O Gigolô Honesto

março 12, 2019

O Gigolô Honesto

 

        Preciso escrever sobre o assunto. Mas num tom cool. Sem investidas contra a tísica moral vigente. Sim, devo-lhes um livro. À generosidade de minha amante e à compreensão de minha esposa.

Talvez deva intitular o relato de ‘Os Cínicos”. Ou “Os Blasés” (não tem tradução). Ou simplesmente “A Felicidade”. Sim, a felicidade. A felicidade de gente que não tem preconceitos. De gente intelectualmente superior? Sim, talvez.  Ou deveria ser o título “Os Imorais” (muito usado)? Não tenho nada a provar neste relato (“baseado em fatos reais” ou numa “história verídica” como diz a publicidade de livros e filmes) Nada a provar e menos ainda a justificar. Não devo satisfação a ninguém a não ser a minha consciência. E minha consciência está tranquila. Sou, como todo escritor que se preze, livre. Não faço concessões. Não tenho explicação a dar a ninguém. Nas sou hipócrita. Não minto.

O começo.

– Você é muito bom escritor. Mas deveria produzir mais.

– Tenho um emprego e não tenho como escrever com mais assiduidade.

– Largue o emprego.

– Como, largar o emprego? Vou viver de quê? Tenho mulher e dois filhos.

– Posso te ajudar.

– Como, me ajudar? Preciso de um salário.

– Eu te daria um salário.

– Em troca de quê?

– De companhia.

– A senhora…

– Já te falei para não me tratar de senhora.

– Você quer dizer de sexo?

– Sim. De sexo.

Silêncio.

– Preciso falar com minha mulher.

– Você acha necessário?

– Sim, claro. Como vou justificar a origem desse salário?

– Você é muito honesto.

– Gosto de fazer as coisas às claras.

– Bem. Não há pressa. Mas não creio que sua mulher aceite a proposta do marido. Ela é ciumenta?

– Ela me ama e eu a amo. Teria de ser um jogo limpo.

– Entendo. Mas acho que a prioridade é sua literatura.

– A literatura é muito importante para mim. Mas eu amo minha mulher.

Conheci-a num jantar de amigos. Conversamos muito. Viúva, sem filhos, era culta, inteligente e franca. Dava a impressão de que tinha bastante dinheiro. Mas não o ostentava. Era fina e elegante. E, digamos, bonita, levando em consideração seus 70 anos que eu calculava que ela tinha. Nuns minutos em que nos encontrávamos sozinhos no jardim, ela me fez a proposta. Uma proposta perturbadora e excitante. Voltei para casa com minha mulher. Não parava de pensar nisso. Abria-se uma perspectiva que me eletrizava.

Pensei durante dias. Meu pensamento, mesmo sem eu querer, ia parar na proposta. Claro que estava disposto a aceitar. Não tinha absolutamente nenhum escrúpulo em me fazer pagar por sexo. Tem mais, confesso que desde muito jovem – adolescente – sonhava em me fazer pagar por sexo. Era algo que, obscuramente, me fascinava. Verdadeira vocação de puta. Ou, melhor dito, de puto. Puto, literalmente, profissional. Era algo muito obscuro que eu não sabia de onde vinha. Logo, eu iria unir a paixão pela escrita com o desejo de ser pago por sexo. O útil ao agradável. Que mais poderia eu pedir? Era a fusão da mente com a sexualidade. É óbvio que sempre fui suficientemente lúcido e evoluído para conscientizar-me de que, no fundo, numa sociedade absolutamente hipócrita e mercenária voltada apenas para o dinheiro, todos, com raríssimas exceções, eram putos e putas, já que todos trabalhavam por dinheiro. Só não era puta ou puto quem trabalhava por amor. Aí poderia incluir os escritores (não todos, claro) e os verdadeiros artistas. Ou seja, aqueles que fazem tudo pela arte. E que são capazes de morrer por ela.

Falei com minha mulher. Ela chorou.

– Vou ganhar o dobro.

– Você vai me largar.

– Nunca. Jamais faria isso. Eu te amo e te desejo.

– Não quero te dividir com ninguém. Não se divide com ninguém quando se ama.

– Não estou te dividindo com ninguém.

– Como não?

– É apenas uma questão profissional.

– Que seja. Mas a literatura é mais importante para você do que nosso amor.

– Não fale assim. Você sabe que vivo para você e nossos dois filhos.

– Não sei. Não sei. Só sei que não quero te perder.

– Juro pelo mais sagrado que você nunca vai me perder. E não vai te faltar sexo.

Ela acabou aceitando. Com restrições. Eu teria um tempo limitado para passar com minha… benfeitora. Uma vez por semana. Com o tempo ela foi aceitando o acordo como algo natural. Pois era de fato algo natural. Passei a transar mais frequentemente com ela, já que me sentia menos cansado sem emprego. Nosso nível de vida melhorou muito. E minha produção literária foi aumentando. Sentia-me satisfeito ao ver que ganhava a vida com meu membro – com os livros ganhava muito pouco – que felizmente cumpria com seu dever conjugal e com o compromisso profissional. Meu membro, que nunca me decepcionara, que nunca me traíra. Meu membro, do qual eu gostava muito e que me dava muito prazer e satisfação. E que estava sempre com disposição, pois, graças a Deus, eu tinha um excelente apetite sexual – que aumentara quando larguei o emprego. Meu membro, do qual eu tinha muito orgulho. Falocentrismo? Sei lá. Machismo? Sei lá. Estava pouco me lixando para as feministas de carteirinha. Mesmo porque sempre fui a favor da igualdade de gêneros. É claro, é óbvio que preferia ser o puto, e não minha mulher a puta.

Com o tempo, esposa e mecenas se tornaram amigas. Jantávamos em restaurantes, íamos ao cinema, teatro, concertos e exposições sempre os três juntos. E ela (minha benfeitora) promovia meus livros entre suas numerosas amizades. Ela era discreta, mas não escondia que era minha amante. Amoral? Não. Apenas eu aproveitara uma oportunidade na vida sem enganar ninguém. Além do mais, a moral é algo muito relativo.

Minha protetora morreu há um ano. Aos 85. Passei 15 anos com ela. Fui-lhe fiel. Fi-la feliz. Deixou-me dois apartamentos de alto padrão, uma chácara e uma casa na praia, além de uma boa quantia de dinheiro. Que mais posso desejar? Continuo escrevendo – que é o mais importante e não preciso de emprego para manter a minha família.  Em suma, mais vale se prostituir com uma mulher do que com um emprego. É mais honesto prostituir o membro do que prostituir a mente. Quanto à moral burguesa, que se dane. Estou acima dela. Jactância? Sim, e daí?

22-02-2019

 

 

 

 

 

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