Sax

maio 26, 2012

Parte de
JUIZ CASADO COM FILHOS PROCURA HOMEM PARA SEXO CASUAL
(CONTOS)

Sax

Quatro horas. Da madrugada. Chove. Volto para casa. Como todo dia. Ou toda noite. Após a jornada de trabalho. Ruas desertas. Um ou outro carro. Um ou outro raro transeunte. As putas já se recolheram: não aparecem clientes depois das quatro. Silêncio. Ouço meus passos sobre a calçada. E o apito de um navio, já que esta área fica perto do porto. As luzes fazem brilhar o asfalto molhado. Chove sem parar. Há horas. Chuva fraca, mas persistente. Caminho lentamente. Ao som de Summer time, a última música que toquei hoje, que não me sai da cabeça. O guarda-chuva numa mão. Na outra, o instrumento. São 40 minutos. A pé, para economizar o dinheiro da passagem do metrô, até minha casa. Até a pensão, melhor dito. Onde moro. Num quarto com mais três caras. Dois beliches. Não tenho privacidade nem para cagar: o banheiro tem que ser usado rapidamente, pois é muito concorrido. E menos ainda para bater uma punheta. Embora ultimamente não tenha batido. Não preciso. Estou satisfeito sexualmente. Se é que posso usar a palavra satisfeito. Se é que ejacular é sinônimo de satisfação. Satisfação sexual. Que piada. Que decadência. Será? Será decadência moral? Não sei. Talvez seja apenas necessidade de sobreviver. Sim, é isso mesmo: sobrevivência. Mas a sobrevivência não impede que isso seja declínio moral. Eu, tão limpo. Tão puro. Tão romântico. Sempre aspirando aos voos supremos da música. E sempre acorrentado ao chão. Ao chão duro da sobrevivência. Ao chão amargo da miséria. Não. Não é tanto assim. Bem, se não é miséria é a extrema pobreza. No limite da miséria. Meu Deus, onde foi parar minha dignidade? Eu, de alma tão cristalina. Sempre atrás da transcendência. Da elevação espiritual. Eu, músico profissional, saxofonista, acabei, empurrado pelas circunstâncias, colocando meu pinto em ação para sobreviver. Pois é, até certo ponto vivo do meu pinto. Mesmo porque não dá para viver só da música.  A música. A música que é o ideal. O pináculo. O cume. O absoluto. O todo. Tudo. A razão de viver. O nexo da vida. A alegria de ser. A música. À qual dou tudo. Tudo o que há de melhor em mim. E da qual não recebo quase nada. Pelo menos em termos materiais. Ou seja, em dinheiro para comer e pagar as contas. Tanta paixão. Tanta exaltação. Tanta entrega. Tanta loucura. Para acabar no vazio. Mas não posso viver sem a música. Ela me faz sentir vivo. Todo o resto, pelo menos agora que estou longe daqueles que amo, me é indiferente. Sem a música a morte parece estar mais presente. É tão cruel amar de paixão algo que não serve para, materialmente, viver. É por isso que me vi impelido a comercializar, por assim dizer, meu pinto. Com duas mulheres e um homem. Eu, músico profissional, tenho um lado escuro de puto, de michê. Aos 49 anos. Quem diria. Sem pretendê-lo. Acossado pela penúria. A penúria que se deixa acompanhar pela indiferença. A indiferença que desintegra os valores morais, éticos. Será? Será que é só a indiferença? Talvez um pouco de revolta – embora eu não seja propriamente um revoltado – acabe se inserindo nessa indiferença. Talvez seja a opção assumida pela margem. Por essa marginalidade onde sou acuado pelo amor da música. Ou seja, mais ou menos isto: já que a condição de anjo me é negada, opto conscientemente pela condição de demônio. Enfim, uma metáfora, pois não sou propriamente um demônio. Mas estou dissecando demais minhas ações. E não adianta nada ficar pensando por que fiz isto ou aquilo. Faço o que faço por necessidade e não tenho que dar satisfação a ninguém. É a vantagem de ser só. Quem vai me julgar? A consciência? Foda-se a consciência. Foda-se tudo. Já que estou fodido e, literalmente, mal pago. Chove. Chove sempre nesta cidade. E caminho sob a chuva. Protegido pelo guarda-chuva. Na noite úmida e fria desta cidade portuária. Cidade de chuva e neblina. Gosto de chuva e neblina. Mas às vezes a chuva ou a neblina tornam tudo mais triste ainda. E me lembro do sol. Do sol da minha terra. Chove. E volto do puteiro onde toco, diariamente menos segunda, para minha pensão. Vou andando e pensando na vida. Na minha vida tão sem sentido. Estou vivendo para quê?  Apenas para tocar e ouvir música. Porque não há mais nada na minha vida. Faz tanto tempo que não vejo meus filhos. Estão longe. Tão longe. Tão longe em todos os sentidos. Devem me ver como um perdedor. O que de fato sou. Que é que eu fiz da vida, senão perder? A mãe deles, minha ex-mulher, me largou porque eu ganhava muito mal. Ela dizia que estava cansada de sustentar a casa. Que ainda bem que ela tinha um bom emprego. Porque com o que eu ganhava não dava para nada. E pediu para eu sair de casa. E eu saí. E fiquei perdido. Perdido sem ela e sem meus filhos. Sem a família que tanto amo. Sou um bosta. Um fracassado. Como profissional. E como pai de família. Saí de casa com uma mala de roupa e meu saxofone. Meu sax, meu fiel amigo. Meu amado companheiro de todos os dias. Meu confidente. Com quem falo frequentemente, na minha solidão. A quem conto tudo. Todas as tristezas. Porque ultimamente as alegrias são poucas. Pois é, meu único amigo e confidente é o sax. Meu sax. Eu o chamo de Sax. Sabe de uma coisa, Sax?… Olha, Sax, vou te contar uma coisa… Deixe-me te dizer uma coisa, Sax… Desse jeito. Mas nem sempre posso falar com ele. Por causa da falta de privacidade. Às vezes falo com ele durante o dia, quando meus companheiros de quarto estão fora, trabalhando. Todos imigrantes, como eu. E desabafo. Contando-lhe tudo. Não tenho amigos nesta cidade. Sax os substitui. Estou sozinho e isolado como esse cachorro que está aí, molhado, sob a marquise. À espera de um improvável dono. Sozinho nesta noite fria de chuva. Sim, à espera de um eventual dono que o ame. Como eu ainda espero, ingenuamente, uma dona que me ame e que eu ame. É isso mesmo. Ser de alguém. Pertencer a alguém. Eu não sou de ninguém. Apenas empresto meu pinto. E ninguém é meu. Meu Deus, ter uma mulher que cuide de mim. E que me ame. Uma mulher legal. Uma companheira com quem falar, dividir a vida. As duas fulanas com quem trepo não significam nada para mim. Desempenho apenas uma função biológica com elas. E além de me aliviar recebo favores em troca. Como um garoto de programa. Só que eu não sou garoto. Sou quase cinquentão. E estou usando o pinto para contornar uma situação difícil. Eu estava muito mal. De dinheiro e, claro, de moral. A ponto de pensar em suicídio. A dona da pensão, a quem devia vários meses de aluguel, me pediu para sair. Disse-lhe que eu não tinha para onde ir. Que teria que dormir na rua. Então, sem mais nem menos, olhando-me fundo nos olhos, perguntou: quer vir para minha cama?  Para sua cama? estranhei. Sim, para minha cama, confirmou. E fui para cama dela. E passei a frequentar sua cama uma ou duas vezes por semana. E ela me perdoou os três meses de aluguel atrasado. E além do mais me faz um desconto todo mês. E agora não estou devendo nada. Ela tem 55 anos. Gorda e feiosa. Mas para quem não tinha ninguém e ia para o olho da rua… Às vezes não dá para exigir muito da vida. Logo da primeira vez, ela me confessou que sentia muito tesão por mim. Eu não sinto tesão por ela. É apenas uma boceta. É separada. Tem uma filha casada e dois netos. Mas acho que transa com outro pensionista. Tudo bem. É um direito que ela tem. Transar com quem ela quiser. Eu não me importo. Fizemos um trato. Tacitamente. Por mim, está tudo bem. Espero que ela não se canse de mim. E eu perca o privilégio do desconto mensal no aluguel. A outra mulher é a dona do puteiro onde toco – comecei tocando saxofone em boates e bares finos e acabei num puteiro barato. Puta aposentada, de 65 anos. Bonita na mocidade. Relativamente bem conservada. Eu já tinha resolvido o problema da pensão quando um dia ela me disse que ia me dispensar, que tinha que cortar despesas. Eu, apavorado, supliquei: pelo amor de Deus, faça de mim o que quiser, mas não me mande embora, não vou ter o que comer. Quando eu disse: faça de mim o que quiser, eu estava, implicitamente, propondo a cama. Acho que ela captou. Você quer ser meu amante? indagou. Quero, respondi na hora sem vacilar, na esperança de resolver a situação. Ela me olhou, muito séria. Fiquei na dúvida. Quando ela perguntou “você quer ser meu amante?”, ela estava propondo ou apenas querendo confirmar minha proposta implícita? Perante a duvida, acrescentei: bem, se a senhora me aceitar. E ela simplesmente confirmou: eu te aceito, você é um homem gostoso e educado. Por enquanto pode continuar na casa, concluiu. E até hoje. É claro que não sinto nada por ela. Mas fazer o quê? Preciso garantir meu trabalho. Em suma, trepando com a dona da pensão garanto o teto e trepando com a dona do puteiro garanto o pão. Só que não aguento meter duas vezes com uma e duas com a outra por semana. Não aguento porque quatro vezes por semana sem tesão é muito para um cinquentão. Acho que sou