitos são verdades incontestáveis. Exemplos: a deusa Afrodite nasceu da espuma do mar e a Virgem Maria concebeu sem pecar. A profusão de mitos do hinduísmo pode parecer mitologia aos olhos de um cristão, um judeu ou um muçulmano, mas não para um hindu.
Em síntese, Deus é despojamento – e não riqueza. É silêncio – e não histerismo. E é a liberdade de pensamento e a Razão que dignificam o Homem.
25-06-2014
R.Roldan-Roldan é escritor
http://www.davidhaize.wordpress.com
Publicado no jornal “Correio Popular” de Campinas/SP em 1° de julho de 2014

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