bom de pica, mas não estou com a bola toda, não. E ainda tem o velho. O Oh Mein Papa, como eu o chamo. Pois ele sempre pede para eu tocar essa música. Uma música que me deixa triste, já que ela me lembra quando eu me vestia de palhaço e brincava com meus filhos pequenos. O velho. Como é que posso fazer isso? Deixa para lá. Faço porque rende. Como já disse, comercializei meu pinto. O velho, um senhor de mais de 70 anos, me chupa uma vez por mês. Sim, uma vez por mês ele passa no puteiro, fica me ouvindo tocar com muita atenção e quando termino o trabalho me leva de carro ao seu belo apartamento onde a costumeira felação é muito bem paga. O pinto endurece em sua boca, e às vezes gozo. Ele sempre goza. Porque se masturba enquanto me chupa. Uma vez ele perguntou se eu queria penetrá-lo. Respondi que não. Não como homem. Não me apetece. Não gosto de cu de homem. E ficou por isso mesmo. Só chupadas. O velho, um verdadeiro cavalheiro, apareceu depois do meu caso com a dona da pensão e do meu caso com a dona do puteiro. Ficou me ouvindo, entusiasmado com minha música. O que me tocou, pois são raros os clientes que prestam atenção a minha música e mais raros ainda os que manifestam admiração. Quando acabei, ele me ofereceu um drinque. Eu, embora tivesse bebido muito aquela noite (bebo enquanto toco) aceitei. Falamos longamente de música. Ele não tinha jeito de homossexual. Chegou a hora de fechar. Saímos. Ele queria beber mais, mas como já estava tudo fechado, propôs irmos tomar o último uísque na sua casa. Aceitei. Bebi mais e mais. Numa hora ele abriu meu zíper e colocou meu pinto na boca. Eu já estava alto e não reagi. Acabei dormindo no sofá enquanto ele me chupava. Quando acordei, com a cabeça que parecia explodir, não me lembrava de nada. Tomei o café da manhã com ele e fui para casa. No caminho enfiei a mão no bolso da calça e notei que havia algo. Era grana que ele tinha colocado sem dizer nada. Aí me lembrei vagamente de que ele tinha me chupado. Um mês depois ele voltou. Ouviu minha música até eu encerrar. Me convidou a ir ao seu apartamento. E eu fui. E fui chupado. Sem estar bêbado. E fui pago. E até hoje. Todo mundo é puto. De um modo ou de outro. Se não tenho escrúpulos em trepar com a dona da pensão e com a dona do puteiro por interesse, por que teria por me deixar chupar pelo velho? Sou um bosta mesmo. E fodido por fodido… Chove. Longa é a noite. E longa a chuva. E longa a caminhada até casa. Desemboco na avenida. Onde há um pouco mais movimento de veículos. Falta menos para chegar na pensão. Cruzo com um bêbado. Que mal se mantém em pé. Que me pede um cigarro. Dou-lhe um. E acendo outro para mim. E vou andando e fumando sob a chuva. O pensamento solto. Um tanto leve. Talvez porque tenha bebido mais da conta. Mas não estou bêbado. Mas preciso controlar a bebida. Ando bebendo demais. A dona do puteiro não me desconta a bebida. Além de me dar janta. Quando toco e bebo me sinto tão bem. Tão leve. Tão solto. Tão feliz. Com tanta esperança no futuro. Esperança de encontrar um local melhor para tocar. Onde paguem mais. Esperança de encontrar uma mulher para amar e ser amado. Esperança de rever meus filhos. Quando toco e bebo sou outro homem. Quando toco e bebo não sou mais um homem. Sou um anjo. O anjo que não consigo ser no dia a dia. Quando toco e bebo deixo de ser um miserável. Um perdedor. Um fracassado. Um desajustado. Um abandonado. Um deslocado. Um outsider. Um animal perdido na cidade. Para tornar-me grande. Superior. Magnífico. Único. E potente e poderoso, absolutamente seguro de mim, subo. Subo. Ascendo às altas esferas. Projetado em direção ao céu pela música. Sublime enlevo. Voo estelar a anos-luz da miséria do chão. E o puteiro se torna teatro. E os parcos aplausos se transformam em ovação. E eu, com a música no sangue temperada pelo álcool, me torno mais alto. E mais bonito. E mais forte. E mais jovem. E as mulheres me jogam rosas. E mandam beijos. E os homens gritam bravo. E minha amada me aguarda no camarim. E me abraça e me beija, emocionada pelo meu sucesso. Pela consagração. E eu choro de emoção. E sou o homem mais feliz do Planeta. O homem mais realizado da Terra. Com a música no sangue. Com a música na alma. Com a música no coração. Com a música na mente. Com a música na carne. Com a música nos músculos. Com a música até nos colhões. Com a música no sopro. Sopro de vida. Que justifica minha existência. Que move minha vida. Que me faz levantar de manhã e aceitar o novo dia. E o sufoco da penúria. E da solidão. E da falta de perspectiva. Eu, animal musical. Visceralmente musical. De esperma musical. Sim, quando toco, com um pouco (ou muito às vezes) de álcool, sou outro homem. Sou um privilegiado que abandona o rebanho para fluir, etéreo e esplêndido, pelos espaços aéreos dos eleitos. Pois sou um eleito. Deus, ou algum deus, assim quis que fosse. Deus, ou algum deus, quis que eu conhecesse a suprema felicidade da música. Ah, meu Deus! Que dom fantástico você me concedeu. A mim, pobre humano. Por isso, por mais triste que seja minha vida, agradeço a Deus por esse privilégio. Sim, quando toco. Quando toco… Som e álcool. O problema é que não posso passar as 24 horas do dia tocando. Há o lado de existir que sou obrigado a enfrentar. Daí esse meu exílio no chão duro do dia a dia. Esse angustiante exílio no território dos outros. No território agressivo, competitivo, hostil dos outros. Esses outros, estranhos, distantes, frios, que não entendem nada do meu mundo. Esses outros constantemente atarefados como formigas ou cupim. Sim, cegamente atarefados como formigas ou cupim encaminhando-se para a morte. Sem ver. Sem sentir. Sem compreender. Apenas ocupados. Sempre ocupados com suas tarefas. Atrozmente limitados. Devastadoramente bitolados. Desesperadamente pragmáticos. Apenas existindo na marcação estabelecida pela morte. Apenas existindo sem viver. Esquecendo-se de viver. Meu Deus, que percepção me foi dada para entender isso. Para entender que é preciso extrair da existência um fio de sentido. Um fio de vida que justifique a existência. A existência, tão vasta quando se torna vida. Mas tão curta. Apenas o tempo de compreender, e somos obrigados a partir. A partir para o nada. Bobos. Ou fariseus. Ou ingênuos. Toda essa manada que não sabe disso. Que vai para o matadouro sem compreender. Que não é capaz de entender. Dessa melancólica manada com a qual sou obrigado a conviver. Como não sentir solidão? Como não sentir a solidão de ser diferente? Como não sentir solidão mesmo acompanhado? A menos que a companhia faça parte da mesma espécie. Ou da mesma tribo, como costumam dizer. Como meus amigos David Haize, o escritor, e Aitor Haritz, o pintor. Esses sim, são dos meus. Com eles me sinto à vontade. Com eles não sou o patinho feio. Sinto-os como irmãos. Irmãos do sentir e do pensar. Eles não se encaixam em determinadas regras estabelecidas pela sociedade. E como são uns mal-encaixados, eu me encaixo facilmente neles. Questão de valores. De identificação de valores. Mas também de uma extraordinária capacidade de sentir. Mas eles estão tão longe. Na terra do sol. Ah, lembro-me de Manhã de Carnaval, que eu sempre toco e que me sugere céu azul e calor. E eu na terra da chuva, da neblina e do frio. Pois é, somos parecidos em quase tudo. Mas o oceano nos separa. Eles estão melhor do que eu. O David ganha muito pouco com os livros, mas dá aulas. E o Aitor recebe um aluguel, além de vender uma ou outra tela. Eles não estão no fundo do poço, como eu. Com o sax e o pinto para sobreviver. Que saudade dos meus queridos amigos. Gostaria tanto de vê-los. E de encher a cara com eles. Como nos bons velhos tempos. Quando era casado e vivia com minha mulher e meus filhos. Eu não era mulherengo como eles. Eu gostava muito da minha mulher. Mesmo ela pertencendo a outro mundo. Mas ela não gostava deles. Dizia que músico, pintor e escritor são todos iguais, tudo a mesma coisa, farinha do mesmo saco: eles só servem para beber, caçar mulher e não ganhar nada. Ela não gostava deles porque eu bebia com eles. E ela ainda achava que quando estava com eles, caçava mulher. Mas eu não era disso. Só bebia com eles. Ela sempre pensou que eles eram um péssimo exemplo para mim. Nossa, quanto tempo… O tempo. Essa coisa angustiante que não perdoa. Que passa sem que a gente perceba. Que nos engana. E nos empurra para a morte. Que destrói tudo. Até os sentimentos mais profundos se gastam com o tempo. E não resta nada. Apenas lembranças do passado. E ilusões murchas. E solidão. E saudade. Como a saudade dos meus amigos. E dos meus filhos, quando eram pequenos e que eu brincava com eles. E da minha mulher, que nunca deixei de amar, embora já esteja casada com outro homem. Saudade… Melancólica saudade. Como essa chuva que não pára. Como a longa noite triste. Como o apito distante de um navio que ouço novamente. Saudade de página virada. E aqui acaba minha caminhada. Cheguei em casa. São 4h40 da manhã.

                                                                  Novembro de 2009

Acabou.

  • em 02/06…      “Prefácio, por Pierre-Auguste Lanord
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Comida Caseira

maio 19, 2012

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JUIZ CASADO COM FILHOS PROCURA HOMEM PARA SEXO CASUAL
(CONTOS)

Comida Caseira

Não. Assim não vai dar. Não vai dar mesmo. Desse jeito a vaca vai para o brejo. Vai acabar fodendo tudo. Porra, paciência tem limite. É uma questão de bom senso. Qualquer pessoa de bom senso vai perceber que a coisa vai feder. E vai feder feio. Falta de desconfiômetro. Falta de consideração. Eu diria que é até falta de respeito. Pois é uma invasão. É isso mesmo: uma verdadeira invasão. Puta que o pariu. Primeiro, a Freira. E, como se não bastasse, agora a Crente também. Que que é isso? A casa da madre Joana? Pau para toda obra? Pois é, é isso mesmo. Pau para toda obra literalmente falando: o pau do marido. Eu tenho que cuidar da família inteira da minha mulher. E tem mais. O outro dia fui ter uma conversa séria com a Mag sobre o assunto. E que é que ela me responde? Rando, você deveria se considerar satisfeito. Como assim, satisfeito? Querido, você não reclamava que precisava de mais sexo? Pois agora você tem o que você queria: sexo à vontade. Em vez de reclamar, você deveria me agradecer, a mim, Magnólia, sua mulher, de ter providenciado o que você precisava: mais sexo, sem ter que sair por aí atrás de sirigaita e trazer doenças para casa. E vou te dizer uma coisa: não é toda mulher que é capaz de fazer o que eu faço por você, meu marido. Não é toda mulher que é desprendida e abre mão da exclusividade sexual do marido para deixá-lo satisfeito e feliz. E tem mais: sem ciúme. Achei o cúmulo da argumentação e repliquei: só faltava você ter ciúme, né, Mag? Mas poderia ter, né, querido? Você não diz que mulher é muito complicada e contraditória? Homem é que é mal-agradecido mesmo. Eu, uma esposa fiel e trabalhadora, que trabalha fora, cuida da casa e dos filhos e que, por estar muito estressada para satisfazer o marido, providencia sexo regular e seguro para ele da maneira mais desprendida que se possa imaginar, sou obrigada a ouvir reclamações do meu marido que nunca está satisfeito com o que tem. Magnólia, não é por aí. Eu nunca fui de reclamar. Sempre aceitei tudo de você. Só que nem oito nem oitenta. Você passava semanas e semanas sem dar para mim. E agora praticamente sou obrigado a comer a Hortênsia (exagero meu porque eu estava gostando de comê-la) e, porra, a Begônia também vem morar conosco. Querido, você não é obrigado a comer a Tênsia e a Begô vai morar na edícula. E a conversa ficou por isso mesmo. Na realidade eu não me casei com a Maria Magnólia, casei com sua família inteira. Todo santo domingo era macarronada na casa dos sogros. Todo Natal era jantar e almoço na casa dos sogros. Todo domingo de Páscoa, almoço na casa dos sogros. Todo aniversário do sogro, festa na casa dos sogros. Todo aniversário da sogra, festa na casa dos sogros. Porra, haja saco para aguentar. Olha, eu sou um cara muito simples. Um homem caseiro. Boa índole. Pacato. De família humilde. Eu me formei engenheiro agrônomo porque um tio-avô, meu padrinho, me pagou os estudos. Se não fosse por ele, não teria tido meios para estudar. Tenho um bom emprego e ganho bem. Gosto muito da minha mulher e dos meus dois filhos. Sou corintiano. Gosto de bater uma bola. De um bom churrasco e de cerveja. E de meter. Não fumo. Não saio com mulher. Só tomo cerveja com os amigos depois da pelada. Minha vida seria um mar de rosas não fossem duas atitudes da Magnólia. A primeira é sua família. Mulher é bicho gozado. Casa e fica grudada nos pais. E isso acaba atrapalhando a relação com o marido. Mulher quando casa deveria se conscientizar de que formou um novo núcleo familiar e que tem que sair da barra da saia da mãe. Mas a Magnólia nunca entendeu isso. É boa esposa. Trabalha fora, cuida da casa e dos filhos – até aí, tudo bem – mas também cuida da família dela. E, a verdade seja dita, descuida do marido. Descuida do marido no sentido que não trepa comigo tanto quanto eu gostaria. Às vezes ela passa até dois meses sem abrir as pernas para mim. E, todo homem sabe disso, é foda ficar sem foda. Como diz o povo, a porra soube à cabeça e eu fico nervoso. Estou cansado de bater punheta. Para que tenho mulher então? Para ficar batendo bronha?  Juro por Deus que na primeira oportunidade vou pular a cerca. Para falar a verdade, eu não traio minha mulher por preguiça. Dá muito trabalho procurar mulher por aí. E acaba dando problemas. A fulana acaba grudando e às vezes acaba com o casamento. Eu sei como é. Já aconteceu comigo. E tenho amigos nessa situação. O que não dá problema é puta. Meter, pagar e tchau. Mas eu não curto sair com puta. Não tem graça. O homem gosta da conquista. Pelo menos eu gosto. Mas com a Magnólia não dá. Não dá porque ela não me dá. Está sempre cansada. Com dor de cabeça. Ou com enxaqueca. Ou com muito sono. Ou menstruada. E eu acabo tendo que dar um trato no pau para sossegá-lo e poder dormir relaxado. Uma noite em que ela se recusou, eu fiquei tão puto que disse: olha aqui, Magnólia, é a última vez que eu peço para trepar comigo, mas pode ter certeza de que sem mulher eu não fico, pois eu não tenho pau só para mijar. Ela não respondeu nada. Mas deve ter pensado no assunto. Pois uns dais depois ela me veio com uma solução. Ou o que ela achou que era uma solução. É claro que na época eu não percebi que era uma “solução” (entre aspas mesmo). Ela chegou toda meiga e propôs: Randinho (meu nome é Randolfo, mas ela me chama de Rando ou Randinho), preciso falar com você. Fala, Mag. Sabe, minha irmã Maria Hortênsia? Sei, a Tênsia, a Freira. Ela não é mais freira faz muito tempo, pare de chamá-la de freira. Que é que há com ela? Ela está muito triste depois da morte dos meus pais e não quer mais ficar naquela casa sozinha. A casa poderia ser vendida e ela vir morar aqui conosco. Queria saber se você aceita a coitadinha, tão sozinha, sem marido, sem filhos, sem namorado e agora sem pais. Ela não vai atrapalhar nossa vida. Ela moraria na edícula – afinal de contas a edícula tem dois cômodos, cozinha e banheiro e está praticamente vazia. Puta que o pariu, pensei. E eu que achava que depois da morte recente dos meus sogros – morreu ela e uns meses depois ele – estava finalmente livre da família da minha mulher… Agora vou ter de aturar a irmã. A Tênsia. A ex-freira. A solteirona. Virgem, ao que parece, até agora. Fazer o quê? Ia falar que não? Tá bom, Mag, mas eu não quero a Tênsia na minha casa. Ela que fique na edícula sem invadir nosso espaço. E assim a Freira veio morar conosco. A mais velha das três irmãs, quase cinquentona, quieta e sem graça – a não ser a bunda, bastante apetitosa. Passou quase vinte anos num convento. Aí resolveu sair, depois dos quarenta. A Magnólia diz que ela nunca deu. Que está lacradinha da silva. Passaram-se umas semanas. A coitada da Tênsia era tão discreta que a gente esquecia que ela morava nos fundos. Até que um belo dia a Magnólia veio falar comigo. Sabe, Randinho, estou muito preocupada com a Tênsia. Que é que tem a Freira? Randinho, não a chame de Freira, faz tempo que ela deixou de ser freira. É, Mag, mas ela continua com jeito de freira. Que aconteceu com ela? Ela continua virgem com quase cinqüenta anos. E daí? E daí que a virgindade pode dar câncer. E daí? Ela que procure um macho para tirar o cabaço. Ai, meu bem, que jeito de falar. Que falta de sensibilidade da sua parte. Os homens são todos iguais. Você acha que é fácil para ela, uma mulher que sempre viveu reclusa e submersa na religião, sair com um homem? Para vocês, homens, tudo se resume a introduzir o membro. Você sabe muito bem que nós, mulheres, somos diferentes. E como eu sei, eu sei muito bem, que mulher é diferente e complicada. Randinho, não seja irônico. Eu estou falando sério: não é fácil para a coitada ir para a cama com um homem. Bom, Mag, o problema é dela. Ela que se vire. Que é que a gente pode fazer? Foi uma opção dela ser freira e agora não ser capaz de arranjar um macho e levar uma vida normal. Mas ela tem uma vida normal. Não, Mag, ela não tem uma vida normal. Ficar sem trepar a vida toda não é uma vida normal. Mas enfim, eu não tenho nada a ver com isso, o problema é dela. Mas ela é minha irmã, Randinho. E eu com isso? O que você quer que eu faça? Que tire a virgindade dela? Exatamente. O quê? Eu não acreditei no que estava ouvindo da minha própria mulher. Com os olhos arregalados, perguntei: Magnólia, você está me propondo que eu deite com tua irmã? Estou. A pobrezinha é virgem. Morre de medo de homem. Mas ela vai aceitar você. Como é que você sabe que ela vai me aceitar? Porque eu já falei com ela. Já a preparei. E ela aceita deitar com você. Só com você. Porque você é da família e ela te respeita muito. E para você é fácil, você é um homem. Não custa, né, meu amor? Magnólia, se eu, teu marido, comesse tua irmã, sem você saber, e um dia você viesse a descobrir, você diria que sou o maior cafajeste, o maior filho da puta na face da Terra. Mas, querido, ninguém está traindo ninguém. É simplesmente um acordo. Depois de deflorada, talvez  ela crie coragem para arrumar um namorado. Meu bem, é uma questão de generosidade. De generosidade, né, Magnólia? Sim, Randinho, de generosidade, de caridade cristã. Você vai apenas abrir o caminho. Tenho certeza de que ela vai gostar de sexo – você é um homem experiente na cama e será paciente com ela – e ela vai querer encontrar um companheiro. E se ela gostar de mim? Bem, querido, é um risco. A vida é feita de riscos. Ela pode vir a se apaixonar por você. Mas você não vai se apaixonar por ela. Como é que você sabe? Porque ela não é o tipo de mulher pela qual você se apaixonaria. Você está muito segura de si, de onde te vem tanta certeza? Porque eu te conheço, Randinho. E você não ficaria com ciúme? Não, não vou ficar com ciúme. Ficaria se você arrumasse uma mulher fora de casa, uma desconhecida. Mas minha irmã não é nenhuma ameaça, mesmo porque eu a conheço bem. É o desconhecido que assusta e que nos deixa inseguros. E foi assim que tirei o cabaço da Freira. Só que acabei gostando de comer a cinquentona. E passei a meter com ela toda semana, regularmente. Com o consentimento tácito da minha legítima esposa que, acho eu, se desincumbia em parte da obrigação de seus deveres conjugais na cama. Assim, Magnólia trepava comigo quando lhe apetecia. E eu não brigava mais com ela por falta de sexo. Já que minha cunhada Hortênsia mantinha minha libido apaziguada. Eu não estava apaixonado pela Tênsia. Mas a Freira era uma bela foda. Coitada, passou tantos anos sem sexo que quando o descobriu, ficou alucinada. E eu não precisei de muita paciência, não. A mulher virou uma fera na cama depois de algumas metidas. E ela gemia só de pegar no meu pau. E gritava tanto na hora de gozar que me via obrigado a tapar-lhe a boca para ela não acordar a casa inteira – mesmo estando na edícula. Na hora do orgasmo ela invocava Nossa Senhora e alguns santos dos quais era devota. Ai, minha Nossa Senhora, vou gozar! Ou ai, Virgem Santa, vou gozar! Ou ai, meu santo Antônio, não aguento mais! Ou ai, meu são Francisco, vou gozar! Ou ai, meu são Benedito, não aguento mais! Aos poucos fui vencendo todas as resistências. Sexo oral e anal. E assim ela chupava e era chupada. E passou também a gostar de ser enrabada – o que nunca fiz com minha mulher. Ensinei-a também a falar palavrão durante as metidas. E ela aprendeu bem a lição. Gosto do caralho do meu cunhado na minha boceta. Ou gosto do caralho do meu cunhado no meu cu. Ou enfia, meu macho, enfia tudo até os colhões. Ou me racha o cu, meu macho, que eu adoro. E assim por diante. E assim foi passando o tempo. A Freira foi de fato incorporada à família e ela passou a ficar mais tempo em nossa casa do que na edícula. Fui me acostumando à nova situação e não tinha nada a reclamar. Duas vezes por semana visitava a Tênsia no seu quarto, na edícula. Mas não passava a noite toda. Antes do amanhecer voltava para minha cama, com a Magnólia, por causa dos meus filhos, para não levantar nenhuma suspeita. Mas meu filho percebeu. E um dia, sem mais nem menos, tocou no assunto. Pai, você está comendo a tia Tênsia? Que que é isso, rapaz? Olha o respeito! Pai, tenho 18 anos, sou maior de idade. E daí? O fato de ser maior de idade não te dá o direito de desrespeitar teu pai. Mas que desrespeito, pai? Perguntar não é falta de respeito. Perguntar não ofende, pai. Estou falando de homem para homem, pai. Larga mão de me tratar como criança, pô. E pode ficar sossegado que não vou contar nada para a mãe. Sou homem e sei como são essas coisas. Faz tempo que estou comendo mulher. Desde os 14 anos. Para mim, facilitou, soco o nabo. Não perco tempo. Não penso duas vezes. Não vou deixar para outro comer. Essas garotas hoje em dia só pensam em meter. Dão que nem galinha. E se você não comer, te chamam de veado. Mas não tem nada, não, pai. Não quer falar, não fale. Pensei que você fosse meu amigo. Eu não estava bravo com meu filho Gustavo – um garotão saudável, mais alto e mais forte do que eu, que parecia um jovem de 25 anos. Estava apenas surpreso com a ousadia da pergunta. Uma pergunta que com certeza eu nunca teria feito ao meu pai. E ocorreu-me, com uma certa saudade, que eu não tinha mais um menino na minha frente, mas um homem. Durante uns segundos fiquei absorto, em silêncio. Gustavo perguntou: que foi, pai? ficou chateado com a pergunta? Teria gostado de lhe dizer: não estou chateado, não, mas vem dar um abraço ao teu pai. Mas eu sempre tive dificuldade de deixar aflorar certas emoções. Limitei-me a perguntar: o que te faz pensar que estou comendo a tia Tênsia? Pai, a tia Tênsia faz um barulhão quando está metendo. Aí pensei, a primeira vez que ouvi: caralho, a tia Tênsia parece que está fodendo. Aí pensei: ela deve ter arranjado um macho só para trepar – porque eu nunca vi a tia com namorado. Mas dá para ouvir o barulho desde teu quarto? Claro que dá, pai. A janela do meu quarto fica em frente da janela do quarto dela na edícula. E ela grita mesmo. Gustavo tinha razão: a Freira grita mesmo quando está gozando. Além do mais, pai, uma noite que cheguei de madrugada em casa, vi você saindo da edícula. Aí, pensei: o filho da puta (com todo meu respeito, pai) do safado do meu pai tá comendo a tia Tênsia. E ri, pai, ri e pensei: o velho faz muito bem, deve ter tirado o cabaço da solteirona. Pai, eu entendo, não estou censurando você. E sabe porque eu entendo? Porque tenho uma vara, como você, entre as pernas. E tem uma coisa, pai, eu posso ser muito jovem, mas não sou burro e tenho muita experiência com mulher. E descobri uma coisa, pai, é a vara que manda na cabeça do macho. Pode ter certeza. Gustavo não deixava de ter razão: é a pica que manda mesmo na cabeça do homem. E não só quando o homem é jovem. Antes de finalizar a conversa, meu filho fez uma observação pertinente: cá entre nós, pai, a tia Tênsia tem uma bunda que até eu comia. Ri. E terminei a conversa com: Gustavo, não comente nada com tua mãe. Nem precisa falar, pai, não sou moleque, sou um homem. Muito bem, Gustavo, é um pequeno segredo entre pai e filho. E ele aconselhou: pai, toma cuidado com minha irmã, ela tem só 12 anos, mas é muito viva e xereta e tagarela. Pode deixar, Gustavo. Eu poderia, para aliviar um certo mal-estar de pai pego pelo filho traindo a mãe, ter contado ao Gustavo que foi sua mãe que me empurro para a cama da Freira. E que na realidade, como não havia mentira, não havia engano, traição. Mas eu não sabia se meu filho, um rapaz de apenas 18 anos, embora bastante maduro para sua idade, seria capaz de entender isso. E deixei a coisa assim. De um modo que me pareceu mais natural. Ou mais normal. Digamos que o camuflado sempre choca menos que o cinismo. Assim se passaram alguns meses. Até a morte do marido da Begônia. A Begô, como as irmãs a chamam. Ou a Crente, como eu a chamava, que era a irmã do meio, sendo a Magnólia a caçula e a mais bonita das três. Maria Begônia virou a ovelha negra, pois ela se tornou evangélica no seio de uma família muito católica. Casou virgem com mais de 40 anos. O marido, evangélico como ela, contraiu aids poucos anos depois de casado – dizem que comia um travesti – e veio a falecer depois que o pastor – o imbecil, ignorante, burro e irresponsável do pastor (pastor só serve para tirar dinheiro dos incautos fieis e para falar asneiras) – lhe disse que ele não precisava tomar mais remédios, pois Deus ia curá-lo. E o cretino fanático do marido da Crente entrou nessa e se fodeu para eternidade. E assim a Begô, que não contraiu o vírus, ficou viúva e sem filhos. E entrou numa profunda depressão que nem Jesus era capaz de remediar. E a irmã, minha digníssima esposa Magnólia, sempre tão solidária em relação aos problemas de sua família (entenda-se pais e irmãs) resolveu convidá-la a ficar uns tempos morando em casa, ou seja, na edícula, com a Freira, onde ela iria se sentir menos sozinha, até passar a depressão. Dito e feito. Ou quase. Porque a Magnólia, claro, veio falar comigo primeiro, com o homem da casa. Porra, Magnólia, mais uma aqui! Randinho, não fica assim. A Begô não vai atrapalhar ninguém. Ela é uma pessoa quieta e discreta. E vai ficar com a Tênsia. Não se preocupe, ela não vai invadir nosso espaço. Caralho, Magnólia! O clã inteiro na minha casa! Meu bem, não é o clã, são apenas duas irmãs emocionalmente abaladas e carentes que precisam do apoio da família. É algo temporário. Pode ser que um dia a Tensia vá morar com a Begô. E assim a Crente fechou seu apartamento e veio morar conosco. Isso significava que eu não podia mais meter com a Tênsia. Não que eu morresse de amores por ela, mas a Freira era uma boa foda e eu já tinha me acostumado a molhar o ferrão com ela. Ou seja, sexualmente não me faltava nada. Duas vezes por semana com a cunhada e uma ou duas vezes por mês com a esposa. Curiosamente, me dei conta de que o fato de não poder mais meter com a Tênsia (pelo menos em seu quarto) me deixou irritado. Mas a irritação durou pouco. Como as duas dormiam no mesmo quarto, sugeri à Tênsia se encontrar comigo no escurinho do alpendre da lavanderia. E assim passamos a trepar em pé, encostados contra a parede. Mas não era bom. Nada como uma cama para foder à vontade. A Freira encontrou uma solução. Ela disse que contou à Crente que ela estava de caso comigo. E para surpresa da Freira, a Crente, generosamente, se ofereceu para dormir no sofá da sala da edícula, nos dias da minha visita. E deste modo deixei de ter tremedeira nas pernas e voltei a afogar o ganso na horizontal. Mas uma noite, eu estava com a vara dentro da bainha da Tênsia quando bateram na porta do quarto. Era a Begô – só podia ser ela – muito assustada com um pesadelo, que pedia para ficar no quarto com a gente, em sua cama, alegando que ela não iria atrapalhar. Para que a Begô se sentisse mais perto da gente, Tênsia sugeriu juntar as duas camas e assim dormiríamos os três juntinhos e o susto da Crente passaria. Como ainda eu não tinha gozado e estava excitado, a presença da Begô, que não era nada atraente, mas tinha duas belas tetas, aguçou meu tesão. Pensei: não tenho nada a perder. Sem falar nada, pulei por cima da Tênsia e fiquei no meio das duas. E comecei a acariciar as tetas da Begô que não demorou e colocou minha mão em sua xota. Daqui a pouco montei nela. E ela começou a gemer. E a falar. Ai, meu Jesus, vou gozar logo! Aí, meu Senhor, não vou aguentar mais! Ai, meu bom Jesus, isso que é foda (sic)! Enfia, meu bem, enfia tudo que vou gozar! Ai, meu Jesus divino, estou gozando! E foi assim que comi a Crente. Com o consentimento tácito da Freira – que ficou quieta o tempo todo. Para falar a verdade, tudo indica que a coisa estava previamente combinada entre as duas. Mas, claro, eu me fiz de bobo e cedi o cilindro à pobre viúva solitária que tanto parecia estar precisando. Não só devido a sua viuvez, mas provavelmente ao fato de o marido ser daqueles crentes – cambada de hipócritas – que depois de soltar o caldo grosso pedem perdão à “irmã”. E assim, sem forçar, sem pretender nada, passei a comer as duas irmãs. Um dia uma, no outro dia a outra. E a frequência passou de duas a três vezes por semana. O que, para um cara de 47 anos, era uma média respeitável. Levando em consideração que, uma ou duas vezes por mês, era obrigado a cumprir meus deveres conjugais com a digníssima cônjuge. Um dia, o filho da puta do meu filho Gustavo (com todo o respeito pela mãe), com um sorriso malicioso, chegou para mim e disse: e daí, pai, tá comendo a tia Begô também? E, para sua surpresa, fui direto: estou, filho, fazer o que, se não tinha outro jeito? Ele arregalou os olhos e começou a dar gargalhadas. Eta, paizão! Coroa comedor! Mas, filho, não vá comentar nada com tua mãe. Que que é isso, pai, pode ficar sossegado. Se bem que, pensei, a Magnólia já deve estar sabendo que ando também suprindo a carência da Crente. E assim vou levando a vida. A Freira e a Crente estão mais em casa do que na edícula. A edícula é só para dormir. E para meter, claro. O resto do dia estão em casa. As duas trabalham fora. Mas se revezam nos afazeres de casa. A empregada agora vem só meio período. E a faxineira uma vez por semana – antes vinha duas vezes. As duas irmãs sabem cozinhar muito bem. Tanto é que engordei. Minha mulher está mais descansada, pois são três mulheres cuidando da casa. Notei que a Magnólia está mais disponível sexualmente com a ajuda das irmãs, pois ultimamente tem mais vontade de trepar. Não sei quanto tempo vou aguentar metendo com as três. As três mulheres da minha vida: Maria Magnólia, minha mulher, e Maria Hortênsia e Maria Begônia, minhas cunhadas-amantes. Ou Mag, Tênsia e Begô. Não preciso mais bater punheta. Nunca estive tão satisfeito sexualmente – embora com carne um pouco passada. Comida caseira. Na mesa e na cama. Estou me sentindo um muçulmano cuidado pelas suas três esposas. Randolfo e suas três flores. Eu nunca teria imaginado algo parecido. Uma vida a quatro. O macho e suas três fêmeas. Papai, mamãe, filhinho, filhinha e as duas titias. A harmonia da vida familiar. Sim brigas. Lar, doce lar. Com foda e comidas fartas. Nada como o pau e o estômago satisfeitos. Invasão da minha casa pela família da minha mulher? Sim, e daí? Sempre foi assim. São seis aniversários para comemorar por ano. Mais Natal. Páscoa. E macarronada deliciosa todos os domingos. Bola e churrasquinho e cerveja aos sábados, com os amigos. Que mais posso pedir? Para um homem simples, caseiro, que gosta antes de mais nada de carne, cerveja e sexo (mas tem preguiça de sair à caça de mulher), não está nada mal. Talvez a felicidade seja isso: meter tranquilamente em casa com três mulheres.

Continua…

  • em 26/05…      “Sax”

Parte de
JUIZ CASADO COM FILHOS PROCURA HOMEM PARA SEXO CASUAL
(CONTOS)

Maitezaitut/Anee ohev otakh

Eu, Aitor  Haritz, filho de Iñaki e Arantxa, bascos exilados, escrevo este livro. Não para glorificar os deuses, porque não acredito em deuses. Nem para louvar os homens, porque não acredito em homens. Eu, que pintei centenas de telas. Eu, que comi centenas de mulheres – não, não fica bem usar a expressão comer mulher logo no prólogo do livro. Eu, que deitei com centenas de mulheres – isso, assim não espanto a burguesada, que é justamente quem vai comprar o livro. Então: eu, que deitei com centenas de mulheres e mesmo com alguns homens – aí vão pensar que sou giletão (como se dizia antigamente); mas não faz mal, está na moda ser bi e eu preciso fortalecer meu mito, que já está praticamente criado. Vamos lá: eu, que deitei com centenas de mulheres e mesmo com alguns homens. Eu, que sou militante e que, como ativista coloquei bombas, literalmente falando, na minha juventude. Eu, que larguei tudo para me dedicar à arte – e que passei fome. Eu, que experimentei todo tipo de drogas. Eu, que casei oficialmente duas vezes e amiguei quatro. Eu, que fiz cinco filhos de mães diferentes. Eu, anarquista da alma aos colhões. Anarquista, pela graça de Deus, imerso na mais desvairada liberdade. Eu, que bebo. E cheiro – quando tenho grana. E fumo. Eu, que amo as cores loucas de Van Gogh, de Goya e de Delacroix. Eu, que quando entro no cio da criação, afundo no frenesi do sonho feito pintura e passo dias e noites na frente de várias telas trabalhando simultaneamente, até cair de cansaço, exausto e feliz. Eu, que nunca sustentei meus filhos e que mal tenho para sustentar meus dois cachorros, meus dois gatos, meu peru, meu papagaio e minha tartaruga. Eu, que não acredito em nada, a não ser na pintura e numa boa foda – não, foda não é um termo adequado; a burguesada gosta de foder (no sentido literal e no sentido figurado), mas não gosta de dizer que fode. Então fica assim: eu, que não acredito em nada a não ser na pintura e no sexo. Eu, pavio curto, briguento, estourado, impulsivo, impaciente, mas generoso, amoroso, caloroso. Eu, desorganizado, indisciplinado, desregrado, caótico, mas excelente pintor, segundo dizem. Eu, de pau grosso e avantajado – que que é isso, rapaz! tira essa bosta de pau daí, isso não interessa ao leitor. Então vamos tirar. Pronto. Eu, de pênis sempre firme – caralho! Tira essa merda de pênis firme. Tá bom. Pronto. Sem pau nem pênis. Eu, machista, falocrático, obcecado por sexo. Eu, cinquentão cético, desiludido, que vive em função de pintar e meter – não, cara, o verbo meter é chulo. Certo, então: eu cinquentão cético, desiludido, que vive em função da pintura e do sexo. Eu, que vivo com urgência porque tenho medo de morrer e de não pintar mais e de não trepar mais – não, sem o termo trepar. Então: eu que vivo com urgência porque tenho medo de morrer e deixar de pintar e fornicar – caralho! fornicar é fresco demais, põe transar. Tá bom: transar. Eu, que mesmo quando não tenho o que comer, não tenho coragem de matar meu velho peru e comê-lo, porque gosto muito dele – porra, deixa o peru de fora, nada a ver. Tá bom, vamos tirar. Eu, que mal limpo a casa, onde tudo está quebrado, onde não há mais espaço para quadros. Eu, que não uso cuecas para não ter que lavá-las e que no verão vivo completamente pelado em casa. Eu, que tomo banho quando lembro, por causa do fedor. Eu, que vivo duro, mais duro que meu pau – nada de pau, tira. Mais duro do quê? Não põe nada: eu, que vivo duro – e pronto. Eu, cuja única renda é o aluguel do apartamento que herdei dos meus pais, junto com a velha casa onde moro e que está caindo aos pedaços. Eu, que fico sem telefone e sem luz e às vezes até sem água, porque não paguei a conta, por esquecimento ou por falta de dinheiro. Eu, que, quando a galeria vende uma das minhas telas, fico tão feliz, tão entusiasmado, tão confiante no futuro, que praticamente torro todo o dinheiro em presentes para os meus cinco filhos e em bebedeiras com os amigos, meus convidados. Eu, que não compro nada para mim – pois vivo de bermudas (sem cuecas), camiseta e havaianas, ou pelado e descalço – a não ser tintas. Eu, que choro como criança quando penso nela – não, não põe isso agora, deixa essa frase para mais para frente. Tá bom. Vamos riscar. Eu, meninão mal crescido, carente, que só se sente amado quando afoga o ganso – qual é, cara? tira afoga o ganso. Então: quando faço amor? Pode ser. Eu, meninão mal crescido, carente, que só se sente amado quando faz amor. Eu, dependente de sexo, que precisa ter sempre uma boceta por perto – porra! tira boceta. Certo:… que precisa ter sempre uma mulher por perto para não se sentir como cão sem dono. Eu, que choro quando leio a biografia de Modigliani, ou de Toulouse-Lautrec, ou de Van Gogh, ou quando assisto a uma cinebiografia sobre eles, meus queridos irmãos, tão grandes e de vidas tão curtas e tão tristes. Eu, que fico horas contemplando as obras de Bosch e de Bruegel, o Velho e o Jovem, e que sonho com os monstros de Bosch e com a solidão de De Chirico e de Hopper e de Munch. Eu, sempre perseguido por essa angustiante solidão ao longo de minha vida, embora com cinco filhos e tantas mulheres e a pintura. Eu, que não sei de onde me vem essa solidão atroz – talvez seja do deslocamento, do não-pertencer a nada, senão à embriaguez solitária da arte. Eu, extasiado pela epifania, mergulho em nuvens e sóis e trigo de Van Gogh, iluminado pela luz de Caravaggio. Eu, que em fugas alucinadas, me irmano com a busca do transcendente bruto de Gauguin nos mares do Sul. Eu, que às vezes piro no caleidoscópio de luzes e cores dos sentidos desregrados pela revelação. Eu, que, solidário, contemplo os solitários, os deserdados, os miseráveis de Steinlen sob a chuva, ou os da noite densa de Goeldi. Eu, ateu convicto, que me arrepio perante as figuras místicas de El Greco. Eu, de sangue feito tinta, justifico minha existência pela pintura e a sustento pela energia do esperma. Eu, eterno deslocado que vive para pintar e foder – foder, não, cara. Foder, sim. Foda-se quem se espantar. Vai ficar assim mesmo: eu, eterno deslocado que vive para pintar e foder. Eu, que pinto a Nona de Beethoven e o Messias de Haendel e o Toreador da Carmen de Bizet e o Rubaiyat de Khayyam. Eu, que vivo caoticamente, porque só penso em pintar e meter – meter, não, cara. Meter, sim, cara. Fica assim mesmo. Ou, melhor:… porque só sei pintar e meter e porque o resto pouco me interessa. Eu, Aitor Haritz (Aitor, que é o pai do povo basco e Haritz que significa carvalho, árvore sagrada) escrevo este livro para louvar uma boceta – não cara, boceta não fica bem no prólogo do livro; você vai ter muitas páginas para usar o termo no decorrer da redação do livro. Então:… para louvar minha amada. Isso, fica bonito. Ou melhor, a mulher amada. Mesmo porque você não amava só sua boceta, né? Você a amava – ou a ama – por inteiro, né? Mas o que mais amo nela é sua boceta. Judia safada. Me largou para voltar com o marido – que na realidade nunca deixou. Filha da puta. Tinha que ser psicóloga. Todas as psicólogas que comi eram iguais. Completamente burguesas. As acadêmicas eram um pouco melhor. Mas as clínicas, Deus me livre! Pronto. Perdi o tesão de escrever. Não vou escrever mais. Nem acabei o prólogo. Aliás, nem sei se vou escrever esse livro. Quis começá-lo parodiando o início de O Egípcio, de Mika Waltari. Mas não sei se vou ter paciência de escrever um livro autobiográfico. Sei lá. Talvez peça conselhos ao meu amigo David Haize, que é um bom escritor. Filha da puta de psicóloga lazarenta. Cadela do politicamente correto. Ela representa tudo o que eu não suporto. Mas é tão doloroso ser abandonado pela pessoa amada. Lembro-me neste momento de Maysa cantando Ne me quitte pas, de Jacques Brel. E meus olhos se enchem de lágrimas. Rebeca filha da puta. Às vezes fico puto de raiva por você ter me deixado. E por eu te amar tanto. Deve estar metendo com o corno do marido. Aquelas trepadinhas pausterizadas de marido e mulher cansados um do outro. Tomar no cu. Nem sei como fui me enroscar com essa fulana. É, sozinho, carente, sabe como é. Conheci numa exposição. E a coisa foi logo pegando fogo. Mas as fodas com ela, nunca tive com outra mulher. Nem sei explicar. Era a química entre os dois. Essa pele branquíssima, suave como veludo. Esses olhos pretos como jabuticaba. E esse cabelo preto, comprido, que a tornava mais felina ainda. E umas tetas! E uma bunda! E essa santa boceta! No esplendor dos 40 anos. Mas era algo realmente inexplicável que emanava de sua pessoa. A sensualidade em estado bruto. E olha que ela não tinha uma beleza agressiva. Era um frescor e uma espontaneidade extremamente insinuantes. Existem mulheres que transpiram sensualidade. Marilyn Monroe, talvez a atriz mais sensual da história do cinema (vi quase todos os filmes dela na TV) era uma delas. A mulher não precisa ser bonita para ser sensual. Algumas feias são muito atraentes. Em contrapartida, algumas muito belas parecem frígidas. Não, minha amada não era apenas uma boceta – embora eu ficasse alucinado quando mexia com os dedos ou com o pau ou com a língua na sua esplendorosa boceta. Era um conjunto de coisas. Um não-sei-o-quê indefinível que me deixava doido. Quando estava com ela, eu só pensava em meter. O mundo se reduzia a meter. O mundo se reduzia ao meu pau e a sua boceta. Eu esquecia até o que mais amo: a pintura. Meter. Meter. E meter. E olha que não sou mais garoto. Estou com 52 anos. Mas o pau está bem firme. Que a sagrada natureza assim o converse por muito tempo – quero morrer de pau duro. Esse meu pau que era tão grato a sua divina boceta. Quando ela ia embora, depois de uma boa matinê de foda, eu ficava triste como um menino abandonado. E esperava ansiosamente pelo próximo encontro, sempre em minha casa. Ela vinha uma ou duas vezes por semana. Sempre à tarde. Largava o consultório e vinha me ver. Ela trabalhava muitas horas. E a noite era para o marido e os filhos. Logo, ela nunca passou uma noite comigo. Eu entendia. Mas tinha ciúme do marido. Uma vez cobrei. Ela respondeu que passar uma noite comigo era algo impossível. Então eu sugeri: largue seu marido e venha morar comigo. Ela poderia ter respondido: posso largar meu marido, mas meus filhos jamais – tinha dois filhos, um menino e uma menina. Mas ela queria me ofender e retrucou: largar minha família para morar nesta pocilga? Você não acha que é muita pretensão sua? Isso me machucou. E depois de um silêncio soltei: você só gosta de meu pau, né? Ué, replicou ela, você não gosta só da minha boceta? Eu poderia ter dito que a amava, que precisava terrivelmente dela. Mas limitei-me a mandá-la embora: dá o fora, vá embora judia filha da puta, vá para Auschwitz. E ela ficou puta e gritou: basco nazista, filho da puta! E caiu fora. Puta que pariu! Se ela era linda quando sorria, quando ficava enfurecida era um tesão enlouquecedor. Porra, mas eu falo só no passado. Como se fizesse dez anos que não a visse. E faz apenas dois meses que não a vejo. Dois meses batendo punheta pensando nela. Dois meses sem a minha querida judia. A mulher que mais amei até hoje. A mulher mais linda do mundo. A mulher que quero para o resto da minha vida. Volte para mim, sua filha da puta. Volte para teu basco filho da puta. Volte. Volte, meu amor. Não aguento mais viver sem você. Será que você não percebeu que te amo tanto quanto a pintura? Será que você não percebeu que depois que te conheci, minha vida passou a girar em torno de você? Volte, meu amor, eu te suplico. Olha, estou chorando. Chorando por você. Chorando como uma criança desamparada. Minha Rebeca. Minha Rebeca Laredo Sachs. Judia sefardi. Temos algo em comum: nossos antepassados eram da península ibérica. Sabe, minha querida, quando um macho chora por uma mulher, pode crer que ele é sincero. Lágrimas de macho são duras, mas sempre sinceras. Posso nunca ter te falado que te amo. Mas eu te amo profundamente. Não só com a pica. Eu te amo com meu coração, minha alma, minha mente. Sempre houve um antagonismo entre nós. Curiosamente ambos detestávamos a “fraqueza” de amar tão intensamente um ao outro. Ambos não queríamos admitir a dependência assustadora que tínhamos um do outro. E ambos expressávamos toda a força do nosso sentimento por meio do sexo. O sexo como diálogo. O sexo como comunicação. O sexo como confissão. O sexo como entrega total. O sexo como meio e fim. Tudo reduzido a sexo. Porque as palavras de amor, banidas, só brotavam, mudas, através do sexo. O sexo que nos matinha unidos. Mesmo porque sabíamos que, além do sexo, não havia nada a esperar. Porque tínhamos consciência de que uma vida em comum era praticamente (praticamente no sentido literal) impossível. Nossos valores eram muito diferentes. Você, a burguesa bem comportada, disciplinada, correta, limpinha – doida só na cama. E eu, o anarquista esculachado, indisciplinado, incorreto, sem higiene pessoal. O basco e a judia. O pintor e a psicóloga. Em comum só tínhamos o gosto pelas artes e pela cultura de modo geral. Mas, curiosamente, a cultura e a arte não motivavam nosso diálogo. Só conectávamos mesmo via pênis e vagina. Ou seja, pau e boceta. Ah, minha amada boceta judaica! E quando uso a palavra judia não o faço com nenhuma conotação racista. Como poderia eu, um anarquista, internacionalista, que abomina o nacionalismo, ter preconceitos raciais? Pois saiba – já que não consigo esquecer aquela vez que te ofendi mandando-te para Auschwitz – que entre as mulheres do mundo que mais admiro, há várias judias. Mulheres fascinantes, cada uma a seu modo, como as grandes atrizes francesas Simone Signoret e Anouk Aimée e a cantora, também francesa, Barbara. E a atriz brasileira Dina Sfat. Ou as ativistas Rosa Luxemburg e Olga Benario. Ou a filósofa Hannah Arendt. Ah, minha querida, se você ficasse comigo, era capaz de casar legalmente com você – eu que não acredito na instituição do casamento e que só fui casado oficialmente duas vezes. E tem mais, se você me pedisse para me converter ao judaísmo, mandaria cortar a pele do prepúcio e, circunciso como David, o grande herói bíblico sacana, te ofereceria um pau judaico para o resto da vida. Meu pau para você fazer com ele o que você quisesse. Menos cortá-lo, claro. E faria até o Bar Mitzvah – se é que adulto faz. E comemoraríamos o Rosh Hashanah e o Yom Kippur. Ah, minha querida Rebequinha, volta para o filho da puta do teu basco. Eu prometo que vou tomar banho todo dia. E trocar de bermuda e camiseta. E usar as cuecas que você me comprou. O banho era motivo de briga. Você exigia: não dou para você se você não tomar banho. E eu ficava puto. Porque eu gosto de cheiro natural. De cheiro animal. Eu sou um animal, você sabe disso. Sou um animal que pinta e mete. E gosto de uma boa boceta com odor natural – o que os outros chamam de fedida. Eu fico com muito tesão quando enfio o nariz numa boceta com cheiro forte. Você vivia me chamando de porco. Que a minha roupa fedia. Que os lençóis fediam. Que a casa inteira fedia. Eu prometo trocar os lençóis e limpar a casa. E recolher o cocô dos cachorros do quintal. Você implicava com tudo. Mulher implica mesmo com tudo. Você implicava até com meus bichos. Você alegava que detestava cachorro pulando na cama quando estávamos trepando. Às vezes eram os gatos que subiam na cama. Uma vez foi o peru – que andava por todos dos cômodos da casa – que pulou na cama e você se assustou. Você me fazia levantar e colocar os bichos fora do quarto e fechar a porta. Se não você se recusava a dar para mim. Mas às vezes um dos cachorros abria a porta – o danado sabe abrir – e o zoológico entrava de novo no quarto. Eu gosto muito dos meus bichos. E os gatos e os cachorros dormem na minha cama. Você dizia que a casa inteira fedia a cachorro e cigarro. E que tinha merda de peru em todos os cômodos. Eu prometo deixar todos os animais fora do quarto e trancar a porta na hora de meter. Tudo era motivo para brigar. Até meu cabelo e minha barba compridos e sujos. Brigas feias, até de tapas. Mas na realidade era uma briga de poder. De um querer dominar o outro. De um querer ouvir do outro: eu te amo e te aceito como você é. Mas eu, sem querer, acabava bancando o durão e não apelava para as palavras de ternura porque não tinha muita certeza de como ela as receberia. E, ao que tudo indica, ela receava a mesma coisa. E assim nos fechávamos numa espécie de mutismo. Mas se o sexo era selvagem, até brutal – e ela gostava disso tanto quanto eu – havia também gestos de extrema ternura onde o toque do rosto e o olhar substituíam as palavras que não conseguíamos pronunciar. As piores brigas era quando ela não vinha me ver. Eu ficava uma vara. E ficava inseguro. Ciumento. E fazia um escândalo, como um adolescente. E, imaturo, sem levar em consideração que ela era casada e trabalhava o dia todo, cobrava feio: por que você não veio anteontem? Eu já te expliquei que tive um paciente urgente não agendado que não podia deixar de atender. Às vezes ela tinha que levar um dos filhos ao médico. Ou tinha reunião de pais na escola. Coisas normais de qualquer mãe. Mas eu não controlava os impulsos, alimentados pela ansiedade e, até certo ponto, pelo ciúme. Quando brigávamos feio, aos berros e às vezes com tapas, era um verdadeiro pandemônio em casa. Aos nossos gritos se juntavam os latidos dos cachorros que ficavam agitados, o glu-glu-glu do peru e a voz do papagaio que repetia sem parar: filho da puta, filho da puta, filho da puta… Era a invariável sinfonia pastoral (ou bucólica) como fundo das nossas disputas. Mas como era bom depois da turbulência. O sexo rugia ávido. Voraz. Urgente. Desesperado. Avassalador. E fodíamos como dois condenados à morte. Como se fosse a última vez. Como se o mundo fosse acabar de uma hora para outra. E era uma barulheira do diabo, os dois metendo. Mais barulhentos do que gatos quando cruzam. E era chupar e meter por tudo quanto era buraco. E quando estávamos próximos do orgasmo, parávamos, para recomeçar e prolongar o prazer. Até não aguentarmos mais e gozar como feras. Aí ela gritava. Não gemia, gritava mesmo. E eu grunhia como um animal. Quando ela gozava, antes de mim, pedia para eu gozar na sua boca. E eu gozava com prazer como ela pedia. E ela engolia meu esperma. E quando estávamos no auge da excitação, eu falava palavrões e frases chulas – com as quais ela foi se habituando e foi adotando. E assim saía: fala que você gosta do caralho do teu macho/gosto do caralho do meu macho/fala que você gosta de ser enrabada como uma puta pelo teu macho/gosto de ser enrabada como uma puta pelo meu macho/fala que você é uma judia filha da puta que gosta de dar para um basco filho da puta/sou uma judia filha da puta que gosta de dar para um basco filho da puta/fala que você é uma burguesa que gosta de foder com um anarquista/sou uma burguesa que gosta de foder com um anarquista. E quando eu ia gozar, eu dizia: goza comigo sua puta; goza comigo sua vaca; goza comigo sua cadela; goza com teu macho, sua biscate. E ela respondia: gozo, sim, meu gigolô; gozo, sim, meu touro; gozo, sim, meu cachorrão; gozo, sim, meu macho. Não, o sexo não pode ser civilizado. Mas muitas vezes, em acessos de ternura sem limites, eu teria gostado de murmurar: goza comigo meu amor, goza querida com o homem que tanto te ama. E certamente, ela esperava essas palavras de mim, do homem amado. Mas eu não proferia essas palavras mágicas.  Nunca as proferi. Eu, um imbecil. Um ordinário. Um grosso. Sim, um grosso. Por mais sensibilidade artística que tenha. E ela se cansou. Não aguentou essa barra de sexo bruto. Sexo selvagem sem permitir que o amor se manifestasse. Sexo feroz. Sexo pelo sexo – que em realidade não era. Às vezes, quando brigávamos – e isso sempre acontecia antes do sexo –, ela ameaçava ir embora. Mas eu não a deixava e apelava para o que sabia que era infalível: não vá embora, não, não vá embora sem transar comigo, eu não posso ficar mais de uma semana sem você, faça com meu corpo o que quiser, sou teu. Assim, fazendo-me humilde pela premente necessidade de sexo com ela, eu a desarmava. E ela cedia. Céus! Que fúria sexual havia entre nós. Que furor de existir quando um corpo se juntava e se unia ao outro. Quando os dois corpos se fundiam num só. Nada neste mundo é mais forte que o sexo. Só a morte. Não, ela não suportou a barra e caiu fora. Mesmo porque ela sabia que não podia esperar outra coisa de nosso relacionamento. Mesmo porque ela compreendia que essa relação se esgotava em si e fechava qualquer saída para o futuro. Mas eu a amo e a quero de volta. Eu a quero de volta sob as condições que ela impor.  Estou sozinho. E a solidão dói. Dói desde criança. E, agora, na maturidade, mais ainda. Só tenho meus dois cachorros, meus dois gatos, meu peru, meu papagaio e minha tartaruga. Vivo praticamente recluso. Meus filhos raramente vêm me ver – não devo ter sido um bom pai. Só vejo os amigos quando vendo uma tela – e passo meses e meses sem vender nada – e pago cerveja para eles, até a gente ficar bêbado, até amanhecer. E meus filhos, a mesma coisa. Só os vejo quando vendo uma tela e compro presentes para eles e vou visitá-los. A única pessoa que vem me visitar é David Haize, meu amigo escritor. Um bom escritor. Gosto de sua literatura. Tem uns vinte livros publicados. Li quase todos. Seus romances são muito loucos. Aliás, como ele. Só podia ser meio doido para gostar de mim. Gente certinha não gosta de mim. Como meu irmão. Que vem me ver um Natal sim, outro não. Ou seja, a cada dois anos. É um cara corretíssimo. Certinho. Engenheiro. Bem sucedido na vida. Com dois filhos. A mulher dele é uma porca consumista. Uma vaca que vive fazendo compras nos shoppings. Só pensa nisso, em consumir. Aposto que quando ela está metendo com meu irmão deve estar pensando nas compras do dia seguinte. Vai ver que meu irmão não a trabalha bem na cama, não lhe dá uma boa surra de vara. Essa burguesada que só pensa em trabalhar e em consumir acaba brochando. Não gosto dela. E ela não gosta de mim. É recíproco. Uma vez – uma das raras vezes – que ela veio aqui com meu irmão, falou, depois de uma discussão que eu provoquei porque não vou com a cara dela, que minha casa era um chiqueiro. E nunca mais voltou. Nem quero. Perua metida a grã-fina. Burguês não gosta mesmo de mim. Nem poderia. Além de anarquista, gosto de viver com meus bichos e não ligou muito para essa frescura de limpeza e higiene. Que mania de limpeza e higiene. Parece coisa de norte-americano que vive obcecado pela higiene. Lá tudo é esterilizado. Devem esterilizar também até o pau e a boceta antes de foder. Tá louco. Eu, hein!  Eu gosto é de uma boceta cheirosa como queijo camembert. E não me incomodo com o cheiro do meu pau no dia seguinte de ter metido. Mas então, como estava dizendo, o David – por sinal Haize, seu sobrenome, significa vento em euskara (língua basca), ele tem uma antiga ascendência basca – vem regularmente me visitar. Ele costuma passar em casa a cada dois meses mais ou menos. E sempre aparece com uma dúzia de latas de cerveja e uma pizza ou um monte de pasteis ou vários pedaços de queijo. Ele sabe que eu ando sempre duro. Não é que ele nade em dinheiro. Mas ele dá aulas à noite e uma ou outra palestra – de dia ele escreve. E vive disso. Porque ganha menos com os livros do que eu com a pintura. Temos muita coisa em comum. Sangue basco. Curtimos, alem da arte, uma boa boceta, uma boa comida e uma boa bebida. E, claro, somos anarquistas, hedonistas e racionalistas. Mas ele é disciplinado. Coisa que eu não sou. O filho da puta é disciplinado mesmo. Ele, por exemplo, estabelece um prazo para terminar um livro. E acaba dentro do prazo previsto. Diz que sem disciplina ele se perde completamente. O cara é doido pela literatura. Como eu sou pela pintura. Ele diz que as três melhores coisas da vida são escrever, meter e comer. Eu substituo escrever por pintar e acrescento beber. Ele é metódico. Eu já como quando dá fome, durmo quando estou com sono e pinto quando dá vontade. Não tenho horário para comer, deitar ou pintar. A Rebeca não conseguia entender meu modo de viver. Mas que ela gostava de meter comigo, isso não se discute. Uma vez ela disse que eu era a melhor foda que ela conheceu na vida, mas que era impossível viver comigo. Rebeca, minha santa boceta, minha boceta bíblica, minha sagrada boceta de Jerusalém como você faz falta na casa deste basco abandonado. Mas não vou pensar na Rebeca. Não quero ficar mais triste que já estou. Voltando ao David – por sinal ele está enrolado com uma garota que poderia ser sua neta –, ele me lembra o Henry Miller porque, como o escritor norte-americano, ele escreve muito sobre sexo e com muito palavrão e o que ele escreve é quase sempre autobiográfico. E ele fala que eu sou o Bukowski da pintura. O filho da puta entende mesmo de pintura. Temos, em termos de pintores, mais ou menos os mesmos gostos. Além de Bosch, Goya e Van Gogh, é fissurado em Giotto, Vermeer, De Chirico e Edward Hopper. Ele não curte Dalí, que acha muito acadêmico. Aprecia muito meu abstracionismo e sempre quer que lhe mostre meus últimos trabalhos. Sempre que aparece, ele traz algum texto inédito dele e o lê para mim. Foi com ele que aprendi a gostar de Omar Khayyam, o grande poeta persa, fodedor e beberrão, que, como David e eu, não acreditava em nada, a não ser numa boa boceta e num bom vinho. Ele diz que Khayyam é o maior poeta da humanidade. A última vez que ele esteve em casa, chorei muito, pois fazia apenas uns dias que a Rebeca tinha me largado. Ele me ouviu, sem julgar, sem cobrar nada de mim. Um puta amigão. Ele me aceita como eu sou. Se ele fosse mulher, eu comia. Ou se eu fosse bicha, dava para ele. O filho da puta foi também um grande comedor na sua mocidade, Às vezes ele me conta casos antigos. Alguns muito engraçados. E eu conto os meus. E damos boas risadas. Felizmente ele fuma, como eu. E dá-lhe cigarro e cerveja e bocetas do passado. Fumar era outro motivo de briga com a Rebeca. Ela detesta cheiro de cigarro. Minha amada Rebeca é todo o oposto de mim: não fuma, não bebe, é séria e correta, mas gostava muito de meter comigo. Mas deixa para lá. Não quero pensar nela. Além da pintura e dos pintores, da literatura e dos escritores, das mulheres e suas fodas fantásticas, há outro tema sempre presente nas nossas conversas: a política. David e eu concordamos que as bombas devem voltar. Como na nossa juventude. Bombas nos bancos. Os bancos roubam descaradamente e devem ser assaltados e destruídos de modo sistemático. Bombas nas bolsas de valores. As bolsas especulam e arruínam a economia. Bombas nas multinacionais que exploram vergonhosamente os países pobres. Bombas nas instituições religiosas que exploram e alienam o povo. Bombas na mídia que está nas mãos dos poderosos e, consequentemente, defende os interesses dos poderosos. Bombas nos supermercados. O povo faminto tem o direito de saquear os supermercados. Bombas nas indústrias que poluem e que estão destruindo o Planeta. David odeia visceralmente o neoliberalismo, a globalização e a religião. E assim ficamos entusiasmados colocando bombas em tudo quanto é lugar. Como bons anarquistas. E quando David Haize vai embora e leva consigo pintura, literatura, mulheres e bombas, fico sozinho. Como agora. Pensando nela. Com a saudade me oprimindo o peito. Rebeca, meu amor, minha bocetona angelical, ligue para mim. Diga que você me quer de volta. De volta para sempre. Pode ficar com o marido. Não vou exigir exclusividade. Não vou nunca mais brigar por ciúme do teu macho oficial. Pode viver com ele. Pode até meter com ele. Mas não me deixe. Venha me ver em casa. Nem que seja uma vez por semana. Eu gosto tanto do que você me faz na cama. Gosto demais dos teus beijos. Das tuas chupadas. Das tuas mordidas. Dos teus arranhões. Gosto das marcas roxas que você me deixa no pescoço e nos ombros. E que eu não posso deixar por causa do teu marido. Eu vou mudar, meu amor. Eu prometo que nunca mais vou fazer cenas de ciúme. Que nunca mais vou dar tapas em você – embora você sempre batia primeiro. Que vou deixar de fumar. Que vou limpar a casa e trocar os lençóis. Que vou tomar banho todo dia. Que vou dar banho nos cachorros, nos gatos e até no peru – no papagaio e na tartaruga não precisa, né? Eu estudo o ladino dos teus antepassados. E até o hebraico. E mando cortar a pele do prepúcio para te oferecer um pau circunciso, judaico. Embora você não seja uma judia ortodoxa e não ligue muito para o judaísmo. Mas é apenas para te dar uma prova do meu amor, reverenciando tudo o que vem da tua cultura e tradição. E vou ler o Talmud todo dia. E o Torah. E depois de gozarmos, vou te murmurar, como o amante mais carinhoso do mundo, maitezaitut, ou seja, eu te amo em euskara (língua basca) ou anee ohev otakh, ou seja, eu te amo em hebraico. Rebeca, não me largue sozinho. Pela coisa mais sagrada do mundo, não me deixe. Você sabe que eu te amo mesmo. E não vou poder te substituir. Mesmo porque nenhuma mulher quer ficar comigo. Com esse temperamento explosivo. Com essa casa bagunçada onde tudo está quebrado. Com todos esses bichos pulando na cama. Só puta mesmo para meter, ser paga e cair fora. Rebeca, volte, meu amor. Me dê uma chance. Uma única chance. Vamos deixar de ser apenas um pau e uma boceta para a gente se tornar um homem e uma mulher que se amam. E que são capazes de falar. E, por que não, até de serem felizes.

Continua…

  • em 12/05…      “Pai, Quero Ser Mãe”
  • em 19/05…      “Comida Caseira”
  • em 26/05…      “Sax”